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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Milagre do Natal, Lima Barreto

Baixe completo Milagre do Natal, texto de Lima Barreto.

Milagre do Natal - baixar aqui (arquivo pdf)


Trecho

(...) Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria seção.
Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela. (...)


Fonte: DomínioPúblico

sábado, 27 de setembro de 2008

O Suicida e o Computador, conto de Luis Fernando Veríssimo

Conto O Suicida e o Computador, de Luis Fernando Veríssimo, fragmento extraído do livro homônimo.

O Suicida e o Computador

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:

"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."

Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:

"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final."

Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."

Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."

Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:

"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."

Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:

"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."

Era isso ? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.

E foi dormir.



Dica
Assista aqui o curta-metragem A Nota, baseado no conto O Suicida e o Computador, de Luis Fernando Veríssimo.


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Paulo Autran Interpreta Fernando Pessoa e Luis Fernando Veríssimo

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Contos de Machado de Assis pra Baixar

Como já fora dito aqui no Música&Poesia, 2008 é o ano do centenário da morte de Machado de Assis. Sua valiosa e vasta obra é inteiramente de domínio público. Pois aqui vai uma série de contos deste gênio disponível para download.

A coletânea reúne os seguintes contos:
A Cartomante
Entre Santos
Uns Braços
Um Homem Célebre
A Desejada das Gentes
A Causa Secreta
Trio em Lá Menor
Adão e Eva
O Enfermeiro
O Diplomático
Mariana
Conto de Escola
Um Apólogo
D. Paula
Viver!
O Cônego ou Metafísica do Estilo



Fonte: DomínioPúblico


Confira também:
Livro de Machado de Assis completo pra Baixar
Biografia de Machado de Assis
Um Apólogo, conto de Machado de Assis
Conto Completo de Machado de Assis pra Baixar

domingo, 27 de julho de 2008

Quase Matei - Conto

Quase matei

Aperto a bolsa contra o peito, cerro as pálpebras e encosto-me à pia, esperando que a vertigem se dissipe. Ouço, então, com alguma clareza, meu nome. Chamado, como num lamento, repetidas vezes


Isa Fonseca


No café, tentando ler o jornal do dia. Maus pensamentos, sofrimento, tentativa de goles na bebida quente. E a sensação de que a separação, jamais experimentada com tanta dor, não acontecera há duas semanas, mas sim no dia anterior.

Estou entre ir-me ou ficar, mas ficar por quê e ir, para onde?

A coincidência. O casal que entra. A coincidência maldosa. Ele, e ela que desconheço — muito linda, ela, que desconheço —, sentam-se próximos a mim, apenas o espaço de uma mesa do lugar em que estou. Justo ele. Oito horas da manhã; justo ele que detesta levantar cedo no inverno. E no meu bairro, e aqui — por quê? Maldosa coincidência.

Tomás abre o menu, de frente para mim, sem notar-me. Ela, de costas, é então só um vulto que mal distingo, mas que leva a mão direita ali, na costeleta ruiva daquele que é meu amado — tão ruivas as costeletas sob os cabelos claros, a diferença de tons surpreendente. E me vejo em seu lugar, porém num outro espaço, numa outra cadeira; um restaurante, e levo o dedo exatamente ali e sorrio, veja, são ruivas suas costeletas, tão diferentes do claro dos cabelos, tão loiros. E ele sorri para o vulto como havia um dia sorrido para mim, em resposta e o jeito de levar a cabeça de lado, meio coquette, vaidosa e timidamente, o mesmo jeito de dizer displicentemente: "Meu pai era ruivo; único traço seu que herdei".

Ela faz ali uma carícia, debruçada a meio corpo sobre a mesa, e sinto os membros gelados. Ela é doloridamente linda (e faço menção de morder levemente o lábio inferior, com inveja), mas posso perceber que ele não a ama, sei quando está amando, isto sei, penso, esfregando os braços de frio. A menos que... Por que o olhar de ternura, agora? Que deveria ser só para mim? Ah, desse jeito e assim, só para mim!

Contenho-me e baixo a vista, as letras embaralhadas do jornal. O café esfria e encontro um motivo para ir-me. Hesito. É preciso, antes, matar isto dentro de mim, digo-me. E, entre-dentes vêm, numa seqüência que é também desgostosa e melancólica surpresa: matar, matar... Eis outra boa razão para ir-me, penso, dobrando o jornal, quase satisfeita pela firmeza da atitude.

Chamo o garçom, mas nenhum som sai da minha boca numa primeira vez. Quando elevo a voz e esta vem nítida, o garçom (e, percebo, num relance, que Tomás, da sua cadeira, também me vê) aparece e peço a conta e, antes que o rapazinho em seu longo avental branco volte lá do caixa, calculo o café e a gorjeta, deixo as moedas sobre a mesa e ergo-me.

Não, que mau gosto, virá o amado em minha direção, enquanto planejo o que deve morrer? Levantou-se com determinação. Vem. E para dizermos o quê, um para o outro, se tudo já foi dito? Ergo-me num salto, colocando o jornal sob o braço e ajeitando a bolsa sobre o ombro; mas, ao invés de caminhar para a porta, rumo ao banheiro, próximo à mesa, deixando-o sem ação, a poucos passos. Que mau gosto, repito-me. Falarmos o quê, um ao outro e assim, num lugar público?

Aperto a bolsa contra o peito, cerro as pálpebras e encosto-me à pia, esperando que a vertigem se dissipe. Ouço, então, com alguma clareza, meu nome. Chamado, como num lamento, repetidas vezes. Assim que abro os olhos, tudo seria só silêncio não fossem as gotas insistentes de uma torneira mal fechada. Agarro-a e fecho-a, torcendo-a — pescocinho que resiste.

Dentro da bolsa, o batom. Escrevo em vermelho furioso seu nome no espelho, em seguida apago-o vigorosamente com o papel-toalha e saio, pisando os ladrilhos com raiva. Aguço a vista e Tomás ainda está ali, como se jamais houvesse se levantado e caminhado em minha direção, chamado chorosamente por mim. Ele está ali com ela, ela linda — que desconheço, ela que ele não ama — e sorve lentamente o café, os ombros eretos, o rosto sereno, enquanto passo ao largo e caminho tropegamente em direção à porta, uma estranha sensação de falta.

Na calçada, o coração ainda bate em descompasso e, percebo, então, caminhando a passos largos, entre lágrimas e o peito seco que, o que deve morrer, não... Não ainda, daquela vez.

Não ainda, repito em voz alta e estanco o passo; examino as mãos vazias e dou-me conta — tentando colocar a raiva no lugar da dor — que esqueci, em algum lugar, o meu jornal.



Isa Fonseca é jornalista, escritora e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.

Fonte: LeMondeDiplomatique

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quarta-feira, 23 de julho de 2008

Conto de Olavo Bilac

COMO OS CÃES
Olavo Bilac

— Não é possível, senhora! — dizia o comendador à esposa — não é possível!

— Mas se eu lhe digo que é certo, seu Lucas! — insistia a D. Teresa — pois é mesmo a nossa filha quem m’o disse!

O comendador Lucas, atônito, coçou a cabeça:
— Oh! senhora! mas isso é grave! Então o rapaz já está casado com a menina há dois meses e ainda...

— Ainda nada, seu Lucas, absolutamente nada!

— Valha-me Deus! Enfim, eu bem sei que o rapaz, antes de casar, nunca tinha andado pelo mundo... sempre agarrado às saias da tia... sempre metido pelas igrejas.

— Mas — que diabo! — como é que, em dois meses, ainda o instinto não lhe deu aquilo que a experiência já lhe devia ter dado?! Enfim, vou eu mesmo falar-lhe! Valha-me Deus!

E, nessa mesma noite, o comendador, depois do jantar, chamou à fala o genro, um moço louro e bonito, dono de uns olhos cândidos...

— Então, como é isso, rapaz? tu não gostas de tua mulher?

— Como não gosto? Mas gosto muito!

— Tá tá tá... Vem cá! que é que tu lhe tens feito, nestes dous meses?

— Mas... tenho feito tudo! converso com ela, beijo-a, trago-lhe frutas, levo-a ao teatro... tenho feito tudo...

— Não é isto, rapaz, não é somente isso! o casamento é mais que alguma cousa! tu tens de fazer o que todos fazem, caramba!

— Mas... não entendo...

— O´ homem! tu precisas... ser marido de tua mulher!

— ... não compreendo...

— Valha-me Deus! tu não vês como os cães fazem na rua?

— Como os cães? ... como os cães?... sim... parece-me que sim...

— Pois, então? Faze como os cães, pedaço de moleirão, faze como os cães! E não te digo
mais nada! Faze como os cães...!

— E, ao deitar-se, o comendador disse à esposa, com um risinho brejeiro:

— Parece que o rapaz compreendeu, senhora! e agora é que a menina vai ver o bom e o
bonito...

*
* *
Uma semana depois, a Rosinha, muito corada, está diante do pai, que a interroga. O
comendador tem os olhos esbugalhados de espanto:


— Que, rapariga? pois então, o mesmo?

— O mesmo... ah! é verdade! houve uma coisa que até me espantou... ia-me esquecendo...
houve uma cousa... esquisita...

— Que foi? que foi? — exclamou o comendador — que foi?... eu logo vi que devia haver alguma cousa!

— Foi uma cousa esquisita... Ele me pediu que ficasse... assim... assim... como um bicho... e...

— E depois? e depois?

— E depois... depois... lambeu-me toda... e...

— ...e?

— ... e dormiu!


Fonte: DomínioPúblico

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Conto de Clarice Lispector

Mal-estar de um anjo
Clarice Lispector


Ao sair do edifício, o inesperado me tomou. O que antes fora apenas chuva na vidraça, abafado de cortina e aconchego, era na rua a tempestade e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador? Dilúvio carioca, sem refúgio possível, Copacabana com água entrando pelas lojas rasas e fechadas, águas grossas de lama até o meio da perna, o pé tateando para encontrar calçadas invisíveis. Até movimento de maré já tinha, onde se juntasse o bastante de água começava a atuar a secreta influência da Lua: já havia fluxo e refluxo de maré. E o pior era o temor ancestral gravado na carne: estou sem abrigo, o mundo me expulsou para o próprio mundo, e eu que só caibo numa casa nunca mais terei casa na vida, esse vestido ensopado sou eu, os cabelos escorridos nunca secarão, e sei que não serei dos escolhidos para a Arca, pois já selecionaram o melhor casal de minha espécie.
Pelas esquinas os carros de motor paralisado, e nem sombra de táxi. E a alegria feroz de vários homens finalmente impossibilitados de voltar para casa. A alegria demoníaca dos homens livres ainda mais ameaçava quem só queria casa própria. Andei sem rumo ruas e ruas, mais me arrastava que andava, parar é que era o perigo. De minha desmedida desolação eu só conseguia que ela fosse disfarçada. Alguém, radiante sob uma marquise, disse: que coragem, hein, dona! Não era coragem, era exatamente o medo. Porque tudo estava paralisado, eu que tenho medo do instante em que tudo pare tinha que andar.

E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas. Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força, disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi, já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos, enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti ao mundo acabar-se.

Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim, e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas, como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente, o que me deixou tímida na minha própria casa.

E começou o meu calvário de anjo - pois a mulher, com sua voz autoritária, já tinha começado a me chamar de anjo. Não poderia ser menos comovente o seu caso: aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première. Eu já tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam comovido. "A senhora não sabe o milagre que me aconteceu", contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na rua, a rezar para que Deus me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de não comer quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida, remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières? A ironia divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força de sua fé prática, e tratava-se de mulher forte, continuava impositivamente a reconhecer o anjo em mim, o que só pouquíssimas pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior discrição. Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize, sou apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer ocorreu compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade não me isentava: anjos também são meios de transporte. Intimidada, calei-me. Fico muito impressionada com quem grita comigo: a mulher não gritava, mas claramente mandava em mim. Impossibilitada de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo: aquela senhora, que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser mulher habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer ao anjo com um cheque, também levando em conta que a chuva já devia ter lavado toda a minha distinção. Com um pouco mais de confortável cinismo, em silêncio, declarei-lhe que dinheiro seria um meio tão legítimo como qualquer outro de agradecer, já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me eu - bem poderia dar-me em agradecimento o vestido da première, pois o que ela realmente deveria agradecer não era ter um vestido seco, e sim ter sido atingida pela graça, isto é, por mim. Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um tem o anjo que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura curiosidade um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma vai se arrumar com a idéia de um anjo interessado em roupas". Parece-me que, no meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida para servir de anjo à tolice ardente de uma senhora.

A verdade é que ser anjo estava começando a me pesar. Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa, e pelo menos durante algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei também a compreender como os anjos se chateiam: eles servem a tudo. Isso nunca me ocorrera. A menos que eu fosse um anjo muito embaixo na escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só aprendiz de anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever, acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já não podia mais negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém, eu só fora mandada ao mundo para aquele instante de utilidade. Era isso, pois, o que eu valia. No táxi, eu não era um anjo decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e fechei a cara. Um pouco mais e teria dito àquela de quem eu era com tanta revolta o anjo da guarda: faça o obséquio de descer já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada, agüentando o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme embrulho. Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de minha função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada. Já na altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda entre nós.

- Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha espontaneidade é faca de dois gumes também para os outros, o táxi vai antes me deixar em casa e depois é que segue com a senhora.

- Mas, disse ela surpreendida e em começo de indignação, depois vou ter que dar uma volta enorme e vou me atrasar! é só um pequeno desvio para me deixar em casa!

- Pois é, respondi seca. Mas não posso entrar pelo desvio.

- Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda com que teria se lembrado de me agradecer.

- Eu é que pago tudo, insultei-a.

Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de Pelotas.

CLARICE LISPECTOR. Mal-estar de um anjo.
In Para Não Esquecer. São Paulo, Ática, 1984



Fonte: Lumiarte

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Conto de Clarice Lispector

Começos de Uma Fortuna

Clarice Lispector


Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. E que mais se assemelhavam à idéia que fazemos do tempo.

A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia. Só algumas moscas brilhantes haviam penetrado na sala de jantar e sobrevoavam o açucareiro. A essa hora, Tijuca não havia despertado de todo. "Se eu tivesse dinheiro..." pensava Artur, e um desejo de entesourar, de possuir com tranqüilidade, dava a seu rosto um ar desprendido e contemplativo.

— Não sou um jogador.

— Deixe de tolices, respondeu a mãe. Não recomece com histórias de dinheiro.

Na realidade ele não tinha vontade de iniciar nenhuma conversa premente que terminasse em soluções. Um pouco da mortificação do jantar da véspera sobre mesadas, com o pai misturando autoridade e compreensão e a mãe misturando compreensão e princípios básicos — um pouco da mortificação da véspera pedia, no entanto, prosseguimento. Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem. Cada noite o sono parecia responder a todas as suas necessidades. E de manhã, ao contrário dos adultos que acordam escuros e barbados, ele despertava cada vez mais imberbe. Despenteado, mas diferente da desordem do pai, a quem parecia terem acontecido coisas durante a noite.

Também sua mãe saía do quarto um pouco desfeita e ainda sonhadora, como se a amargura do sono tivesse lhe dado satisfação. Até tomarem café todos estavam irritados ou pensativos, inclusive a empregada. Não era esse o momento de pedir coisas. Mas para ele era uma necessidade pacífica a de estabelecer domínios de manhã: cada vez que acordava era como se precisasse recuperar os dias anteriores. Tanto o sono cortava suas amarras, todas as noites.

— Não sou um jogador nem um gastador.

— Artur, disse a mãe irritadíssima, já me bastam as minhas preocupações!

— Que preocupações? perguntou ele com interesse.

A mãe olhou-o seca como a um estranho. No entanto ele era muito mais parente que seu pai, que, por assim dizer, entrara na família. Apertou os lábios.

— Todo o mundo tem preocupações, meu filho, corrigiu-se ela entrando então em nova modalidade de relações, entre maternal e educadora.

E daí em diante sua mãe assumira o dia. Dissipara-se a espécie de individualidade com que acordava e Artur já podia contar com ela. Desde sempre, ou aceitavam-no ou reduziam-no a ser ele mesmo. Em pequeno brincavam com ele, jogavam-no para o ar, enchiam-no de beijos - e de repente ficavam "individuais" — largavam-no, diziam gentilmente mas já intangíveis: "agora acabou", e ele ficava todo vibrante de carícias, com tantas gargalhadas ainda por dar. Tornava-se implicante, mexia num e noutro pé, cheio de uma cólera que, no entanto, se transformaria no mesmo instante em delícia, em pura delícia, se eles apenas quisessem.

— Coma, Artur, concluiu a mãe e de novo ele já podia contar com ela. Assim imediatamente tornou-se menor e muito mais malcriado:

— Eu também tenho as minhas preocupações mas ninguém liga. Quando digo que preciso de dinheiro parece que estou pedindo para jogar ou para beber.

— Desde quando é que o senhor admite que podia ser para jogar ou para beber? disse o pai entrando na sala e encaminhando-se para a cabeceira da mesa. Ora essa! que pretensão!

Ele não contara com a chegada do pai. Desnorteado, porém habituado, começou:

— Mas papai! sua voz desafinou numa revolta que não chegava a ser indignada. Como contrapeso, a mãe já estava dominada, mexendo tranqüilamente o café com leite, indiferente à conversa que parecia não passar de mais algumas moscas. Afastava-as do açucareiro com mão mole.

— Vá saindo que está na sua hora, cortou o pai. Artur virou-se para sua mãe. Mas esta passava manteiga no pão, absorta e prazerosa. Fugira de novo. A tudo diria sim, sem dar nenhuma importância.

Fechando a porta, ele de novo tinha a impressão de que a cada momento entregavam-no à vida. Assim é que a rua parecia recebê-lo. "Quando eu tiver minha mulher e meus filhos tocarei a campainha daqui e farei visitas e tudo será diferente", pensou.

A vida fora de casa era completamente outra. Além da diferença de luz — como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia e que disposições haviam tomado as circunstâncias durante a noite — além da diferença de luz, havia a diferença do modo de ser. Quando era pequeno, a mãe dizia: "fora de casa ele é uma doçura, em casa um demônio". Mesmo agora, atravessando o pequeno portão, ele se tornara visivelmente mais moço e ao mesmo tempo menos criança, mais sensível e sobretudo sem assunto. Mas com um interesse dócil. Não era uma pessoa que procurasse conversas, mas se alguém lhe perguntava como agora: "menino, de que lado fica a igreja?", ele se animava com suavidade, inclinava o longo pescoço, pois todos eram mais baixos que ele; e informava atraído, como se nisso houvesse uma troca de cordialidades e um campo aberto à curiosidade. Ficou atento olhando a senhora dobrar a esquina em caminho da igreja, pacientemente responsável pelo seu itinerário.

— Mas dinheiro é feito para gastar e você sabe com quê, disse-lhe Carlinhos intenso.

— Quero para comprar coisas, respondeu um pouco vago.

— Uma bicicletinha? riu Carlinhos ofensivo, corado na intriga.

Artur riu desagradado, sem prazer.

Sentado na carteira, esperou que o professor se erguesse. O pigarro deste, prefaciando o começo da aula, foi o sinal habitual para os alunos se sentarem mais para trás, abrirem os olhos com atenção e não pensarem em nada. "Em nada", foi a resposta perturbada de Artur ao professor que o interpelava irritado. "Em nada" era vagamente em conversas anteriores, em decisões pouco definitivas sobre um cinema à tarde, em — em dinheiro. Ele precisava de dinheiro. Mas durante a aula, obrigado a estar imóvel e sem nenhuma responsabilidade, qualquer desejo tinha como base o repouso.

— Você então não viu logo que Glorinha estava querendo ser convidada pro cinema? disse Carlinhos, e ambos olharam com curiosidade a menina que se afastava segurando a pasta. Pensativo, Artur continuou a andar ao lado do amigo,olhando as pedras do chão.

— Se você não em dinheiro para duas entradas, eu empresto, você paga depois.

Pelo visto, do momento em que tivesse dinheiro seria obrigado a empregá-lo em mil coisas.

— Mas depois eu tenho que devolver a você e já estou devendo ao irmão de Antônio, respondeu evasivo.

— E então? que é que tem! explicou o outro, prático e veemente.

"E então", pensou com uma pequena cólera, "e então, pelo visto, logo que alguém tem dinheiro aparecem os outros querendo aplicá-lo, explicando como se perde dinheiro."

— Pelo visto, disse desviando do amigo a raiva, pelo visto basta você ter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima.

Os dois riram. Depois disso ele ficou mais alegre, mais confiante. Sobretudo menos oprimido pelas circunstâncias.

Mas depois já era meio-dia e qualquer desejo se tornava mais árido e mais duro de suportar. Durante todo o almoço ele pensou com rispidez em fazer ou não fazer dívidas e sentia-se um homem aniquilado.

— Ou ele estuda demais ou não come bastante de manhã, disse a mãe. O fato é que acorda bem disposto mas aparece para o almoço com essa cara pálida. Fica logo com as feições duras, é o primeiro sinal.

— Não é nada, é o desgaste natural do dia, disse o pai bem humorado.

Olhando-se no espelho do corredor antes de sair, realmente era a cara de um desses rapazes que trabalham, cansados e moços. Sorriu sem mexer os lábios, satisfeito no fundo dos olhos. Mas à porta do cinema não pôde deixar de pedir emprestado a Carlinhos, porque lá estava Glorinha com uma amiga.

— Vocês preferem sentar na frente ou no meio? perguntava Glorinha.

Diante disso, Carlinhos pagou a entrada da amiga e Artur recebeu disfarçado o dinheiro da entrada de Glorinha.

— Pelo visto, o cinema está estragado, disse de passagem para Carlinhos. Arrependeu-se logo depois de ter falado, pois o colega mal ouvira, ocupado com a menina. Não era necessário diminuir-se aos olhos do outro, para quem uma sessão de cinema só tinha a ganhar com uma garota.

Na realidade o cinema só esteve estragado no começo. Logo depois ele relaxou o corpo, esqueceu-se da presença ao lado e passou a ver o filme. Somente perto do meio teve consciência de Glorinha e num sobressalto olhou-a disfarçado. Com um pouco de surpresa constatou que ela não era propriamente a exploradora que ele supusera: lá estava Glorinha inclinada para frente, a boca aberta pela atenção. Aliviado, recostou-se de novo na poltrona.

Mais tarde, porém, indagou-se se tinha ou não sido explorado. E sua angústia foi tão intensa que ele parou diante da vitrina com uma cara de horror. O coração batia como um punho. Além do rosto espantado, solto no vidro da vitrina, havia panelas e utensílios de cozinha que ele olhou com certa familiaridade. "Pelo visto, fui", concluiu e não conseguia sobrepor sua cólera ao perfil sem culpa de Glorinha. Aos poucos a própria inocência da menina tornou-se a sua culpa maior: "então ela explorava, explorava, e depois ficava toda satisfeita vendo o filme?". Seus olhos se encheram de lágrimas. "Ingrata", pensou ele escolhendo mal uma palavra de acusação. Como a palavra era um símbolo de queixa mais do que de raiva, ele se confundiu um pouco e sua raiva acalmou-se. Parecia-lhe agora, de fora para dentro e sem nenhuma vontade, que ela deveria ter pago daquele modo a entrada do cinema.

Mas diante dos livros e cadernos fechados, seu rosto desanuviava-se.

Deixou de ouvir as portas que batiam, o piano da vizinha, a voz da mãe no telefone. Havia um grande silêncio no seu quarto, como num cofre. E o fim da tarde parecia com uma manhã. Estava longe, longe, como um gigante que pudesse estar fora mantendo no aposento apenas os dedos absortos que viravam e reviravam um lápis. Havia instantes em que respirava pesado como um velho. A maior parte do tempo, porém, seu rosto mal aflorava o ar do quarto.

— Já estudei! gritou para a mãe que interpelava sobre o barulho da água. Lavando cuidadosamente os pés na banheira, ele pensou que a amiga de Glorinha era melhor que Glorinha. Nem tinha procurado reparar se Carlinhos "aproveitara" ou não da outra. A essa idéia, saiu muito depressa da banheira e parou diante do espelho da pia. Até que o ladrilho esfriou seus pés molhados.

Não! não queria explicar-se com Carlinhos e ninguém lhe diria como usar o dinheiro que teria, e Carlinhos podia pensar que era com bicicletas, mas se fosse o que é que tem? e se nunca, mas nunca, quisesse gastar o seu dinheiro? e cada vez ficasse mais rico?... que é que há, está querendo briga? você pensa que...

— ... pode ser que você esteja muito ocupado com os seus pensamentos, disse a mãe interrompendo-o, mas ao menos coma o seu jantar e de vez em quando diga uma palavra.

Então ele, em súbita volta à casa paterna:

— Ora a senhora diz que na mesa não se fala, ora quer que eu fale, ora diz que não se fala de boca cheia, ora...

— Olhe o modo como você fala com sua mãe, disse o pai sem severidade.

— Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas, papai, como é promissórias?
— Pelo visto, disse o pai com prazer —, pelo visto o ginásio não serve para nada.

— Coma mais batata, Artur, tentou a mãe inutilmente arrastar os dois homens para si.

— Promissórias, dizia o pai afastando o prato, é assim: digamos que você tenha uma dívida.


Texto extraído do livro "Laços de família", Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998.

Fonte: Releituras

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Não sou Anjo Nenhum, Conto

Não sou anjo nenhum
Samara Leonel

Foi a primeira frase que ela me disse. "Não sou anjo nenhum e jamais disse que era." Modo estranho de começar um depoimento. Depoimento, de resto, todo estranho. Por isso agora, expediente acabado, escrevo neste quarto de hotel. Para tirar de dentro e dormir. Desintoxicar

Não era um anjo, mas era verdade que demorou na vida para conhecer o pecado. Foi mais, mesmo, quando conheceu o homem. Antes, seus pecados eram a preguiça – para a qual logo não sobrou muito tempo, filha que era de uma família de pescadores. E um tiquinho de gula, quando a mãe fazia doce, que ela adorava. O resto não conhecia, não. Cresceu reta na vida de sol e trabalho, igreja aos domingos, aprender a rezar para que o pai e os irmãos sempre voltassem do mar. Mas um dia ele chegou.

Luxúria, diria eu; ela usou "desejo". E cobiça. Quando aquele homem de pele clara e cabelos louros chegou, ela só tinha quinze anos, mas o quis de imediato. Ela nem sabia bem pra quê, foi descobrir direito depois, mas queria. Queria a voz dele, aquele sotaque que raspava nos erres e que amolecia suas pernas, queria os braços fortes, e mais tarde, quando descobriu que os olhos dele eram verde-água e não escuros como o de toda gente, quis aqueles olhos para ela também. E desde o dia que o viu, só o queria mais ver. Mais e mais. Entrou numa consumição.

Até a mãe a deixou um dia sem trabalhar, porque a encontrou com febre. Mas a febre só fazia aumentar... À tarde disse que estava bem e pediu para ir à venda. Foi nesse dia que ela se fez notar – daí, para ele cair na sedução fácil da carne virgem que se oferecia, foi um pulo, questão de dias. Poucos dias.

Ela já tinha ouvido falar que ele tinha uma mulher, branca como ele. Mas não importava, nada importava. Era atrás dela que ele ia – e atrás das dunas de areia branca ela descobriu para que mais o queria. Descobriu que também queria o peso daquele homem entre suas coxas, que queria seu hálito e o roçar daquele cabelo fino no seu rosto. Tudo isso é comum na vida de todo mundo, mas o olho brilhante daquela menina dizendo "eu descobri o céu...", sem vergonha nenhuma, numa sala só de homens, é coisa que mexe com a gente.

A família, por sorte, era muito quieta, não gostavam de fofocas e a mãe não ia muito prosear na vila. Mas a mulher do gringo, não. Começou a assuntar, a querer saber, a seguir o marido. E, para desespero dela, o homem começou a se apavorar. Não aparecia a encontro marcado, propunha lugares cada vez mais ermos. "Por que não larga dela de uma vez e fica comigo? Porque tem tanto medo? O que te prende a essa mulher?" Ela perguntava, cada vez mais irada, e ele ria nervoso, dizia que eram coisas que ela não entenderia... Até que chegou o dia que ele não apareceu mais e mandou recado para ela, que eles deviam esperar a mulher se acalmar. "Até quando?" Ele nunca respondeu.

Ela chorou, chorou, chorou uma noite inteira no quintal, alegando para a mãe que estava com falta de ar e ia sair do quarto. A mãe estava tão cansada que nem perguntou. Procurava o gringo por tudo, mas ele desviava dela.

Até aquela tarde. Ela chegou em casa da venda e estava tudo parado, estranho. Ela sentiu um arrepio. Quando entrou, na sala de chão batido, a gringa olhou para ela com ar de vencedora. Levantou e saiu, nem se despediu da mãe ou lhe dirigiu a palavra. O rosto da mãe estava lavado de vergonha. Aquele dia ela apanhou da mãe, até o pai chegar. Então apanhou do pai, até ele se cansar. Eles não falavam, não xingavam, só batiam. Gente quieta. Dava para ver que ela falava sem ódio deles. Deles.

Ela disse que foi nessa noite que ela aprendeu a odiar a gringa, de quem antes só tinha raiva. Um ódio feio, grande, descomunal. Daí em diante ela perdeu a expressão e voltou a ter a cara que tinha no começo do depoimento.

A partir daquele dia ficou meio que presa na casa dos pais, sem muita chance de saída. Na cidade inteira chamavam ela de "a puta do gringo" – faziam em voz alta o que antes cochichavam. Para a família era vergonha grande, era filha de nunca mais casar. Mas ouviu um moleque comentar com um irmão que os gringos iam embora. Foi demais para ela. Passou aquela noite inteirinha pensando, olhando pro teto. Sem uma lágrima. Fugiu enquanto a mãe lavava roupa, com a faca de abrir peixe. Se esgueirando pela cidade, entrou na casa dos gringos pela janela e estripou a mulher branca como se fizesse isso de pequena.

Nos descreveu o modo como a derrubou com um golpe de licoreira e cada um dos doze golpes como se fosse ontem. Sem emoção, sem nojo, sem alegria.

Quando alguém disse, irônico, que ela não parecia se arrepender, ela não demonstrou vergonha. "Só lamento ter terminado de me separar do gringo para sempre. Mas ela tinha que morrer. Quando me trouxeram pra cá, sabia que estava perdida pra sempre. Daqui ninguém sai. Nem ninguém me visita, nem ele, nem mesmo minha mãe. Estou aqui há quanto? Três anos? Mas matava, matava ela de novo. E ainda mais devagar. Maldita."

Quando ela disse “maldita”, seu olho quase brilhou e me deu medo. Não, ela não era nem um anjo. Mas naquela determinação metálica, tinha algo nela que ia além do humano.



Samara Leonel é jornalista e mestranda em literatura japonesa. Acredita que as histórias estão aí pelo mundo, prontas para ser colhidas por aqueles que se permitem o exercício de se abrir para elas. Acredita também que as palavras podem mudar o mundo e as pessoas.

Fonte: LeMondeDiplomatique

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um Apólogo, conto de Machado de Assis

Um Apólogo

Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Publicado originalmente em Gazeta de Notícias 1885

Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.


Fonte: Releituras


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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Pro Santo, suspense em conto

Pro Santo
Alessandro Araújo

Enxerguei-a, riscando círculos com uma pedra vermelha, em uma das faixas de pedestre, mirando o semáforo. O sinal verde se acendia. Ela delineava círculos. Os carros passavam.

– Quer morrer?

Riu e correu. No breu foi até a outra esquina, ajoelhou-se e esboçou mais circunferências no asfalto.

Acendi um cigarro antes de engolir de uma vez a cachaça que o barbudo serviu. Voltei os olhos para a esquina e a Figura assustou-se com o sinal vermelho. Eu estava distante, mesmo assim pude ouvir sua voz de fome:

– A verdade está de olhos famintos. Franziu a testa, mas ao iluminar da luz vermelha estarreceu-se e fugiu. Os carros buzinavam.

– Sai!

A boemia comentou assim como eu, aos berros, que igualmente beberiam. Estiquei o pescoço e fracassei, não a vi. Sentia frio, aquele agasalho que conquistei no inverno passado estava aos trapos, meus sapatos velhos e cabelos gosmentos. O barbudo era plena desconfiança. Implorei a última dose como um político por voto. Ele botou menos do que uma dose, bateu o copo no balcão raspando em meu dedo indicador. Degustei vagarosamente exibindo minha boca umedecida para o barbudo. Olho por dente, quem me disse outra vez foi a Figura. No último gole fiz charme de gatuno, olhei as horas, levantei-me, penteei meus cabelos e abri a carteira. Joguei duas notas e dei as costas.

Caminhei para a esquina observando as faixas, categorizei os círculos vermelhos. Disfarcei cuspindo ao chão e pisei, foi o lembrete de meus sapatos podres, quando senti um dos meus pés umedecer. Forcei a memória, foi por esta rua que ela entrou. Instantaneamente girei meu tronco franzino. Nada. No relance avistei mais uma circunferência, pequena e fina, delicadamente toquei. Estava fresca porque dela ainda saía poeira, me enchi de alegria infantil pela possibilidade abrupta de reencontrá-la. Como se visse pinga em encruzilhada balancei-me todo, enquanto a chama do cigarro clareava meus lábios na escuridão.

Em frente havia um motel e o luminoso falhava. Lia-se MO, depois TEL e no terceiro piscar do ciclo MOTE. Havia um menino sentado atrás, em um caixote, segurava uma sacola plástica. Levava até a boca e colava-se. O rastro do risco dava no motel. Cobri-me de lucidez colocando as mãos no bolso. Estufei o peito ao ouvir ranger a porta do motel. E de lá um senhor engravatado abriu sociável sorriso. Convidava citando preços, mas em meus bolsos apenas as mãos. Tentei perguntar o paradeiro da Figura. O intratável apontou as promoções da noite. O menino iniciou meu silêncio quando gargalhou. Percebi o dano que causaria a minha imagem racional. Neguei-me. Calei-me e imitei o menino. Aos passos pigarreei em direção a esquina seguinte.

Quando foi a última vez que ela sorriu para mim. Estas lembranças. Isto sim era felicidade. Meu nome quem se lembra? A mim já basta. Sentado sentia felicidade de ganho no bicho acariciando a aguardente com a língua. Era assim que a Figura ria para mim. Em noite igual, sentado como aquele menino. Idêntico. Mas em meu estilo clássico. Ela de saía jeans e andar malicioso nas más línguas. Segurava como se fosse soltar ao chão aquela garrafa lacrada. Fitava-me insinuando a certeza.

– Dê-me um cigarro? Servi-a, calmo. Mas não disse uma frase, maldita! Estávamos no vale do Anhangabaú deitados bebendo e olhando o céu escuro. Ébrio momento de ágeis línguas. Depois de tudo, ela passeava os dedos em meu rosto gasto. Murmurava docemente:

– Meu único de graça!

A cada pisar a nostalgia ia de encontro aos círculos. Ela só podia ter se escondido lá. Clareava minhas idéias nuas. Sem pestanejar já estava com as luzes piscando sobre meu casaco. O engravatado não perdeu tempo comigo. Desisti. Não entendia os círculos, mas só podia ser ela. Não havia possibilidade de adentrar aquele motel sem notas, os seguranças me botariam pra fora às tapas. A angústia tomou-me conta. Mais três quarteirões eu chegava ao terminal Bandeira. Parado ofegava na fila do ônibus. Rapidamente se encheu. Pedi ao cobrador para passar por baixo. Autorizou-me como um ditador. Os olhos dos passageiros faziam minhas ações lentas. Envergonhado abaixei a cabeça e retirei os papéis. Falei, como um advogado pelo seu cliente: “Meussenhores e senhoras. Tenho trêsfilhos e tô desempregado. Pesso que mi ajude pelo amor de Jesus sagrado. O médico disse que minha bixiga não pode ter mijo. E tenho que toma rimédio caro. Não arrumo imprego. Me ajude pois quem divedi o pão, Jesus dá im drobo. Obrigado e desculpa o imcomodo. E o santo lhe acompanhe!”. Era exatamente o que estava escrito. Mas aqueles gestos e trajes tornavam-me cego, mudo, surdo e invisível para os passageiros. A velhinha do último banco reclamou do mau cheiro. O jovem gordo não esperou o papel chegar até ele. Levantou-se desabotoando o terno. Abriu a palma de minha mão em três notas gritando:

– Irmãos! Deus disse para não julgarmos os outros! Para não oprimir os vagabundos e parasitas da sociedade! Não Julgarás para não ser julgado! Não ouvi o resto. Timidamente agradeci e dei o sinal para descer.

Em alguns metros da avenida Nove de Julho, um adolescente caído de bêbado. Vasculhei seus bolsos. Descobri três notas. Ele não obteve sucesso em reagir, andei apressado. Vi minha felicidade no letreiro, MOTE. O engravatado interrogou-me:

– Quanto?

– Cinco notas.

– Só!

– Como só? Não era isso?

– Vai! Vai! Sobe e não me enche! No fim das escadas o néon, o balcão e mulheres nuas. Girei no centro do salão. Adentrei pelo corredor, três quartos. Gritei pela Figura. Arrombei a porta de um deles com o pé. Em um tempo curto, fui preso pelas costas e jogado escadas a baixo. O menino assoprou a sacola e gargalhou. Desesperadamente limpei-me das vergonhas resmungando. Num sopro saltei do chão. Fracassado, andando pelos becos. Um assombro me deu no caminho da Praça da República, naquela rua famosa. A Barão. Um círculo mais forte e vermelho que os outros. Eu o tocava curioso. Quando escondido atrás do banco. Foi ali, a última vez que a vi. Grande Figura. Triste e vermelha Figura. Rodeada por cinco homens, sem pudor. Surravam. Espancavam. Em uma das faixas de pedestre.

Acordei. Levantei meu rosto que estava colado. Foi sonho. O barbudo bateu o copo no balcão raspando em meu cotovelo, levantei-me bruscamente. Sem remorso, levantei o copo, joguei a metade da cachaça no chão e berrei:

– Pro Santo! A boêmia riu extasiada. Olhei as horas, levantei-me, penteei meus cabelos e abri a carteira. Joguei duas notas pro Barbudo e dei as costas.

Alessandro Araújo é escritor.


Fonte: CarosAmigos

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Texto no Limite entre o Conto e a Crônica

Felicidade à brasileira
por Urariano Mota

Há duas semanas, precisei de um atestado de sanidade física e mental. Quem me conhece sabe que esse atestado, aplicado ao indivíduo que sou, ou é desonesto ou é impossível. Mas que fazer, a gente precisa, e necessidade não tem lógica, tem é a carência enorme, à procura de satisfação. Eu buscava, portanto, um Atestado de Sanidade Física e Mental. Assim em maiúsculas fica até mais digno, e mais crível. Por isso abro o catálogo telefônico e destaco os números de telefone dos centros médicos, Centro Médico, devo dizer, para maior idoneidade dos Centros. Ligo, e começa o nonsense.

- Roseli...
- É do Centro Médico Ulisses Eulâmpio?
- Sim, Roseli, às suas ordens.
- É do Centro Médico?
- Sim .. um momento.

E depois de 3 minutos de intervalo, por vingança, suponho, porque eu não soube logo que o Centro Médico Ulisses Eulâmpio e Roseli eram uma só e só uma pessoa.

- Sim...Fale.
- Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?
- Atestado de....
- Sanidade Física e Mental.
- Só o Físico.
- E o Mental?
- O senhor tem que ir a um médico de doença mental.

Antes que eu agradeça, a recepcionista que é uma instituição desliga. Ligo para outros, outros Centros Médicos, outras Centrais de Atendimento de Saúde, até para Hospitais. Sempre a mesma conversa. Só o físico atestamos, o senhor, se quiser, que vá a um psiquiatra pegar o outro. E o outro, bem sei, por mais características certas e inabaláveis de esquizofrenia, o outro sou eu. Que não vai correr esse risco. Por isto este, aqui, volta a um décimo Centro Médico de Saúde.

- Escute, vocês não têm médico clínico geral?
- Só temos especialistas.
- E não têm dois especialistas, um físico e um mental, no Centro?
- O senhor deveria ir a um Hospital Psiquiátrico.

Desligam. Mas o louco, que bem sabe estar no Brasil, terra de todas as possibilidades possíveis e imaginárias, não desiste. E lhe dizem, na vigésima primeira tentativa.

- Centro de Medicina do Trabalhador.
- Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?
- Sim, fornecemos.
- Atestado de Sanidade Física... e Mental?!
- Sim, fornecemos.
- Certo.... (E repito, para maior certeza)... Atestado de sanidade física e mental.
- Um momento....

E por vingança, suponho, deixa-me a esperar bons 4 minutos, porque não ouvi bem, e se ouvi deveria ter acreditado que ali se fornecia Atestado de Sanidade Física e Mental, sem dúvida, idiota.

- Centro de Medicina do Trabalhador....

Imagino, porque estou em casa ainda, imagino que o Centro de Medicina do Trabalhador é um complexo industrial-médico cheio de canos, retortas, e de portas, e laboratórios, e corredores compridíssimos, cheios de especialistas de todas as especialidades, se assim podemos dizer. Um lugar onde entramos em uma porta e saímos em outra, de exames de raios X a laboratórios de análises, de laboratórios a máquinas de eletrochoques, até atingir as perguntas cruciais de psiquiatras, que nos estudam e nos olham como se fossem a Miss Marple de Agatha Christie. Imaginação vulgar, estúpida e insípida, já vêem.

- Me diga uma coisa: demora muito pra pegar esse atestado?
- Não, é ordem de chegada.
- Tem muita gente aí?
- Centro de Saúde do Trabalhador ...um momento. Agora, só uns quinze.
- Vocês atendem por algum plano de saúde?
- Centro de Saúde do Trabalhador..... O pagamento é na hora.
- E quanto é?
- Quinze reais.

Desta vez sou eu que desligo. Quinze reais! Isto ou é uma absoluta anarquia, uma grande zona, ou deve ter algum subsídio para, depois do check-up, diagnósticos, especialistas e consultas, atingir um preço tão barato. E me mando, necessitado e incrédulo que sou, para o centro do Recife.

Ó homem de pouca fé, ainda que vivas em um país cafeeiro, creias, o Centro de Medicina do Trabalhador existe, e não é uma absoluta zona. É um lugar com aparência decente (“como deve ter todo prostíbulo que preste”, um satanás me diz). Mas não. Ali entro em uma sala, com duas atendentes. Que me parecem moças da maior seriedade. E por isso pergunto, com um pé atrás, em um intervalo de suas respostas ao telefone, “Centro de Medicina do Trabalhador”:

- Atestado de Sanidade Física e Mental ... é aqui?
- Aguarde a sua vez - ela me responde, enquanto me entrega um papelzinho numerado, que leio, “ficha 27”.

Olho ao redor. À minha frente, jovens recém-saídos da adolescência, e um deles sem dúvida é um rapaz típico de Pernambuco. Veste uma camisa negra, com as palavras, digo, com o anúncio, “Quick Silver”. Palavras em inglês, nas camisas, para muitos jovens do Recife têm um valor estético, porque as vêem com o mesmo significado de um ideograma chinês. Ao lado, um cidadão gordo, um quase velho, diria, se eu não estivesse em idade próxima à dele. Um inválido, eu acrescentaria, se nos últimos tempos eu não estivesse bem solidário para com os inválidos. Um homem, enfim, completo, que não passará com a sua imensa barriga em qualquer check-up. Ele sequer passa na abertura da cadeira, e por isto se põe um pouco de lado, a subtrair uma parte do largo traseiro no assento. Veste uma camisa bege, e percebo que outros também se vestem como ele, é uma farda, e todos eles possuem uma fita azul ao pescoço, que desce para um crachá, que deixam no bolso, onde está escrito “Tribunal de Justiça de Pernambuco”. Ah, bom, então isto aqui é sério, jamais será um prostíbulo, creio. Seis funcionários da justiça, chego a contar. Da Justiça, corrijo. Seis honrados servidores da Justiça de Pernambuco à espera do seu Atestado de Sanidade Física e Mental. Ó homem de pouca fé. O negócio, digo, o atendimento médico é garantido pelo órgão máximo das leis do Estado. Por isso, em paz e silêncio espero, para não descansar em paz.

Abre-se uma porta. Sai uma senhora, jovem, com uma bata branca. É médica, me digo. Porque os médicos usam bata branca. Mas não só: a jovem moça que sai tem um certo ar de confiança, da mais certa e certeira impunidade. Esse ar dos maus médicos, devo acrescentar, para viver sem a sua ameaça. E me calo, sob a proteção dos funcionários do estado. A jovem passa, volta e se fecha em uma sala, misteriosa. A senhorita da recepção me chama. Enquanto preenche uma ficha, que deve ser a minha, pergunta:

- Altura?
- Um metro e setenta. (Quis dizer um e oitenta, mas por modéstia reduzi dez centímetros)
- Peso?
- Setenta quilos.
- Aguarde.

Depois que me sento, descubro que por simetria informei meu peso em concordância com a minha altura. Um excesso de estética me fez descer o peso em quinze quilos. Mas é como se eu os tivesse, me digo. Mentalmente, sou um homem esbelto. No ideal em que me vejo, tenho um e oitenta de altura e peso setenta quilos. Guapo melhor não há.

Eis então que chega a minha vez, e uma porta se abre para meu primeiro exame do Atestado de Sanidade Física e Mental. O médico que me atende, devo dizer, o médico na frente do qual eu me assento, tem os olhos fitos na minha ficha estética. Ele não me olha, coitado, compreendo. A seu lado, possui uma pasta grande, aberta, cheia de fichas, e um papel com quadrinhos, que imagino ser um mapa estatístico, dos seus atendimentos na manhã. Quantos? Sessenta, noventa, cento e vinte? Sem me olhar, sem me ver, pergunta o pobre homem:

- Alguma doença?
- Não.
- Já fez alguma cirurgia?
- Sim....

O seu rosto ganha um ar de enfado, de aborrecida contrariedade. E sem me perguntar qual cirurgia e por quê:

- Mas tudo bem, não é?
- Sim, tudo bem.
- Fuma, bebe, drogas, tóxicos, algum vício? O braço.

Estendo-lhe o direito, a pensar que ele vai procurar, com percuciência, algum sinal de picada, marca ou tatuagem. Engano. Ata-me um tecido, ágil, pelo que sinto, na altura do antebraço, e com dois apertos em uma bola escura olha rápido o ponteiro em um medidor.

- Pode ir.

Confesso que lhe estendi a mão, para um cumprimento, que o pobre homem não pôde corresponder.

– O próximo.

Na recepção, a gentil e decente moça entrega-me um papel já assinado por um médico, que deve ser o mesmo na frente do qual eu transitei. Saio à rua, rápido, antes que ela se arrependa e me chame de volta. Leio e releio o documento. “Declaro, para os devidos fins, que o portador se encontra em perfeito gozo de saúde física e mental”. Que belo, que bela é a nossa organização física, mental e declaratória. Que belo. Jamais poderia imaginar que por quinze reais eu seria um homem esbelto, saudável e feliz. No mais estrito cumprimento da lei.


Urariano Mota é autor do blogue Sapoti da Japaranduba


Fonte: RevistaFórum

A Revista Fórum esta licenciada sob uma licença CreativeCommons

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Conto: O Colecionador de Letras

O COLECIONADOR DE LETRAS
Daniela dos Santos


Alberto Góis detestava pessoas. Odiava os seus sorrisos vagos, as conversas fúteis e as palmadinhas nas costas. Não suportava sequer os cumprimentos cordiais. Bom dia, Sr. Góis. Como está?, perguntava sempre a dona Teresa da papelaria, puxando uma ponta do xaile que lhe caía do ombro. Não é da sua conta, pensava. Pedia os jornais matutinos e um maço de cigarros, enquanto a mulher lhe falava do mau tempo, do reumatismo e das proezas do neto. Pagava e saía. Até amanhã Sr. Góis, dizia a senhora antes dele bater com a porta de vidro. Que velha chata, resmungava Alberto sabendo que ela já não o poderia ouvir.

Góis morava ao fundo da rua, num edifício quase tão degradado por fora como por dentro. A porta da rua estava partida e alguns cães vadios aproveitavam o vão da escada para se abrigarem quando chovia. Mas os animais faziam demasiado barulho e Alberto não conseguia concentrar-se na leitura. Uma vez, sem ninguém ver, deixou-lhes um prato com comida e veneno.

Resultou. Os cães nunca mais o importunaram.

O apartamento de Alberto era pequeno e escuro. Embora as janelas dessem para uma rua, esta era pouco iluminada pelo sol e à noite a luz dos candeeiros era fraca. Pousou os jornais no sofá verde escuro, acendeu um cigarro e foi à cozinha preparar café. Passaram alguns minutos até se sentir o aroma a café preto pela casa.

Na sala, as paredes exibiam prateleiras atulhadas de livros.

Havia-os por todo o lado. Escondidos nas gavetas, em caixotes e aos montes no chão. Centenas de livros de todos os tamanhos, sobre todos os temas, com capas de todas as cores. Desde encadernações de luxo a folhetins de cordel. Em alguns, o pó já não deixava distinguir o título da ilustração da capa.

Alberto Góis tinha 37 anos e passara toda a sua vida a ler, sempre com mais fervor e dedicação, reduzindo ao indispensável o contacto com as pessoas. As idas à rua, as compras, os transportes públicos, eram sacrifícios que fazia para satisfazer as necessidades básicas. Quando acabou o liceu, decidiu dedicar-se a tempo inteiro à leitura. Arranjou um emprego como guarda nocturno numa fábrica e fazia as rondas de hora a hora. Isso permitiu-lhe passar quase todo o tempo a ler.

Góis raramente dormia e quando sonhava lia livros ainda por escrever. O seu ar sombrio escondia um homem culto, com conhecimentos aprofundados em todas as matérias. Sentia-se o mais sábio de todos e o desprezo pela multidão aumentou.

Bebeu o café e leu os jornais da manhã, sublinhando palavras e desenhando setas nas páginas. Quando terminou de ler o último artigo, pegou na tesoura e recortou todas as letras das palavras que havia sublinhado. Recortou-as calmamente, uma a uma, com o mesmo cuidado de um ourives que trata as suas jóias.

Pegou nas letras e subiu para cima da mesa mas, sem querer, tombou uma pilha de livros no chão. Alguns abriram-se, deixando a descoberto páginas esburacadas, em branco, com a ausência de letras. Alberto Góis só deixava intactas as capas e, no tecto da sala, colava milhões de letras, de todos os estilos e línguas. Essas letras, assim sobrepostas caoticamente, formavam uma espécie de cúpula celeste que o protegia da sua imensa solidão.


Fonte: O Caixote

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Conto sobre um Homem e sua Solidão

Ludigero
Alessandra Mascarenhas


Ludigero sempre foi um homem solitário. Muito solitário.
Trabalhava oito horas por dia numa repartição pública, onde cumpria suas obrigações mecanicamente.
Era uma figura de uma estética repulsiva. Um homem franzino, baixo, com a pele parda, cheia de manchas mais escuras nas bochechas, olhos esbugalhados sem cílios. Os poucos cabelos escuros que ainda lhe restavam eram empastados de brilhantina barata e fedorenta, colados à cabeça. As mãos esquálidas, ossudas, cobertas por pequenas verrugas, os dentes tortos e amarelados pela nicotina de quem fumava há 30 anos.

Tinha três ternos, os quais revezava durante a semana. Ternos justos demais, todos meio acinzentados, fora de moda, com as mangas dos paletós curtas. E três sapatos velhos, já reformados muitas vezes em sapateiros baratos.
Um homem calado, distante, sério. Os colegas de repartição nunca souberam detalhes de sua vida pessoal. Sabiam apenas que era solteiro, não tinha filhos e morava sozinho.

Trabalhava o dia todo e chegava no fim da tarde cansado no seu desconfortável quartinho alugado, nos fundos de uma casa. Um quarto minúsculo, escuro, úmido e deprimente. Como móveis apenas uma cama estreita, um guarda-roupa de pintura descascada e um criado-mudo ao lado da cama com um velho abajur em tom amarronzado. E um banheirinho pequeno anexo ao quarto, onde reluzia, em lugar de honra, sobre a prateleira encardida do espelhinho, o pote de sua inseparável brilhantina. Brilhex com aroma de jasmim.

E assim o pobre passava seus dias e noites. Uma vida medíocre e triste. Ludigero tinha cheiro de mofo.

Numa certa noite, ao se deitar, percebeu que algumas baratas enormes rodeavam sua cama, no chão. Ficou observando curioso o movimento delas por algum tempo até adormecer placidamente.

No dia seguinte, ao acordar, percebeu que na noite anterior dormira rápido e continuamente a noite toda, como nunca acontecera. Espantou-se, pois ele sempre tivera problemas para dormir, insônia ou um sono entrecortado por pesadelos, agitação e suores noturnos.

Sentou-se na cama e chegou à conclusão de que a companhia das baratas havia diminuído sua sensação de abandono, sua solidão costumeira. Com a presença daqueles insetos nojentos havia se sentido amparado e reconfortado, como se houvesse mais alguém naquele quarto além daquele ser desprezível e infeliz que se considerava.

Então, dali em diante, todas as noites Ludigero queria a companhia das baratas.

Chegava em seu quarto e meticulosamente distribuía pelo chão perto da cama carreiras finas de açúcar. Não demorava muito e elas chegavam. Muitas, em fila, sem se assustarem com a presença do homem por perto. Deitava-se, sempre as observando e com o tempo arriscava-se até a acariciar suas costas cascudas. Colocou nomes em cada uma delas. Conhecia uma a uma. Contava seus problemas, preocupava-se se alguma parecia mais fraca, dobrando sua dose diária de açúcar para reanimá-la. As baratas se transformaram em seus filhos, sua família.

Passou muito tempo assim e foi melhorando sensivelmente de ânimo a cada dia. Dormia bem, acordava disposto, trabalhava melhor e voltava para a casa ansioso, para cuidar de suas baratas.

Até que numa certa manhã acordou indisposto. Vômito e diarréia. Mal conseguia chegar ao banheiro. E as baratinhas ali, perto da cama, imóveis, como se entendessem que Ludigero estava mal. Muito mal.

Naquela manhã não foi para a repartição. Só havia faltado uma vez ao trabalho, em 30 anos de serviço, no dia da morte de seu pai.

Os colegas ficaram intrigados com aquela cadeira encardida vazia, pois era como se Ludigero fizesse parte da mobília do escritório. Então, de repente, dona Marieta teve a idéia de seguir para o endereço do homem, pois quem sabe esteja até morto, o coitado.

Pegou decidida seu Fusca 69 azul-claro, muito bem conservado e seguiu para o local. Andou pelo pequeno corredor que desbocava no quartinho modesto. Bateu três vezes, sem resposta. Aguardou, torcendo as mãos cheias de anéis, nervosa.

Nada. Então forçou a porta, que abriu. Colocou só a cabeça dentro do lugar e logo avistou Ludigero estendido na cama, de cuecas. Timidamente resolveu entrar. Aproximou-se lentamente do homem, que a encarou de forma suplicante, explicando estar mal. Muito mal.

Marieta sentou-se na beirada da cama. Colocou a mão direita sobre a testa lavada de suor dele e exclamou que estava ardendo em febre e que deveriam seguir imediatamente para o hospital. Ele concordou com a cabeça, levemente.
A mulher então olhou ao redor o lugar tão modesto, escuro e terrivelmente feio. Suspirou, com pena dele, até que algo chamou sua atenção. Encarou com seus grandes olhos muito maquiados o chão, perto da cama. Então sua expressão modificou-se instantaneamente. Baratas!!!!! Muitas. Dezenas. Organizadas no chão, lado a lado, como que hipnotizadas.

Prostrou-se em pé num grito e enlouquecidamente colocou-se a pisotear, com seus sapatos vermelhos de salto alto, os insetos. Gosma e casca espalhando-se por todo o chão.

Ludigero sentiu seu coração gelar. Recuperou as forças perdidas e jogou-se da cama num salto. Um grito grave de voz de homem ecoou no ambiente. Ele fitou-a, com os olhos injetados de ódio e horror e lançou-se sobre ela ao chão como um urso com fome. Agarrou o pescoço da mulher, com as duas mãos e apertou-lhe a garganta com toda a fúria contida em sua alma. Os olhos de Marieta vidrados nos dele, arregalados, a língua para fora, a boca escancarada, as pernas de debatendo. Um pé do sapato voou para longe. Aos poucos ela silenciou os gemidos e um filete de sangue escorreu de sua boca semi-aberta.

Ludigero então lentamente soltou as mãos, e num choro compulsivo recolheu os restos pisoteados de suas companheiras e amadas baratas. Largou-se no chão, encolhido como um feto, ao lado do corpo de dona Marieta e chorou aos berros toda a dor que jorrava de dentro dele. Matou por amor à sua família.


Alessandra Mascarenhas
Residente em Sorocaba/SP, formada em História e Direito. Tem como hobby e paixão as palavras. Escreve compulsivamente contos sobre temas diversos e os divulga em sites especializados.Possui um site www.varaldaliteratura.ale.nom.br onde divulga seus textos e de colaboradores.
E-mail para contato: contato@varaldaliteratura.ale.nom.br
Fonte: OCaixote

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Conto de Clarice Lispector

Uma Galinha
Clarice Lispector


Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.


Texto extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 30. Selecionado por Ítalo Moriconi, figura na publicação “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”.

Fonte: Releituras

sábado, 11 de agosto de 2007

Conto Completo de Machado de Assis pra Baixar

Conto Completo de Machado de Assis

A Mágoa do infeliz Cosme
I

Imensa e profunda foi a mágoa do infeliz Cosme. Depois de três anos de não interrompida ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das graças com que a dotara a natureza. Uma rápida moléstia a arrebatou aos carinhos do esposo e à admiração de quantos tiveram a honra e o prazer de praticar com ela. Quinze dias apenas esteve de cama; mas foram quinze séculos para o infeliz Cosme. Por cúmulo de desgraças, expirou longe dos olhos dele; Cosme saíra para ir buscar a solução de um negócio; quando chegou à casa achou um cadáver.

Dizer a aflição em que este acontecimento lançou o infeliz Cosme pediria outra pena que não a minha. Cosme chorou logo no primeiro dia todas as suas lágrimas; no dia seguinte tinha os olhos exaustos e secos. Os seus numerosos amigos contemplavam com tristeza o rosto do infeliz e ao lançar a pá de terra sobre o caixão já depositado no fundo da cova, mais de um recordou os dias que passara ao pé dos dois esposos, tão queridos um do outro, tão venerados e amados dos seus íntimos.

Cosme não se limitou ao encerramento usual dos sete dias. A dor não é costume, dizia ele aos que o iam visitar; sairei daqui quando puder arrastar o resto dos meus dias. Ali ficou durante seis semanas, sem ver a rua nem o céu. Os seus empregados iam prestar-lhe contas, a que ele, com incrível esforço, prestava religiosa atenção. Cortava o coração ver aquele homem ferido no que havia de mais caro para ele, discutir às vezes um erro de soma, uma troca de algarismos. Uma lágrima às vezes vinha interromper a operação. O viúvo lutava com o homem do dever.

Ao cabo de seis semanas resolveu sair à rua o infeliz Cosme.

- Não estou curado, dizia ele a um compadre; mas é preciso obedecer às necessidades da vida.

- Infeliz! exclamou o compadre apertando-o nos braços.


...Segue

Baixe aqui A Mágoa do infeliz Cosme - completo (arquivo em .pdf)

Para baixar centenas de livros completos visite o saite Domínio Público.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Livro Completo "A Tragicomédia Acadêmica"

Livro de Contos pra Baixar

A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau
por Yuri Vieira

A Tragicomédia Acadêmica é uma coletânea com 19 contos que satiriza todos os âmbitos da vida universitária. O livro foi publicado pela primeira vez em 1998, tendo recebido à época elogios de Millôr Fernandes, Bruno Tolentino, Hilda Hilst, J. Toledo, Sérgio Coutinho, Olavo de Carvalho, entre outros.

Títulos de alguns contos: "A vingança de Piupiu", "O culturaholic", "Paralíticos e desintegrados", "A volta dos que não foram", "Penteu, o pentelho", "Frida, uma singela homenagem a Paulo Coelho", "Memórias da Ilha do Capeta", etc.


Baixe aqui o livro completo (arquivo em PDF - 799Kb)

Fonte: OverMundo

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Conto Inédito de Rubem Fonseca

O GÊNIO DA LÂMPADA
Um autor principiante recebe a visita de um gênio da lâmpada, que pergunta: que tipo de escritor você quer ser? Seu desejo será uma ordem, mas é melhor calcular bem a escolha. Vencedor do Prêmio Machado de Assis 2007 na categoria Ficção, Romance, teatro e Conto, e anunciado esta semana como finalista do Jabuti pelo mesmo livro, 'Ela e outras mulheres', Rubem Fonseca trata, neste texto inédito, da virtude essencial para qualquer autor.


por Rubem Fonseca

O Gênio da Lâmpada chegou para o escritor iniciante e perguntou:

Que escritor você gostaria de ser? Aquele que recebe muitos prêmios? Aquele que é festejado pela crítica? Aquele que é um best-seller e vende muitos livros? Você só pode escolher uma dessas opções.

Vou lhe dar algumas dicas, continuou o Gênio da Lâmpada. Quem é muito premiado nem sempre vende bem; o best-seller costuma ser esnobado pela crítica; e existem autores muito festejados pela crítica que são ignorados pelo público.

Vejamos a crítica, prosseguiu o Gênio. O termo crítica, como você não sabe, provém do grego crinein, que significa separar, julgar. Ou seja, o crítico literário é alguém que se acha habilitado a julgar o mérito de um determinado livro, assim como a capacidade do seu autor. A crítica literária foi uma das primeiras críticas de arte a surgirem na imprensa, para analisar contos, romances, poemas. Há autores que gostam de exercer também crítica literária. O Machado foi um deles, assim como Victor Hugo, Émile Zola, e modernamente o Vargas-Llosa, para citar apenas alguns escritores cujas críticas eu li. É claro que a crítica, por mais isenta, é sempre subjetiva. Não existe autor, de Shakespeare a Machado de Assis (Sílvio Romero não poupava "o mulato"), que não tenha sido crucificado pela crítica. O que não impediu, todavia, que eles fossem admirados pelos leitores e espectadores de suas épocas. Isso significa que a crítica não tem importância, que não interfere na vida do autor? Creio que há casos em que a crítica, quando muito negativa, pode prejudicar o autor, principalmente quando ele não confia no próprio talento. Sendo muito elogiativa, mesmo que o encômio não se reflita nas vendas, tem sempre a vantagem de inflar o ego do autor.

E ser um best-seller?, continuou a perguntar o Gênio. Isso deve ser muito bom. Pelo menos ganha-se dinheiro e também celebridade. O diabo é que a crítica não perdoa o best-seller. Preciso citar nomes? Há quem repita o velho clichê: falem mal mas falem de mim. Quem se sente feliz nessa situação deve escolher ser um best-seller. O problema é que chega um momento em que as vendas começam a diminuir, diminuir e o autor de sucesso entra em pânico e verifica, morrendo de inveja, que há outro ou outros ocupando o seu lugar.

E ser muito premiado?, indagou mais uma vez o Gênio. Não vale o Nobel; este é, acima de tudo, um cheque de um milhão de dólares. A maioria dos prêmios tem mais valor honorífico do que fiduciário. É uma honra, sem dúvida, uma bela homenagem receber um prêmio, principalmente concedido por um centro cultural importante. Mas no fundo isso pode ser apenas uma bela ego-trip.

Anda, perguntou o Gênio da Lâmpada ao jovem iniciante, o que foi que você escolheu?

Posso propor uma quarta opção?, o novato indagou por sua vez.

Vá lá, respondeu o Gênio da Lâmpada. Qual é ela?

Eu quero manter sempre uma grande confiança em mim, como escritor e ser humano, não importam os prêmios, os elogios, as vendas, a celebridade.

O Gênio pensou um pouco e respondeu:

Boa escolha. Assim seja.

E a luz da lâmpada, onde se abrigava o Gênio, resplandeceu com um ofuscante fulgor

Fonte: Revista Idiossincrasia

Pequeno Conto de Ivana Arruda Leite

A quinta carta
por Ivana Arruda Leite

Certa vez uma cartomante me disse que eu não demoraria a encontrar o homem da minha vida. Eu o reconheceria de imediato. Nós nos casaríamos, moraríamos numa casa com gerânios na janela e teríamos um casal de filhos. O Grande Sacerdote, a quinta carta na casa sete, garantia isso. Dias depois, eu descia distraída a avenida Rebouças quando vi ao meu lado o Grande Sacerdote numa Belina branca. Sem dúvida, era aquele o homem por quem esperei a vida inteira. Podia adivinhar-lhe o corpo, o cheiro da pele, a voz. Nós nos casaríamos, moraríamos numa casa com gerânios na janela e teríamos um casal de filhos. Avancei em ziguezague no meio dos carros tentando alcançá-lo, mas o Grande Sacerdote deu seta e entrou à direita na Capote Valente. Foi assim, por uma fração de segundos, que eu perdi o homem da minha vida. O destino sempre cumpre o que promete, mas o trânsito nem sempre ajuda.

Ivana Arruda Leite é contista, romancista e socióloga. Graduou-se em Ciências Sociais na Usp e trabalha como socióloga concursada na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo. Publicou seu primeiro livro de contos em 1997, Histórias da Mulher do Fim do Século, seguido, cinco anos após, de Falo de mulher. Em 2003, faz uma incursão na literatura destinada ao público juvenil, com o lançamento do livro Confidencial - anotações secretas de uma adolescente. A partir de 2004, faz uma série de adaptações de clássicos universais. Este conto está presente em seu livro mais recente, Ao homem que não me quis, editora Agir. E-mail: ivanaleite@uol.com.br

Fonte: Cronópios