quarta-feira, 16 de abril de 2008

Um Apólogo, conto de Machado de Assis

Um Apólogo

Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Publicado originalmente em Gazeta de Notícias 1885

Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.


Fonte: Releituras


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8 comentários:

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Pois é Yerko, Machado sempre atual.Esse conto encerra um mergulho psicológico profundo na malfadada "alma humana".Adorei, vou, em breve, postar no meu, "O Alienista" que sempre que o leio me provoca riso, mas me ponho a meditar.Apareça lá no nosso pedaço, amigo, ainda em construção, mas aberto às pessoas de mente inquiridora como a sua.Abraços! Vanuza

Yerko Herrera disse...

Vanuza!!! Obrigado por todos os comentários aqui no Música&Poesia. Valeu pela força e elogios. Volta sempre, a casa é tua. Se precisar de algumas dicas lá na tua "bagunça" (como tu mesmo te refere ao teu blogue), tamos aí!

Abração!!!

Karin disse...

O Releituras é um ótimo site.
E Machado de Assis então.

Yerko Herrera disse...

O Releituras é uma maravilha e o Machado também! Não sei se muitas pessoas sabem, mas toda a bibliografia do Machado de Assis é de domínio público, portanto, tá tudo na rede.

Beijão.

Dourado disse...

Li várias vezes esse, e outros contos do Machado. Não me canso.

Yerko Herrera disse...

Aí, Dourado, vou começar a colocar aqui os livros do Machado de Assis!

Valeu a visita, meu velho!

Abração,
Yerko Herrera.

Anônimo disse...

meu é um maximo este site
tirei nota 10 no trabalho que fiz
parabens

Yerko Herrera disse...

Sério!? Poxa, que legal! Fico muito feliz que o Música&Poesia tenha te ajudado. Mas conta como foi?

Obrigado pelo prestígio e volta sempre! Qualquer coisa, conta comigo.

Abraços,
Yerko Herrera.