quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Jornal tem fotos digitalizadas e disponibilizadas na rede

Fotos inéditas do Jornal Última Hora estão na internet


Fonte: Núcleo de Comunicação do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Grande parte das fotografias ficou guardada em arquivo por muitos anos e não chegou a ser publicada no jornal.

Image
O Arquivo Público do Estado de São Paulo acaba de digitalizar e disponibilizar na internet parte do arquivo fotográfico do jornal Última Hora, um dos mais importantes periódicos do jornalismo brasileiro, que circulou em diversas cidades brasileiras nas décadas de 1950 e 1960. São quase 20 anos de história registrados em 54.600 mil fotografias e 1.200 ilustrações, que podem ser vistas pelo site http://www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital/

Diferentes momentos da história brasileira foram registrados pelas lentes fotográficas do jornal Última Hora: o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 1954; as Olimpíadas de Helsinki, em 1952; a estreia de Roberto Carlos na TV Tupi, em 1968. a visita dos Rolling Stones ao Rio de Janeiro, em 1968. Além de nomes que marcaram a música brasileira, como Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Ângela Maria e Chico Buarque e o t eatro, Eva Tudor, Tônia Carreiro, Procópio Ferreira, Grande Otelo e Cacilda Becker.

O tratamento de conservação preventiva e a digitalização dessas imagens é resultado do Projeto Última Hora – Acervo Fotográfico , que consistiu em organizar, conservar, digitalizar, tratar as imagens, produzir instrumentos de pesquisa e disponibilizar na internet este grande volume de fotografias. Este projeto teve início em 2007 no Centro de Acervo Iconográfico e Cartográfico do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

A diretora do Centro, Elisabete Savioli , explica que as imagens desse projeto são do Departamento de Arquivo Fotográfico da Última Hora, na forma de negativos flexíveis. “Este tipo de suporte é muito frágil e de fácil deteriorização, o que torna a manipulação destes documentos bastante complicada”, explicou Elisabete. Além disso, para visualizar a imagem no negativo é preciso utilizar instrumentos específicos como lupas e mesas de luz. Leia a íntegra.


Fonte: Banco Cultural - 2008 Copylef

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Curta Experimental

Um mergulho na história do movimento concretista de São Paulo a partir de fragmentos da obra do poeta Augusto de Campos. Uma colagem de cenas raras revela o longo rastro cúmplice entre a poesia concreta e o cinema experimental.

Hi-Fi


Gênero Experimental
Diretor Ivan Cardoso
Elenco Carlos Imperial, Clarice Piovesan, Cristiny Nazareth, Decio Pignatari, Felipe Falcão, Haroldo de Campos, Helena Lustosa, José Lino Grunewald, Man Ray, Marcel Duchamp, Nina de Pádua, Orson Welles, René Clair, Rogéria, Sandro Solviati, Satã, Sydney Greenstreet, Wilson Grey
Ano 1999
Duração 8 min
Cor Colorido
Bitola 35mm
País Brasil

Ficha Técnica
Produção Topázio Filmes Fotografia Ivan Cardoso, Eduardo Viveiros Roteiro Ivan Cardoso, Augusto de Campos Trilha Sonora Augusto de Campos, Cid Campos



Todas as informações e dados são do sítio PortaCurtas


Mais curtas em www.outrocine.blogspot.com - Outro jeito de ver cinema

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morre José Saramago

Aos 87 anos, morre o escritor português José Saramago

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil


Brasília – O escritor portugês José Saramago, de 87 anos, morreu hoje (18) em consequência de falência múltipla dos órgãos, depois de um longo período com a saúde fragilizada. Prêmio Nobel de Literatura em 1998, Saramago morreu na Ilha de Lanzarote, uma das Ilhas Canárias, onde vivia desde os anos 90.

A fundação que leva o nome do escritor informou que ele estava acompanhado pela família no momento da morte. A informação foi confirmada pela imprensa portuguesa.

“O escritor morreu acompanhado por sua família, despedindo-se de forma serena e tranquila”, informou a Fundação José Saramago em um breve comunicado de cinco linhas. Segundo a nota, a morte ocorreu às 12h30 – cerca das 8h de Brasília. A notícia está estampada na capa do site da fundação na internet.

De acordo com a imprensa portuguesa, Saramago teve uma noite tranquila, tomou o café da manhã normalmente hoje, mas em seguida começou a passar mal e morreu. A mulher dele, Pilar Del Río, o acompanhava.

No blog do escritor foi postado hoje um trecho de uma entrevista concedida por Saramago em 11 de outubro de 2008 à revista portuguesa Expresso.

“Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Edição: Tereza Barbosa

Fonte: AgênciaBrasil - Todo o conteúdo da Agência Brasil está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 2.5. Brasil.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Curta sobre Clarice Lispector

Clarice Lispector, a menina ucraniana, descobriu no Recife a felicidade clandestina que fez dela uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos. (PortaCurtas)

Clandestina Felicidade



Sinopse
Fragmentos de infância, descoberta do mundo pelo olhar curioso, perplexo e profundo da criança-escritora Clarice Lispector.

Gênero Ficção
Diretor Beto Normal, Marcelo Gomes
Elenco Luisa Phebo, Nathalia Corinthia, Luci Alcântara
Ano 1998
Duração 15 min
Cor P&B
Bitola 35mm
País Brasil


Ficha Técnica
Produção Alcir Lacerda Fotografia Jane Malaquias Roteiro Beto Normal e Marcelo Gomes Edição Vânia Debs Som Direto Márcio Câmara Direção de Arte Liz Donovan Trilha original Fred 04 e DJ Dolores





Fonte: PortaCurtas




Mais Clarice Lispector
Conto de Clarice Lispector
Clarice Lispector, Escritora “Indigesta”
Conto de Clarice Lispector II
Conto de Clarice Lispector III
Poesias de Clarice Lispector



Curtas do mundo inteiro no OutroCine 
http://outrocine.blogspot.com - Mostra permanente de cinema

sábado, 8 de maio de 2010

Clássica Infantil de Vinícius e Toquinho em Animação

A Casa, composição de Vinícius de Moraes e Toquinho, virou animação nas mãos do diretor Andrés Lieban.

A Casa


Sinopse
Ao som da famosa canção de Vinícius e Toquinho, um mímico se diverte construindo uma casa que só é visível para quem acredita na história.


Gênero Animação
Diretor
Andrés Lieban
Ano 2004
Duração 3 min
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil

Ficha Técnica
Produção
Fernando Faro Roteiro Andrés Lieban Animação Andrés Lieban Empresa produtora Laboratório de Desenhos, Editora Delta Produção Executiva André Koogan Breitman Finalização Proview Produções Música Sincronizada Vinicius de Moraes Interpretação musical Boca Livre

Prêmios
Melhor Trilha Sonora no Anima Mundi 2004

Premier Internacional no Film Festival of the World 2004

Festivais
Festival Internacional de Cinema Infantil 2004

Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis 2005


Fonte: PortaCurtas




Mais curtas no OutroCine - Mostra Permanente de Cinema

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cultura Livre à disposição de todos

Conheça o projeto da Brasiliana Digital que visa democratizar o acesso cultural disponibilizando para baixar, de forma livre e irrestrita, vasto acervo de livros, documentos, periódicos e manuscritos. Salve a cultura livre!

Recentemente toda obra do poeta Vinícius de Moraes, num total de 15 livros, foi disponibilizada gratuitamente no saite da Biblioteca Brasiliana Digital.


SAIBA MAIS SOBRE A BRASILIANA DIGITAL

A Brasiliana Digital é uma extensão do gesto de generosidade de Guita e José Mindlin de tornar público um acervo único de documentos sobre o Brasil.



terça-feira, 27 de abril de 2010

Perder Liberta

Poesias do concretista Arnaldo Antunes.

Perder - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Tira a asa - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).


SOL TO - 1997
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva).

Seja o que for - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).

Sempressa - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).


THE AND - 1997
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva)


Fonte: Arnaldo Antunes


Outras
Poemas Visuais de Arnaldo Antunes

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Como Fazer uma Rádio Comunitária

UFRGS publica cartilha que ensina como fazer rádio comunitária

Fonte: RITS Rede de Informação do Terceiro Setor

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], através da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação [Fabico] e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação [PPGCOM], está publicando a cartilha Para fazer Rádio Comunitária com "C" maiúsculo.

A obra é organizada por Ilza Girardi, professora do PPGCOM, e Rodrigo Jacobus, mestrando do programa, e dá sequência a um trabalho de seis anos que já havia publicado a “Cartilha (sem frescura) da Rádio Comunitária”.

A cartilha, que traz um histórico das rádios comunitárias, questões da legislação e fornece informações de como montar uma rádio, está sobre licença Creative Commons e pode ser distribuída gratuitamente sobre a mesma licença, que pode ser conferida na página quatro da obra.

Baixe seu exemplar e redistribua a cartilha, reforçando a importância de obras compartilhadas sem custo, priorizando o acesso livre à informação. A cartilha está disponível aqui para download [em PDF].

Notícia publicada originalmente no sítio da Abong.


Fonte: BancoCultural Copyleft

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Tiradentes em Animação

Tiradentes - O Descartável
A animação Tiradentes - O Descartável conta de maneira bem-humorada a trajetória que levou à forca José da Silva Xavier, o Tiradentes. Este curta foi desenvolvido por Rodrigo Araújo, historiador e cartunista.






Tiradentes - O Descartável


Sinopse
Curta de animação do Barão do Pirapora de Piedade-SP, tratando um pouco da vida de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes e a Inconfidência Mineira.

Gênero Animação
Diretor Rodrigo Araújo
Ano 2008
Duração 5'30''
Cor Colorido
País Brasil



Fonte Imagem: PiraporaPictures


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terça-feira, 20 de abril de 2010

Poemas Manuel Bandeira

Quatro poesias de Manuel Bandeira.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


O menino doente

O menino dorme.

Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho,
"Dorme . . . dorme . . . meu . . ."

Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho . . . "

E o menino dorme.


Noite morta

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite . . .

(Não desta noite, mas de outra maior.)

Petrópolis, 1921


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Fonte: Jornal de Poesia


Mais
Poesias de Manuel Bandeira

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pequena Epifania

pequena epifania

Eu homem, desaparecendo com objetos. Garrafas quebradas, avisto uma cortina balançada de vento, toco tua boca e as manchas no colchão velho improvisado em que fingimos dormir. Tu mulher, tanta mulher em ti, teu cheiro incomum que inunda o pequeno espaço onde te acaricio na rua de mão única. Cansada, negra, lívida e negra, desaparecida nos objetos, sorriso largo - rareando - estufada daquela beleza que atinge mulheres alheias ao tempo, mulheres de qualquer rua, mulheres do pequeno espaço da rua em que posso te acariciar.

Raquel Leão Luz

Fonte:
http://tenhomedodevirginiawoolf.blogspot.com

segunda-feira, 29 de março de 2010

Renato Russo, Nosso Irmão mais Velho

No dia 27 de março Renato Russo, poeta e líder da banda Legião Urbana, completaria 50 anos. Vítima da aids, teve a vida interrompida precocemente, mas, sua obra se perpetua. A seguir, texto do jornalista Wagner Machado escrito exclusivamente para o Música&Poesia.


Nosso irmão mais velho
por
Wagner Machado

Renato Russo - Imagem Ricardo Castro
Eu tinha sete ou oito anos quando ouvi Legião Urbana pela primeira vez. A música era Faroeste Caboclo, grande sucesso naquele momento, a despeito de seus 9 minutos de duração e dos palavrões que a letra continha, a ponto de se criar uma versão que subtraía toscamente os palavrões (“olha pra cá, olha pra cá, seu sem-vergonha” em vez do original “olha pra cá, filho da puta sem-vergonha”) para adequar-se às normas de radiodifusão.

Creio não ser exagero afirmar que este momento, a primeira vez que ouvi Legião, marca o rito de transição da minha infância para a adolescência. Era 1988, o Brasil saíra recentemente do longo e triste período que se iniciara em 31 de março de 1964 para terminar duas décadas depois. O rock nacional efervescia com as tantas bandas surgidas na primeira metade daquela década. Entre as quais despontava a Legião Urbana do Renato Russo, que traduzia, com suas letras fortes e diretas e seu som sujo e sentido, a ânsia de uma geração que chegava a um momento histórico em que havia muitos motivos por que lutar, mas não havia mais um inimigo claro e declarado, uma luta perplexa e vaga, como perplexo e vago era o negro João de Santo Cristo, protagonista de Faroeste Caboclo, que vê sua vida transformada num inferno em Brasília porque queria fazer um patético pedido ao presidente, ajudar toda essa gente que só faz sofrer.

No ano seguinte ao meu primeiro contato com a banda brasiliense do Renato Russo, a Legião lança o disco “As Quatro Estações”, que consolidou meu gosto pela música e minha desconfiança e aversão a tudo o que é rotulável. Porque “As Quatro Estações” era um grande disco de rock, mas era reducionismo demais chamar aquilo de rock. Porque ali havia ecos do punk brasileiro irritado e rebelde ao mesmo tempo em que havia um lirismo tão triste e tão franco. Tinha guitarra distorcida, mas tinha piano. Falava em drogas, em violência, mas citava Camões e textos bíblicos. E as letras de Renato feriam e tocavam, a mim e à minha geração, tão perdida e tão sôfrega.

Renato fazia letras um tanto pobres sob o aspecto da construção poética, mas – ou talvez por isso mesmo – tão bonitas e altissonantes, como se soubesse – e creio que sabia – o que cada um de nós sentia, melhor que nós até. Não tem nada de elaborado no rude verso “parece cocaína mas é só tristeza”, não tem rima rica, métrica precisa e nem acuidade vocabular, mas era a perfeita e dolorida tradução do que sentíamos naquele justo momento. E quem disse isso de forma tão direta e bonita quanto Renato Russo?

Renato Russo era um cara triste, mas sua tristeza era em nada comparável a essas bandas babacas de hoje que ganham grana vendendo melancolia barata e plástica. Era uma tristeza não-egoísta, solidária, abrangente, uma tristeza pelo destino de todos nós, pela opressão, pela ignorância, pela mediocridade, por este país tão rico e tão injusto, e tão hipócrita. Também não era uma tristeza autoindulgente, mas antes uma tristeza autocrítica, convidando à reflexão mas também à ação.

Renato Russo foi o irmão mais velho da minha geração. Liderava a maior banda de rock do meu país. Naquela época, as bandas do primeiro time do rock nacional (Titãs, Paralamas, Barão, Ira! e tantas outras) lotavam ginásios, vendiam milhões de cópias de discos e realmente faziam a cabeça da minha geração. Mas Renato jamais se deixou seduzir pelo lado podre da fama. Não permitiu transformar-se em star superexposto nos meios de comunicação, não aceitou tornar-se um escravo de si mesmo nem da sua imagem. Jamais deixou que jogassem seu trabalho e sua personalidade na vala comum do circo midiático. Não precisava da mídia, pois sabia falar diretamente conosco.

Em um dia qualquer de 1996, chego em casa de volta da aula, e pela MTV recebo a notícia da morte de Renato Russo, vítima da aids. Estávamos desamparados. É tão estranho, cantou ele, os bons morrem jovens. E há tempos são os jovens que adoecem. Penso que há pessoas que precisam mesmo morrer ainda jovens. É o caso de Che Guevara, de Camus, de Glauber Rocha. E de Renato Russo. Pessoas que não suportam viver neste mundo tão mesquinho e tão medíocre. Não suportam amar uma humanidade que a cada dia esquece mais um pouco o que é amor. Precisam partir pra longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita.

Wagner Machado é jornalista, atualmente trabalha na redação do portal Terra. Siga o Wagner pelo Twitter

Foto de Ricardo Castro sob uma licença Creative Commons - Alguns Direitos Reservados

quinta-feira, 11 de março de 2010

Jards Macalé - Movimento dos Barcos

Recentemente foi lançado o documentário Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, homenagem justa para este gênio da nossa música. Macalé sempre esteve tachado equivocadamente como "maldito", adjetivo que, parece, nunca lhe agradou. Neste regresso do Música&Poesia uma linda música de Jards Macalé: Movimento dos Barcos. Composição em parceria com Capinan, presente no disco Jards Macalé, de 1972.

Movimento dos Barcos - Jards Macalé


Movimento dos barcos
Jards Macalé e Capinan

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento



Fonte letra: MPBnet

Trailer Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal

Conheça mais sobre Jards Macalé


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Filme registra desejo de Waly Salomão realizado
Jards Macalé em entrevista
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Clipe de Vapor Barato
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Confira a Entrevista que Jards Macalé deu ao Gafieiras
Esses Anjos Malucos
Vapor Barato/Flor da Pele

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Poesias de Vinicius

Poemas de Vinicius de Moraes em homenagem as postagens do blogue Cultura e Ciência do Brasil.


A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...


A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938


A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos
astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher
amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Rio de Janeiro, 1950


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963


A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais


Fonte: Saite Oficial Vinicius de Moraes


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Poema de Natal, Vinicius de Moraes
Prosa de Vinicius de Moraes
Vídeos Raros com Vinicius de Moraes
Poesias de Vinicius de Moraes
Sem Rosa sem Nada
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Curta Sabino II com Erico Verissimo, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes
Leia Correspondência entre Chico e Vinícius sobre Valsinha
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Papai Noel Velho Batuta

Eu não seria tão cruel de presentear os visitantes do Música&Poesia com músicas natalinas entoadas pela Simone. Junto com a Simone poderíamos, quem sabe, esquecer a figura do velho Noel. Que este Natal seja mais do Cara que marcou a celebração desta data, que seja de seu Espírito revolucionário e suas lições de paz, fraternidade e igualdade. Pra comemorar, um pouco de subversão e protesto contidos na canção Papai Noel Velho Batuta, da banda punk Garotos Podres. A música foi gravada pela primeira vez em 1985, no seu disco de estréia, chamado Mais Podres do que Nunca. Na época, pra driblar a Censura Federal, imposta pela ditadura militar, o grupo trocou o título da música, que, originalmente, teria um nome bem mais direto: Papai-Noel Filho da Puta.

Um Feliz Natal, cheio de luta e esperança por um mundo mais justo e igual!

Yerko Herrera
Papai Noel Velho Batuta - Garotos Podres


Papai Noel Velho Batuta

Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista

Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista

Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

Pobres, pobres...
Mas nos vamos seqüestrá-lo
E vamos matá-lo!

Por que?

Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!

Por que?

Papai noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista

Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

Nosso Senhor é um velhinho muito pobre

Música O milagre do Ladrão, do álbum Vou Ser Feliz e Já Volto, segundo disco solo de Paulo Miklos. Após, ouça a mesma canção numa interpretação bem diferente da versão blues de Paulo Miklos, cantada por Lourenço e Lourival no melhor estilo caipira.

O milagre do Ladrão - Paulo Miklos







O milagre do Ladrão - Lourenço e Lourival







O milagre do Ladrão
Léo Canhoto / Zilo


Um inocente com seis anos de idade
Vivia triste por não poder caminhar
Sempre sentado numa cadeira de rodas
Olhava triste seus amiguinhos brincar

Sua mãezinha muito pobre lhe dizia
Todas as noites na hora de se deitar:
Filho querido você vai ficar curado
Nosso senhor um dia vem pra lhe curar

O inocente todo cheio de esperanças
Pra sua mãe dizia cheio de fé
Se é verdade que Jesus vem me curar
Quero saber então que jeito que ele é

Sua mãezinha entre soluços respondia
Com o seu rosto todo banhado em prantos:
Nosso Senhor é um velhinho muito pobre
Barba comprida e de cabelos muito brancos

Em uma noite muito fria e chuvosa
De tempestade e de grande escuridão
Pela janela do quarto do menino
Naquele instante foi entrando um ladrão
O inocente vendo aquele homem barbudo
Já levantou-se, foi tão grande a sua fé
Pensou que Deus tinha ido lhe curar
Saiu andando e ajoelhou-se ao seus pés

Então o menino disse:
Senhor do céu, eu lhe agradeço imensamente
Mamãe falou que você vinha me curar
Muito obrigado, fiquei bom, já estou andando
Com meus amigos amanhã posso brincar
Não vá embora, fique um pouco mais comigo
Todas as noites mamãe me ensina a rezar
E teu rosto lindo eu agora vou beijar

Ao receber aquele beijo inocente
Aquele homem de remorso estremeceu
Saiu andando com os olhos rasos d' água
Aquela sina toda ele compreendeu

A consciência lhe doeu naquele instante
Foi se afastando parecendo uma visão
O inocente no momento foi curado
Sem perceber que era um milagre de um ladrão

Este Natal, Carlos Drummond de Andrade

Este Natal
Carlos Drummond de Andrade

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.

(14-12-1966)

Texto extraído do livro "Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.

Conheça o autor e sua obra visitando "
Biografias".


Fonte: Releituras

Poema de Natal, Vinicius de Moraes

Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes, poeta e diplomata na linha direta de Xangô. Saravá! No poema acima temos retratado aquele que, para muitos, é um evento triste.

O acima foi foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.

Fonte: Releituras

Milagre do Natal, Lima Barreto

Baixe completo Milagre do Natal, texto de Lima Barreto.

Milagre do Natal - baixar aqui (arquivo pdf)


Trecho

(...) Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria seção.
Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela. (...)


Fonte: DomínioPúblico

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Poemas de Orides Fontela

Poesias da poeta Orides Fontela.

Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

Fonte: JornaldePoesia


Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Fonte: Releituras


Média

Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?

De Transposição (1969)


Fonte: AlgumaPoesia








































Imagens Manuscritos: RevistaE


Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu na cidade de São João da Boa Vista (SP), no dia 21/04/1940. Em 1946, educada por sua mãe, começa a escrever poemas. No ano de 1951, cursa o Ginásio e, em 1955, a Escola Normal de São João da Boa Vista. Seus primeiros versos são publicados em 1956 no jornal “O Município” daquela cidade. Muda-se para São Paulo (SP), em 1967, onde ingressa no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP. Estréia, em 1969, com o livro de poemas “Transposição”, publicado com a ajuda do professor e crítico Davi Arrigucci. Em 1973, lança “Helianto”. Em 1983 é publicado seu terceiro livro de poemas, “Alba”, que recebe o Prêmio Jabuti. Trabalha como professora primária e bibliotecária em várias escolas da rede estadual de ensino. Em 1986, é lançado “Rosácea”. O escritor, poeta e crítico Augusto Massi reúne, em 1988, toda a obra anterior da poeta no livro “Trevo”. Em 1996, o livro “Teia”, reunião de toda a sua obra, recebe o Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Tentando superar suas dificuldades financeiras — havia sido despejada do apartamento onde vivia — vai viver na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João daquela capital. De personalidade difícil, isola-se cada vez mais dos amigos, morrendo em 02/11/1998, num sanatório em Campos do Jordão (SP). Seu livro, “Poesia Reunida”, é lançado em 2006. (fonte: Releituras)