quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A desbiografia oficial de Manoel de Barros - Documentário

Do blog OutroCine - Mostra permanente de cinema

Só Dez Por Cento é Mentira
90% do que escrevo é invenção. Manoel de Barros. Foto Divulgação
Lamentavelmente faleceu nesta quinta-feira, 13 de novembro de 2014, o poeta Manoel de Barros. Em sua homenagem posto o documentário Só Dez Por Cento é Mentira - A desbiografia oficial de Manuel de Barros, dirigido por Pedro Cezar. Infelizmente ainda não assisti, então o texto abaixo descrevendo o longa é do sítio oficial do filme e se manterá o conteúdo original que não apresenta o fato que o poeta faleceu hoje.


Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.
Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa.

Só Dez Por Cento é Mentira ultrapassa as fronteiras convencionais do registro documental. Utiliza uma linguagem visual inventiva, emprega dramaturgia, cria recursos ficcionais e propõe representações gráficas alusivas ao universo extraordinário do poeta.

Procurando resignificar às “desimportâncias” biográficas e à personalidade “escalena” de Manoel de Barros o diretor Pedro Cezar, responsável pelo roteiro e pela narração, pontua o filme com momentos de breves testemunhos ao fundo, como fizera em seu primeiro longa metragem, Fabio Fabuloso. Narrado na maior parte das vezes em tom pessoal o filme busca, sobretudo, “uma voz que aproxime-se da simplicidade e da afetividade do personagem e que se afaste da soberba e da pretensão de uma análise teórica sobre poesia no idioleto manoelês”.

Manoel de Barros tem 93 anos, cerca de 20 livros publicados e vive atualmente em Campo Grande. Consagrado por diversos prêmios literários, é atualmente o escritor brasileiro que mais vende no gênero poesia.

Só Dez Por Cento é Mentira ganhou os prêmios de melhor documentário longa-metragem do II Festival Paulínia de Cinema 2009 e os prêmios de melhor direção de longa-metragem documentário e melhor filme documentário longametragem do V Fest Cine Goiânia 2009. (Fonte: http://www.sodez.com.br)

Só Dez Por Cento é Mentira

Sinopse
Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.

Gênero Documentário
Diretor Pedro Cezar
Depoimentos Manoel de Barros, Bianca Ramoneda, Joel Pizzini, Abílio de Barros, Palmiro, Viviane Mosé, Danilinho, Fausto Wolff, Stella Barros, Martha Barros, João de Barros, Elisa Lucinda, Adriana Falcão, Paulo Gianini, Jaime Leibovicht e Salim Ramos Hassan
Ano 2008
Duração 82 min
Cor Colorido
País Brasil


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Poemas de Manoel de Barros

Poemas de Manoel de Barros do livro Manoel de Barros - Poesia Completa.


ODE VINGATIVA

Ela me encontrará pacífico, desvendável
Vendável, venal e de automóvel.
Ela me encontrará grave, sem mistérios, duro
Sério, claro como o sol sobre o muro.

Ela me encontrará bruto, burguês, imoral,
Capaz de defendê-la, de ofendê-la e perdoá-la;
Capaz de morrer por ela (ou então de matá-la)
Sem deixar bilhete literário no jornal.

Ela me encontrará sadio, apolítico, antiapocalíptico
Anticristão e, talvez, campeão de xadrez.
Ela me encontrará forte, primitivo, animal
Como planta, cavalo, como água mineral.

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O MORTO

I

A chuva lavou
As pessoas do morto
E lavou o morto
Com a sua fisionomia
De torto
E com seus pés de morto
Que arrastava um rio seco
E suas mãos de morto
Onde se dependurou
Insistente, um gesto oco.
À noite enterrou-se
O homem
Na raiz de um muro
Com sua roupa no corpo.
E a chuva regou no horto
Desse vitorioso
Homem morto
Enormes violetas
E uns caramujos férteis…

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O MORTO

II

Veja esse morto como esgotou um por um seus segredos.
Sentado como um doutor
Veja que respeito nutre pelo silêncio…
Que morto!
Um piano dormindo no fundo de um poço
Não é mais cômodo do que um homem morto num porto.
Veja que comodidade.
Ele não usará seus dedos secos nunca mais para pegar em
moças…
Que morto!

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ZONA HERMÉTICA

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco… E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

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ENCONTRO DE PEDRO COM O NOJO

A rosa reteve Pedro. E a mão reteve a música como
paisagem de água na retina.
Era noite no bairro do Flamengo. As pensões de estudantes
dormiam nas transversais.
Pedro mergulhado em trevas, no quarto, pensa no
rouxinol e na bomba atômica.
As coisas mais importantes lhe aconteciam no escuro,
como a surpresa de uma flor desabrochada à noite.
Pedro recebe uma brisa no rosto e se olha, inundado de
solidão. Se chorasse poderia dormir depois. Prefere andar.
Pedro carrega a beleza como um prédio em ruínas. Desce
as escadas e ganha a rua.
Pedro anda tendo temores esquisitos. Por exemplo: que
desapareçam os fracos da face da terra e restem apenas
pessoas blindadas de sol.
Teme que desapareçam as criaturas roladas dos abismos de
Deus, com seus andrajos, com as suas cicatrizes.
Pensou em plantar uma árvore. Em pensamento viu-se
desmembrado, seu corpo espalhado nos pedaços de um
espelho.
Entrou numa pequena rua. Viu pássaros roubando suicidas.
Meninos carregando escadas. Respirou um odor de mofo e
rosas velhas.
Estava bem longe agora de seu quarto pobre. Seu paletó
estaria dependurado no cabide. Esmeralda, a mulata, se
surpreenderia de não encontrá-lo àquela hora.
Pedro começa a esfregar os olhos para espantar Esmeralda;
mas ela vinha de flancos nua rolar na aresta dos desejos.
Vinha de chapéu de breu e sonos… Distraiu-se afinal vendo
os azulejos roídos pelos peixes do Ministério da Educação.
Pedro ficou parado. Depois entrou no Frege, atraído por
um samba. Viu lá dentro um negro sentado com uma
clarineta fincada no rosto!
O negro atropelava as pessoas com as suas queixas que
escorriam pelas ruas como água. Pedro foi saqueado pela
angústia. Cuspiu e retirou-se.
No largo, entre pássaros, acalmou-se. Uma funda sensação
de pertencer às coisas mudas, como a folha que pertence à
árvore, invadiu-o.
Doce pélago! Pedro saiu leve para junto do mar. Coral e flor
de caos ia colher — entre baixios sangrentos.
Seu era o mundo. Dormiu entre pedras. O dia amanheceu
em suas mãos.
Pedro entregou-se ao dia, como ao seu musgo se entrega o
verde.
Pureza de ruínas nos olhos de Pedro! Estava sujo e coberto
de lírios.
Às doze horas Pedro regressou ao quarto. Debaixo da
escada um homem dormia como um peixe: a boca
descampada úmida e serena. Subiu.
Pedro deitou-se, pensando… A inércia me devora, enraízase
em meu corpo, como líquenes na pedra — se fico deitado.
Sentia fluir de seus ossos a inércia e brotar de seus dedos,
como cardos, o nojo.
Preciso caminhar. Pedro se levanta e vai à janela. Lá fora,
bem rente ao muro encardido, uma pereira florida…
Pedro quer nascer do chão. Pedro acha que precisa florir até
a altura de uma janela. Oferecer-se ao luar… e…
Ó propício frio das sombras! Entra Esmeralda autêntica
com sol nas carnes e nas palavras. Pedro retorce, quebra
Esmeralda nos braços, baba-a toda e a engole.
Agora Pedro vai jiboiar nas ruas de novo. Pedro é louco.
Arrasta-se pelos becos com a sua porcaria na alma.
Engole sua anulação como água. O nojo lhe cresce como
um braço podre, mirrado. Um braço podre saindo das
costas…
Pedro engole a maçã do caos. Vai trôpego deitar-se nas
pedras. Esmeralda tritura-o agora.
Tudo que há de noturno está entranhado nas roupas de
Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade que se evola de ti, no
escuro, Pedro! Não percebe.
Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos
vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.
Pedro se aproximara das coisas. Para dormir com elas.
Pedro deitou-se entre objetos. A terra comia seu abdômen.
A terra cheia de poros, fermentada de raízes, rosas podres,
bichos corrompidos, penas de pássaros, folhas e pedras — o
atraíam.
Pedro era um barro ofegante. Como um fruto peco, deixou
sua boca no chão, imóvel, aberta.
Tinha de recostá-la na terra e haurir, das raízes
intumescidas, seiva.
Pedro sabia: todo aquele que não bebe água no solo, secará
como cana cortada no pé. Ficou deitado.
Pedro estava só. Deixava-se completamente às coisas,
recebendo suas emanações físicas.
Pedro se encostava nas coisas, afagava-as como se elas
fossem criaturas íntimas. Pedro era reconstruído.
Agora Pedro ressurge. Vem botando o pescoço para o sol.
Despegando-se da escuridão, pesadamente, como um bêbado
gordo, e aos pedaços, estraçalhado…
Pedro vem tateando na luz, subindo nas bordas do poço,
soltando de sua casca o moliço… Deixa pedaços dele no
escuro.
Pedro entra em seu quarto. Está perfeito e pobre.
Poderemos sequer fazer uma ideia de que resultará do
encontro de um homem com o nojo?
Agora Pedro está dormindo.

Morre, aos 97 anos, o poeta Manoel de Barros

Poeta, escritor Manoel de Barros
MANOEL DE BARROS - Primeiros poemas aos 13 anos
O poeta Manoel de Barros morreu hoje (13), em Campo Grande. Considerado um dos maiores autores da língua portuguesa, ele estava internado desde o último dia 24, no Hospital Proncor, da capital sul-mato-grossense, devido a uma obstrução intestinal. Segundo a assessoria do hospital, o poeta faleceu às 8h05, devido à falência múltipla de órgãos.

Conhecido pela linguagem coloquial – à qual chamava de idioleto manoelês archaico - e por buscar inspiração nos temas mais simples e banais, Barros dizia ser possível resumir sua trajetória de vida em poucas linhas. “Nasci em Cuiabá [à época, 1916, dezembro. Me criei no Pantanal de Corumbá [MS]. Só dei trabalho e angústias pra meus pais. Morei de mendigo e pária em todos os lugares da Bolívia e do Peru. Morei nos lugares mais decadentes por gosto de imitar os lagartos e as pedras. Publiquei dez livros até hoje. Não acredito em nenhum. Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo. Sou fazendeiro e criador de gado. Não fui pra sarjeta porque herdei. Gosto de ler e de ouvir música - especialmente Brahms. Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço poesia", escreveu o autor.

Barros começou a esboçar seus primeiros poemas aos 13 anos de idade. Seu primeiro livro, intitulado Poemas, foi publicado em 1937, quando o autor tinha 21 anos. Pouco afeito à política partidária, chegou a integrar o Partido Comunista Brasileiro, mas por pouco tempo. Desde a década de 1950, conciliava a literatura com a gestão da fazenda que herdou dos pais.

Perfeccionista, conquistou os prêmios literários Jabuti (1989 e 2002); Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (2004); Nestlé (1997 e 2006); Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional (1996) e Nacional de Literatura, concedido pelo Ministério da Cultura ao conjunto de sua obra, em 1998. Em 2000, foi agraciado com o Prêmio Academia Brasileira de Letras, pelo livro Exercício de Ser Criança.

Os governos de Mato Grosso – onde o poeta nasceu, e do Mato Grosso do Sul – onde Barros vivia, decretaram luto oficial de três dias. Em nota, o governador sul-mato-grossense, André Puccinelli, diz que a obra de Barros divulgou as belezas e as potencialidades do estado, “enriquecendo assim, a história da literatura e a cultura do local que ele escolheu para viver ao lado de sua esposa.”

Também em nota, o Ministério da Cultura lamentou a morte do poeta e manifestou solidariedade aos parentes, amigos e leitores de Barros. “Simples, de poesia delicada e repleta de seu imaginário pantaneiro, Manoel de Barros jamais será esquecido – ao contrário do que dizem estes seus versos: "Quando o mundo abandonar o meu olho. Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo. Que hei de fazer.”

Nas redes sociais, o diretor da Fundação Manoel de Barros, Marcos Henrique Marques, comentou que toda a equipe da instituição está triste, mas continuará a honrar e divulgar a obra do poeta. “O homem Manoel de Barros foi finito como todos nós, mas o poeta e suas obras – pautadas em seu belo sorriso, simplicidade, amor e criatividade, vão permanecer para sempre, gerações após gerações”.

Barros costumava brincar com a importância da poesia: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia”. Trechos de seus poemas são frequentemente citados pela perspicácia e bom humor. Desde que foi internado, dois versos, em particular, estão sendo bastante citados na mídia e em redes sociais: “Não preciso do fim para chegar” e “Do lugar onde estou já fui embora”, ambos da obra Livro Sobre Nada, de 1996.

Fonte: EBC 

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Poemas de Manoel de Barros

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Nova Crônica do Poeta Sérgio Vaz

ODE AO ÓDIO
Sérgio Vaz

Vou criar o ÓDIOMÊTRO para medir ódio das pessoas.

É impressionante como ultimamente tudo que você diz ou faz, desperta o ódio de alguém neste país.
Você diz que não compartilha das mesmas opiniões de alguém, esse alguém automaticamente passa a ser seu inimigo ou inimiga na mesma hora.

As Pessoas não querem mais discutir, querem cuspir uma nas outras.
E Esse ódio é democrático, afeta brancos e negros, feios e bonitos, bonzinhos e malvados, gordos e magros, homens e mulheres, e por consequência, seus filhos. Ou seja, as crianças.
E o ódio não é igual ao amor que muitas vezes, infelizmente, a gente perde tempo em dizer que ama alguém.


Quem disse EU TE AMO para o pai, a mãe, a mulher, o homem, ao amigo, aos filhos, aos avós esta semana? Este mês ou este ano? Pois é, pra dizer que a gente gosta de alguém não é muito fácil, mas diz que não concorda com alguém, ou alguma ideia... A pessoa diz que te odeia na mesma hora, te desconjura, e sai por aí te odiando. E não basta te odiar sozinho(a), ela quer que outras pessoas te odeiem também. E o mais legal é que é tudo em nome da democracia.


De minha parte quero dizer, "quanto mais ódio, mais amor. Mais luta."


Nunca fui bom em amar e ser amado, perdi muito tempo tentando entender o amor, amei errado, amei certo, mas nunca aprendi a odiar. Isso ninguém vai me ensinar e recuso-me a aprender.
Não quer dizer que amo todo mundo, "muito amor, muito amor, mas raiva é fundamental", mas ódio é para gente fraca, gente sem argumento, de gente que não gosta de ser gente.
Menos ódio mais amor.

Ah, meu voto é DILMA!

sERGIO vAZ


*publicado originalmente no dia 13 de outubro de 2014 na página de Facebook do poeta Sérgio Vaz



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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Conheça nova revista de literatura independente

O belo poema abaixo, de Fabíola Weykamp, compõe a terceira edição da revista Verborhagia, assim como outras poesias e prosas de gente que se arrisca a escrever. Verborhagia é uma publicação eletrônica dedicada à literatura independente e pode ser lida em:

http://issuu.com/verborhagia/docs/verborhagia__3



te queria poema

 queria poder me chegar
 sem o medo das horas apressar

 queria poder ficar
 sem que a ansiedade por ir fosse maior

 queria te ver rima toante
                ao meu lado
 sem que a insegurança do amanhã nos impedisse o poema

 queria que me quisesses
 sem grafemas nem fonemas

 apenas aliterando, de mãos dadas, o nosso acaso

Fabíola Weykamp


Revista Eletrônica de Literatura Independente

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Crônica da Periferia

GOL CONTRA

Sérgio Vaz

No meu tempo de moleque ninguém tinha uma profissão em mente para se apegar no futuro, e todos, sem exceção queriam ser jogadores de futebol. E olha que naquela época nem dava tanto dinheiro assim. Mas não sei se pelo romantismo, pela magia ou simplesmente pela falta de perspectiva... sei lá, só sei que todos nós queríamos ser jogadores de futebol. Eu apesar da idade confesso que ainda quero.
Mas tempo passou, o Morumbi e o Maracanã envelheceram em mim e a memória, esse estádio vazio, toma dribles maravilhosos da lembrança, e tudo que me lembro foram os gols perdidos. Perdi muitos gols cara a cara com o goleiro, por isso não sou jogador, por isso não sou doutor. Tomei muita vaia do destino.
Não lembro de nenhum amigo desta época que tenha sequer passado na peneira de algum time profissional, poucos viraram doutores e uns tantos não "lerão" este artigo, se é que vocês me entendem.
A Violência sempre fez muitas faltas no nosso jogo, e quase todas por trás. Dói só de lembrar.
Apesar dos intervalos, lembro-me de partidas inesquecíveis, dessas que começavam pela manhã e seguiam tortuosas pela tarde, interrompidas apenas pelo almoço e o café das três.
São momentos inenarráveis passados com estes parceiros de time, esses meninos sábios e imortais, sem presente e sem futuro deslizando os pés descalços pelo chão. Corpos quase nus riscávamos a paisagem com nossas peles cravejadas de ossos e temperadas de suor. Eram os melhores momentos de um tempo em que o destino entrava de sola em nossas vidas.
Hoje em dia, aquele campinho de terra que esculpimos com as nossas próprias mãos é um grande cemitério, e muitos deles, craques interrompidos, estão ali, enterrados com seus sonhos, antes mesmo do jogo acabar.
Outros, por desrespeitarem as regras cometeram pênaltis desnecessários (?), e, por ordem dos juízes, foram mais cedo para o chuveiro.
Para minha tristeza muitos ainda continuam a cometerem faltas, sem medo de tomar cartões vermelhos ou amarelos, sem se importar com a força do adversário, sem se importar com a cor da camisa, sem se importar com os derrotados, se importando apenas em vencer, e vencer a qualquer preço.
Às vezes, muitos são substituídos com o jogo em andamento, alguns, antes mesmo de tocarem na bola.
Quando fecham-se as cortinas, perder sem jogar é uma derrota difícil de aceitar.
Por isso, quando a dor sai do vestiário e a saudade entra em campo, faço um minuto de silêncio, deixo uma lágrima rolar e jogo por eles a prorrogação.


*Do livro "LITERATURA, PÃO E POESIA" Global Editora


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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crônica de Sérgio Vaz

LITERATURA, PÃO E POESIA

Sérgio Vaz

A literatura na periferia não tem descanso, a cada dia chega mais livros. A cada dia chega mais escritores, e, por conseqüência disso, mais leitores. Só os cegos não querem enxergar este movimento que cresce a olho nu, neste início de século. Só os surdos não querem ouvir o coração deste povo lindo e inteligente zabumbando de amor pela poesia. Só os mudos, sempre eles, não dizem nada. Esses, custam a acreditar.

Não quero nem falar dos saraus que estão acontecendo aos montes, pelas quebradas de São Paulo. Isto me tomaria muito tempo. Haja visto as dezenas de encontros literários, pipocando nas noites paulistanas. Cada qual do seu jeito, cada qual com seu tema, cada qual a sua maneira de cortejar as palavras.

Mas eu quero falar mesmo e da poesia que se espalhou feito um vírus no cérebro dos homens e mulheres da periferia. Pois é, essa mesma poesia que há tempos era tratada como uma dama pelos intelectuais, hoje vive se esfregando pelos cantos dos
subúrbios à procura de novas emoções.

O Tal poema, que desfilava pela academia, de terno e gravata, proferindo palavras de alto calão para platéias desanimadas, hoje, anda sem camisa, feito moleque pelos terreiros, comendo miudinho na mão da mulherada. Vocês, por acaso, já ouviram falar
do tal poema concreto? Pois é, os trabalhadores e desempregados estão construindo bibliotecas com eles, nas favelas. E o lobo mau pode assoprar que não derruba. Apesar da pouca roupa que lhe deram está se sentindo todo importante com sua nova utilidade.

A periferia nunca esteve tão violenta, pelas manhãs é comum ver, nos ônibus, homens e mulheres segurando armas de até 400 páginas. Jovens traficando contos, adultos, romances. Os mais desesperados, cheirando crônicas sem parar. Outro dia um cara
enrolou um soneto bem na frente da minha filha. Dei-lhe um acróstico bem forte na cara. Ficou com a rima quebrada por uma semana.

A criançada está muito louca de história infantil. Umas já estão tão viciadas, que, apesar de tudo e de todos, querem ir para as universidades. Viu, quem mandou
esconder a literatura da gente, Agora nós queremos tudo de uma vez!

Dizem por aí que alguns sábios não estão gostando nada de ver a palavra bonita beijando gente feia. Mas neste país de pele e osso, quem é o sábio? Quem é o feio? E olha que a gente nem queria o café da manhã, só um pedaço de pão. Que comam brioches!

Não, não é Alice no país da maravilha, mas também não é o inferno de Dante. É só o
milagre da poesia. Quem odeia ler agora?


Crônica publicada pelo poeta Sérgio Vaz em sua página oficial no Facebook

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Crônica de Nelson Rodrigues - Antiga, porém, Atual

Complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.


Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119, e ao  livro “À sombra das chuteiras imortais: crônicas de chutava”, seleção de notas de Ruy Castro – Companhia das Letras – 1993.

Fonte: Releituras


Assista no OutroCine o documentário O Complexo de Vira-Latas
          

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Revista Fórum entrevista o poeta Sérgio Vaz

Sérgio Vaz, o poeta sonhador da quebrada, completa 25 anos de carreira

O escritor que inaugurou um movimento cultural nas periferias paulistanas celebra sua trajetória e reafirma seu compromisso com a militância pelas “quebradas”: “Se o opressor leu, o oprimido tem que ler também”
Por Igor Carvalho para revista Fórum
Sérgio Vaz é do tempo em que ninguém ouvia o soluçar de dor em seu canto no Brasil. Do seu verso de revolta fez nascer, com o poeta Marco Pezão, a Cooperifa, que inaugurou um dos movimentos culturais e sociais mais ativos e importantes das periferias de São Paulo, os saraus.
Completando, em 2014, 25 anos de carreira, Sérgio Vaz fez cumprir a profecia de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte em “Canto das Três Raças”, que diz: “De guerra em paz, de paz em guerra / Todo o povo dessa terra / Quando pode cantar, canta de dor”.
O canto triste de Sérgio Vaz é denúncia de uma periferia que luta contra o genocídio da população negra e jovem, que pede espaços culturais em vez de delegacias e unidades da Fundação Casa, que grita por dignidade, que insiste em formar leitores e que constrói “a Primavera de Praga da periferia”, como o poeta define os últimos dez anos de agitação cultural nas “quebradas”.
Este paulistano de Minas Gerais – “não fala que sou mineiro que eu fico bravo” – gosta de repetir que se soa triste, em sua obra, é por que ele é triste. “Tenho uma tristeza que me visita até nos dias de alegria”. Mas que esse sentimento não se confunda com ceticismo. “Antes, deixa eu só esclarecer uma coisa: não sou pessimista, sou realista”, diz o poeta, com a convicção de quem visita becos e vielas da zona sul de São Paulo há 45 anos.
Ao todo, é autor de sete livros que venderam, somados, 30 mil exemplares. A obra do poeta o levou a seis países, para participar de feiras literárias e congressos. Das viagens, internacionais ou não, Vaz sempre traz reproduções de Dom Quixote, o personagem central da obra homônima de Miguel de Cervantes. “Esse livro salvou minha vida”, diz o poeta, que já possui mais de 30 reproduções do herói da literatura espanhola, entre elas, uma de 2 metros, instalada no quintal de sua casa.
Sobre a Cooperifa e seu tradicional sarau organizado no bar do Zé Batidão toda semana, Vaz se derrama. “É por isso que vale a pena estar vivo. Depois de cada quarta-feira, eu percebo que a vida, ainda que fútil e dolorida, é um milagre.”
SV4
Hoje, um moleque, na quebrada, que tem uma noção artística, vai tocar violão, vai para o sarau, vai cantar um rap, mas e nos anos 70, em que você só seria um jogador de futebol ou trabalharia na metalúrgica? (Foto: Anna Beatriz Anjos)
Sérgio Vaz – O moinho maior foi o seguinte: Meu pai veio morar em São Paulo, antigamente era assim, primeiro vinha o pai, arrumava emprego e depois trazia a família. Bom, quando cheguei aqui tinha quatro anos, sou paulistano, não fala que sou mineiro que eu fico bravo, viemos morar em um cortiço aqui no Parque Santo Antônio (zona sul de São Paulo). Meu pai trouxe o hábito da leitura, ele era um homem que gostava de ler e passou isso para mim.
Logo em seguida meus pais se separaram, numa época em que os pais não se separavam de jeito nenhum. Fiquei muito introspectivo com isso e meu pai começou a me dar livros pra ler. Mas olha quantos moinhos: nasci no Vale do Mucuri, perto do Vale do Jequitinhonha, que é um dos lugares mais pobres do mundo, meu pai, pobre, veio pra cá lutar, os pais separam, você mora na periferia de São Paulo nos anos 70. Mas olha, na minha casa nunca faltou comida e livro. Com 13 anos, gostava de ler mas não gostava de poesia, achava que era coisas de fresco e de maluco, esse povo que acorda e dá bom dia para o sol, abraça árvore [risos]. Já mais crescido, eu era o cara dos bailes blacks e jogador da várzea, jogava bola em time de favela, não ia pegar bem gostar de poesia, se é que você me entende [risos].
Bom, em 1983 vou servir o exército. Era ditadura militar e eu nem sabia que a gente vivia na ditadura militar, olha isso, vivia em Macondo [alusão a vila imaginada por Gabriel Garcia Marquez em Cem Anos Solidão], isolado, a periferia era nosso país, não saíamos daqui pra nada. Quando você é pobre, só descobre que foi triste na infância quando fica mais velho, porque o jovem é feliz em qualquer circunstância, nos escombros do Haiti o moleque consegue ser feliz. Bom, já no exército começo a me interessar por música popular brasileira e me afasto da black music, tinha algo naquelas músicas. Aí descobri as metáforas. Um dia, eu estava na cozinha do exército ouvindo uma música do Geraldo Vandré, na voz da Simone, “Pra não dizer que não falei das flores” e cantando alto, dentro do quartel. Eu nem sabia o que significava aquela porra. Entra o sargento: “Filho da puta, mocorondo, isso é música de Che Guevara, comunista”. Fiquei olhando e me interessei, pensei: ‘Caralho, mano, tudo isso dentro de uma música só?’.
A partir daí começo a me politizar pra valer, descubro o Lorca, que lutou contra a ditadura do Franco, e a poesia vira uma paixão. Aí descubro que a poesia não era só pra ganhar mulher. Nesse momento caiu na minha mão o livro 1968, o ano que não terminou do Zuenir Ventura. Malandro, saí do quartel e estava pronto para seguir Lamarca. Ali eu me torno poeta. Tem uma frase do Ferreira Gullar, em um disco do Milton [Nascimento] em que ele diz: “O canto não deve ser uma traição à vida. Só é justo cantar, quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não têm voz”. Pronto, eu queria escrever sobre isso, sobre liberdade. Descobri que queria ser poeta, e como ser poeta é uma construção, comecei a me preparar para isso.
Fórum – Uma vez, você reclamou: “Em toda entrevista que vou tenho que falar de periferia, de sangue, violência, PCC, rolezinho, e nunca consigo falar do quanto eu gosto do Carlos Drummond de Andrade, do Neruda, do Lorca, da Cecília Meireles”. Fala agora.
Sérgio Vaz – Quando entra o Dom Quixote na minha vida, jogava futebol e me achava um cara estranho. Hoje, um moleque, na quebrada, que tem uma noção artística, vai tocar violão, vai para o sarau, vai cantar um rap, mas e nos anos 70, em que você só seria um jogador de futebol ou trabalharia na metalúrgica? Só existiam essas duas opções, mas você gosta de literatura em um meio que ninguém gosta de literatura. Imagina, você joga no meio da malandragem, aí está esperando o contra-ataque e cutuca o zagueiro: “Então meu, leu o último do Jorge Amado?”. Pô, eu era muito estranho, muito apaixonado por literatura, aí caiu o “Dom Quixote” na minha mão, e esse livrou salvou minha vida. Terminei o livro e constatei que eu era um sonhador, e não tem nenhum problema em ser um sonhador.
Fórum – Incomoda, em algum momento, quando vão falar de você e é o escritor marginal, o periférico, o divergente…
Sérgio Vaz – Adoro isso. A periferia é a maioria, mano, sou o poeta da maioria, podem colocar na estante da livraria, “poeta da periferia”. Sou da periferia, assumo isso. Se eu fosse “poeta da classe média” seria chato, menor, teria menos gente me lendo. Sempre vi dragões em lugar de moinhos de vento, encontrei a felicidade quando encontrei a poesia, era pobre, da periferia, sonhador pra caralho, a poesia me possibilitou continuar sonhando nesse ambiente.
Fórum – Quais escritores mas te influenciaram?
Sérgio Vaz – Pablo Neruda com certeza, não vou nem falar o Gullar porque depois ele virou outra coisa, os textos dele de hoje, nossa, enfim… Miguel de Cervantes, Julio Córtazar, Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, os latinos mesmo.
Fórum – Quando você lê esses latinos, enxerga as mesmas periferias e os mesmos problemas sociais que você vive e vê?
Sérgio Vaz – É a mesma coisa. No começo do livro Cem anos de solidão, os Buendías são tratados como loucos e fazem o quê? Vão fundar outro bairro, vão ocupar uma outra área, o que é isso? Periferia. Aí, é o mesmo sofrimento.
Fórum – Em alguns poemas seus, a construção lembra uma música de rap. Qual a importância desse gênero na sua trajetória?
Sérgio Vaz – Tenho gratidão pelo rap. Lá atrás, com o pseudo fim da ditadura, os caras da MPB param de falar de problemas sociais, parece que tudo ficou bom só por que não tem mais um militar no poder. Nesse momento, escuto Racionais MCs cantando “Fim de semana no parque”. A MPB não fazia mais efeito. Quando escuto “Fim de semana no parque”, falando do Parque Santo Antônio, que é o bairro que eu moro, só quem falava da gente era o Gil Gomes e o Afanázio. Porra, então eu estava à toa na vida, vendo a banda passar, e não percebi esses caras?
Reposiciono, então, minha poesia e meu interesse, começo a seguir o hip hop, parei de ir ver show do Chico e do Caetano. O rap deu o gripo de independência da periferia. São eles que vão começar a falar de Malcom X, de Martin Luther King e de Steve Biko. “Dia de luz, fesa do sol, um barquinho a deslizar, no macio azul do mar”, que lindo né? Mas essa era a vista da janela deles, não a nossa. Aqui, quando se abre a janela, eu vejo o que o Gog e os Racionais falavam.
Fórum – Aí vem seu primeiro livro.
Sérgio Vaz – Sim, em 1988 lanço Subindo a ladeira mora a noite, meu primeiro livro. Com o livro eu começo a me posicionar culturalmente na periferia, porque eu ia no Bixiga [região central e boêmia de São Paulo] para ter cultura, comecei a mexer na geografia da cultura na minha cabeça, comecei a falar com os meus daqui, como Fela Kuti. Entendi, então, que quem queria me ouvir estava aqui, na minha rua, na minha quebrada. Começou, aí, a nascer a mentalidade Cooperifa na minha cabeça. Quando eu ia para o centro, já ia com outro olhar, comecei a ver que as pessoas eram todas brancas, de classe média, eu não era nada disso. Aí começo a ser um engajado periférico descarado.
Fórum – Você tinha trabalhos paralelos nessa época, ainda?
Sérgio Vaz – Sim, trabalhei em banco, fui vendedor, auxiliar de escritório, assessor parlamentar em Taboão da Serra. E, sabe, isso era uma loucura na minha cabeça, porque eu queria me dedicar à escrita, eu queria viver da arte e não podia. Essa casa aqui que estamos, eu comprei faz três anos só.
Fórum – Há três elementos muito fortes em sua poesia, a ironia, a metáfora ou o trocadilho.
Sérgio Vaz – Gosto mais da ironia. Ela bate no cara e o cara gosta. Ele dá risada. Você faz a ironia e o cara não entende nada, é como o sistema faz com a gente. As metáforas, nos dias de hoje, não caem tão bem, vivemos um momento em que as questões devem estar colocadas mais às claras, vivemos um outro tipo de censura que vivemos.
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“A periferia é a maioria, mano, sou o poeta da maioria, podem colocar na estante da livraria, ‘poeta da periferia’. Sou da periferia, assumo isso” (Foto: Anna Beatriz Anjos)
Sérgio Vaz – Eu não sou feliz. Tenho uma tristeza que me visita até nos dias de alegria. Tenho meus momentos de alegria e de euforia, mas é engraçado, não consigo ser feliz. Não nasci pra ser feliz. Fico feliz no boteco com os chegados ou na várzea.
Fórum – Por que?
Sérgio Vaz – Eu vendo alegria, os poetas vendem alegria, mas sou triste. Não sei se é o país, se são as pessoas, mas me sinto responsável por muita coisa. Outro dia, fui visitar uma favela aqui e entrei na casa do cara, um barraco de madeira, um rato no meio da sala, o esgoto passa no meio do barraco, saí de lá arrasado. Como ser feliz assim? Aí você bebe mano, porque o mundo sem álcool é foda. Não consigo ir no shopping comprar um tênis novo, me sinto mal. Aí gosto de livros tristes também. O [Ernest] Hemingway falava que para ser um bom escritor tem que ter tido uma infância triste, então estou pronto.
Fórum – Tua infância foi ruim?
Sérgio Vaz – Não, ela foi sem privilégios, mas foi rica.
Fórum – Falando dessa tristeza, me lembro de “Jorginho”, que acho seu poema mais triste.
Sérgio Vaz – É o mais triste mesmo. Antes deixa eu só esclarecer uma coisa, não sou pessimista, sou realista. Muito tempo atrás, acho que em 1999, estava em uma favela e visitei o barraco de uma senhora. Mano, mesmo dentro da favela, tem classe A, B e C. O barraco dela era classe C, muito debilitada a situação daquela família. Tinha uma vala que passava do lado do colchão, só merda. A dona do barraco estava grávida e tinha mais cinco filhos. Fiquei olhando pra barriga daquela mulher e pensando: “Se eu fosse esse moleque, me enforcava com o cordão umbilical”. O que esse moleque vai ter na vida, já tem mais quatro para dividir tudo aqui.
Fórum – Você é disciplinado para ler e escrever?
Sérgio Vaz – Começo a ler 6h, leio o jornal. Estava lendo Filho dos dias, do Eduardo Galeano, terminei hoje. Semana passada terminei O Filho eterno, do Cristovão Tezza. Mas ontem, inclusive, eu estava em Brasília, dando uma palestra, tinha 100 pessoas. Na sala ao lado, 100 mil pessoas vendo o Galeano na palestra dele. E eu me perguntando o que os caras estavam fazendo na minha, porque se eles fossem para a do Galeano eu também poderia ir [risos].
Fórum – Em “O machado, o talarico e a racha” você tira um sarro do Dom Casmurro, usando a oralidade da periferia. Qual a importância dessa oralidade no seu trabalho?
Sérgio Vaz – Amo esse livro. Eu quis fazer uma brincadeira com esse lance da obrigatoriedade, da imposição de se ler determinados livros. Quando você lê Olhai os lírios do Campo ou Dom Casmurro com essa obrigação, não entende. Aí, decidi fazer uma versão que o intelectual não ia entender, coloquei tudo no nosso dialeto e ele que procure alguém da quebrada pra traduzir. Outro dia comecei a ler uma crônica do [Carlos Heitor] Cony, no jornal, e ele começa em alemão, caralho. Quer dizer, se você não entende alemão, não está no mesmo nível, então não serve para ser leitor dele. A oralidade ajuda na generosidade, você pode ler meu livro para alguém ouvir, ajuda na formação de público. Precisamos de mais gente lendo, e essas pessoas só vão ler se conseguirem se identificar com o que está sendo dito. Se eu começar um texto em alemão, não formo público, só reproduzo discurso.
Fórum – Você se orgulha mais dos poetas que a Cooperifa formou ou dos leitores que a Cooperifa formou?
Sérgio Vaz – Dos leitores. O meu trabalho, o trabalho da Cooperifa, é formar leitores. É um paradoxo maluco nosso tempo. Cada dia tem mais filmes, mas cada dia tem menos cinemas. Precisamos formar leitores, não adianta ter 100 livrarias se ninguém vai ler. O [Hugo] Chavez distribuiu um milhão de exemplares do “Dom Quixote”, é isso, tem que formar uma cultura de leitura. Se o opressor leu, o oprimido tem que ler também.
Fórum – Você escreve crônicas. Em que momento a poesia deixou de bastar para o Sérgio Vaz? Você pensa em escrever um romance?
Sérgio Vaz – A crônica surgiu a partir do blogue, a poesia é muito concisa, ela te cobra uma síntese que é cruel. Na crônica, eu posso dar opinião, e eu peguei gosto nisso. E eu sou fã, e me inspiro, no [Eduardo] Galeano e da Cecília Meirelles, escrevendo crônicas. Acho que é algo que vai caminhar comigo sempre, gosto das crônicas. Sempre quis escrever um romance, mas para isso teria que ser mais minucioso, sou muito ansioso, no meio do livro já ia dizer quem matou o cara, não daria certo. Sou um relaxado.
Fórum – O que significa uma quarta-feira, dia do sarau da Cooperifa, na sua vida?
Sérgio Vaz – Puta que pariu, você me pegou [longa pausa]. É por isso que vale a pena estar vivo. Depois de cada quarta-feira, eu percebo que a vida, ainda que fútil e dolorida, é um milagre.
Fórum – A quarta-feira é dia de futebol na TV, o sarau da Cooperifa, inclusive, é no horário da novela, muita gente tem internet em casa. Do outro lado da cidade, o cinema é mais barato. Mesmo assim, toda quarta-feira, tem entre 200 e 300 pessoas ouvindo poesia na Cooperifa. Tem momentos que você se pega pensando nessas coisas durante o sarau?
Sérgio Vaz – Tem, várias vezes. Caralho, mano, acho que é por isso que eu vim pra essa vida, sem brincadeira, vim para juntar gente. Uma das funções da Cooperifa é, também, refundar a amizade. As pessoas são obrigadas, ali, a sentar juntas, elas deve ficar em silêncio e contemplar. Em doze anos, nunca teve uma única briga.
Fórum – Deus está muito presente na sua obra, sempre com ceticismo. Você acredita em Deus?
Sérgio Vaz – Já chamei muito por Ele. Principalmente quando jovem, assustado com as coisas da vida. Aí chegou uma época da vida que cansei e falei: “Quer saber, Ele que vá tomar no cu dEle”. Deus que vá atender aos pedidos de quem Ele sempre atende, aqui Ele não vem mesmo. Então, assim, não me preocupo com nada em relação à religião, sou ateu mesmo e cada vez que caminho na rua, tenho mais certeza que Ele não existe. As pessoas estão provando que Ele não existe, porque se somos a imagem e semelhança de Deus, então estamos fodidos.
Fórum – Neste ano, lembramos o centenário da Maria Carolina de Jesus…
Sérgio Vaz – Primeira vida loca da história [risos].
Fórum – Você está com 49 anos, daqui mais meio século, como acha que será lembrado em seu centenário?
Sérgio Vaz – Sou um poeta simples, de rua. Quero ser lembrado como um sonhador. Nada mais. Sou o poeta do amor, até para falar de uma causa, você precisa amar essa causa. Nunca escrevi contra, por que para escrever contra precisa ter ódio, escrevo a favor dos nossos. Talvez, também, eu seja um covarde, que decidiu escrever poemas para defender suas causas, porque se eu tivesse coragem faria uma revolução, ia pra rua de arma na mão.
Fotos: Anna Beatriz Anjos
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Jornal tem fotos digitalizadas e disponibilizadas na rede

Fotos inéditas do Jornal Última Hora estão na internet


Fonte: Núcleo de Comunicação do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Grande parte das fotografias ficou guardada em arquivo por muitos anos e não chegou a ser publicada no jornal.

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O Arquivo Público do Estado de São Paulo acaba de digitalizar e disponibilizar na internet parte do arquivo fotográfico do jornal Última Hora, um dos mais importantes periódicos do jornalismo brasileiro, que circulou em diversas cidades brasileiras nas décadas de 1950 e 1960. São quase 20 anos de história registrados em 54.600 mil fotografias e 1.200 ilustrações, que podem ser vistas pelo site http://www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital/

Diferentes momentos da história brasileira foram registrados pelas lentes fotográficas do jornal Última Hora: o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 1954; as Olimpíadas de Helsinki, em 1952; a estreia de Roberto Carlos na TV Tupi, em 1968. a visita dos Rolling Stones ao Rio de Janeiro, em 1968. Além de nomes que marcaram a música brasileira, como Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Ângela Maria e Chico Buarque e o t eatro, Eva Tudor, Tônia Carreiro, Procópio Ferreira, Grande Otelo e Cacilda Becker.

O tratamento de conservação preventiva e a digitalização dessas imagens é resultado do Projeto Última Hora – Acervo Fotográfico , que consistiu em organizar, conservar, digitalizar, tratar as imagens, produzir instrumentos de pesquisa e disponibilizar na internet este grande volume de fotografias. Este projeto teve início em 2007 no Centro de Acervo Iconográfico e Cartográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

A diretora do Centro, Elisabete Savioli , explica que as imagens desse projeto são do Departamento de Arquivo Fotográfico da Última Hora, na forma de negativos flexíveis. “Este tipo de suporte é muito frágil e de fácil deteriorização, o que torna a manipulação destes documentos bastante complicada”, explicou Elisabete. Além disso, para visualizar a imagem no negativo é preciso utilizar instrumentos específicos como lupas e mesas de luz. Leia a íntegra.


Fonte: Banco Cultural - 2008 Copylef

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Curta Experimental

Um mergulho na história do movimento concretista de São Paulo a partir de fragmentos da obra do poeta Augusto de Campos. Uma colagem de cenas raras revela o longo rastro cúmplice entre a poesia concreta e o cinema experimental.

Hi-Fi


Gênero Experimental
Diretor Ivan Cardoso
Elenco Carlos Imperial, Clarice Piovesan, Cristiny Nazareth, Decio Pignatari, Felipe Falcão, Haroldo de Campos, Helena Lustosa, José Lino Grunewald, Man Ray, Marcel Duchamp, Nina de Pádua, Orson Welles, René Clair, Rogéria, Sandro Solviati, Satã, Sydney Greenstreet, Wilson Grey
Ano 1999
Duração 8 min
Cor Colorido
Bitola 35mm
País Brasil

Ficha Técnica
Produção Topázio Filmes Fotografia Ivan Cardoso, Eduardo Viveiros Roteiro Ivan Cardoso, Augusto de Campos Trilha Sonora Augusto de Campos, Cid Campos



Todas as informações e dados são do sítio PortaCurtas


Mais curtas em www.outrocine.blogspot.com - Outro jeito de ver cinema