terça-feira, 7 de julho de 2026

Mas era Silêncio o que se Ouvia

Justo Agora, canção de Adriana Calcanhoto, do disco Cantada (2001).


Justo Agora - Adriana Calcanhoto




Justo agora 2001
Adriana Calcanhotto
in: Cantada 03:43

Eu ouvi dizer
que você assim
como quem não quer nada
perguntou por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi você
me dizer que sim
mas era silêncio o que se ouvia
quando dei por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi você
me dizer que sim
mas era silêncio o que havia
quando dei por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi dizer
que você assim
como quem não quer nada
perguntou por mim

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Leia Complexo de vira-latas, crônica original de Nelson Rodrigues

Por "complexo de vira-lata" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. (Nelson Rodrigues)


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Nelson Rodrigues, 1967 (Wikimedia Commons)

Em 1958, há quase 70 anos, Nelson Rodrigues publicou a crônica Complexo de Vira
-Latas. Isso deu origem à expressão e ao conceito que melhor simboliza o sentimento que muitos brasileiros têm em relação ao Brasil.


Essa foi a última crônica de Rodrigues antes da estreia da Seleção Brasileira na Copa de 1958; originalmente, o texto do dramaturgo foi escrito considerando o trauma da derrota na Copa do Mundo de 1950, quando a Seleção Brasileira foi superada pela Seleção Uruguaia na final do torneio, realizada no Maracanã.


Ao final da postagem, deixo o link de um comentário do escritor gaúcho Luis Augusto Fischer sobre a crônica de Nelson Rodrigues. O texto de Fischer está em um arquivo PDF, disponível no site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues


Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:


— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.
Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119, e ao  livro “À sombra das chuteiras imortais: crônicas de chutava”, seleção de notas de Ruy Castro – Companhia das Letras – 1993.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

BibliON lança websérie Literatura pelo Mundo em clima de Copa

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Em ano de Copa do Mundo, a SP Leituras lança a websérie Literatura pelo Mundo, uma jornada inédita por 11 países a partir de suas obras, autores e tradições literárias. A iniciativa celebra a diversidade cultural do planeta e convida o público a “carimbar o passaporte” sem sair de casa, por meio da leitura.

O primeiro episódio já está no ar no canal da BibliON no YouTube e tem o Brasil como destino de estreia. Para conduzir essa primeira viagem, a websérie recebe o escritor, crítico literário e professor Cristhiano Aguiar, vencedor do Prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional por Gótico Nordestino e autor do ensaio Tanto oceano, tanta solidão.

No episódio, Cristhiano apresenta características marcantes da literatura brasileira, compartilha curiosidades sobre a produção nacional e indica obras essenciais para ampliar o repertório dos leitores. Entre os títulos recomendados estão A hora e a vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa; Angústia, de Graciliano Ramos; O corpo desvelado: contos eróticos brasileiros, organizado por Eliane Robert Moraes; Ressuscitar mamutes, de Silvana Tavano; e Um Exu em Nova York, de Cidinha da Silva.

A websérie reunirá 11 especialistas em uma viagem literária por diferentes países, com episódios dedicados a nações como Itália, Japão, Nigéria, Haiti, Estados Unidos e outras paradas. A cada encontro, o público poderá conhecer aspectos históricos, culturais e literários de cada destino, além de receber indicações de leitura disponíveis no acervo digital da BibliON.

BibliON é a biblioteca digital gratuita do Estado de São Paulo. Pelo aplicativo ou pelo navegador, os leitores podem acessar milhares de livros digitais e audiolivros gratuitamente.

O primeiro episódio de Literatura pelo Mundo já pode ser assistido no canal da BibliON no YouTube.

Fonte: Biblioteca de São Paulo


Literatura pelo Mundo: Brasil! 🇧🇷 Curiosidades e Indicações com Cristhiano Aguiar (Ep. 1)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Vídeo Raro de Jorge Ben Jor

Nesta sexta-feira, dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026, nada melhor do que ouvir Jorge Ben Jor. Confira uma antiga apresentação, ao vivo, do brilhante Jorge Ben. Abaixo, vídeo raro de 1972.


Jorge Ben Jor - Apresentação ao vivo 1972


Contexto: O show captura um momento crucial da carreira de Jorge Ben, no auge da criatividade e na transição do samba para o som mais "suingado" e elétrico que o consagraria nos anos 1970.


Formato: Performance ao vivo para a TV, com Jorge Ben no violão e vocais, acompanhado por uma banda compacta (baixo, bateria e percussão). 


Repertório: Versões estendidas de seus maiores clássicos até então. O setlist inclui "Fio Maravilha", "Que Maravilha", "País Tropical", "Domingas", "O Circo Chegou", "Zazueira" e um longo pot-pourri com "Mas Que Nada". 


Lançamento: Apesar de gravado em 1972, esse registro só foi lançado oficialmente em LP muitos anos depois, em 2025, tornando-se um item muito procurado por fãs e colecionadores.


Curiosidade 

A apresentação de 1972 faz parte do programa MPB Especial . Este programa era, na verdade, a versão da TV Cultura para o "Ensaio", um formato criado pelo diretor Fernando Faro. 


A Origem do "Ensaio": O programa "Ensaio" foi criado por Fernando Faro e exibido originalmente pela TV Tupi entre 1969 e 1971.


A Mudança para a TV Cultura: Quando Faro se transferiu para a TV Cultura em 1972, ele levou o formato consigo, rebatizando-o como "MPB Especial". Foi exatamente nessa nova fase que Jorge Ben se apresentou.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sem mais, a Vida vai Passando no Vazio


Altar Particular - Maria Gadú

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
Do teu penoso altar particular

Sei lá, a tua ausência me causou um caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós

Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faça melhor do que lhe parecer

Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor

Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor

Biblioteca Nacional abre inscrições para Prêmio Literário 2026

Escritores brasileiros podem concorrer com obras inéditas


Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Escritores brasileiros, com obras inéditas em primeira edição, redigidas em língua portuguesa e publicadas por editoras do país - entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026 - já podem se inscrever ao Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026.

As inscrições começaram nesta segunda-feira (8) e permanecem abertas até 8 de julho neste endereço online.

De acordo com a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), e promotora da premiação, o concurso é voltado também a autores independentes, desde que a obra esteja em deepósito legal e traga impresso o número do International Standard Book Number (ISBN).

Cada vencedor das 13 categorias receberá R$ 30 mil. A novidade desta edição é o Prêmio João do Rio, categoria dedicada aos livros de crônicas.

Categorias

Concedido anualmente desde 1994, o Prêmio Literário Biblioteca Nacional visa reconhecer a qualidade intelectual das obras publicadas no Brasil.

O concurso é considerado um dos mais conceituados do país e o mais democrático no cenário nacional, uma vez que não tem taxa de inscrição e concede o mesmo valor de premiação para cada uma das 13 categorias.

São elas: Conto (Prêmio Clarice Lispector); Crônica (Prêmio João do Rio); Ensaio Literário (Prêmio Mario de Andrade); Ensaio Social (Prêmio Sérgio Buarque de Holanda); Histórias de tradição oral (Prêmio Akuli); Histórias em quadrinhos (Prêmio Adolfo Aizen); Ilustração (Prêmio Carybé); Literatura Infantil (Prêmio Sylvia Orthof); Literatura Juvenil (Prêmio Glória Pondé); Poesia (Prêmio Alphonsus de Guimaraens); Projeto Gráfico (Prêmio Aloísio Magalhães); Romance (Prêmio Machado de Assis); Tradução (Prêmio Paulo Rónai).

Treze comissões julgadoras, sendo uma por categoria e compostas por três especialistas da área farão a avaliação das obras inscritas. Originalidade, contribuição à cultura nacional, criatividade no uso dos recursos gráficos e excelência da tradução são os critérios que serão considerados.

O resultado final será divulgado até 30 de outubro no Diário Oficial da União e no portal da Fundação Biblioteca Nacional, após a análise de recursos e homologação do resultado pela presidência da FBN.

Fonte: Agência Brasil