domingo, 22 de julho de 2007

Autor de O Cheiro do Ralo em entrevista

Entrevista com Lourenço Mutarelli
por Beatriz Leal


Lourenço Mutarelli diz que usava o nanquim de seus desenhos para se defender, como fazem os polvos. Mas em 2002, após nove livros de quadrinhos, o desenhista resolveu trocar o nanquim pelas palavras e lançou seu primeiro romance: O Cheiro do Ralo, que deu vida ao filme de mesmo nome. Depois deste nasceram ainda mais dois: O Natimorto e Jesus Kid. Lourenço Mutarelli dos quadrinhos, da literatura e do cinema – ainda atuou em O Cheiro do Ralo -, também escreve peças de teatro. A voz metálica que sai do viva-voz fala sobre caos da cidade grande, sobre cultura brasileira e sobre as parcerias com Marçal Aquino e Heitor Dhalia, respectivamente roteirista e diretor de O Cheiro do Ralo.

O que influencia mais as suas obras? O contexto político, econômico e social ou a sua individualidade?
Eu acho que a minha individualidade; o aspecto mais psicológico das pessoas em geral. Muito de mim, mas não só de mim. Do que eu observo, do que eu vivencio, de muita observação. Eu estudo muita psiquiatria e algumas outras coisas assim que eu gosto e em geral isso me ajuda muito... para diagnosticar primeiro, para depois criar um personagem.

Que autores tiveram influências nas suas obras, tanto literárias como de quadrinhos?
Literárias pra mim as primeiras grandes influências foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Literárias acho que foram essas minhas experiências fortes. Nos quadrinhos foram Will Eisner e muito do quadrinho argentino Muñoz e Bretcha... algumas pessoas do quadrinho argentino me influenciaram muito.

E das suas outras influências literárias, como Kafka e Dostoiévski, você as detecta nas obras de outros autores contemporâneos, como Marçal Aquino, Patrícia Melo ou Daniel Galera?
Olha, eu tenho um problema grave assim, que há mais de dois anos eu não leio ficção. Eu tenho estudado um assunto e tenho dedicado todo o meu tempo de leitura a esse assunto. Então, desse pessoal mais novo eu só li Marçal. Eu conheço essas pessoas, mas eu nunca li nada deles, por uma questão de administrar meu tempo. Então eu não posso opinar muito sobre várias pessoas. Eu acho que o que o Marçal tem forte, que é quem eu conheço mais pessoalmente, conheço mais o trabalho, é o impacto que a gente recebe vivendo em uma cidade como essa (São Paulo), não tem como isso não refletir no nosso trabalho. Por menos que a gente pense ou racionalize essa cidade, inconscientemente isso reflete no nosso trabalho.

Talvez por isso este realismo, predominantemente o urbano, seja uma das formas literárias mais comuns nas obras de Marçal Aquino e na sua também...
Eu acho que, no Marçal ainda tem o jornalismo policial e tudo, né, que você acaba vendo uma outra faceta que não é assim como eu vejo uma família de policiais, então eu ouvia sempre umas histórias... É mais um mundo cão, é mais por trás dessa maquiagem que tenta vender a cidade, a grande metrópole, que tem um olhar que só atrai o turista mesmo, quem está aqui acaba tendo uma ótica muito diferente.

Mas Brasília é incrível, né, Brasília é incrível. Incrível não de maravilhosa, mas assim, a primeira vez que eu fui aí fiquei muito impressionado. Achei que eu estava em uma cidade universitária, que estava numa USP grande, né? É muito distante. Quando a gente é aqui do caos essa coisa muito ordenada, não sei, soa muito... ela não parece uma coisa natural para mim, então tenho um estranhamento. Mas eu tenho amigos aí, é um lugar em que gosto muito das pessoas, as pessoas acolhem muito bem a gente.

A linguagem noir, de autores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler ou até Quentin Tarantino exerce alguma influência na literatura, quadrinhos e cinema contemporâneos no país?
Eu acredito que sim, mesmo que a pessoa não tenha lido nada disso. Isso influenciou tanto a cultura, né? Isso está tanto nos filmes que a gente assistiu que a gente acaba se impregnando. Acho que, depois de um modismo que teve muito forte dos filmes de western, o Marçal tem uma seqüela aí que eu acho bem interessante. Acho que veio isso do romance noir mesmo. Acho que esses autores influenciaram demais a cultura num momento em que ela se massificava pelo rádio e televisão. Isso está muito enraizado na gente.

Há elementos em sua narrativa e em seus desenhos que você considera como fatores de ruptura lingüística e temática?
Eu costumo falar que eu desenho e escrevo não como eu quero, mas como eu consigo. Se eu inovo em alguma é porque eu não consigo fazer direito. Eu não tenho essa pretensão e nem esse pensamento quando estou fazendo alguma coisa. Ela sai mais ou menos do jeito que me agrada e do jeito que ela vai fluindo... Tudo que eu faço é experimental, eu faço como uma experiência. Então eu não estou preocupado se eu vou agradar, se eu vou ser aceito ou não. Eu faço pela experiência. Acho que isso talvez, somado ao fato de eu não conseguir fazer uma coisa mais formal, acho que acaba criando o que pode determinar um estilo, talvez. Mas não existe essa intenção, entende? Ela acaba acontecendo talvez por isso, porque eu me permito experimentar. Tentar fazer do meu jeito, com o que eu tenho nas mãos.

Qual é a importância da interação entre formas de arte diferentes (literatura, cinema, teatro, quadrinhos...) para a cultura de modo geral?
Eu acho que é fundamental pra qualquer... acho que o grande problema dos quadrinhos no Brasil, é que a maioria das pessoas que fazem quadrinhos só bebem os quadrinhos, diretamente, pelo menos. E eu acho fundamental a gente estar aberto ao teatro, ao cinema, literatura, quadrinhos... eu acho importante perceber as diferenças e as semelhanças que existem entre essas formas de comunicação e de expressão.

A mistura tem dado resultados interessantes, né...
Eu acho bastante interessante e acho que é quase... é cada vez mais difícil que não haja essa interação, né? Eu acho que cada vez mais a gente abre os olhos e experimenta e mistura possibilidades, porque cada vez a gente tem mais recursos pra isso.

Quais são as diferenças no diálogo entre autor e espectador dos livros para o cinema para os quadrinhos?
A minha primeira experiência marcante de diferença entre quadrinho e literatura, a única grande diferença é o respeito com o que você é tratado fazendo uma e outra coisa. Existe um abismo de diferença de tratamento que você recebe, mas não pelo leitor imediato. Você não tem um retorno imediato. O meu primeiro retorno imediato que tive foi com a minha primeira peça de teatro, que como minha cara não é conhecida, eu fui algumas vezes assistir a peça e eu podia ver tudo o que funcionava ou não funcionava, eu tinha uma resposta imediata. Isso variava com a platéia, mas eu sempre tinha uma resposta imediata. Eu nunca tinha experimentado esse retorno tão direto. Isso foi muito importante pra mim, foi muito prazeroso vivenciar essa experiência. No cinema você tem isso de uma forma semelhante, embora o filme demore tanto pra ficar pronto que, quando fica pronto, você não agüenta mais ver nem ouvir falar e aí você não acaba vivenciando muito. Eu vivi muito pouco isso, só nos festivais eu senti o público reagindo ao filme, mas aí é um público diferente porque é um público de festival.

Como você enxerga a relação entre produção artística e a indústria de distribuição cultural?
Eu acho que isso depende. No geral, é tudo muito mal distribuído. Acho que acaba, se você persiste fazendo seu trabalho de alguma forma, você vai arrebanhando pessoas que descobrem seu trabalho, e acabam indo atrás, que acabam sendo independentes dessa distribuição. Esse agrupamento acaba ajudando você, por outro lado, a ter uma distribuição um pouco melhor. Mas acho muito mal distribuído, embora existam entidades e experiências que são bastante positivas. Se não fosse o Sesc, e outras iniciativas privadas... por mais que isso seja limitado, acho que isso possibilita a viabilização de muita coisa, indiretamente.

Nina é um filme mais complexo e elaborado. Qual a importância de produções com este tipo de linguagem, na contramão dos temas mais recorrentes, para a cultura brasileira?
Eu entrei no Nina, porque eu achava... isso é culpa do Heitor (Dhalia, diretor), né... é muito a visão do Heitor mesmo. E gostei justamente por isso. Embora eu também ache que outras formas... também é legal você experimentar coisas que estão se repetindo e você tentar dar um pouco da sua cara ou da sua visão, até pra quebrar um pouco essas coisas que se repetem. E o Nina tem toda uma concepção, que eu acho que no fim das contas ele não alcançou, como geralmente não alcança, o objetivo. Mas ele foi uma experiência muito estimulante e muito interessante. Eu só acho que o resultado ficou aquém do que a gente vislumbrava durante o processo. Para mim, pelo menos. Minha opinião pessoal, assim... Quando o filme começou a ser montado, ele começou a ser montado de tantas formas diferentes e por estar muito envolvido eu tinha já uma concepção do que seria. Eu estranho, pra mim causa um estranhamento, o corte final do filme. Eu achei que ele tinha uma outra direção que me agradava mais.

Quem tem acesso somente ao produto final dificilmente percebe isso...
Essa é uma grande vantagem também, porque você recebe aquilo que é pronto e você não tem esse sofrimento todo da expectativa ou dos desvios de curso, né? Eu acho que o Nina para mim tem isso. Foi um filme difícil de realizar, teve muito problema no meio, então, de qualquer forma, eu acho um grande mérito e uma grande coragem ter sido feito, justamente por ser totalmente na contramão do que se fazia.

Como foi fazer parte d’O cheiro do ralo, com as peculiaridades que o filme apresenta em financiamento e produção?
A princípio, eu sempre quis ficar distante, eu não queria me envolver no processo, porque desde o começo eu achava que o mais interessante para mim era ter esse outro olhar, a adaptação mesmo. Mas eu acabei fazendo, tendo que ajudar. Quando o Selton não podia fazer teste com elenco, eu acabei fazendo alguns testes no lugar dele e ele acabou me convidando pra fazer um personagem e foi muito bom pra mim, foi muito divertido, mas eu tentei não interferir em nada. Quem opinava era o Heitor e o Selton. Quando alguém me perguntava eu falava que não sabia de nada, porque eu fiz o livro e isso era o filme e são coisas totalmente diferentes. Mas foi um set totalmente... muito bacana, muito passional, a gente tinha uma relação muito boa, foi uma união muito grande, foi muito divertido, muito prazeroso participar do processo.

Mas, e no que diz respeito ao orçamento, muito mais baixo do que o usual? Você já deve até estar meio cansado desse tipo de pergunta...
(risos) Não. Eu acho que isso talvez tenha propiciado esse clima tão agradável, porque todo mundo que estava lá, estava lá porque gostava do projeto. Ninguém estava lá por dinheiro. Todo mundo estava cedendo seu trabalho, abrindo mão de receber ou trocando isso por uma participação no futuro. Então as pessoas estavam lá por paixão mesmo. E isso refletia muito no ambiente. Ninguém estava lá porque ia ganhar dinheiro, não era essa a idéia. Então, todas as pessoas que entraram ou gostavam do livro ou gostavam do projeto ou gostavam do Selton ou do Heitor. Tinha sempre uma relação afetiva com o que estava sendo feito. Então o fato de ter sido feito da forma que foi feito, acho que é um exemplo de que isso pode acontecer. O Heitor fala isso, que não é o ideal, porque senão chega uma hora em que as pessoas que colocam dinheiro e que se juntam e tal não vão ter mais dinheiro pra fazer nada, mas era a única forma do filme acontecer, então eles optaram por fazer. Mas eu não participei de nada dessa relação de produção ou financeira, eu ouço as histórias mais ou menos como vocês ouvem, meio indiretamente.

Legal mesmo é a idéia de parceria entre as pessoas para realizar um projeto...
Isso eu acho muito legal e acho que isso acabou criando um clima muito favorável. E que, de alguma forma, as pessoas do cinema falam isso e parece que tem uma verdade, esse clima parece que fica impresso no negativo, sabe? É uma coisa que, sei lá, talvez o filme vá bem até por isso também, porque é isso: tava todo mundo junto, se divertindo e afim de fazer. O filme ia sair com duas cópias... no fim saiu com 17, e foi muito bem de público.

Como passou a trabalhar com Heitor Dhalia e qual é a importância de parcerias como estas para a produção cultural do país?
Acho que a importância disso a gente não vai conseguir perceber agora. Se esse filme ficar, perdurar, ou se for uma tendência a possibilitar outros, daqui a um tempo a gente vai saber a importância disso. Eu não sei até que ponto isso é importante ou isso é importante só para as pessoas que estão envolvidas, eu não sei qual a relevância disso. Na minha parceria com o Heitor a ponte foi justamente o livro O Cheiro do Ralo. Ele me procurou pra comprar os direitos, aí ele acabou conhecendo meus quadrinhos, e ele estava na pré-produção do Nina, e me convidou pra fazer os desenhos. Foi uma parceria muito boa, foi muito bom trabalhar com ele, foi uma experiência legal. A gente tem muita identidade, mas ao mesmo tempo a gente tem muita diferença. Acho que a nossa parceria foi isso, não sei se a gente faria uma parceria no futuro, eu acho muito difícil isso acontecer.

E com o Marçal Aquino, como foi?
O Marçal participou do primeiro almoço, quando eu conheci o Heitor, ele indicou o livro para o Heitor ler. Ele é uma pessoa... eu adoro o Marçal, ele é uma pessoa extremamente gentil e divertida que eu gosto muito de encontrar e eu tenho uma afinidade muito grande com ele, uma gratidão imensa por essa generosidade de ele estar... a literatura em geral me recebeu muito bem, muito de braços de abertos, e o Marçal é um grande exemplo disso pra mim, é uma pessoa que gosto muito, muito mesmo, é uma pessoa que eu tenho um afeto muito grande. E ele participou, a gente se encontrou, ele participou do primeiro almoço. Ele fez de certa forma essa ponte e a gente ainda se encontrou algumas vezes os três, e aí depois ele seguiu os dois trabalhando a adaptação. Eu não participei da adaptação.

O que as obras destes artistas, como Marçal Aquino, Beto Brant e Heitor Dhalia, trazem de inédito para a cultura brasileira?

É essa coragem de tentar fazer o que eles querem, o que tem a ver pra eles, não por dinheiro, mas, enfim, por um ideal, mais por aquilo que eles querem fazer, né? E acabam fazendo coisas diferentes, o que é ótimo. Eu acho que esse é um valor pra cultura, é a diversidade, é mostrar que o Brasil não é só o sertão. O Brasil, e muito São Paulo também, é uma mistura de muitas coisas, de muitas culturas.

Então, com essa relação temática – essa história de quebrar um pouco o sertão e trazer mais o urbano – e a relação lingüística que os filmes têm com os livros, o conjunto lingüístico-temático pode trazer uma quebra no que já existe de cinema brasileiro, uma ruptura, no cinema e na literatura?
Eu acho que vem acontecendo e acho que isso acontece mesmo no Cinema, Aspirinas e Urubus, ele mostra a realidade que a gente conhece, mas por uma perspectiva e com uma delicadeza que eu acho muito nova. Acho que mesmo que você fale de coisas que estão sendo ditas, se é um olhar um pouco mais sensível, eu acho que isso traz uma contribuição. A afinidade que existe entre o nosso trabalho e que acaba refletindo nas nossas pessoas, eu, pelo menos, penso que cada uma dessas pessoas fazendo seu trabalho, não pensando "ah, eu vou mostrar isso", mas pensando na sua realidade, no que ela vive, no que ela vê e tenta mostrar, dividir isso... não sei se existe um, pelo menos da minha parte não existe, um dogma ou "ah, eu vou mostrar isso porque isso não está sendo mostrado", não. Eu vou falar isso porque essa é minha língua dentro desse país, então eu acho que é mais ou menos isso. Uma questão de você impor, de certa forma, através do seu trabalho, sua identidade.

Pra quem olha de fora, o que parece é que não há a intenção de se fazer algo necessariamente novo, mas que está sendo feito...
Isso acaba trazendo o novo, gerando o novo. Eu acho que o novo não nasce com a intenção de ser novo. Ele nasce com sinceridade e com experimentação e com pessoas que de repente tentam realizar o seu trabalho contra a corrente e não encontram uma forma de produzir isso, de uma forma fácil ou com parceiros grandes. Então elas se juntam e fazem o seu trabalho, que foge porque as grandes produções visam o que dá certo. Elas vão martelar nessa tecla porque dá certo e nunca vão arriscar. E elas devem começar a arriscar agora, por exemplo, quando surge uma coisa diferente, que dá um resultado, e esse resultado é financeiro, é um resultado de bilheteria ou de uma massa, de atrair uma massa de público, aí eles começam a se pautar nesse tipo de coisa pequena que aponta o caminho e aí eles começam a investir um pouco. Então isso acaba refletindo através de experiências corajosas... Porque, para mim, fazer um livro não custa nada. Mas para se fazer um filme custou... Essa parceria é um trabalho muito maior, que por outro lado atinge um número de pessoas multiplicado à potência, né?

Dos filmes roteirizados pelo Marçal Aquino O Cheiro do Ralo parece ter dado mais resultado, né?
O Invasor parece que tinha dado uma bilheteria legal... não tenho certeza se foi 100 mil, ou alguma coisa assim, mas parece que O Invasor teve um, eu nem sei se a venda foi o cinema ou se foi DVD ou VHS. Eu sei que foi um filme que foi muito bem aceito, sei lá, acho que tinha uma novidade, um frescor ali que acabou atraindo, talvez isso indiretamente encoraje outras pessoas a fazerem... então, talvez o primeiro que fez um e não foi tão visto ou tão aceito, encorajou o outro a fazer um outro que vai seguir uma trilha que já começou a ser aberta de alguma forma, mesmo que outros tenham menos visibilidade.

Se é que esses artistas apresentam uma linguagem cultural inédita, como você denominaria essa nova vertente?
(risos) Puxa vida... Eu não tenho a menor idéia. Eu sou muito ruim com conceitos e rótulos assim, eu não sei dizer... Não sei mesmo que nome eu daria.

*Esta entrevista também foi publicada em o balde e em formato editado no jornal Esquina do UniCEUB.

Fonte: OverMundo

Não sabe o quanto a alegria dela me faz sofrer...

A CIDADE ADORMECIDA (Rubem Alves)

Sei que as intenções dela são boas. Ela não faz por maldade. Faz por alegria. Mas não sabe o quanto a alegria dela me faz sofrer... Colocou na porta do seu apartamento um calendário regressivo anunciando quantos dias faltam para o Natal. Ela se alegra por antecipação...

Para mim é o contrário. O que sinto, não sei se é tristeza ou irritação. Não é que eu não goste do Natal. A minha tristeza e irritação acontecem porque amo o Natal. Sei que isso deve estar confuso. Preciso explicar esse paradoxo. Vou me valer de uns versos do poema de Cassiano Ricardo, "Você e o seu retrato".

"Por que tenho saudade / de você, no retrato, / ainda que o mais recente? / E por que um simples retrato, / mais que você, me comove, / se você mesma está presente?"

O resto do poema são variações sobre essas duas perguntas terríveis que qualquer pessoa odiaria ouvir do amante ou da amante! O seu retrato... Como amo o seu retrato! Olhando para o seu rosto paralisado no papel - você está sempre do mesmo jeito, olhando-me com aquele olhar de criança, eterno -, sinto uma alegria mansa que eu queria ter sempre. Sabe, preciso confessar, o seu retrato, em que você está ausente, me comove mais que o seu rosto, quando você está presente. A sua presença perturba o amor que sinto por você, no retrato. Se você estivesse sempre ausente, se eu tivesse somente o seu retrato, eu a amaria mais...

Resumindo: a gente ama mais na ausência que na presença. Porque o objeto ausente existe iluminado pela luz de fantasia, fora do tempo. O objeto amado ausente é um emissário da eternidade.

Havia uma casa da minha infância que eu muito amava. Sempre me lembrava dela, tinha saudades, queria voltar lá. Voltei. A casa estava lá. Mas não era a mesma. Sim, era a mesma, mas não era a casa que eu amava na minha fantasia.

Thomas Antônio Gonzaga escreveu um poema em que ele, movido pela saudade, volta aos lugares da sua infância. Volta aos mesmos lugares mas, por mais que procure, não encontra os seus lugares. Tudo está diferente. E cada estrofe termina com esse refrão: "São esses os sítios?

São esses. Mas eu o mesmo não sou...". Ao final ele recobra a lucidez e reconhece que todos os lugares amados estão nos mesmos lugares onde estavam. Então, o que mudou? "Mudaram-se meus olhos de triste que estou..."

A alma é o lugar onde estão guardadas, como se fossem quadros, as cenas que o amor tornou eternas. O retrato da amada de Cassiano Ricardo. A casa velha onde morei. Os lugares da infância de Thomas Antônio Gonzaga. De vez em quando a saudade os chama do seu esquecimento. É o que acontece com o retrato do Natal que mora na minha memória poética, que é amassado pela realidade do Natal que vai acontecer no dia marcado no calendário regressivo da minha vizinha, tão simpática e amiga...

O meu retrato de Natal, desbotado, me faz lembrar de uma expressão antiga: "a cidade adormecida". Todos dormem. Grande é o silêncio exceto pelo vento nas árvores, um latido distante de algum cão, o canto de um galo que se equivocou no horário. As estrelas velam. É uma cena de tranqüilidade. Quando se dorme, a vida passa devagar. Bachelard observa que até mesmo um criminoso adormecido provoca sentimentos de ternura. Dormindo, todos nos tornamos crianças. Hoje as cidades não dormem mais. Hoje o Natal acontece nas cidades que não dormem. Mas o meu Natal só acontece numa cidade adormecida que só existe no meu retrato...

Sugerida por
Silene Marcato

sexta-feira, 20 de julho de 2007

João Donato em fase hiperprodutiva

Alegria dissonante
por Pedro Alexandre Sanches

Integrante da comissão de frente da bossa nova, o pianista João Donato atravessa fase hiperprodutiva aos 72 anos

O veterano João Donato não se esquece de uma situação que viveu no início da carreira, quando o Brasil não antevia o estouro da bossa nova a partir de 1958. Um amigo músico fora chamado para apresentações num hotel e quis que Donato o acompanhasse ao piano.

Depois da meia-noite, o empresário garantiu o pagamento do cachê, mas pediu que eles interrompessem a apresentação. “O cantor com a voz fraquinha, eu com meus acordes dissonantes, aquilo gerou descontentamento. Naquele momento de transição, éramos tidos como uns chatos”, lembra numa tarde paulistana o autor de temas hoje considerados standards da bossa, como Bananeira, Lugar Comum e Amazonas. O amigo cantor era João Gilberto.

Juntos, os dois jovens joões perambulavam pelas noites musicais cariocas em busca de espaço e sem ter plena consciência de que batiam de frente com as convenções musicais da época. Cerca de 50 anos após o encontro e o surgimento (e, depois, a diáspora) dos principais bossa-novistas, ainda parecem filhotes de um mesmo ninho, mas ficaram diferentes, diferentes demais.

O primeiro contraste refere-se à mítica reclusão do João baiano, o Gilberto. O encontro da reportagem com o João acreano, o Donato, se desenvolve no saguão de um hotel movimentado, na calçada de uma avenida barulhenta, na fila de almoço de uma padaria self-service. Parceiro de estrelas do jazz (como Bud Shank) e da MPB (como Gilberto Gil), João Donato locomove-se com naturalidade por todos aqueles espaços públicos, sem ser abordado (ou mesmo reconhecido, talvez) por ninguém.

Embora classificado por profissionais que o rodeiam como “introspectivo” e “tímido”, estende o hábito do não-isolamento à profissão. Está em São Paulo na sexta-feira 13 para três shows com o cantor e compositor paulista Filó Machado. Nos últimos dez anos, fez discos, shows e parcerias com os instrumentistas Bud Shank, Paulo Moura e Eloir de Moraes, as cantoras Joyce, Wanda Sá, Marisa Monte, Angela Ro Ro e Maria Tita, os cantores Emílio Santiago, Martinho da Vila e João Bosco, os rappers Marcelo D2 e Marcelinho da Lua, e o filho Donatinho (um explosivo tecladista fã de música eletrônica).

“É sempre bom trabalhar em parceria, você não se limita a si mesmo, você tem o outro”, justifica, como se o que diz não fosse o óbvio deixado mais ou menos de lado por uma quantidade alarmante de músicos.

Eis outra diferença entre ele e João Gilberto, com quem compôs em 1958 duas das primeiras criações de ambos, Minha Saudade e Mambinho. O antigo parceiro há décadas lança discos esparsos e rodeados de mistério. Desde 1996, Donato colocou no combalido mercado fonográfico nada menos que 16 CDs e um DVD repleto de convidados (Donatural, de 2005), todos editados por selos independentes.

São amostras de uma produtividade caudalosa e desordenada, às vezes gravada e lançada sem grande rigor. Ora se entrega a criações inéditas e a criativos choques geracionais (como no álbum Maganarroba, de 2002, com vocais de Marisa Monte, D2, Joyce e João Bosco), ora investe em jazz artesanal (como em O Piano de João Donato, deste ano, somente ele e o instrumento).

Ainda que não escape dos círculos de redundância em que patinam a MPB, a bossa e outros guetos musicais, a hiperprodutividade de Donato edifica uma metáfora irônica em plena era do “fim do CD”, como propalam, em público ou privado, agentes da música atual.

“A música não acaba, o que acaba são os meios que a comercializam. Para mim disco nunca foi um objeto que se vende como biscoito, ‘um quilo de música’”, afirma João, na padaria de almoço por quilo, em frente a um prato farto no qual misturou sem preconceitos feijão, melancia, batata, melão, frango, mamão e farofa. “Eles dizem que é assim, que ou vende ou não vende, e se não vende não deu certo. Você era dispensado da gravadora porque não era compatível com as despesas deles.”

Donato passou por todo tipo de gravadora, desde o LP de estréia, Chá Dançante, editado pela Odeon em 1956 e assinado por “Donato e Seu Conjunto”. Ali ele, que teve no acordeom o primeiro instrumento, tocava versões sem voz de baiões de Luiz Gonzaga, sob produção do desconhecido (e nem creditado na capa) Antonio Carlos Jobim.

A Odeon comandou a revolução da bossa, mas não impediu a diáspora dos principais formuladores. Em 1959, Donato mudou-se para os Estados Unidos, onde entrou em pé de guerra com a música brasileira que chama de “samba de teleco-teco”. “Só estava lá o Bando da Lua, de Carmen Miranda, que já tinha morrido. Não me adaptei com eles, disseram que eu estava muito americanizado.”

A história repetia-se pelo avesso, pois antes Carmen é que fora tachada de “americanizada” ao pousar no Brasil num intervalo da longa estadia em Hollywood. “Falei que eles é que só tocam Tico-Tico no Fubá, e me deixaram lá. Fiquei sozinho em Los Angeles, estava encalhado. Fui fazer audições para orquestras mexicanas e cubanas.” Tocou com Tito Puente, Mongo Santamaria e Johnny Rodríguez e somou, às influências de jazz e samba, a da música cubana, que persiste até hoje na bossa desobediente que pratica.

O talento para a mistura exerce poder de sedução sobre públicos planeta afora. Entusiasmado, mas iconoclasta, ele conta da turnê recente de que participou pelo Japão, chamada 100 Golden Fingers, com dez pianistas (a maioria norte-americanos, só ele brasileiro). “É uma espécie de desfile de moda, não exatamente uma situação confortável. Eu tocava música brasileira, quebrava um pouco aquela seriedade, aquele padrão de academia. Todos são meio parecidos, meio em série.”

Instigado a fazer comparações entre o Japão e o Acre natal, saca de uma teoria “donatural” para o curioso interesse do outro lado do mundo pela música que faz: “Os japoneses são índios bem modernos. Têm características indígenas bem arraigadas, são meio acreanos, amazonenses. Tenho certeza de que todos andaram pelas mesmas aldeias originais”.

“Índio bem moderno”, Donato foi exclusivamente instrumentista até 1972, quando pela primeira vez deixou melodias e harmonias se vestirem de letras. Talvez à sombra da enorme voz pequena do outro João, nunca havia cantado. A sugestão partiu do virtuoso cantor pré-bossa-novista Agostinho dos Santos, então um exilado das paradas de sucesso. “Ele me chamou atenção que eu deveria gravar com letra, senão minhas músicas nunca seriam cantadas.”
Nasciam dois discos históricos de Donato, os hippies Quem É Quem (1973, orientado pelo colega de bossa Marcos Valle) e Lugar Comum (1975, todo em parceria com Gilberto Gil). Entre um e outro, atuou como diretor musical do disco Cantar (1974), de Gal Costa, em que o Donato compositor inseriu as célebres A Rã e Até Quem Sabe. O hábito de fazer canções tornou-se mais freqüente. A Paz ganhou letra de Gil em 1986 e foi popularizada por

Zizi Possi. E ele continua a cantar esporadicamente, com voz desajeitada, variante entre pastosa e esfarelada. É outra marca registrada do artista, quase um João Gilberto virado ao avesso.

Na rua, em disco ou no ensaio displicente com Filó Machado, Donato toca o barco despojado, tal e qual o índio acreano (ou cubano, ou norte-americano) imaginário de Lugar Comum. E fala, divertido, sobre o futuro da música e dos CDs (e sobre si): “Nunca fui um pop star, para mim o declínio dos CDs não mudou nada. A tendência da música é melhorar. Qualquer modificação é para melhor, ninguém muda para pior”.

Fonte: CartaCapital

Drummond por Drummond

Imagine a emoção de ouvir o grande poeta Carlos Drummond de Andrade interpretando seus próprios poemas. O Música&Poesia já apresentou a leitura de Drummond para algumas de suas clássicas poesias. No entanto, não satisfeito, este humilde blogue foi atrás de todos os áudios de Drummond por Drummond disponíveis na internet. Acompanhe no reprodutor abaixo treze poesias de nosso grande poeta. Drummond na voz de Drummond é parte do projeto de resgate do saite Memória Viva.




Poemas de Drummond na voz de Drummond:

Confidência do Itabirano
Mãos Dadas
José
Morte do Leiteiro
O Enterrado Vivo
Fazenda
Consolo na Praia
Procura da Poesia
Para Sempre
Mundo Grande
Boitempo
Quadrilha
Infância

terça-feira, 17 de julho de 2007

Veja a Apaixonante Cantora de Cabo Verde

Abaixo uma série de videoclipes da fascinante cantora cabo-verdiana Mayra Andrade. Conheça um pouco mais desta bela mulher que apaixona com sua impecável interpretação e com a doçura de sua voz. Vale a pena ver e ouvir todas as canções que seguem.

Lua - Mayra Andrade

Lua faz parte do primeiro álbum de Mayra Andrade, intitulado Navega (2006). Esta cantora de Cabo Verde é admirada em diversos países. No Brasil apresentou-se junto a Chico Buarque e Lenine.

Regasu (A tua Seiva) - Mayra Andrade

As canções de Mayra Andrade reúnem elementos do jazz, afro e ritmos brasileiros. Com apenas 22 anos e um disco, Mayra já conquistou a Europa com sua música.

Tunuka - Mayra Andrade

A maior parte das músicas de Mayra são cantadas na língua não oficial de Cabo Verde, o Crioulo. Apesar de a língua oficial ser o Português, a grande maioria da população utiliza o Crioulo que mescla o português arcaico a línguas africanas.

Mana - Mayra Andrade

Este vídeo foi gravado numa apresentação da musa de Cabo Verde em programa de uma emissora portuguesa.

Comme s'il en pleuvait - Mayra Andrade

Comme s'il en pleuvait é apresentado aqui numa reunião de fotos e não trata-se de videoclipe, é apenas uma forma de ouvir a apreciar outra canção de Mayra. Comme s'il en pleuvait também está no disco de estréia da cantora.

A Felicidade - Mayra Andrade

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Assim como a música anterior, este reprodutor apenas reproduz uma música interpretada por Mayra Andrade agregada a algumas imagens. Curta a impecável interpretação, sem sotaque algum, de Mayra para este clássico de Vinícius de Morais e Tom Jobim.


Assista aqui o vídeo da apresentação, ao vivo, da música Dimokránsa, por Mayra Andrade (necessário o Windows Media Player)

Para saber mais sobre Mayra Andrade, clique aqui

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Curta Pela Rua

Curta-metragem livremente inspirado em poema de Ferreira Gullar

Pela Rua é um curta gaúcho baseado em poema homônimo de Ferreira Gullar. O próprio poeta recita a poesia, gravada no Rio de Janeiro, que, após isso, foi mixada paralelamente à leitura do ator Alexandre Vargas. Rodado em Porto Alegre, o filme mostra um poeta que, durante a criação de um poema, vaga, entre pensamentos e desejos, atrás de sua musa. Na construção dos versos, o personagem devaneia buscando inspiração na visão de uma linda mulher inalcançável, nisso perde a oportunidade real de encontrá-la.

Como Ferreira Gullar foi um dos responsáveis pela revisão da obra de Augusto dos Anjos, colocando-o em seu devido lugar de destaque na poesia brasileira e suscitando a justa importância que este nosso raro poeta merece, em Pela Rua a uma referência à Augusto dos Anjos registrada em um cartaz que figura dentro de um bar atrás do protagonista. Assista abaixo este curta-metragem.
Y.H.

Pela Rua


Sinopse
Poeta vaga solitário por uma grande cidade, perdido em seus desejos, inspirações e pensamentos. Entre encontros e desencontros, imaginários e reais, ele acha motivação para compor seus versos.

Gênero Ficção
Diretor
Dimitre Lucho / Michele Maurente
Elenco
Alexandre Vargas, Júlia Pressotto, Jesse Guelfi, Carlos Azevedo
Ano
2003
Duração
8 min
Cor Colorido
Bitola 16mm
País
Brasil

Ficha Técnica
Produção
Mônica Schmitt Fotografia Viviane Schwagwer Roteiro Dimitre Lucho Som Direto Yerko Herrera Direção de Arte Yerko Herrera Voz Ferrereira Gullar, Alexandre Vargas Trilha original Diasper Lucho Figurino Patrícia Aranguiz Still Leandro Caobelli, Carlos Gerbase Supervisão de Som e Mixagem Cristiano Scherer


Pela Rua (Ferreira Gullar)

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.



Outros Filmes? Assista mais em OutroCine - Outro jeito de ver cinema

Musa Cabo-Verdiana Encanta com sua Beleza e Voz

Navegando o atlântico, até nós.
por Vânia Medeiros




Tunuka, Tunuka bála
Ki tem koráji, é só Tunuka di meu
Sukuru ka da-l kudádu,
Ka duê-l xintidu, ki fari duê-l korasom.


Os versos acima, em criolo cabo-verdeano, são embalados por um som composto de elementos muito familiares. O fraseado de violão, o jogo percussivo, a língua de vogais livremente pronunciadas. É uma sensação diferente de reconhecimento e surpresa, de se estar chegando a um lugar novo e revisitando ambientes antigos, onde estão impressas nossas origens ancestrais, ibérica e africana. Tudo no mesmo compasso. Quem nos guia é uma voz firme e doce de mulher.

Dentre as muitas cantoras que certamente existem em Cabo Verde e em toda a África, a que representava para o resto do mundo as vozes femininas do continente negro de hoje era – e ainda é, principalmente – Cesária Évora, com seu canto de “sodade”. Mas a terra de Évora nos presenteia mais uma vez. Com seu viço de moça nova (de 22 anos) e seu charme crioulo, Mayra Andrade nos leva de barco com seu canto ancestral cheio de novidade.

“Navega”, seu álbum de estréia de 2006, é o disco de uma cabo-verdeana urbana que se considera também parisiense (a cantora mora atualmente na França), depois de ter nascido em Cuba e vivido com seus pais no Senegal, Angola e Alemanha. Traz doze canções, como ela, mestiças. A maioria é entoada em crioulo, mas Mayra também canta em português e francês, flertando com o jazz, o samba brasileiro e o afro que vem do arquipélago em que foi criada. O som de Mayra e sua banda nos contagia a cada faixa. É uma produção simples, em tons acústicos, livre, divertido, sensual, profundo, cheio de balanço e saudade. A maioria das letras falam das alegrias e dos dilemas próprios do povo cabo-verdeano.
A “pegada” brasileira” pode ser explicada, em parte, pela formação de sua banda: o percussionista é o brasileiro Zé Luis Nascimento, que tem como companheiros de palco os compatriotas Tarcisio Gondim e Nelson Ferreira nas guitarras, além do virtuoso Hamilton de Holanda, no bandolim. Também nas cordas, o cabo-verdeano Kim Alves integra o lado africano, junto o baixista, Etienne Mbappé dos Camarões e Régis Gizavo, de Madagascar, no acordeon.

A relação de Mayra Andrade com o Brasil não pára por ai. Suas amigas de infância eram brasileiras e a cantora já esteve aqui e cantou com Chico Buarque e Lenine representando seu país numa campanha contra a AIDS. “Navega” traz como faixas bônus “Samba e Amor” (de Chico) e “Felicidade” (de Vinícius de Morais), cantadas em brasileiro sem sotaque, perfeito.

A trajetória de Mayra Andrade só está começando e é longa. Apesar de muito nova, Mayra já mostra uma complexidade e uma profundidade em seu canto e em suas escolhas como artista, costurando suas origens de sua cultura com o que há de mais cosmopolita, universal.

Quem quiser conhecer um pouco mais sobre essa cantora, ouvir suas canções e saber mais detalhes sobre sua trajetória, seu site é o
http://www.mayra-andrade.com
Fonte: Overmundo

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Revisão de Políticas de Propriedade Intelectual para o Desenvolvimento Criativo da Sociedade em Debate

Movimento cultural consolida luta por revisão do direito autoral
Segundo encontro do iCommons, entidade que engloba representantes do Creative Commons, reforça necessidade de revisão das atuais políticas de propriedade intelectual para o desenvolvimento criativo da sociedade

Carlos Gustavo Yoda *

SÃO VICENTE - Em qualquer diálogo sobre diversidade cultural, logo é exposta a contradição entre a restrição do mercado na defesa da propriedade intelectual privada e o pensamento sobre políticas públicas que potencializem o desenvolvimento cultural da sociedade. Acordos conquistados nas esferas da Organização Mundial do Comércio (TRIPS - OMC) e na Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI – ONU) comprometem a atuação dos estados na defesa por soberania sobre suas políticas.

Ícones do conhecimento livre, como Yochai Benkler, autor de A Riqueza das Redes; Lawrence Lessig, fundador do Creative Commons; Jimmy Wales, fundador da Wikipedia; Cory Ondrejka, do Linden Labs (Second Life); Joi Ito , empreendedor do mundo digital; e Cory Doctorow, editor do blog Boing Boing, entre outras 300 intelectuais, artistas, advogados, tecnólogos e ativistas estiveram em Dubrovnik, na Croácia, entre os dias 15 e 17 de junho, no iCommons Summit 2007 para discutir os rumos da cultura e do conhecimento na rede.

O iCommons é a entidade internacional que conglomera os representantes do Creative Commons de todo o mundo, formando a maior rede internacional de pensadores e ativistas atuantes na área de propriedade intelectual e tecnologia da informação. O iCommons busca promover as condições para um futuro no qual todos possuam a capacidade de participar de forma ativa e crítica dos campos da cultura, da tecnologia e do conhecimento, considerados como os combustíveis universais e essenciais para a inovação e a criatividade. Por tudo isso, sua principal missão é promover ferramentas, modelos e políticas que facilitem esse acesso, participação e integração. O iCommons Summit 2006 teve o Rio de Janeiro como sede e contou com a presença da ministra da Cultura do Chile, Paulina Urrutia, e do ministro Gilberto Gil.

Quem coordena o debate sobre direito autoral no Ministério da Cultura é José Vaz de Souza Filho. Ele acompanhou os debates e relatou que a sensação sobre o iSummit é a de estar participando de um congresso igual ao de outros tantos movimentos sociais.

"Os militantes por uma cultura livre debatiam entusiasmados; a pluralidade de propostas e a diversidade de experiências relatadas demonstravam a grande vitalidade do movimento. Claro, houve também os embates de idéias, alguns bem acalorados. Mas, ao contrário da grande maioria dos demais movimentos sociais, não havia ali um clima de disputa de poder, de busca de hegemonias de uns sobre outros. Esse talvez seja o maior mérito que anima o movimento Cultura Livre: ninguém quer ser dono de nada, líder de nada: todos querem que todos tenham uma ampla liberdade de criar, compartilhar, transformar e produzir de forma colaborativa", pontua José Vaz.

No movimento ao menos é consenso que o atual sistema de proteção dos direitos autorais impõe obstáculos absurdos ao desenvolvimento das artes, ao acesso à cultura e à educação, e que a resposta a ser dada passa pela construção de uma nova hegemonia baseada no conceito dos commons. O representante do MinC reflete ainda que os commons são apenas um conceito de base essencialmente empírica. "A experimentação e a criatividade são o motor da cultura livre", afirma.

Tom Chance, do Partido Verde da Inglaterra e País de Gales, propôs um sistema de proteção de direitos autorais em novas bases, de clara vinculação do criador com sua obra, em que a presença de dispositivos de DRM (digital managements rights) poderiam até ser vistos como algo positivo para os artistas. O iSummit 2006 condenou duramente este tipo de dispositivo. Tom Chance, no entanto, alerta para o fato de que discutir limitações aos direitos e licenciamentos flexíveis sem discutir simultaneamente o acesso aos meios de produção cultural poderia levar o movimento para um beco sem saída.

Lawrence Liang, da ALF-Alternative Law Forum, também tocou no tema: "O desafio está em passar do iCommons para o weCommons". Ou seja, sem o acesso aos equipamentos digitais, não é possível sequer o acesso a produtos pirateados. "O compartilhamento da cultura e do conhecimento não pode ser um privilégio de alguns, mas uma necessidade para a sobrevivência de todos na sociedade da informação", acrescenta José Vaz.

No outro extremo do debate, David Berry (Swanmsea University) apresentou uma tese erudita, em que analisou o movimento pela cultura livre a partir de duas categorias filosóficas de Martin Heidegger: ôntico e ontológico. Ôntica seria a luta contra os sistemas de propriedade intelectual, um embate restrito e limitado; ontológico seria uma luta mais ampla, dentro de uma perspectiva de mudança social global. Assim, para realizar essa dimensão maior (ontológica), o movimento por uma cultura livre deveria articular-se com outros movimentos sociais (ambientalistas, anti-racistas, anti-capitalistas) com uma perspectiva revolucionária, de transformação social.

Arte remixada
Segundo Vaz, o relato dos artistas que participaram do Programa de Residência do iCommons foi outro ponto alto do evento. Alguns recusaram qualquer cobrança no sentido de vincular seus processos criativos a uma militância pelo commons, ainda que essa seja uma opção plena de possibilidades. Mas os processos criativos e o destino dado a cada obra podem variar e cada artista deve ter a liberdade de experimentar e difundir suas próprias criações da forma que quiser.

O relato da artista Joy Garnett, que se envolveu numa disputa de direitos autorais por ter utilizado uma fotografia que se encontra em domínio privado (Molotov, de Susan Meiselas), mostra que a propriedade intelectual, do forma como é tratada, impede o processo criativo humano. Usando diversos exemplos da História da Arte, a artista demonstrou como o sistema de direitos autorais pode ser nocivo para a evolução da arte, particularmente quando restringe a possibilidade de usos transformativos. Para Garnett, o processo de criação artística sempre foi baseado em algum tipo de "remix".

"Para quem trabalha no âmbito da formulação de políticas públicas, estamos diante de um grande desafio. Sem dúvida, revisar o marco legal é um primeiro passo para reequilibrar os direitos intelectuais (de interesse privado) com os direitos culturais (de interesse público). A balança ainda está muito mais inclinada para os primeiros, em prejuízo do conjunto da sociedade", conclui Vasquez.

(*) 100canais, com informações do Cultura Livre e do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito - Rio.

Fonte: CartaMaior

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Poemas de Florbela Espanca

Florbela Espanca

Silêncio!...

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...


Vaidade

A um grande poeta de Portugal

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade !

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade !
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita !

Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada !

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...

Livro de mágoas (1919)


Tédio

Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido,dormente dias,
E os dias,sempre os mesmos,a correr...




Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...


Súplica

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...

Vem para mim,amor...Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...


Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...


Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

(in Antologia de poetas Alentejanos)


Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...



Fonte: JornaldePoesia

terça-feira, 10 de julho de 2007

Rodrigo Maranhão lança CD-solo

REVELAÇÃO PERSISTENTE
por Pedro Alexandre Sanches


Rodrigo Maranhão ainda pode ser tratado como uma revelação, aos 36 anos, apesar de ter fornecido duas músicas de destaque para o segundo disco de Maria Rita (Caminho das Águas e Recado) e de já ter sido gravado por Zélia Duncan, Pedro Luís, Fernanda Abreu, Roberta Sá e outros companheiros da música carioca contemporânea. Também integrante da banda independente carioca Bangalafumenga, de samba, xote, ciranda, rock e reggae, ele chega ao CD-solo de estréia, Bordado (MP,B/Universal), a bordo, em parte, da visibilidade trazida pelas gravações de Maria Rita.

Bordado agrupa as versões autorais de Recado e Caminho das Águas a um conjunto de canções inspiradas em tradições brasileiras de samba-de-roda, baião, ciranda, xote, aboio, bossa nova e até milonga gaúcha, em títulos como Interior, Noites do Irã e Olho de Boi, sempre em compasso de discreta eficácia.

Puxados todos os fios da trajetória do artista, o que aparece no bordado é uma metáfora da própria situação da música brasileira, diante dos impasses e das crises ininterruptas do modelo industrial ainda em vigor. Mesmo com tanta história e a acolhida generosa de Maria Rita, Rodrigo Maranhão pode ser chamado de revelação, até hoje.

Fonte: CartaCapital

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Nem só de Fado...

Atendendo ao protesto de uma leitora portuguesa do Música&Poesia, senhorita Carla Granja, que afirma gostar muito de música brasileira, porém, reclama que não percebe a reciproca dos brasileiros, este blogue corre atrás do prejuízo e começa pesquisar e apresentar, desde já, mais artistas portugueses. No entanto, registro aqui, que, apesar de concordar com a Carla, o Música&Poesia sempre teve interesse pelas obras feitas no além-mar. O grande problema é a pouca informação das produções portuguesas que chega ao Brasil. Bom, mas a internet está aí pra isso, basta procurar nos lugares certos. Portanto, hoje apresento três músicas de um grupo de rap lusitano chamado Raiz Urbana. Estas canções fazem parte do disco de estréia destes rappers portugueses, intitulado Renasce o Underground (2006). Segundo os caras, está em produção o segundo álbum, batizado Esfera Em Guerra, "que promete uma abordagem crua e sincera de um país em mudança e em desenvolvimento (?), inserido num mundo rico em transformações constantes e imprevisíveis".

Abaixo as músicas do Raiz Urbana, com seu hip-hop que traz nas rimas os sentimentos de um país que ainda trata se adaptar às conseqüências, positivas ou negativas, de estar incluso na União Européia.

Y.H.

Raiz Urbana


Tu Detestas


Esquemas Sociais


Letras

RAIZ URBANA
Caminhantes de uma raiz que sustenta cada passo
Absorve e torna oculta a frieza de um rasto
Que demarca o nosso limite do sacrifício
Pelo qual o vestígio é encoberto sem indício
Um culto de identidade em cada palavra
Que assume com humildade uma única cara
Refúgio dos escritos, retiro imediato
Inspiração abstracta no relato de um facto
Filosofia nas escrituras, raiva lúcida
Humilde fé propaga num círculo de recusas
Palavra de condenação, voz da denúncia
Valorizamos o benefício das nossas custas
Pouco resta, o que abdico tornou-se escasso
Mais são as pessoas pelas quais não o faço
Supostos indivíduos próximos são imensos
Face ao confronto drástico estão suspensos
Desprezo nos meus olhos quando os observo
Humilhação pela falta de dignidade condeno
A alma ilumina a hipocrisia induzida
Encaminhada pela desumanidade genuína
A cicatriz guarda o testemunho que reflecte
Lições de vida a que o instinto nos submete
Lucidez na intuição de cada acto
Silêncio sensato ao qual estou grato

Aqui encontras todos os vícios em grande escala
Ao teu dispor o sexo, a droga, o jogo e a bala
Odor, a dor, sangue na boca como sabor
Traído anos depois se assim tiver que ser ou for
Cinzento inspira, cidade por dentro respira
Atira na podridão o pormenor chega a ser sórdido
Antes de matar já estão a passar o óbito
Primeiros valores aprendidos logo são esquecidos
Vendidos em recantos por indivíduos sem face
Difamação lançada, ninguém espera o desenlace
Nos subúrbios é a matança anos depois
Frente a frente é a vida pois
Nada a fazer, prédios erguem-se sufocando
Cantando músicas de destruição pairando
Sobre nós violência urbana, o mistério
Que vai provocando insónias no ministério
Eleito a partir de ligações perigosas
Com a nata de elites criminosas
Cabecilhas com quota-parte de círculos
Pagos com jóias, propriedades ou veículos
Que se vão cruzando com cada qual
Enquanto o fundo urbano é fatal, o mal
O bode expiatório favorito dos média
Onde a câmara só capta o crime e a merda
Mas esse vírus, a cidade, é o meu abrigo
E não somos nós mas vocês que correm perigo

Raiz observa o derrame, absorve o sangue
Eleva o solo, a fissura traça, um percurso alastra
Porto dentro de nós cresce, reflecte
Subúrbio isola-se, rua envolve, o drama acontece


TU DETESTAS
Tu detestas quando cais em ti com lucidez
E te apercebes daquilo que voluntariamente não vês
Vives com fé num significado distorcido
Que reflecte a desorientação pelo escasso sentido
Que é provisório e caminha pelo rasto do lucro
Encaminhado por vestígios do brilho do tusto
No qual os teus olhos fixam e os meus desprezam
Contrasta com o cinzento de palavras que pesam
Que assumo em tudo o que sou em cada passo
Tu limitas-te a atirar a pedra e a esconder o braço
Actos rasteiros rodeiam as nossas bases
Difamações estão longe de serem eficazes
Uma 2º versão dos factos é um método primário
É escusado, tudo passa ao lado do destinatário
B-Boys são um produto na posse de empresários
Supostos amigos que os exploram em ginásios
Tu com currículo e conceito vives sob ameaça
Eu com palavras e abraços vivo de honra intacta
Na ânsia de um retorno manténs-te sujeito
Sem reconhecimento eu faço e adquiro respeito
Enquanto não és nada o reconhecimento é rejeitado
A humildade é assumida enquanto és desvalorizado
Não és ninguém perante a indiferença que te é guardada
Aos pés desta cultura imensa não és nada

Tu detestas o simples som dos passos da minha gente
O simples facto de te soar a algo diferente
Logos, R.U., emcee do norte
No hip hop tripeiro com rimas de outro porte
À porto abalo emcees de pista
Rimando estas ruas sempre solitário ruísta
Porque o meu estilo continua
A ser aquele, o da rua
Que pelos vistos na tua
Perdeu adeptos da rima crua
Aquela poesia do neón e do fugante
Que perfura ardentemente a tua carne
E ela pode-te dar tudo
Até ficares sem nada chulo
Representa
Eu aprendi com as palavras dos bons
Os que não copiavam sons
Evoluíam, não minavam
E não davam o cu por 2 tostões
Sinto vergonha e ao mesmo tempo desejo
De vos estourar os cornos quando vejo
A degradação de toda uma estrutura
O underground é aqui e agora isto é uma cultura
Que tu detestas quando falo por provocações
Queres é ritmo e cona, boas vibrações
Dizer-lhes ao ouvido: “sou rapper”, que tanga
Logos desequilibra com versos de fato de treino ou ganga
Não achas que devias ter mais calma quando falas
Sabes toda a história do meio, não te calas
É que isso é básico, qualquer um pode saber
Não é por isso que agora já vais ser
Porque tu já és
És um tone
A tua sabedoria vem nos filmes do stalone
E rapidamente eu detecto auto profetas
Isto é hip hop e é isso que tu detestas

Eu trago
Aquele conhecimento ruísta que tu detestas
Aquele flow sem truques que tu detestas
Rimo sem lucro o underground que tu detestas
Eu não trago
Hits de pistas e tu detestas
Fidbeks arrogantes na coluna e tu detestas
Rimo sem lucro o hip hop que tu detestas


ESQUEMAS SOCIAIS (MEDIOCRIDADE)
A transparência é branqueada por este mundo escravo
Onde tudo é explorado até ao último centavo
Mediocridade generalizada aos olhos de uma vida
Que é posta em questão, sujeita a uma selva desunida
A mão é estendida ao indivíduo que se arrasta
Em que te é cortado o braço, a ingratidão retrata
A outra face no momento em que te encontras caído
E és pisado, mais tarde massacrado e esquecido
Cada um por si, de cabeça erguida, punho fechado
Cruzas-te com a mira, de imediato o sangue é espalhado
Sufoco de raiva, semelhante inocente ou culpado
No precipício, antes do suicídio, és empurrado
Guerra aberta, interesses, cunhas, filhos da puta
Máscaras, boatos, pensamentos sob escuta
É distribuído pelo próximo todo o peso da culpa
Que a seu tempo encobre o ódio de quem insulta
Enterrados cada vez mais num país de lama
Supostos patriotismos que um povo reclama
Erguida em tempos uma bandeira de sentimento
Actualmente vazia e manchada de cinzento
Protegidos por uma autoridade que nada faz
De força oportuna contra o inocente incapaz
Sistema de saúde que envolve a morte em lençóis brancos
A corpos entregues ao abandono dos recantos
Às crianças é negado o direito a uma infância
Num ensino que move individualidade e ganância
Tudo isto é cobrado nos impostos
Nada justifica o derrame de lágrimas a que estamos expostos
É exigida a extinção a esta raça humana
As próprias pessoas viabilizam a causa deste drama
Não faz sentido nenhum
Batemos no fundo e continuamos à espera que do nada nos caia algum

Uma liberdade condicionada socialmente
Numa república construída esquematicamente
Em que a armadilha é posta pela tua gente
O passo é dado atrás embora te digam que estás à frente
Tudo o que te deram vão-te tirar no presente
Nada é teu, só tu não queres estar ciente
O cúmulo da mediocridade é seguir o fluxo
Em que todos nós partilhamos o mesmo túmulo
À partida fora desta norma elimina
E é a tua própria arma que te assassina
A palavra é a bala que perfura
A cultura infame da fortuna
Que alimenta a calúnia
O saque é feito dentro de tua casa
Pela TV ligada a satélites da NASA
Tu és, eu sou testemunha
Pronta a ser eliminada de uma forma oportuna
Á simples porque a justiça é cega
E não vê a indecisão do pega ou não pega
Quando começas a questionar a gula
És torturado psicologicamente por uma agulha
Rapidamente carimbado de trafulha
A teoria da conspiração diverte o público
Mas enquanto trabalhas tiram-te tudo

Humanidade presa por correntes
A este mundo, esta morgue
O maior precedente do lucro é a morte
O dinheiro compra tudo
Selva desunida pelo tusto
O valor deste mundo reflecte o entulho


Letras saite oficial Raiz Urbana

sábado, 7 de julho de 2007

Singela homenagem a Rafael Torres

Homenageando Rafael Torres (1982-2007), flautista das bandas Mombojó, Trio Pouca Chinfra & A Cozinha, Emboás e Del Rey, que faleceu nesta última quinta-feira (05/07), o Música&Poesia apresenta alguns vídeos.

O Mais Vendido - Mombojó

Clipe da música O Mais Vendido, do disco Homem-espuma (2006), segundo da banda pernambuca Mombojó. O vídeo foi montado inteiramente em stop motion.

Cabidela - Mombojó

Vídeo da primeira faixa de nadadenovo (2004), álbum de estréia do Mombojó. O grupo pernambucano está entre os maiores defensores do Creative Commons.

Deixe-se Acreditar - Mombojó

Do disco nadadenovo, o premiado videoclipe de deixe-se acreditar foi todo gravado com meninos e meninas de rua.

Absorva - Mombojó

Absorva está no primeiro disco nadadenovo, lançado em 2004. Os pernambucanos do Mombojó foram uma das primeiras bandas brasileiras a dar-se conta da democracia cultural que as novas tecnologias permitem. Seus dois álbuns estão dispostos livremente na internet.

Falece Músico do Mombojó

Rafa em foto de divulgação do disco
Homem-Espuma (Trama, 2006)
O Rafa, flautista do Mombojó, morre aos 24
da Redação do Gafieiras


Morreu na noite desta quinta-feira, 5 de julho, o jovem Rafael Torres, em Recife (PE). Mais conhecido como O Rafa, o músico era flautista das bandas Mombojó, Trio Pouca Chinfra & A Cozinha, Emboás e Del Rey. Tinha apenas 24 anos. Segundo o boletim médico, Rafa morreu devido a um ataque cardíaco fulminante logo após chegar em casa. Ele ainda foi socorrido pela mãe, mas não resistiu. O músico possuia uma doença congênita chamada Trombocitose, termo médico para um número excessivo de plaquetas no sangue. O enterro acontecerá ainda nesta sexta-feira no Cemitério de Santo Amaro, área central do Recife.

O Rafa fazia parte do Mombojó desde sua fundação em 2001 e sua delicada flauta esteve nos dois discos da banda lançados até o presente momento, Nadadenovo (independente, 2004) e Homem-Espuma (Trama, 2006). O Mombojó ganhou o prêmio de Melhor Grupo Musical pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A banda também é formada por Chiquinho (teclado e sampler), Felipe S (vocal), Marcelo Campello (violão, cavaquinho e escaleta), Marcelo Machado (guitarra), Samuel (baixo) e Vicente Machado (bateria).

Fonte:
Gafieiras

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Animação Dois Barcos

O Música&Poesia ainda no clima homenagem ao Los Hermanos, em recesso por tempo indeterminado, apresenta outra virtuosa animação do grande Ivan Mola. O artista plástico e ilustrador paulista, criou uma sensível versão animada pra música Dois Barcos, primeira faixa do disco 4 da banda carioca. Para ver outras animações de Mola, incluindo Paquetá também dos Hermanos, vá até nossa Mediateca e entre em Animação. Para conhecer outros trabalhos do animador, visite seu saite oficial: http://www.ivanmola.com



Assista Dois Barcos em três tamanhos (em flash)

Livro Completo "A Tragicomédia Acadêmica"

Livro de Contos pra Baixar

A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau
por Yuri Vieira

A Tragicomédia Acadêmica é uma coletânea com 19 contos que satiriza todos os âmbitos da vida universitária. O livro foi publicado pela primeira vez em 1998, tendo recebido à época elogios de Millôr Fernandes, Bruno Tolentino, Hilda Hilst, J. Toledo, Sérgio Coutinho, Olavo de Carvalho, entre outros.

Títulos de alguns contos: "A vingança de Piupiu", "O culturaholic", "Paralíticos e desintegrados", "A volta dos que não foram", "Penteu, o pentelho", "Frida, uma singela homenagem a Paulo Coelho", "Memórias da Ilha do Capeta", etc.


Baixe aqui o livro completo (arquivo em PDF - 799Kb)

Fonte: OverMundo

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Notas da CartaCapital

POESIA

POP E ARTE VIRA-LATA
todas por Pedro Alexandre Sanches

Metade poesia, metade relato nas bocas dos próprios participantes, o livro Nuvem Cigana – Poesia & Delírio no Rio dos Anos 70 (Azougue, 224 págs., R$ 36) restaura a trajetória marginal da trupe carioca Nuvem Cigana, uma experiência híbrida de artes gráficas, artes plásticas, teatro, música e, sobretudo, poesia “vira-lata”, de conexão direta com as ruas.

No reexame protagonizado em primeira pessoa por integrantes originais como Chacal, Bernardo Vilhena, Ronaldo Bastos, Ronaldo Santos, Cafi e outros, alguns nexos interessantes se refazem. Quanto à ligação com a música, por exemplo, fica evidente o elo perdido representado pelo coletivo, que nasceu influenciado pelo Clube da Esquina (Nuvem Cigana viraria nome de um sucesso na voz de Milton Nascimento) e terminou influenciando o pop-rock dos anos 80.

Também sobressai a queixa contra o senso comum que costuma dividir os rebeldes dos anos 70 em dois pólos opostos, o dos engajados na luta armada e o dos alienados e “desbundados”. A Nuvem Cigana misturava características dos dois lados, contesta Ronaldo Santos. Como aconteceu a rebeldes de ambos os pólos e também a outros egressos da Nuvem, Ronaldo iria engrossar as fileiras da Rede Globo após a dispersão da trupe.


MÚSICA

GAFIEIRA COLETIVA

Separado anos-luz do espírito da Nuvem Cigana, em termos de tempo, propósitos e métodos, o coletivo carioca Orquestra Imperial estréia em CD com Carnaval Só Ano Que Vem. São 19 músicos de raízes heterogêneas, do veteraníssimo baterista de samba Wilson das Neves aos músicos-produtores “modernos” Berna Ceppas, Kassin, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti e Rodrigo Amarante e às cantoras Nina Becker e Thalma de Freitas.

A heterogeneidade se reflete na gafieira pós-moderna (e chique) da Imperial, que ora se aproxima do samba de baile (como em Salamaleque e na provocativa Ereção), ora evoca Los Hermanos (O Mar e o Ar), bossa nova ou soul music, e assim por diante. A identidade coletiva é a meta, mas aqui e ali causa complicação, à medida que borra personalidades individuais em prol de um resultado novo e necessariamente multifacetado. Ainda que distante anos-luz, a memória da Nuvem Cigana se faz presente nisso e em outros detalhes, como nos tons circenses e no fato de a Globo bancar o lançamento, via Som Livre.


CD

Maquinado é apelido e projeto particular de Lúcio Maia, integrante da excelente banda pernambucana Nação Zumbi, que foi ponta-de-lança da integração entre o arcaico e o moderno no pop nos anos 90 com o movimento mangue bit. Mas não chega a ser uma aventura-solo e individualista de Lúcio. Em vez disso, Homem Binário (Trama) é um trabalho coletivo de largo espectro.

Ali, o artista se atira a compor e tocar em parceria, num arco que inclui colegas do coletivo paulistano Instituto, rappers como Speedy e Buia, os conterrâneos pernambucanos Felipe S. (do Mombojó) e Siba e mesmo os parceiros da Nação Zumbi. O resultado é fulgurante.


Ouça duas da Orquestra Imperial abaixo
O mar e o ar

Salamaleque


Ouça cinco do disco de Lúcio Maia

Fonte músicas Orquestra Imperial: GazetaOnline

Fonte músicas Lúcio Maia: TramaVirtual

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Curta Se não fosse o se...

O curta-metragem, dirigido por Leonardo J. Mancini, Se não fosse o se.... "mostra o que seria da vida de um rapaz que curte rock se ele conseguisse completar os 'SEs' de sua vida..."

Se não fosse o se....





Sinopse
Curta na qual mostra a vida de um roqueiro que p/ subir na vida é necessário dinheiro, esforço, paciência e uma mala...

Gênero Ficção
Diretor Leonardo J. Mancini / H.A. Rodriguez
Elenco Edson (Presto) Correa
Ano 2006
Duração 1'20''
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil


Se não fosse o se.... segundo seus autores
Esse curta fala de um cara quem tem como sonho ser um astro de rock, mas pra isso é preciso dinheiro. Mas mesmo sendo astro de rock os problemas aparecem e pra isso nada melhor do que fugir deles com sua mala.

Fonte: PulaPirata

Quero dançar com outro par pra variar, amor

Letras Los Hermanos

AZEDUME (Marcelo Camelo)

Tire esse azedume do meu peito
E com respeito trate minha dor
Se hoje sem você eu sofro tanto
Tens no meu pranto a certeza de um amor,
Sei que um dia a rosa da amargura
Fenecerá em razão de um sorriso teu
Então a usura que um dia sufocou minha alegria há de ser o que morreu
Então a usura que um dia sufocou minha alegria há de ser o que morreu

Dai-me outro viés de ilusão
Pois minha paixão tu não compras mais com teu olhar
Leva esse sorriso falso embora
Ou fale agora que entendes meu penar
A lágrima que escorre do meu peito
É de direito pois eu sei que tens um outro alguém
Mas peço pra que um dia se pensares em trazer-me seus olhares
Faça por que te convém
Peço pra que um dia se pensares em trazer-me seus olhares
Faça por que te convém


TENHA DÓ (Marcelo Camelo)

Não vou mais te perdoar, você foi longe demais
Meu amor não sou tão só assim.
Não consigo entender, me trocar por outro alguém
Traição já é demais então, você me diz

Que me ama,
Que sem mim você não vive,
Que foi apenas um deslize,
Que você preza pelo meu amor

Tenha dó,
Não mereces o afago,
Nem de Deus nem do Diabo,
Quanto mais da mão que um dia eu dei pra ti

A saudade vai bater, mas o meu amor se vai
O tempo voa e quando vê já foi

Não me fale de nós dois, não preciso mais saber
Indo embora deixo-te um adeus, ao ouvir dizer

Que me ama,
Que sem mim você não vive,
Que foi apenas um deslize,
Que você preza pelo meu amor

Tenha dó,
Não mereces o afago,
Nem de Deus nem do Diabo,
Quanto mais da mão que um dia eu dei pra t


TODO CARNAVAL TEM SEU FIM (Marcelo Camelo)

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
Mas o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo...

Toda rosa é rosa por que assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
É o fim, é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz


A OUTRA (Marcelo Camelo)

Paz, eu quero paz
Já me cansei de ser
a última a saber de ti
Se todo mundo sabe
quem te faz chegar mais tarde
eu já cansei de imaginar
você com ela
Diz pra mim se vale à pena, amor
A gente ria tanto
desses nossos desencontros
mas você passou do ponto
e agora eu já não sei mais ...

Eu quero paz
Quero dançar com outro par
pra variar, amor
Não dá mais pra fingir
que ainda não vi
as cicatrizes que ela fez
Se desta vez ela é senhora deste amor
pois vá embora, por favor
que não demora pra essa dor
sangrar


O VENTO (Rodrigo Amarante)

posso ouvir o vento passar
assistir à onda bater
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver
eu pensei que quando eu morrer
vou acordar para o tempo
e para o tempo parar.
um século, um mês
três vidas e mais
um passo
pra trás?
por que
será?
...
vou pensar.

como pode alguém sonhar
o que é impossível saber
não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer
e isso, eu vi, o vento leva!
não sei mas sinto que é como sonhar
que o esforço pra lembrar
é a vontade de esquecer
e isso por quê?
(diz mais)
ú
se a gente já não sabe mais
rir um do outro, meu bem
então o que resta é chorar
e talvez
se tem que durar
vem renascido o amor
bento de lágrimas.
um século, três,
se as vidas atrás são parte de nós
e como será?
o vento vai dizer lento o que virá
e se chover demais a gente vai saber,
claro de um trovão,
se alguém depois sorrir em paz.
(só de encontrar...)


HORIZONTE DISTANTE (Marcelo Camelo)

por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais
dá-me luz, ó deus do tempo
dá-me luz, ó deus do tempo
neste momento menor
pra eu saber teu redor
a gente quer ver horizonte distante
a gente quer ver horizonte distante

aprumar

através eu vi, só amor é luz
e há de estar daqui até alto e amanhã
quem fica com o tempo
eu faço dele meu e não me falta ao passo coração
e não me falta ao passo coração

avante

a gente quer ver horizonte distante
a gente quer ver horizonte distante

aprumar


CONDICIONAL (Rodrigo Amarante)

quis nunca te perder
tanto que demais
via em tudo céu
quis de tudo o cais
dei-te pra ancorar
doces deletérios
e
quis ter os pés no chão
tanto eu abri mão
que hoje eu entendi
sonho não se dá
é botão de flor
o sabor de fel é de cortar.

eu sei, é um doce te amar
o amargo é querer-t pra mim.
do que eu preciso é lembrar, me ver
antes de te ter e de ser teu
muito bem...

quis nunca te ganhar
tanto que forjei asas nos teus pés
ondas pra levar
deixo desvendar
todos os mistérios.
sei, tanto te soltei
que você me quis em todo lugar
lia em cada olhar quanta intenção
eu vivia preso!

eu sei, é um doce te amar
o amargo é querer-t pra mim.
do que eu preciso é lembrar,
me ver antes de te ter e de ser teu
o que eu fazia, o que eu queria,
o que mais, que alguma coisa
a gente tem que amar, mas o quê?
não sei mais!
os dias que eu me vejo só são
dias que eu me encontro mais
e mesmo assim eu sei tão bem:
existe alguém pra me libertar!


DESCOBERTA (Marcelo Camelo)

Sai, que eu já não te quero mais
Sai por que hoje eu descobri
Que posso viver sem ti
Que posso viver em paz,

Muito bem sem teu amor
Sai por que agora eu sou
Um homem bem mais feliz
Um homem bem mais feliz

Vai, hoje a lagrima não cai
Sei agora o mal que faz
Dar amor a quem não ama,
Dar amor a quem só traz

Ódio e desilusão
Que maltrata um coração
Precisando de carinho
Precisando de carinho

Minha amada
Não consigo mais viver ao lado teu
Não consigo mais te dar o meu amor
Hoje vivo muito bem sem tua boca
E sozinho não conheço mais a dor



Canções:
"Azedume", "Tenha Dó" e "Descoberta", do disco Los Hermanos (Abril Music, 1999)
"Todo o Carnaval tem seu Fim", do disco O Bloco do Eu Sozinho (Abril Music, 2001)
"A Outra", do disco Ventura (BMG, 2003)
"O Vento", "Horizonte Distante" e "Condicinal", do disco 4 (Sony BMG, 2005)

Fonte: Saite Oficial Los Hermanos

terça-feira, 3 de julho de 2007

Seminário internacional para debater diversidade cultural

Brasil lidera países americanos por políticas para as expressões artísticas

Seminário internacional reuniu países americanos para debater diversidade cultural no mundo e nas Américas, comunicação e convergência digital, economia da cultura e setores estratégicos, e globalização e cultura.

Carlos Gustavo Yoda

A Convenção pela Promoção e Proteção da Diversidade das Expressões Artísticas, adotada em outubro de 2005 na Unesco, foi ratificada em tempo recorde e já conta com a adesão de quase 60 países. Hoje, as culturas locais, excluídas da indústria cultural de massa, contam com um fortíssimo instrumento de luta e defesa dos desejos de suas vidas (“dj's de suas vidas”, como prefere o ministro Gilberto Gil). Mas, entre um documento assinado e a implantação de políticas públicas que garantam esse direito, um longo caminho de debates e práxis há de ser percorrido.

Entre os dias 27 e 29 de junho, Brasília sediou o Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural – Práticas e Perspectivas. Promovido pela Organização dos Estados Americanos com o governo brasileiro, os debates que tiveram início em fóruns públicos virtuais, foram divididos entre diversidade cultural no mundo contemporâneo, diversidade cultural nas Américas, comunicação e convergência digital, economia da cultura e setores estratégicos, e globalização e cultura.

Todos os países do continente, menos Cuba (que não integra a OEA por embargo econômico), tiveram a oportunidade de apresentar seus projetos e políticas. Com as políticas que estão sendo implantadas no Brasil, como o Programa Cultura Viva, o Ministério da Cultura coloca-se como liderança e contraponto na balança da OEA contra a política mercantil e de massa dos Estados Unidos. O país norte-americano que, com Israel, votou contra a aprovação da Convenção, apresentou suas perspectivas no seminário através de uma representante da Discovery.

Democracia Cultural
O sociólogo e editor do periódico francês Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, afirma que os EUA preferem fazer concessões em outras áreas, mas não arredam o pé quando a discussão é sobre bens culturais. Ele entende que “soberania política e soberania cultural estão interligadas” e o assunto central da diversidade cultural refere-se à democracia.

Ramonet, na aula inaugural do Seminário, lembrou o caso da China, para explicar como os Estados Unidos tratam as questões culturais. O congresso estadunidense ainda não ratificou um acordo bilateral com a China, pois os chineses permanecem inflexíveis em fazer concessões sobre questões de propriedade intelectual, entre outros pontos que se referem a bens simbólicos.

O pensador francês lembra também que o consenso midiático, controlado pelas indústrias da cultura e do conhecimento, considera qualquer tipo de regulação do setor uma forma de censura. Exemplo claro, diz ele, é o caso da Venezuela, onde leis de responsabilidade para os meios de comunicação de massa exigem ao menos de 50% de músicas venezuelanas nas rádios e mínimo de cinco horas diárias de conteúdo que valorize a cultura nacional.

Recentemente, a não renovação da concessão da emissora RCTV, que participou da articulação do golpe contra o governo bolivariano de Hugo Chávez em 2002, causou rebuliço da mídia e do governo dos EUA e de seus agentes externos, os grandes jornais de todo o mundo. “Os Estados Unidos têm de fazer sua lição de casa antes de falarem qualquer coisa. O modelo de liberalismo financeiro que eles têm como modelo de globalização não garante diversidade”, pontua o escritor. A população do mundo dos sonhos hollywoodianos é dividida em sua grande parte por brancos, negros e latinos. Hoje, apenas 1,9% das concessões de rádio representam os latinos, os negros ficam com 3,2% do bolo midiático e as mulheres estão representadas em 6%.

“Em Quebéc, no Canadá, país decisivo na articulação da Convenção, políticas como a que proíbem qualquer propaganda pública que não seja em francês já estão funcionando e mexendo com a vida das pessoas. Não pode nem ser bilíngue. Essas medidas devem causar grandes impactos nas culturas locais daqui a um tempo”, pontua Ramonet.

Mercantilização da Cultura
Para o pensador francês, as expressões culturais ainda são tratadas como mercadoria e administrada por grandes conglomerados que atuam mundialmente, o que inviabiliza o processo democrático e o direito de comunicação humana. “Os Estados Unidos, assim como outras indústrias de outras matrizes, vendem primeiro a sua cultura liberal e seu american way of life para depois comercializar os seus jeans e outros produtos relacionados.

“Tudo é mercadoria: a escola, a saúde, a natureza, a cultura, o conhecimento. Então, tudo deve ser submetido à lei da oferta e da demanda. A mercantilização da cultura ameaça a criatividade e a identidade de comunidades. É por isso que a questão da diversidade torna-se central, e a batalha pela diversidade cultural é capital na luta contra a globalização liberal”, conclui Ramonet..

O ministro da Cultura Gilberto Gil entende que é impossível falar em modelos políticos prontos para promover e proteger as expressões culturais: “A diversidade exige novas políticas para estancar as feridas de toda a mercantilização predatória e descontrolada dos nossos bens culturais”. Referindo-se à contradição do espaço de debates abrir espaço até mesmo para a exposição da política dos Estados Unidos, que curiosamente foi apresentada por uma representante da megacorporação Discovery Communications.

O auge da apresentação de Mary Pitelli foi a exibição de vídeos educacionais produzidos pela Discovery Atlas que serve de material básico na educação pública estadunidense sobre o mundo. As peças publicitárias destacam as opções turísticas mundializadas, da capoeira em Salvador a um estranho ator pintado de aborígene australiano.

O intelectual espanhol Jesus Matín-Barbero, que abriu a mesa onde foi exposta a proposta, lembrou que a chave da diversidade é preservar a criatividade humana, mas os sistemas educacionais de todo o mundo estão “castrando a criatividade”. “Os jovens estão anos-luz à nossa frente. Eles já nascem com o chipe do compartilhamento do conhecimento (saiba mais sobre Cultura Livre)”, considera.

Barber lembrou como no México a inclusão digital do sistema público de educação segue a cartilha da Macintosh: “Não é possível que a escola pública, que está conectada com as culturas locais e suas necessidades específicas, seja incapaz de pensar seus próprios métodos e políticas. Essas empresas não estão ajudando comunidades locais, elas estão matando aos poucos o jeito das pessoas de serem e interagirem com o mundo”.

O ministro Gilberto Gil, que integrou a mesma discussão, lembrou que outro mundo é possível, citando Revoluções do Capitalismo, do italiano Maurício Lazzaratto. Para Gil, “the culture hotspots (os pontos de cultura, do Cultura Viva) invertem a lógica liberal da cultura”. Lembrando os pensamentos de Milton Santos, o ministro afirma que há necessidade de vivermos a fase popular da História, que está em construção nas periferias globais.

“É preciso recentralizar o que está centralizado nas mãos de poucos. As matrizes da indústria cultural não deixaram nada para as periferias. Por isso, hoje, o papel do Estado brasileiro na formulação de políticas públicas é empoderar as micro manifestações, para que eles se apropriem cada vez mais dos espaços públicos e que sejam protagonistas na proteção e promoção da diversidade”, entende Gil. Além disso, Gil acredita que essas comunidades têm até mesmo a oportunidade de pular o século XX e a sua lógica mercantil e liberal, propondo novos modelos de desenvolvimento.

(*)A reportagem do 100canais acompanhou os três dias do Seminário em Brasília a convite do Ministério da Cultura e amplificará os principais desdobramentos sobre a proteção e promoção da diversidade cultural.

Fonte: CartaMaior