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sábado, 6 de dezembro de 2014

Hoje é dia de João do Vale, poeta do Povo

JOÃO DO VALE - Poeta do povo
por Angela Pinho

Semi-analfabeto, cantou a beleza e o sofrimento de sua gente. Maranhense universal, faz parte da santíssima trindade da música nordestina.

Entre suas composições a mais famosa é Carcará
JOÃO DO VALE. Poeta e compositor - Foto AlmanaqueBrasil
O ano é 1953. Na construção em Ipanema, ressoa canção na voz de Marlene: Estrela miúda / Que alumeia o mar / Alumeia terra e mar / Pra meu bem vir me buscar. João vira para o colega: “Sabe quem é o autor? Disfarça e olha aqui: eu.”
“Conversa, neguinho, tá delirando, rapaz? Bota massa, sô.”
O desacreditado rapaz de 19 anos figuraria, ao lado de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, na santíssima trindade da música nordestina.

TIJOLO POR TIJOLO
“Meu nome é João Batista do Vale. Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou é Ribamar. Eu saí Batista.” Assim se apresentava. Nasceu em 1934 em Pedreiras, de um casal de agricultores; quinto de oito filhos; só três sobreviveram. Sorridente, pernas tortas, dançava e fazia versos para anunciar os doces da mãe na rua.
Aos 12 anos, muda com a família para São Luís. Vende frutas e compõe para o bumba-meu-boi. Aos 14, foge com um circo para Teresina, Piauí. Como ajudante de caminhão, conhece ritmos de todo o Nordeste. Vai parar em Salvador, depois Teófilo Otoni, Minas: quer ganhar algum no garimpo. Não acha nada, mas chega ao Rio, seu sonho.
Trabalha em construção. Mora nas obras e, à noite, procura artistas para cantar suas músicas. Em 1953, quando Marlene grava Estrela Miúda, deixa de ser pedreiro. Faz duradoura parceria com Luiz Vieira.
No começo dos anos 1960, vai cantar no Zicartola, bar de Cartola e sua mulher, Dona Zica. Lá, em 1964, o convidam a participar do musical Opinião. Marco da luta contra a ditadura, o espetáculo projeta João para o País. Em 1965, Bethânia, substituta de Nara Leão no show, faz de Carcará não só a música mais famosa do compositor como hino contra o regime: Carcará pega, mata e come.

“O NEGÓCIO NÃO É BEM EU”
1942. João está no terceiro ano do primário. Chega a Pedreiras novo coletor de impostos, com o filho. A escola não tem vaga. Expulsam João para dar lugar ao garoto. “Botaram rua com meu nome, me homenageiam, só pra desmanchar o que fizeram. Mas nem Deus querendo esqueço”, diria, anos depois.
João, que sabia ler, não aprendeu a escrever. Mas a experiência lhe daria aguda percepção da realidade, como mostra em Minha HistóriaEnquanto eu ia vender doce / Meus colegas iam estudar / [...] Mas o negócio não é bem eu / É Mané, Pedro e Romão / Que também foi meus colegas / E ficaram no sertão / Não puderam estudar / E nem sabem fazer baião.
Não gostava de chamar suas canções de “música de protesto”. Mas a crítica social é inegável. Sina de CabocloEu sou um pobre caboclo, ganho a vida na enxada / O que eu colho é dividido com quem não plantou nada / [...] Deus até tá ajudando, tá chovendo no sertão / Mas plantar pra dividir, num faço mais isso não.

MUITA GENTE DESCONHECE
No final dos anos 1960, a censura aperta. João volta a Pedreiras. Em 1978, no Rio, organiza o Forró Forrado, ponto de encontro de nordestinos que abriga shows seus e de amigos ilustres - de Chico Buarque à argentina Mercedes Sosa. É Chico, aliás, o responsável pela gravação do segundo lp de João, em 1981, 16 anos depois do primeiro. Muitos não sabiam que era João o autor de sucessos cantados por outros, como O Canto da EmaPisa na FulôNa Asa do Vento: A ciência da abêia, da aranha e a minha / Muita gente desconhece.
Em 1986, sofre derrame cerebral. Deixa a casa simples em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e volta para Pedreiras. Em 6 de dezembro de 1996, depois de novo derrame, morre, aos 62 anos, o aclamado “poeta do povo”.

SAIBA MAIS 
Pisa na Fulô Mas Não Maltrata o Carcará
, de Márcio Pachoal (Lumiar, 2000).

Fonte: Almanaque Brasil - O Almanaque Brasil está sob uma licença Creative Commons

Carcará - Maria Bethânia interpreta canção de João do Vale

Maria Bethânia cantando a música Carcará na sua estréia nos palcos, em 1965, quando ainda tinha apenas 17 anos de idade. Esse número fez parte do show Opinião, que foi um espetáculo histórico de protesto, do qual também participaram Zé Keti e João do Vale. A cantora Nara Leão fez parte da primeira versão do espetáculo, mas teve que se ausentar e indicou Bethânia pra lhe substituir, quando a baiana ainda era uma desconhecida. No final da música, Bethânia emenda com um texto sobre a migração do povo nordestino para os grandes centros urbanos brasileiros. (fonte: Youtube)

Carcará
Composição: João do Vale/José Cândido

Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
Pega, mata e come
Carcará

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Poemas de Manoel de Barros

Poemas de Manoel de Barros do livro Manoel de Barros - Poesia Completa.


ODE VINGATIVA

Ela me encontrará pacífico, desvendável
Vendável, venal e de automóvel.
Ela me encontrará grave, sem mistérios, duro
Sério, claro como o sol sobre o muro.

Ela me encontrará bruto, burguês, imoral,
Capaz de defendê-la, de ofendê-la e perdoá-la;
Capaz de morrer por ela (ou então de matá-la)
Sem deixar bilhete literário no jornal.

Ela me encontrará sadio, apolítico, antiapocalíptico
Anticristão e, talvez, campeão de xadrez.
Ela me encontrará forte, primitivo, animal
Como planta, cavalo, como água mineral.

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O MORTO

I

A chuva lavou
As pessoas do morto
E lavou o morto
Com a sua fisionomia
De torto
E com seus pés de morto
Que arrastava um rio seco
E suas mãos de morto
Onde se dependurou
Insistente, um gesto oco.
À noite enterrou-se
O homem
Na raiz de um muro
Com sua roupa no corpo.
E a chuva regou no horto
Desse vitorioso
Homem morto
Enormes violetas
E uns caramujos férteis…

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O MORTO

II

Veja esse morto como esgotou um por um seus segredos.
Sentado como um doutor
Veja que respeito nutre pelo silêncio…
Que morto!
Um piano dormindo no fundo de um poço
Não é mais cômodo do que um homem morto num porto.
Veja que comodidade.
Ele não usará seus dedos secos nunca mais para pegar em
moças…
Que morto!

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ZONA HERMÉTICA

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco… E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

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ENCONTRO DE PEDRO COM O NOJO

A rosa reteve Pedro. E a mão reteve a música como
paisagem de água na retina.
Era noite no bairro do Flamengo. As pensões de estudantes
dormiam nas transversais.
Pedro mergulhado em trevas, no quarto, pensa no
rouxinol e na bomba atômica.
As coisas mais importantes lhe aconteciam no escuro,
como a surpresa de uma flor desabrochada à noite.
Pedro recebe uma brisa no rosto e se olha, inundado de
solidão. Se chorasse poderia dormir depois. Prefere andar.
Pedro carrega a beleza como um prédio em ruínas. Desce
as escadas e ganha a rua.
Pedro anda tendo temores esquisitos. Por exemplo: que
desapareçam os fracos da face da terra e restem apenas
pessoas blindadas de sol.
Teme que desapareçam as criaturas roladas dos abismos de
Deus, com seus andrajos, com as suas cicatrizes.
Pensou em plantar uma árvore. Em pensamento viu-se
desmembrado, seu corpo espalhado nos pedaços de um
espelho.
Entrou numa pequena rua. Viu pássaros roubando suicidas.
Meninos carregando escadas. Respirou um odor de mofo e
rosas velhas.
Estava bem longe agora de seu quarto pobre. Seu paletó
estaria dependurado no cabide. Esmeralda, a mulata, se
surpreenderia de não encontrá-lo àquela hora.
Pedro começa a esfregar os olhos para espantar Esmeralda;
mas ela vinha de flancos nua rolar na aresta dos desejos.
Vinha de chapéu de breu e sonos… Distraiu-se afinal vendo
os azulejos roídos pelos peixes do Ministério da Educação.
Pedro ficou parado. Depois entrou no Frege, atraído por
um samba. Viu lá dentro um negro sentado com uma
clarineta fincada no rosto!
O negro atropelava as pessoas com as suas queixas que
escorriam pelas ruas como água. Pedro foi saqueado pela
angústia. Cuspiu e retirou-se.
No largo, entre pássaros, acalmou-se. Uma funda sensação
de pertencer às coisas mudas, como a folha que pertence à
árvore, invadiu-o.
Doce pélago! Pedro saiu leve para junto do mar. Coral e flor
de caos ia colher — entre baixios sangrentos.
Seu era o mundo. Dormiu entre pedras. O dia amanheceu
em suas mãos.
Pedro entregou-se ao dia, como ao seu musgo se entrega o
verde.
Pureza de ruínas nos olhos de Pedro! Estava sujo e coberto
de lírios.
Às doze horas Pedro regressou ao quarto. Debaixo da
escada um homem dormia como um peixe: a boca
descampada úmida e serena. Subiu.
Pedro deitou-se, pensando… A inércia me devora, enraízase
em meu corpo, como líquenes na pedra — se fico deitado.
Sentia fluir de seus ossos a inércia e brotar de seus dedos,
como cardos, o nojo.
Preciso caminhar. Pedro se levanta e vai à janela. Lá fora,
bem rente ao muro encardido, uma pereira florida…
Pedro quer nascer do chão. Pedro acha que precisa florir até
a altura de uma janela. Oferecer-se ao luar… e…
Ó propício frio das sombras! Entra Esmeralda autêntica
com sol nas carnes e nas palavras. Pedro retorce, quebra
Esmeralda nos braços, baba-a toda e a engole.
Agora Pedro vai jiboiar nas ruas de novo. Pedro é louco.
Arrasta-se pelos becos com a sua porcaria na alma.
Engole sua anulação como água. O nojo lhe cresce como
um braço podre, mirrado. Um braço podre saindo das
costas…
Pedro engole a maçã do caos. Vai trôpego deitar-se nas
pedras. Esmeralda tritura-o agora.
Tudo que há de noturno está entranhado nas roupas de
Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade que se evola de ti, no
escuro, Pedro! Não percebe.
Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos
vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.
Pedro se aproximara das coisas. Para dormir com elas.
Pedro deitou-se entre objetos. A terra comia seu abdômen.
A terra cheia de poros, fermentada de raízes, rosas podres,
bichos corrompidos, penas de pássaros, folhas e pedras — o
atraíam.
Pedro era um barro ofegante. Como um fruto peco, deixou
sua boca no chão, imóvel, aberta.
Tinha de recostá-la na terra e haurir, das raízes
intumescidas, seiva.
Pedro sabia: todo aquele que não bebe água no solo, secará
como cana cortada no pé. Ficou deitado.
Pedro estava só. Deixava-se completamente às coisas,
recebendo suas emanações físicas.
Pedro se encostava nas coisas, afagava-as como se elas
fossem criaturas íntimas. Pedro era reconstruído.
Agora Pedro ressurge. Vem botando o pescoço para o sol.
Despegando-se da escuridão, pesadamente, como um bêbado
gordo, e aos pedaços, estraçalhado…
Pedro vem tateando na luz, subindo nas bordas do poço,
soltando de sua casca o moliço… Deixa pedaços dele no
escuro.
Pedro entra em seu quarto. Está perfeito e pobre.
Poderemos sequer fazer uma ideia de que resultará do
encontro de um homem com o nojo?
Agora Pedro está dormindo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Conheça nova revista de literatura independente

O belo poema abaixo, de Fabíola Weykamp, compõe a terceira edição da revista Verborhagia, assim como outras poesias e prosas de gente que se arrisca a escrever. Verborhagia é uma publicação eletrônica dedicada à literatura independente e pode ser lida em:

http://issuu.com/verborhagia/docs/verborhagia__3



te queria poema

 queria poder me chegar
 sem o medo das horas apressar

 queria poder ficar
 sem que a ansiedade por ir fosse maior

 queria te ver rima toante
                ao meu lado
 sem que a insegurança do amanhã nos impedisse o poema

 queria que me quisesses
 sem grafemas nem fonemas

 apenas aliterando, de mãos dadas, o nosso acaso

Fabíola Weykamp


Revista Eletrônica de Literatura Independente

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Revista Fórum entrevista o poeta Sérgio Vaz

Sérgio Vaz, o poeta sonhador da quebrada, completa 25 anos de carreira

O escritor que inaugurou um movimento cultural nas periferias paulistanas celebra sua trajetória e reafirma seu compromisso com a militância pelas “quebradas”: “Se o opressor leu, o oprimido tem que ler também”
Por Igor Carvalho para revista Fórum
Sérgio Vaz é do tempo em que ninguém ouvia o soluçar de dor em seu canto no Brasil. Do seu verso de revolta fez nascer, com o poeta Marco Pezão, a Cooperifa, que inaugurou um dos movimentos culturais e sociais mais ativos e importantes das periferias de São Paulo, os saraus.
Completando, em 2014, 25 anos de carreira, Sérgio Vaz fez cumprir a profecia de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte em “Canto das Três Raças”, que diz: “De guerra em paz, de paz em guerra / Todo o povo dessa terra / Quando pode cantar, canta de dor”.
O canto triste de Sérgio Vaz é denúncia de uma periferia que luta contra o genocídio da população negra e jovem, que pede espaços culturais em vez de delegacias e unidades da Fundação Casa, que grita por dignidade, que insiste em formar leitores e que constrói “a Primavera de Praga da periferia”, como o poeta define os últimos dez anos de agitação cultural nas “quebradas”.
Este paulistano de Minas Gerais – “não fala que sou mineiro que eu fico bravo” – gosta de repetir que se soa triste, em sua obra, é por que ele é triste. “Tenho uma tristeza que me visita até nos dias de alegria”. Mas que esse sentimento não se confunda com ceticismo. “Antes, deixa eu só esclarecer uma coisa: não sou pessimista, sou realista”, diz o poeta, com a convicção de quem visita becos e vielas da zona sul de São Paulo há 45 anos.
Ao todo, é autor de sete livros que venderam, somados, 30 mil exemplares. A obra do poeta o levou a seis países, para participar de feiras literárias e congressos. Das viagens, internacionais ou não, Vaz sempre traz reproduções de Dom Quixote, o personagem central da obra homônima de Miguel de Cervantes. “Esse livro salvou minha vida”, diz o poeta, que já possui mais de 30 reproduções do herói da literatura espanhola, entre elas, uma de 2 metros, instalada no quintal de sua casa.
Sobre a Cooperifa e seu tradicional sarau organizado no bar do Zé Batidão toda semana, Vaz se derrama. “É por isso que vale a pena estar vivo. Depois de cada quarta-feira, eu percebo que a vida, ainda que fútil e dolorida, é um milagre.”
SV4
Hoje, um moleque, na quebrada, que tem uma noção artística, vai tocar violão, vai para o sarau, vai cantar um rap, mas e nos anos 70, em que você só seria um jogador de futebol ou trabalharia na metalúrgica? (Foto: Anna Beatriz Anjos)
Sérgio Vaz – O moinho maior foi o seguinte: Meu pai veio morar em São Paulo, antigamente era assim, primeiro vinha o pai, arrumava emprego e depois trazia a família. Bom, quando cheguei aqui tinha quatro anos, sou paulistano, não fala que sou mineiro que eu fico bravo, viemos morar em um cortiço aqui no Parque Santo Antônio (zona sul de São Paulo). Meu pai trouxe o hábito da leitura, ele era um homem que gostava de ler e passou isso para mim.
Logo em seguida meus pais se separaram, numa época em que os pais não se separavam de jeito nenhum. Fiquei muito introspectivo com isso e meu pai começou a me dar livros pra ler. Mas olha quantos moinhos: nasci no Vale do Mucuri, perto do Vale do Jequitinhonha, que é um dos lugares mais pobres do mundo, meu pai, pobre, veio pra cá lutar, os pais separam, você mora na periferia de São Paulo nos anos 70. Mas olha, na minha casa nunca faltou comida e livro. Com 13 anos, gostava de ler mas não gostava de poesia, achava que era coisas de fresco e de maluco, esse povo que acorda e dá bom dia para o sol, abraça árvore [risos]. Já mais crescido, eu era o cara dos bailes blacks e jogador da várzea, jogava bola em time de favela, não ia pegar bem gostar de poesia, se é que você me entende [risos].
Bom, em 1983 vou servir o exército. Era ditadura militar e eu nem sabia que a gente vivia na ditadura militar, olha isso, vivia em Macondo [alusão a vila imaginada por Gabriel Garcia Marquez em Cem Anos Solidão], isolado, a periferia era nosso país, não saíamos daqui pra nada. Quando você é pobre, só descobre que foi triste na infância quando fica mais velho, porque o jovem é feliz em qualquer circunstância, nos escombros do Haiti o moleque consegue ser feliz. Bom, já no exército começo a me interessar por música popular brasileira e me afasto da black music, tinha algo naquelas músicas. Aí descobri as metáforas. Um dia, eu estava na cozinha do exército ouvindo uma música do Geraldo Vandré, na voz da Simone, “Pra não dizer que não falei das flores” e cantando alto, dentro do quartel. Eu nem sabia o que significava aquela porra. Entra o sargento: “Filho da puta, mocorondo, isso é música de Che Guevara, comunista”. Fiquei olhando e me interessei, pensei: ‘Caralho, mano, tudo isso dentro de uma música só?’.
A partir daí começo a me politizar pra valer, descubro o Lorca, que lutou contra a ditadura do Franco, e a poesia vira uma paixão. Aí descubro que a poesia não era só pra ganhar mulher. Nesse momento caiu na minha mão o livro 1968, o ano que não terminou do Zuenir Ventura. Malandro, saí do quartel e estava pronto para seguir Lamarca. Ali eu me torno poeta. Tem uma frase do Ferreira Gullar, em um disco do Milton [Nascimento] em que ele diz: “O canto não deve ser uma traição à vida. Só é justo cantar, quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não têm voz”. Pronto, eu queria escrever sobre isso, sobre liberdade. Descobri que queria ser poeta, e como ser poeta é uma construção, comecei a me preparar para isso.
Fórum – Uma vez, você reclamou: “Em toda entrevista que vou tenho que falar de periferia, de sangue, violência, PCC, rolezinho, e nunca consigo falar do quanto eu gosto do Carlos Drummond de Andrade, do Neruda, do Lorca, da Cecília Meireles”. Fala agora.
Sérgio Vaz – Quando entra o Dom Quixote na minha vida, jogava futebol e me achava um cara estranho. Hoje, um moleque, na quebrada, que tem uma noção artística, vai tocar violão, vai para o sarau, vai cantar um rap, mas e nos anos 70, em que você só seria um jogador de futebol ou trabalharia na metalúrgica? Só existiam essas duas opções, mas você gosta de literatura em um meio que ninguém gosta de literatura. Imagina, você joga no meio da malandragem, aí está esperando o contra-ataque e cutuca o zagueiro: “Então meu, leu o último do Jorge Amado?”. Pô, eu era muito estranho, muito apaixonado por literatura, aí caiu o “Dom Quixote” na minha mão, e esse livrou salvou minha vida. Terminei o livro e constatei que eu era um sonhador, e não tem nenhum problema em ser um sonhador.
Fórum – Incomoda, em algum momento, quando vão falar de você e é o escritor marginal, o periférico, o divergente…
Sérgio Vaz – Adoro isso. A periferia é a maioria, mano, sou o poeta da maioria, podem colocar na estante da livraria, “poeta da periferia”. Sou da periferia, assumo isso. Se eu fosse “poeta da classe média” seria chato, menor, teria menos gente me lendo. Sempre vi dragões em lugar de moinhos de vento, encontrei a felicidade quando encontrei a poesia, era pobre, da periferia, sonhador pra caralho, a poesia me possibilitou continuar sonhando nesse ambiente.
Fórum – Quais escritores mas te influenciaram?
Sérgio Vaz – Pablo Neruda com certeza, não vou nem falar o Gullar porque depois ele virou outra coisa, os textos dele de hoje, nossa, enfim… Miguel de Cervantes, Julio Córtazar, Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, os latinos mesmo.
Fórum – Quando você lê esses latinos, enxerga as mesmas periferias e os mesmos problemas sociais que você vive e vê?
Sérgio Vaz – É a mesma coisa. No começo do livro Cem anos de solidão, os Buendías são tratados como loucos e fazem o quê? Vão fundar outro bairro, vão ocupar uma outra área, o que é isso? Periferia. Aí, é o mesmo sofrimento.
Fórum – Em alguns poemas seus, a construção lembra uma música de rap. Qual a importância desse gênero na sua trajetória?
Sérgio Vaz – Tenho gratidão pelo rap. Lá atrás, com o pseudo fim da ditadura, os caras da MPB param de falar de problemas sociais, parece que tudo ficou bom só por que não tem mais um militar no poder. Nesse momento, escuto Racionais MCs cantando “Fim de semana no parque”. A MPB não fazia mais efeito. Quando escuto “Fim de semana no parque”, falando do Parque Santo Antônio, que é o bairro que eu moro, só quem falava da gente era o Gil Gomes e o Afanázio. Porra, então eu estava à toa na vida, vendo a banda passar, e não percebi esses caras?
Reposiciono, então, minha poesia e meu interesse, começo a seguir o hip hop, parei de ir ver show do Chico e do Caetano. O rap deu o gripo de independência da periferia. São eles que vão começar a falar de Malcom X, de Martin Luther King e de Steve Biko. “Dia de luz, fesa do sol, um barquinho a deslizar, no macio azul do mar”, que lindo né? Mas essa era a vista da janela deles, não a nossa. Aqui, quando se abre a janela, eu vejo o que o Gog e os Racionais falavam.
Fórum – Aí vem seu primeiro livro.
Sérgio Vaz – Sim, em 1988 lanço Subindo a ladeira mora a noite, meu primeiro livro. Com o livro eu começo a me posicionar culturalmente na periferia, porque eu ia no Bixiga [região central e boêmia de São Paulo] para ter cultura, comecei a mexer na geografia da cultura na minha cabeça, comecei a falar com os meus daqui, como Fela Kuti. Entendi, então, que quem queria me ouvir estava aqui, na minha rua, na minha quebrada. Começou, aí, a nascer a mentalidade Cooperifa na minha cabeça. Quando eu ia para o centro, já ia com outro olhar, comecei a ver que as pessoas eram todas brancas, de classe média, eu não era nada disso. Aí começo a ser um engajado periférico descarado.
Fórum – Você tinha trabalhos paralelos nessa época, ainda?
Sérgio Vaz – Sim, trabalhei em banco, fui vendedor, auxiliar de escritório, assessor parlamentar em Taboão da Serra. E, sabe, isso era uma loucura na minha cabeça, porque eu queria me dedicar à escrita, eu queria viver da arte e não podia. Essa casa aqui que estamos, eu comprei faz três anos só.
Fórum – Há três elementos muito fortes em sua poesia, a ironia, a metáfora ou o trocadilho.
Sérgio Vaz – Gosto mais da ironia. Ela bate no cara e o cara gosta. Ele dá risada. Você faz a ironia e o cara não entende nada, é como o sistema faz com a gente. As metáforas, nos dias de hoje, não caem tão bem, vivemos um momento em que as questões devem estar colocadas mais às claras, vivemos um outro tipo de censura que vivemos.
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“A periferia é a maioria, mano, sou o poeta da maioria, podem colocar na estante da livraria, ‘poeta da periferia’. Sou da periferia, assumo isso” (Foto: Anna Beatriz Anjos)
Sérgio Vaz – Eu não sou feliz. Tenho uma tristeza que me visita até nos dias de alegria. Tenho meus momentos de alegria e de euforia, mas é engraçado, não consigo ser feliz. Não nasci pra ser feliz. Fico feliz no boteco com os chegados ou na várzea.
Fórum – Por que?
Sérgio Vaz – Eu vendo alegria, os poetas vendem alegria, mas sou triste. Não sei se é o país, se são as pessoas, mas me sinto responsável por muita coisa. Outro dia, fui visitar uma favela aqui e entrei na casa do cara, um barraco de madeira, um rato no meio da sala, o esgoto passa no meio do barraco, saí de lá arrasado. Como ser feliz assim? Aí você bebe mano, porque o mundo sem álcool é foda. Não consigo ir no shopping comprar um tênis novo, me sinto mal. Aí gosto de livros tristes também. O [Ernest] Hemingway falava que para ser um bom escritor tem que ter tido uma infância triste, então estou pronto.
Fórum – Tua infância foi ruim?
Sérgio Vaz – Não, ela foi sem privilégios, mas foi rica.
Fórum – Falando dessa tristeza, me lembro de “Jorginho”, que acho seu poema mais triste.
Sérgio Vaz – É o mais triste mesmo. Antes deixa eu só esclarecer uma coisa, não sou pessimista, sou realista. Muito tempo atrás, acho que em 1999, estava em uma favela e visitei o barraco de uma senhora. Mano, mesmo dentro da favela, tem classe A, B e C. O barraco dela era classe C, muito debilitada a situação daquela família. Tinha uma vala que passava do lado do colchão, só merda. A dona do barraco estava grávida e tinha mais cinco filhos. Fiquei olhando pra barriga daquela mulher e pensando: “Se eu fosse esse moleque, me enforcava com o cordão umbilical”. O que esse moleque vai ter na vida, já tem mais quatro para dividir tudo aqui.
Fórum – Você é disciplinado para ler e escrever?
Sérgio Vaz – Começo a ler 6h, leio o jornal. Estava lendo Filho dos dias, do Eduardo Galeano, terminei hoje. Semana passada terminei O Filho eterno, do Cristovão Tezza. Mas ontem, inclusive, eu estava em Brasília, dando uma palestra, tinha 100 pessoas. Na sala ao lado, 100 mil pessoas vendo o Galeano na palestra dele. E eu me perguntando o que os caras estavam fazendo na minha, porque se eles fossem para a do Galeano eu também poderia ir [risos].
Fórum – Em “O machado, o talarico e a racha” você tira um sarro do Dom Casmurro, usando a oralidade da periferia. Qual a importância dessa oralidade no seu trabalho?
Sérgio Vaz – Amo esse livro. Eu quis fazer uma brincadeira com esse lance da obrigatoriedade, da imposição de se ler determinados livros. Quando você lê Olhai os lírios do Campo ou Dom Casmurro com essa obrigação, não entende. Aí, decidi fazer uma versão que o intelectual não ia entender, coloquei tudo no nosso dialeto e ele que procure alguém da quebrada pra traduzir. Outro dia comecei a ler uma crônica do [Carlos Heitor] Cony, no jornal, e ele começa em alemão, caralho. Quer dizer, se você não entende alemão, não está no mesmo nível, então não serve para ser leitor dele. A oralidade ajuda na generosidade, você pode ler meu livro para alguém ouvir, ajuda na formação de público. Precisamos de mais gente lendo, e essas pessoas só vão ler se conseguirem se identificar com o que está sendo dito. Se eu começar um texto em alemão, não formo público, só reproduzo discurso.
Fórum – Você se orgulha mais dos poetas que a Cooperifa formou ou dos leitores que a Cooperifa formou?
Sérgio Vaz – Dos leitores. O meu trabalho, o trabalho da Cooperifa, é formar leitores. É um paradoxo maluco nosso tempo. Cada dia tem mais filmes, mas cada dia tem menos cinemas. Precisamos formar leitores, não adianta ter 100 livrarias se ninguém vai ler. O [Hugo] Chavez distribuiu um milhão de exemplares do “Dom Quixote”, é isso, tem que formar uma cultura de leitura. Se o opressor leu, o oprimido tem que ler também.
Fórum – Você escreve crônicas. Em que momento a poesia deixou de bastar para o Sérgio Vaz? Você pensa em escrever um romance?
Sérgio Vaz – A crônica surgiu a partir do blogue, a poesia é muito concisa, ela te cobra uma síntese que é cruel. Na crônica, eu posso dar opinião, e eu peguei gosto nisso. E eu sou fã, e me inspiro, no [Eduardo] Galeano e da Cecília Meirelles, escrevendo crônicas. Acho que é algo que vai caminhar comigo sempre, gosto das crônicas. Sempre quis escrever um romance, mas para isso teria que ser mais minucioso, sou muito ansioso, no meio do livro já ia dizer quem matou o cara, não daria certo. Sou um relaxado.
Fórum – O que significa uma quarta-feira, dia do sarau da Cooperifa, na sua vida?
Sérgio Vaz – Puta que pariu, você me pegou [longa pausa]. É por isso que vale a pena estar vivo. Depois de cada quarta-feira, eu percebo que a vida, ainda que fútil e dolorida, é um milagre.
Fórum – A quarta-feira é dia de futebol na TV, o sarau da Cooperifa, inclusive, é no horário da novela, muita gente tem internet em casa. Do outro lado da cidade, o cinema é mais barato. Mesmo assim, toda quarta-feira, tem entre 200 e 300 pessoas ouvindo poesia na Cooperifa. Tem momentos que você se pega pensando nessas coisas durante o sarau?
Sérgio Vaz – Tem, várias vezes. Caralho, mano, acho que é por isso que eu vim pra essa vida, sem brincadeira, vim para juntar gente. Uma das funções da Cooperifa é, também, refundar a amizade. As pessoas são obrigadas, ali, a sentar juntas, elas deve ficar em silêncio e contemplar. Em doze anos, nunca teve uma única briga.
Fórum – Deus está muito presente na sua obra, sempre com ceticismo. Você acredita em Deus?
Sérgio Vaz – Já chamei muito por Ele. Principalmente quando jovem, assustado com as coisas da vida. Aí chegou uma época da vida que cansei e falei: “Quer saber, Ele que vá tomar no cu dEle”. Deus que vá atender aos pedidos de quem Ele sempre atende, aqui Ele não vem mesmo. Então, assim, não me preocupo com nada em relação à religião, sou ateu mesmo e cada vez que caminho na rua, tenho mais certeza que Ele não existe. As pessoas estão provando que Ele não existe, porque se somos a imagem e semelhança de Deus, então estamos fodidos.
Fórum – Neste ano, lembramos o centenário da Maria Carolina de Jesus…
Sérgio Vaz – Primeira vida loca da história [risos].
Fórum – Você está com 49 anos, daqui mais meio século, como acha que será lembrado em seu centenário?
Sérgio Vaz – Sou um poeta simples, de rua. Quero ser lembrado como um sonhador. Nada mais. Sou o poeta do amor, até para falar de uma causa, você precisa amar essa causa. Nunca escrevi contra, por que para escrever contra precisa ter ódio, escrevo a favor dos nossos. Talvez, também, eu seja um covarde, que decidiu escrever poemas para defender suas causas, porque se eu tivesse coragem faria uma revolução, ia pra rua de arma na mão.
Fotos: Anna Beatriz Anjos
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Veja também:

terça-feira, 27 de abril de 2010

Perder Liberta

Poesias do concretista Arnaldo Antunes.

Perder - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Tira a asa - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).


SOL TO - 1997
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva).

Seja o que for - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Sempressa - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).


THE AND - 1997
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva)


Fonte: Arnaldo Antunes


Outras
Poemas Visuais de Arnaldo Antunes

terça-feira, 20 de abril de 2010

Poemas Manuel Bandeira

Quatro poesias de Manuel Bandeira.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


O menino doente

O menino dorme.

Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho,
"Dorme . . . dorme . . . meu . . ."

Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho . . . "

E o menino dorme.


Noite morta

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite . . .

(Não desta noite, mas de outra maior.)

Petrópolis, 1921


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Fonte: Jornal de Poesia


Mais
Poesias de Manuel Bandeira

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Poesias de Vinicius

Poemas de Vinicius de Moraes em homenagem as postagens do blogue Cultura e Ciência do Brasil.


A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...


A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938


A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos
astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher
amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Rio de Janeiro, 1950


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963


A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais


Fonte: Saite Oficial Vinicius de Moraes


Confira também:
Poema de Natal, Vinicius de Moraes
Prosa de Vinicius de Moraes
Vídeos Raros com Vinicius de Moraes
Poesias de Vinicius de Moraes
Sem Rosa sem Nada
Vinicius de Moraes, o boêmio incurável
Curta Sabino II com Erico Verissimo, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes
Leia Correspondência entre Chico e Vinícius sobre Valsinha
Na Quarta-feira de Cinzas o Carnaval tem seu Fim

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Poema de Natal, Vinicius de Moraes

Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes, poeta e diplomata na linha direta de Xangô. Saravá! No poema acima temos retratado aquele que, para muitos, é um evento triste.

O acima foi foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.

Fonte: Releituras

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Poemas de Orides Fontela

Poesias da poeta Orides Fontela.

Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

Fonte: JornaldePoesia


Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Fonte: Releituras


Média

Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?

De Transposição (1969)


Fonte: AlgumaPoesia








































Imagens Manuscritos: RevistaE


Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu na cidade de São João da Boa Vista (SP), no dia 21/04/1940. Em 1946, educada por sua mãe, começa a escrever poemas. No ano de 1951, cursa o Ginásio e, em 1955, a Escola Normal de São João da Boa Vista. Seus primeiros versos são publicados em 1956 no jornal “O Município” daquela cidade. Muda-se para São Paulo (SP), em 1967, onde ingressa no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP. Estréia, em 1969, com o livro de poemas “Transposição”, publicado com a ajuda do professor e crítico Davi Arrigucci. Em 1973, lança “Helianto”. Em 1983 é publicado seu terceiro livro de poemas, “Alba”, que recebe o Prêmio Jabuti. Trabalha como professora primária e bibliotecária em várias escolas da rede estadual de ensino. Em 1986, é lançado “Rosácea”. O escritor, poeta e crítico Augusto Massi reúne, em 1988, toda a obra anterior da poeta no livro “Trevo”. Em 1996, o livro “Teia”, reunião de toda a sua obra, recebe o Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Tentando superar suas dificuldades financeiras — havia sido despejada do apartamento onde vivia — vai viver na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João daquela capital. De personalidade difícil, isola-se cada vez mais dos amigos, morrendo em 02/11/1998, num sanatório em Campos do Jordão (SP). Seu livro, “Poesia Reunida”, é lançado em 2006. (fonte: Releituras)