terça-feira, 9 de junho de 2026

Sem mais, a Vida vai Passando no Vazio


Altar Particular - Maria Gadú

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
Do teu penoso altar particular

Sei lá, a tua ausência me causou um caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós

Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faça melhor do que lhe parecer

Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor

Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor

Biblioteca Nacional abre inscrições para Prêmio Literário 2026

Escritores brasileiros podem concorrer com obras inéditas


Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Escritores brasileiros, com obras inéditas em primeira edição, redigidas em língua portuguesa e publicadas por editoras do país - entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026 - já podem se inscrever ao Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026.

As inscrições começaram nesta segunda-feira (8) e permanecem abertas até 8 de julho neste endereço online.

De acordo com a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), e promotora da premiação, o concurso é voltado também a autores independentes, desde que a obra esteja em deepósito legal e traga impresso o número do International Standard Book Number (ISBN).

Cada vencedor das 13 categorias receberá R$ 30 mil. A novidade desta edição é o Prêmio João do Rio, categoria dedicada aos livros de crônicas.

Categorias

Concedido anualmente desde 1994, o Prêmio Literário Biblioteca Nacional visa reconhecer a qualidade intelectual das obras publicadas no Brasil.

O concurso é considerado um dos mais conceituados do país e o mais democrático no cenário nacional, uma vez que não tem taxa de inscrição e concede o mesmo valor de premiação para cada uma das 13 categorias.

São elas: Conto (Prêmio Clarice Lispector); Crônica (Prêmio João do Rio); Ensaio Literário (Prêmio Mario de Andrade); Ensaio Social (Prêmio Sérgio Buarque de Holanda); Histórias de tradição oral (Prêmio Akuli); Histórias em quadrinhos (Prêmio Adolfo Aizen); Ilustração (Prêmio Carybé); Literatura Infantil (Prêmio Sylvia Orthof); Literatura Juvenil (Prêmio Glória Pondé); Poesia (Prêmio Alphonsus de Guimaraens); Projeto Gráfico (Prêmio Aloísio Magalhães); Romance (Prêmio Machado de Assis); Tradução (Prêmio Paulo Rónai).

Treze comissões julgadoras, sendo uma por categoria e compostas por três especialistas da área farão a avaliação das obras inscritas. Originalidade, contribuição à cultura nacional, criatividade no uso dos recursos gráficos e excelência da tradução são os critérios que serão considerados.

O resultado final será divulgado até 30 de outubro no Diário Oficial da União e no portal da Fundação Biblioteca Nacional, após a análise de recursos e homologação do resultado pela presidência da FBN.

Fonte: Agência Brasil 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Trinta e Três Anos sem Elis Regina

ELIS REGINA

Pimentinha genial

por Janaina Abreu
Ela era como Midas, rei que transformava em ouro tudo o que tocava: qualquer música que gravasse, virava clássico. Geniosa, se dizia “mais ardida que pimenta”. Mais que geniosa, genial.Não tinha 20 anos quando arrebatou o Brasil ao interpretar Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Aconteceu no I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. Considerada entre as maiores cantoras de todos os tempos, imortalizou inúmeras canções: Como Nossos Pais, de Belchior; Romaria, de Renato Teixeira; Travessia, de Milton Nascimento; Águas de Março, de Tom Jobim. As interpretações apaixonadas, o temperamento explosivo e a morte prematura, aos 36 anos, fizeram dela um mito. Gilberto Gil definiu:
“Sua voz será de todas as canções, sua alma de todos os corações.”

SEIS PEDIDOS DE BIS
A carreira de Elis Regina de Carvalho Costa começou aos 11 anos, no Clube do Guri, da Rádio Farroupilha de Porto Alegre, cidade onde nasceu em 1945.
A gauchinha tímida deu lugar a mulher de personalidade forte, quando chegou ao Rio em 1964. Participou de festivais e movimentos político-musicais, como a Passeata Contra as Guitarras, pela preservação das raízes da MPB contra a invasão estrangeira. Em 1968, no Olympia, em Paris, voltou ao palco seis vezes atendendo aos pedidos de bis. Mas a carreira internacional não vingou porque não suportava ficar longe do Brasil.

CARA FEIA É BODE
Declarações bombásticas e contraditórias eram comuns. Elis desprezou a bossa nova, mais tarde gravou com Tom Jobim e Roberto Menescal. Falou mal da Tropicália, mas gravou Caetano e Gil. Chamou os militares da ditadura de “gorilas”, mas cantou na Olimpíada do Exército de 1972. Tinha língua afiada:
“Cara feia pra mim é bode. Sou mais ardida que pimenta!”
Relacionamentos amorosos conturbados. Do primeiro casamento, com o compositor Ronaldo Bôscoli, dizia que só levou de bom o filho João Marcelo e certo amadurecimento pessoal. Com o pianista e arranjador César Camargo Mariano teve dois filhos, Pedro e Maria Rita. O relacionamento com o advogado americano Samuel MacDowell de Figueiredo durou seis meses, até a morte da cantora.

GRAÇAS À VIDA 
Elis gravou os melhores compositores ou transformou em obras-primas canções banais de compositores medianos. Para festejar dez anos de carreira, gravou com Tom nos Estados Unidos o histórico Elis & Tom. Em 1976, o show Falso Brilhante levou ao Teatro Bandeirantes, em São Paulo, mais de 280 mil pessoas em 257 apresentações. O show Transversal do Tempo, de 1977, excursionou por capitais brasileiras, pela Itália e Espanha. Sobre Buenos Aires, foi categórica:
“Enquanto meu disco [Falso Brilhante] continuar proibido pela censura argentina, não me apresento lá.”
A justiça interditou o disco por causa da música Gracias a la Vida, de Violeta Parra, proscrita pelos militares golpistas chilenos.

TRISTE FIM
Em 1979, gravou de Aldir Blanc e João Bosco O Bêbado e a Equilibrista, que virou “hino da anistia”. Estreou Saudades do Brasil, misto de teatro com música, onde falava da cultura brasileira.
“Não se trata de saudade de alguma coisa que acabou ou pessoa que morreu… saudade do que está aí, vivo, solto, e nunca deixou de existir. Se não temos acesso a isso, é por falta de uma batalha maior.”
A dedicação à produção do show Trem Azul ocupou Elis durante 1981. Cheia de planos, na manhã de 19 de janeiro de 1982 morreu em seu apartamento em São Paulo, vítima de overdose de cocaína. Uma camiseta com a bandeira brasileira, onde se lia “Elis Regina” no lugar de “Ordem e Progresso”, vestiu o corpo da cantora, velado no Teatro Bandeirantes. No dia seguinte, muros do País amanheceram pichados:
Elis vive.


Fonte: Almanaque BrasilO Almanaque está sob licença Creative Commons. A cópia e reprodução de seu conteúdo são autorizadas para uso não-comercial, desde que dado o devido crédito à publicação e aos autores. Não estão incluídas nessa licença obras de terceiros. Para reprodução com fins comerciais, entre em contato.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Criolo esfrega na cara a desigualdade social em entrevista

Ao lado do pai, Cleon, o rapper Criolo, nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado (Fonte: Ponte Jornalismo)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade revela: Ditadura mandou aposentar Vinicius de Moraes por embriaguez

Ditadura pediu aposentadoria de Vinicius de Moraes do Itamaraty por embriaguez

por Leandro Melito - Portal EBC

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Vinicius de Moraes trabalhando como diplomata (Reprodução/TV Brasil)
Brasília - A Comissão de Investigação Sumária, criada em 1969 pelo governo militar, pediu a aposentadoria do poeta, compositor e então diplomata Vinicius de Moraes por motivo de "embriaguez". Ele exercia a função de primeiro secretário no Itamaraty. O nome do célebre artista brasileiro aparece no relatório daquela comissão, após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), momento mais duro do regime. A comissão de investigação, que era presidida por Antônio Câmara Canto, recomendou a aposentadoria compulsória de diplomatas por conta de suas "condutas pessoais".

Em razão de seus méritos, a comissão recomendou que ele fosse transferido para o Ministério da Educação, mas a medida encontrou "obstáculos" e o poeta foi obrigado a encerrar a carreira como diplomata iniciada em 1943.

O caso de Vinicius de Moraes não foi isolado. "O relatório secreto da comissão  recomendou a aposentadoria compulsória de sete diplomatas e seis servidores administrativos, sob a alegação de "homossexualismo" , sugeriu a submissão de exames para comprovação de condutas homossexuais a dez diplomatas e dois servidores; propôs a aposentadoria de catorze funcionários por embriaguez e outros dois por risco à segurança nacional e convicções ideológicas consideradas subversivas", aponta o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Confira a íntegra do relatório final da CNV

O documento encontrado pela CNV esclareceu a saída de Vinicius do órgão diplomático e confirmou a versão sobre o episódio veiculada pelo jornalista Carlos Castello Branco  em sua coluna no Jornal do Brasil em novembro de 1990 intitulada "Como Vinicius Deixou o Itamaraty". No texto em que reproduz carta de um amigo pessoal de Vinicius ao qual preserva o anonimato, ele aponta que entre "alcoólatras, pederastas e subversivos" então afastados da carreira Vinicius teria sido "vagamente enquadrado nessa última categoria".

A coluna foi publicada justamente para contrapor outra versão sobre o episódio que consta no livro Chega de Saudade - a história e as histórias da bossa nova, em que Ruy Castro atribui o fim da carreira diplomática de Vinicius a uma ordem do então presidente Arthur da Costa e Silva transmitida em memorando dirigido ao ministro do Exterior da época, José de Magalhães Pinto, relatada da seguinte maneira no livro:

"’Assunto: Vinicius de Moraes. Demita-se esse vagabundo. Ass. Arthur da Costa e Silva. Com este grosseiro memorando ao chanceler Magalhães Pinto, o marechal-presidente decretou a saída do poeta do corpo diplomático em fins de 1968. Vinicius recebeu a notícia em alto-mar, a bordo da banheira de sua cabine no navio Eugênio C. Chorou convulsivamente, porque adorava o Itamaraty".

Confira o especial sobre o centenário do Vinicius de Moraes

Cerca de um mês depois uma nova coluna de Castello Branco no JB com o título Ainda sobre a cassação de Vinicius de Moraes trouxe outra carta, desta vez da irmã de Vinicius, Laetitia C. de Moraes Vasconcellos. No texto, a irmã do poeta reafirma a existência do comunicado entre o presidente militar e seu ministro, mas situa ela no período que antecedeu a instituição do AI-5, portanto antes de se consumar a cassação. "Segundo o que o próprio Vinicius, meu irmão, relatou à minha irmã Lygia, antes mesmo da edição do AI-5, ele soubera, através de amigos no Itamaraty, que o presidente enviara a famosa nota ao então ministro Magalhães Pinto, vazada nos seguintes termos: 'Demita-se esse vagabundo’".

Segundo aponta o relatório final da CNV, a Comissão de Investigação Sumária foi criada no ministério das Relações Exteriores em 1969, logo após a edição do AI-5 pelo então ministro das Relações Exteriores José Magalhães Pinto, por meio de um memorando secreto enviado para o chefe do Departamento de Administração, o embaixador Manoel Emílio Pereira Guilhon, em que determinava a “a constituição, sob sua presidência, de uma Comissão de Investigação”.

"Segundo atas de reuniões dos dias 3 e 7 de janeiro de 1969, as primeiras gestões foram o envio de circulares-telegráficas às missões diplomáticas e repartições consulares, bem como instruções aos chefes em serviço na Secretaria de Estado, reforçando a necessidade de serem observados os princípios e propósitos do AI-5 e do Ato Complementar nº 39", aponta o relatório da CNV. Um memorando de 15 de janeiro de 1969 enviado pelo ministro ao presidente da comissão recomendava o exame rigoroso de “casos comprovados de 'homossexualismo' de funcionários do Ministério suscetíveis de comprometer o decoro e bom nome da Casa, tendo em vista o possível enquadramento dos indiciados nos dispositivos do Ato Institucional no 5”.

Relembre: 50 anos do Golpe Militar, passo a passo

A carreira diplomática

Após ser aprovado para o Itamaraty em 1943, Vinicius assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles em 1946. Nos anos 1950,  atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar  encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. Vinícius foi anistiado (post-mortem) pela Justiça em 1998. A Câmara dos Deputados brasileira aprovou em Fevereiro de 2010 a promoção póstuma do poeta ao cargo de "ministro de primeira classe" do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o equivalente a embaixador, que é o cargo mais alto da carreira diplomática. A lei foi publicada no Diário Oficial do dia 22 de junho de 2010.


Fonte: EBC - Todo o conteúdo da EBC está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário e nos conteúdos replicados de outras fontes.


Pra ver tudo que o Música&Poesia postou sobre o poeta Vinicius de Moraes, clique aqui

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Baixe Disco Completo da banda A Dois Dará

download, disco completoConheça a banda A Dois Dará, que lançou seu primeiro disco em Outubro de 2014. Segundo informação do site oficial da banda, as nove músicas que fazem parte deste trabalho são fruto de "parcerias de seis compositores, interpretadas por cinco cantores e mais de vinte músicos. Todos baianos ou radicados na Bahia". Sua sonoridade é uma mistura de samba, rock, marchinha e pop. O álbum ficou bem bacana e está disponível na íntegra pra download gratuito.


Baixe o disco completo (arquivo zipado)

Baixe livro de Machado de Assis, edição exclusiva de 1884

Baixe o livro completo Histórias sem data, de Machado de Assis numa edição de 1884. A obra faz parte do acervo digitalizado da Biblioteca Nacional Digital, que disponibiliza gratuitamente mais de 740 mil itens históricos digitalizados em alta qualidade.

Histórias sem Data - Machado de Assis em PDF

Histórias sem Data - Machado de Assis em HTML

livro histórico de Machado de Assis

Biblioteca Nacional disponibiliza 740 mil obras digitalizadas

Obras raras ao alcance dos dedos

por Ana Saggese Assessoria de Comunicação do MinC

documentos raros, biblioteca nacional
Carta de D. João de 1808 que abre os portos
brasileiros
 é um dos documentos 
disponíveis para consulta (Reprodução)
No dia 28 de janeiro de 1808, Dom João de Bragança, príncipe-regente de Portugal, assinou a carta de Abertura dos Portos às Nações Amigas. O decreto, feito quatro dias depois da chegada da família real no Brasil, marcava o fim do pacto colonial e abria nossos portos às nações amigas para o livre comércio dos produtos brasileiros.
 
Esse fato, estudado nos livros de história, pode ser hoje acessado por qualquer estudante do planeta por meio da internet. E sem custo algum. Essa é apenas uma das muitas surpresas que a Biblioteca Nacional Digital (BNDigital) apresenta entre os mais de 740 mil itens que já foram digitalizados, ou, mais de dez milhões de páginas digitalizadas. Esse trabalho de digitalização começou em 2006 e, a partir de 2008, a BNDigital passou a receber aporte financeiro do MinC.
 
Você também pode ter acesso à primeira edição de Os Lusíadas, de 1572, de Camões; ou a Bíblia de Moguncia, de 1462. E a outras raridades, como a Coleção Thereza Christina Maria, doada à biblioteca pelo próprio Imperador Dom Pedro II. Com partituras, mapas, gravuras e fotos, a coleção é considerada Memória do Mundo pela UNESCO.
 
Para Ângela Monteiro Bettencourt, coordenadora da BNDigital, a digitalização do acervo vai democratizar e preservar os documentos. "É um trabalho para todos os brasileiros se orgulharem," diz Ângela. Os documentos são digitalizados em alta resolução, numa cópia fac-similar perfeita. Depois, a população pode consultá-las à vontade, sem precisar manipular o original e correr o risco de estragá-lo.
 
Com 300 mil acessos por mês, a BNDigital se orgulha de incluir a maior hemeroteca brasileira.


Fonte: Ministério da Cultura - O conteúdo do MinC é vedado ao uso comercial, poderá ser reproduzido desde que citada a fonte, excetuando os casos especificados em contrário e os conteúdos replicados de outras fontes.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Hoje é dia de João do Vale, poeta do Povo

JOÃO DO VALE - Poeta do povo
por Angela Pinho

Semi-analfabeto, cantou a beleza e o sofrimento de sua gente. Maranhense universal, faz parte da santíssima trindade da música nordestina.

Entre suas composições a mais famosa é Carcará
JOÃO DO VALE. Poeta e compositor - Foto AlmanaqueBrasil
O ano é 1953. Na construção em Ipanema, ressoa canção na voz de Marlene: Estrela miúda / Que alumeia o mar / Alumeia terra e mar / Pra meu bem vir me buscar. João vira para o colega: “Sabe quem é o autor? Disfarça e olha aqui: eu.”
“Conversa, neguinho, tá delirando, rapaz? Bota massa, sô.”
O desacreditado rapaz de 19 anos figuraria, ao lado de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, na santíssima trindade da música nordestina.

TIJOLO POR TIJOLO
“Meu nome é João Batista do Vale. Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou é Ribamar. Eu saí Batista.” Assim se apresentava. Nasceu em 1934 em Pedreiras, de um casal de agricultores; quinto de oito filhos; só três sobreviveram. Sorridente, pernas tortas, dançava e fazia versos para anunciar os doces da mãe na rua.
Aos 12 anos, muda com a família para São Luís. Vende frutas e compõe para o bumba-meu-boi. Aos 14, foge com um circo para Teresina, Piauí. Como ajudante de caminhão, conhece ritmos de todo o Nordeste. Vai parar em Salvador, depois Teófilo Otoni, Minas: quer ganhar algum no garimpo. Não acha nada, mas chega ao Rio, seu sonho.
Trabalha em construção. Mora nas obras e, à noite, procura artistas para cantar suas músicas. Em 1953, quando Marlene grava Estrela Miúda, deixa de ser pedreiro. Faz duradoura parceria com Luiz Vieira.
No começo dos anos 1960, vai cantar no Zicartola, bar de Cartola e sua mulher, Dona Zica. Lá, em 1964, o convidam a participar do musical Opinião. Marco da luta contra a ditadura, o espetáculo projeta João para o País. Em 1965, Bethânia, substituta de Nara Leão no show, faz de Carcará não só a música mais famosa do compositor como hino contra o regime: Carcará pega, mata e come.

“O NEGÓCIO NÃO É BEM EU”
1942. João está no terceiro ano do primário. Chega a Pedreiras novo coletor de impostos, com o filho. A escola não tem vaga. Expulsam João para dar lugar ao garoto. “Botaram rua com meu nome, me homenageiam, só pra desmanchar o que fizeram. Mas nem Deus querendo esqueço”, diria, anos depois.
João, que sabia ler, não aprendeu a escrever. Mas a experiência lhe daria aguda percepção da realidade, como mostra em Minha HistóriaEnquanto eu ia vender doce / Meus colegas iam estudar / [...] Mas o negócio não é bem eu / É Mané, Pedro e Romão / Que também foi meus colegas / E ficaram no sertão / Não puderam estudar / E nem sabem fazer baião.
Não gostava de chamar suas canções de “música de protesto”. Mas a crítica social é inegável. Sina de CabocloEu sou um pobre caboclo, ganho a vida na enxada / O que eu colho é dividido com quem não plantou nada / [...] Deus até tá ajudando, tá chovendo no sertão / Mas plantar pra dividir, num faço mais isso não.

MUITA GENTE DESCONHECE
No final dos anos 1960, a censura aperta. João volta a Pedreiras. Em 1978, no Rio, organiza o Forró Forrado, ponto de encontro de nordestinos que abriga shows seus e de amigos ilustres - de Chico Buarque à argentina Mercedes Sosa. É Chico, aliás, o responsável pela gravação do segundo lp de João, em 1981, 16 anos depois do primeiro. Muitos não sabiam que era João o autor de sucessos cantados por outros, como O Canto da EmaPisa na FulôNa Asa do Vento: A ciência da abêia, da aranha e a minha / Muita gente desconhece.
Em 1986, sofre derrame cerebral. Deixa a casa simples em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, e volta para Pedreiras. Em 6 de dezembro de 1996, depois de novo derrame, morre, aos 62 anos, o aclamado “poeta do povo”.

SAIBA MAIS 
Pisa na Fulô Mas Não Maltrata o Carcará
, de Márcio Pachoal (Lumiar, 2000).

Fonte: Almanaque Brasil - O Almanaque Brasil está sob uma licença Creative Commons

Carcará - Maria Bethânia interpreta canção de João do Vale

Maria Bethânia cantando a música Carcará na sua estréia nos palcos, em 1965, quando ainda tinha apenas 17 anos de idade. Esse número fez parte do show Opinião, que foi um espetáculo histórico de protesto, do qual também participaram Zé Keti e João do Vale. A cantora Nara Leão fez parte da primeira versão do espetáculo, mas teve que se ausentar e indicou Bethânia pra lhe substituir, quando a baiana ainda era uma desconhecida. No final da música, Bethânia emenda com um texto sobre a migração do povo nordestino para os grandes centros urbanos brasileiros. (fonte: Youtube)

Carcará
Composição: João do Vale/José Cândido

Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
Pega, mata e come
Carcará

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Não pergunte obviedades ao Seu Lunga - Cordel

Cordel do poeta pernambucano Ismael Gaião.

SEU LUNGA - TOLERÂNCIA ZERO!

Eu vou falar de Seu Lunga
Um cabra muito sincero,
Que não tolera burrice
Nem gosta de lero-lero.
Tem sempre boas maneiras,
Mas se perguntam besteiras,
Sua tolerância é zero!

Ao entrar num restaurante
Logo depois de sentar,
Um garçom lhe perguntou:
O Senhor vai almoçar?
Lunga disse: não Senhor!
Chame o padre, por favor,
Vim aqui me confessar.

Lunga tava na parada
Com Renata perto dele.
Esse ônibus vai pra praia?
Ela perguntou a ele.
Ele, então, disse à mulher:
- Só se a Senhora tiver
Um biquini que dê nele!

Seu Lunga tava pescando
E alguém lhe perguntou:
- Você gosta de pescar?
Ele logo retrucou:
- Como você pode ver,
Eu vim pescar sem querer,
A polícia me obrigou.

Pagando contas no Banco
Lunga viveu um dilema
Pois com um talão nas mãos,
Ouviu de Pedro Jurema:
O Senhor vai usar cheque?
- Ele disse: não, moleque,
Vou escrever um poema.

Em sua sucataria
Alguém tava escolhendo,
- Por quanto o Senhor me dá,
Essa lata com remendo?
Lunga, sem pestanejar,
Disse: não posso lhe dar,
Porque eu estou vendendo.

E ainda irritado
A seu freguês respondeu:
Tudo que eu tenho aqui,
Eu vendo porque é meu.
Se o Senhor quiser ver,
Coisas sem ser pra vender
Vá visitar um museu.

Lunga foi comprar sapato
Na loja de Barnabé
E um rapaz bem gentil
Perguntou: é pra seu pé?
Ele disse: não esqueça,
Bote na minha cabeça,
Vou usar como boné.

Lunga carregava leite
Numa garrafa tampada
E um velho lhe perguntou:
Bebe leite, camarada?
Ele disse: bebo não!
Depois derramou no chão.
- Eu vou lavar a calçada.

Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo,
E treinando pra morrer!

Seu Lunga foi a um banco
Com um cheque pra trocar
Um caixa muito imbecil
Achou de lhe perguntar:
O Senhor quer em dinheiro?
- Não quero não, companheiro,
Quero em bolas de bilhar.

Lunga olhou pro relógio
Na frente de Gabriela
Quando menos esperava,
Ouviu a pergunta dela:
- Lunga viu que horas são?
Ele disse: não, vi não,
Olhei pra ver a novela!

Seu Lunga comprava esporas
Para correr argolinha
E o vendedor idiota
Fez essa perguntazinha:
- É pra usar no cavalo?
- É não, eu uso no galo,
Monto e dou uma voltinha.

Seu Lunga tava pescando
Quando chegou Viriato
- Perguntando: aqui dá peixe?
Lunga falou: é boato!
No rio só dá tatu,
Paca, cutia e teju,
Peixe dá dentro do mato.

Lunga foi se consultar
Com um Doutor que era Crente
Esse logo perguntou:
- O Senhor está doente?
- Lunga disse: não Senhor,
Vim convidar o Doutor,
Para tomar aguardente.

Seu Lunga, com seu cachorro,
Saiu para caminhar
Um besta lhe perguntou:
É seu cão, vai passear?
Lunga sofreu um abalo,
Disse: não, é um cavalo,
Vou levar para montar.

Lunga trazia da feira,
Já em ponto de tratar,
Uma cabeça de porco,
Quando ouviu alguém falar:
- Vai levando pra comer?
Ele só fez responder:
- Vou levando pra criar!

Lunga foi à eletrônica
Com um som pra consertar
E ouviu um idiota
Sem demora, perguntar:
- O seu som está quebrado?
- Tá não, está estressado.
Eu trouxe pra passear.

Seu Lunga foi numa loja
Lá perto de Itaqui
- Tem veneno pra rato?
- Temos o melhor daqui.
Vai levá-lo? Está barato.
- Vou não, vou buscar o rato
Para vim comer aqui!

Seu Lunga tava bebendo,
Quando ouviu de Tião:
- Já que faltou energia,
Nós vamos fechar irmão!
Lunga falou: que desgraça!
Eu vim pra tomar cachaça,
Não foi tomar choque não!

Lunga tava em sua loja
Numa preguiça profunda
Quando escutou a pergunta
Vindo de Dona Raimunda:
- O Senhor tem meia-calça?
- Isso em você não realça,
Ou você, tem meia bunda?

Seu Lunga ia pescar
E um amigo encontrou
Depois de cumprimentá-lo
Seu amigo perguntou:
Lunga vai à pescaria?
Seu Lunga só disse: ia.
Pegou a vara e quebrou.

Jacó estava querendo
Apostar numa milhar
Vendo Lunga numa banca
Disse: agora vou jogar!
E foi gritando dali:
- Lunga, passa bicho aqui?
- Passa sim! Pode passar.

Seu Lunga sentia dor
Procurou Doutor Ramon
Que começou a consulta
Já perguntando em bom tom:
Seu Lunga, qual o seu plano?
Lunga disse: sem engano,
O meu plano é ficar bom!

Lunga tava em seu comércio
Despachando a Zé Lulu
Que depois de escolher
Fava e feijão guandu.
- Disse: vou levar fubá.
E o arroz como está?
Lunga respondeu: Tá cru!

Lunga com uma galinha
E a faca pra cortar,
Seu vizinho perguntou:
Oh! Seu Lunga, vai matar?
Com essa pergunta burra,
Disse: não, vou dar uma surra,
Logo depois vou soltar.

Lunga indo a um enterro
Encontrou Zeca Passivo
- Seu Lunga pra onde vai?
Ao enterro de Biu Ivo.
- E Seu Biu Ivo morreu?
- Não, isso é engano seu,
Vão enterrar ele vivo!

Lunga mostrou um relógio
Ao filho de Biu Romão
- Posso botar dentro d’água?
Perguntou o garotão.
Lunga disse sem demora:
- Relógio é pra ver a hora,
Não é sabonete, não!

Lunga fez uma viagem
Pra cidade de Belém
E quando voltou pra casa
Ouviu essa de alguém:
- Oh! Seu Lunga, já chegou?
- Eu não, você se enganou,
Chego semana que vem!

Lunga levou uma queda
De cima de seu balcão
- Quer tomar um pouco d’água?
Perguntou o seu irmão.
Lunga logo, respondeu:
Foi só uma queda, meu!
Eu não comi doce não!

Na porta do elevador
Esperando ele chegar
Seu Lunga escutou um besta
Pro seu lado perguntar:
- Vai subir nesse momento?
- Não, que meu apartamento,
Vai descer pra me pegar.

Se encontrar com Seu Lunga
Converse, mas com cuidado,
Pois ele pode ser grosso
Mesmo sendo educado.
Eu já fiz o meu papel
Escrevendo este cordel
Pra você ficar ligado!



Ismael Gaião da Costa, nasceu em Condado-PE, Zona da Mata Norte de Pernambuco, em 07 de maio de l961. Atualmente reside no Recife-PE.
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Melhoramento Genético de Plantas, Funcionário Público Federal, lotado na UFRPE - Estação Experimental de Cana-de-açúcar de Carpina.
Publicou mais de 40 (quarenta) Cordéis e diversas poesias (sonetos, matutas, sociais).
É filiado à UNICORDEL - União dos Cordelistas de Pernambuco, na qual integra a equipe de Poetas Declamadores.
Assina a Coluna COLCHA DE RETALHOS, no JORNAL DA BESTA FUBANA - uma gazeta da bixiga lixa (Blog), (www.luizberto.com), publicando poesias, prosas e contos, rotineiramente.
Ganhador da 4ª RECITATA - 2009 (concurso de poesia declamada) da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, com nota 10 (dez) no Júri Popular, declamando a poesia MENINO DE RUA.
Lançou o CD de Poesias Declamadas, "CAUSOS E CORDÉIS", em parceria com o Poeta Felipe Júnior, em abril de 2010, na UFRPE.
Publicou o seu primeiro livro: "UMA COLCHA - Cem Retalhos", em março de 2011, pela CEPE - Companhia Editora de Pernambuco, do Governo do Estado.
Realiza o Show "Estandi-upi de Poesia Matuta", em parceria com o poeta Felipe Júnior e o Show "Tripé da Rima", com a poetisa Susana Morais e o poeta Felipe Júnior.


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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A desbiografia oficial de Manoel de Barros - Documentário

Do blog OutroCine - Mostra permanente de cinema

Só Dez Por Cento é Mentira
90% do que escrevo é invenção. Manoel de Barros. Foto Divulgação
Lamentavelmente faleceu nesta quinta-feira, 13 de novembro de 2014, o poeta Manoel de Barros. Em sua homenagem posto o documentário Só Dez Por Cento é Mentira - A desbiografia oficial de Manuel de Barros, dirigido por Pedro Cezar. Infelizmente ainda não assisti, então o texto abaixo descrevendo o longa é do sítio oficial do filme e se manterá o conteúdo original que não apresenta o fato que o poeta faleceu hoje.


Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.
Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa.

Só Dez Por Cento é Mentira ultrapassa as fronteiras convencionais do registro documental. Utiliza uma linguagem visual inventiva, emprega dramaturgia, cria recursos ficcionais e propõe representações gráficas alusivas ao universo extraordinário do poeta.

Procurando resignificar às “desimportâncias” biográficas e à personalidade “escalena” de Manoel de Barros o diretor Pedro Cezar, responsável pelo roteiro e pela narração, pontua o filme com momentos de breves testemunhos ao fundo, como fizera em seu primeiro longa metragem, Fabio Fabuloso. Narrado na maior parte das vezes em tom pessoal o filme busca, sobretudo, “uma voz que aproxime-se da simplicidade e da afetividade do personagem e que se afaste da soberba e da pretensão de uma análise teórica sobre poesia no idioleto manoelês”.

Manoel de Barros tem 93 anos, cerca de 20 livros publicados e vive atualmente em Campo Grande. Consagrado por diversos prêmios literários, é atualmente o escritor brasileiro que mais vende no gênero poesia.

Só Dez Por Cento é Mentira ganhou os prêmios de melhor documentário longa-metragem do II Festival Paulínia de Cinema 2009 e os prêmios de melhor direção de longa-metragem documentário e melhor filme documentário longametragem do V Fest Cine Goiânia 2009. (Fonte: http://www.sodez.com.br)

Só Dez Por Cento é Mentira

Sinopse
Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.

Gênero Documentário
Diretor Pedro Cezar
Depoimentos Manoel de Barros, Bianca Ramoneda, Joel Pizzini, Abílio de Barros, Palmiro, Viviane Mosé, Danilinho, Fausto Wolff, Stella Barros, Martha Barros, João de Barros, Elisa Lucinda, Adriana Falcão, Paulo Gianini, Jaime Leibovicht e Salim Ramos Hassan
Ano 2008
Duração 82 min
Cor Colorido
País Brasil


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Poemas de Manoel de Barros

Poemas de Manoel de Barros do livro Manoel de Barros - Poesia Completa.


ODE VINGATIVA

Ela me encontrará pacífico, desvendável
Vendável, venal e de automóvel.
Ela me encontrará grave, sem mistérios, duro
Sério, claro como o sol sobre o muro.

Ela me encontrará bruto, burguês, imoral,
Capaz de defendê-la, de ofendê-la e perdoá-la;
Capaz de morrer por ela (ou então de matá-la)
Sem deixar bilhete literário no jornal.

Ela me encontrará sadio, apolítico, antiapocalíptico
Anticristão e, talvez, campeão de xadrez.
Ela me encontrará forte, primitivo, animal
Como planta, cavalo, como água mineral.

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O MORTO

I

A chuva lavou
As pessoas do morto
E lavou o morto
Com a sua fisionomia
De torto
E com seus pés de morto
Que arrastava um rio seco
E suas mãos de morto
Onde se dependurou
Insistente, um gesto oco.
À noite enterrou-se
O homem
Na raiz de um muro
Com sua roupa no corpo.
E a chuva regou no horto
Desse vitorioso
Homem morto
Enormes violetas
E uns caramujos férteis…

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O MORTO

II

Veja esse morto como esgotou um por um seus segredos.
Sentado como um doutor
Veja que respeito nutre pelo silêncio…
Que morto!
Um piano dormindo no fundo de um poço
Não é mais cômodo do que um homem morto num porto.
Veja que comodidade.
Ele não usará seus dedos secos nunca mais para pegar em
moças…
Que morto!

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ZONA HERMÉTICA

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com a sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco… E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

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ENCONTRO DE PEDRO COM O NOJO

A rosa reteve Pedro. E a mão reteve a música como
paisagem de água na retina.
Era noite no bairro do Flamengo. As pensões de estudantes
dormiam nas transversais.
Pedro mergulhado em trevas, no quarto, pensa no
rouxinol e na bomba atômica.
As coisas mais importantes lhe aconteciam no escuro,
como a surpresa de uma flor desabrochada à noite.
Pedro recebe uma brisa no rosto e se olha, inundado de
solidão. Se chorasse poderia dormir depois. Prefere andar.
Pedro carrega a beleza como um prédio em ruínas. Desce
as escadas e ganha a rua.
Pedro anda tendo temores esquisitos. Por exemplo: que
desapareçam os fracos da face da terra e restem apenas
pessoas blindadas de sol.
Teme que desapareçam as criaturas roladas dos abismos de
Deus, com seus andrajos, com as suas cicatrizes.
Pensou em plantar uma árvore. Em pensamento viu-se
desmembrado, seu corpo espalhado nos pedaços de um
espelho.
Entrou numa pequena rua. Viu pássaros roubando suicidas.
Meninos carregando escadas. Respirou um odor de mofo e
rosas velhas.
Estava bem longe agora de seu quarto pobre. Seu paletó
estaria dependurado no cabide. Esmeralda, a mulata, se
surpreenderia de não encontrá-lo àquela hora.
Pedro começa a esfregar os olhos para espantar Esmeralda;
mas ela vinha de flancos nua rolar na aresta dos desejos.
Vinha de chapéu de breu e sonos… Distraiu-se afinal vendo
os azulejos roídos pelos peixes do Ministério da Educação.
Pedro ficou parado. Depois entrou no Frege, atraído por
um samba. Viu lá dentro um negro sentado com uma
clarineta fincada no rosto!
O negro atropelava as pessoas com as suas queixas que
escorriam pelas ruas como água. Pedro foi saqueado pela
angústia. Cuspiu e retirou-se.
No largo, entre pássaros, acalmou-se. Uma funda sensação
de pertencer às coisas mudas, como a folha que pertence à
árvore, invadiu-o.
Doce pélago! Pedro saiu leve para junto do mar. Coral e flor
de caos ia colher — entre baixios sangrentos.
Seu era o mundo. Dormiu entre pedras. O dia amanheceu
em suas mãos.
Pedro entregou-se ao dia, como ao seu musgo se entrega o
verde.
Pureza de ruínas nos olhos de Pedro! Estava sujo e coberto
de lírios.
Às doze horas Pedro regressou ao quarto. Debaixo da
escada um homem dormia como um peixe: a boca
descampada úmida e serena. Subiu.
Pedro deitou-se, pensando… A inércia me devora, enraízase
em meu corpo, como líquenes na pedra — se fico deitado.
Sentia fluir de seus ossos a inércia e brotar de seus dedos,
como cardos, o nojo.
Preciso caminhar. Pedro se levanta e vai à janela. Lá fora,
bem rente ao muro encardido, uma pereira florida…
Pedro quer nascer do chão. Pedro acha que precisa florir até
a altura de uma janela. Oferecer-se ao luar… e…
Ó propício frio das sombras! Entra Esmeralda autêntica
com sol nas carnes e nas palavras. Pedro retorce, quebra
Esmeralda nos braços, baba-a toda e a engole.
Agora Pedro vai jiboiar nas ruas de novo. Pedro é louco.
Arrasta-se pelos becos com a sua porcaria na alma.
Engole sua anulação como água. O nojo lhe cresce como
um braço podre, mirrado. Um braço podre saindo das
costas…
Pedro engole a maçã do caos. Vai trôpego deitar-se nas
pedras. Esmeralda tritura-o agora.
Tudo que há de noturno está entranhado nas roupas de
Pedro. Bebe goles de treva. Liberdade que se evola de ti, no
escuro, Pedro! Não percebe.
Cogumelos brotavam de seu ventre, e ocasos. Calangos
vinham lamber os seus pés e mascar suas roupas os bois.
Pedro se aproximara das coisas. Para dormir com elas.
Pedro deitou-se entre objetos. A terra comia seu abdômen.
A terra cheia de poros, fermentada de raízes, rosas podres,
bichos corrompidos, penas de pássaros, folhas e pedras — o
atraíam.
Pedro era um barro ofegante. Como um fruto peco, deixou
sua boca no chão, imóvel, aberta.
Tinha de recostá-la na terra e haurir, das raízes
intumescidas, seiva.
Pedro sabia: todo aquele que não bebe água no solo, secará
como cana cortada no pé. Ficou deitado.
Pedro estava só. Deixava-se completamente às coisas,
recebendo suas emanações físicas.
Pedro se encostava nas coisas, afagava-as como se elas
fossem criaturas íntimas. Pedro era reconstruído.
Agora Pedro ressurge. Vem botando o pescoço para o sol.
Despegando-se da escuridão, pesadamente, como um bêbado
gordo, e aos pedaços, estraçalhado…
Pedro vem tateando na luz, subindo nas bordas do poço,
soltando de sua casca o moliço… Deixa pedaços dele no
escuro.
Pedro entra em seu quarto. Está perfeito e pobre.
Poderemos sequer fazer uma ideia de que resultará do
encontro de um homem com o nojo?
Agora Pedro está dormindo.

Morre, aos 97 anos, o poeta Manoel de Barros

Poeta, escritor Manoel de Barros
MANOEL DE BARROS - Primeiros poemas aos 13 anos
O poeta Manoel de Barros morreu hoje (13), em Campo Grande. Considerado um dos maiores autores da língua portuguesa, ele estava internado desde o último dia 24, no Hospital Proncor, da capital sul-mato-grossense, devido a uma obstrução intestinal. Segundo a assessoria do hospital, o poeta faleceu às 8h05, devido à falência múltipla de órgãos.

Conhecido pela linguagem coloquial – à qual chamava de idioleto manoelês archaico - e por buscar inspiração nos temas mais simples e banais, Barros dizia ser possível resumir sua trajetória de vida em poucas linhas. “Nasci em Cuiabá [à época, 1916, dezembro. Me criei no Pantanal de Corumbá [MS]. Só dei trabalho e angústias pra meus pais. Morei de mendigo e pária em todos os lugares da Bolívia e do Peru. Morei nos lugares mais decadentes por gosto de imitar os lagartos e as pedras. Publiquei dez livros até hoje. Não acredito em nenhum. Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo. Sou fazendeiro e criador de gado. Não fui pra sarjeta porque herdei. Gosto de ler e de ouvir música - especialmente Brahms. Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço poesia", escreveu o autor.

Barros começou a esboçar seus primeiros poemas aos 13 anos de idade. Seu primeiro livro, intitulado Poemas, foi publicado em 1937, quando o autor tinha 21 anos. Pouco afeito à política partidária, chegou a integrar o Partido Comunista Brasileiro, mas por pouco tempo. Desde a década de 1950, conciliava a literatura com a gestão da fazenda que herdou dos pais.

Perfeccionista, conquistou os prêmios literários Jabuti (1989 e 2002); Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (2004); Nestlé (1997 e 2006); Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional (1996) e Nacional de Literatura, concedido pelo Ministério da Cultura ao conjunto de sua obra, em 1998. Em 2000, foi agraciado com o Prêmio Academia Brasileira de Letras, pelo livro Exercício de Ser Criança.

Os governos de Mato Grosso – onde o poeta nasceu, e do Mato Grosso do Sul – onde Barros vivia, decretaram luto oficial de três dias. Em nota, o governador sul-mato-grossense, André Puccinelli, diz que a obra de Barros divulgou as belezas e as potencialidades do estado, “enriquecendo assim, a história da literatura e a cultura do local que ele escolheu para viver ao lado de sua esposa.”

Também em nota, o Ministério da Cultura lamentou a morte do poeta e manifestou solidariedade aos parentes, amigos e leitores de Barros. “Simples, de poesia delicada e repleta de seu imaginário pantaneiro, Manoel de Barros jamais será esquecido – ao contrário do que dizem estes seus versos: "Quando o mundo abandonar o meu olho. Quando o meu olho furado de beleza for esquecido pelo mundo. Que hei de fazer.”

Nas redes sociais, o diretor da Fundação Manoel de Barros, Marcos Henrique Marques, comentou que toda a equipe da instituição está triste, mas continuará a honrar e divulgar a obra do poeta. “O homem Manoel de Barros foi finito como todos nós, mas o poeta e suas obras – pautadas em seu belo sorriso, simplicidade, amor e criatividade, vão permanecer para sempre, gerações após gerações”.

Barros costumava brincar com a importância da poesia: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia”. Trechos de seus poemas são frequentemente citados pela perspicácia e bom humor. Desde que foi internado, dois versos, em particular, estão sendo bastante citados na mídia e em redes sociais: “Não preciso do fim para chegar” e “Do lugar onde estou já fui embora”, ambos da obra Livro Sobre Nada, de 1996.

Fonte: EBC 

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Poemas de Manoel de Barros

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Nova Crônica do Poeta Sérgio Vaz

ODE AO ÓDIO
Sérgio Vaz

Vou criar o ÓDIOMÊTRO para medir ódio das pessoas.

É impressionante como ultimamente tudo que você diz ou faz, desperta o ódio de alguém neste país.
Você diz que não compartilha das mesmas opiniões de alguém, esse alguém automaticamente passa a ser seu inimigo ou inimiga na mesma hora.

As Pessoas não querem mais discutir, querem cuspir uma nas outras.
E Esse ódio é democrático, afeta brancos e negros, feios e bonitos, bonzinhos e malvados, gordos e magros, homens e mulheres, e por consequência, seus filhos. Ou seja, as crianças.
E o ódio não é igual ao amor que muitas vezes, infelizmente, a gente perde tempo em dizer que ama alguém.


Quem disse EU TE AMO para o pai, a mãe, a mulher, o homem, ao amigo, aos filhos, aos avós esta semana? Este mês ou este ano? Pois é, pra dizer que a gente gosta de alguém não é muito fácil, mas diz que não concorda com alguém, ou alguma ideia... A pessoa diz que te odeia na mesma hora, te desconjura, e sai por aí te odiando. E não basta te odiar sozinho(a), ela quer que outras pessoas te odeiem também. E o mais legal é que é tudo em nome da democracia.


De minha parte quero dizer, "quanto mais ódio, mais amor. Mais luta."


Nunca fui bom em amar e ser amado, perdi muito tempo tentando entender o amor, amei errado, amei certo, mas nunca aprendi a odiar. Isso ninguém vai me ensinar e recuso-me a aprender.
Não quer dizer que amo todo mundo, "muito amor, muito amor, mas raiva é fundamental", mas ódio é para gente fraca, gente sem argumento, de gente que não gosta de ser gente.
Menos ódio mais amor.

Ah, meu voto é DILMA!

sERGIO vAZ


*publicado originalmente no dia 13 de outubro de 2014 na página de Facebook do poeta Sérgio Vaz



Veja também:

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Conheça nova revista de literatura independente

O belo poema abaixo, de Fabíola Weykamp, compõe a terceira edição da revista Verborhagia, assim como outras poesias e prosas de gente que se arrisca a escrever. Verborhagia é uma publicação eletrônica dedicada à literatura independente e pode ser lida em:

http://issuu.com/verborhagia/docs/verborhagia__3



te queria poema

 queria poder me chegar
 sem o medo das horas apressar

 queria poder ficar
 sem que a ansiedade por ir fosse maior

 queria te ver rima toante
                ao meu lado
 sem que a insegurança do amanhã nos impedisse o poema

 queria que me quisesses
 sem grafemas nem fonemas

 apenas aliterando, de mãos dadas, o nosso acaso

Fabíola Weykamp


Revista Eletrônica de Literatura Independente

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Crônica da Periferia

GOL CONTRA

Sérgio Vaz

No meu tempo de moleque ninguém tinha uma profissão em mente para se apegar no futuro, e todos, sem exceção queriam ser jogadores de futebol. E olha que naquela época nem dava tanto dinheiro assim. Mas não sei se pelo romantismo, pela magia ou simplesmente pela falta de perspectiva... sei lá, só sei que todos nós queríamos ser jogadores de futebol. Eu apesar da idade confesso que ainda quero.
Mas tempo passou, o Morumbi e o Maracanã envelheceram em mim e a memória, esse estádio vazio, toma dribles maravilhosos da lembrança, e tudo que me lembro foram os gols perdidos. Perdi muitos gols cara a cara com o goleiro, por isso não sou jogador, por isso não sou doutor. Tomei muita vaia do destino.
Não lembro de nenhum amigo desta época que tenha sequer passado na peneira de algum time profissional, poucos viraram doutores e uns tantos não "lerão" este artigo, se é que vocês me entendem.
A Violência sempre fez muitas faltas no nosso jogo, e quase todas por trás. Dói só de lembrar.
Apesar dos intervalos, lembro-me de partidas inesquecíveis, dessas que começavam pela manhã e seguiam tortuosas pela tarde, interrompidas apenas pelo almoço e o café das três.
São momentos inenarráveis passados com estes parceiros de time, esses meninos sábios e imortais, sem presente e sem futuro deslizando os pés descalços pelo chão. Corpos quase nus riscávamos a paisagem com nossas peles cravejadas de ossos e temperadas de suor. Eram os melhores momentos de um tempo em que o destino entrava de sola em nossas vidas.
Hoje em dia, aquele campinho de terra que esculpimos com as nossas próprias mãos é um grande cemitério, e muitos deles, craques interrompidos, estão ali, enterrados com seus sonhos, antes mesmo do jogo acabar.
Outros, por desrespeitarem as regras cometeram pênaltis desnecessários (?), e, por ordem dos juízes, foram mais cedo para o chuveiro.
Para minha tristeza muitos ainda continuam a cometerem faltas, sem medo de tomar cartões vermelhos ou amarelos, sem se importar com a força do adversário, sem se importar com a cor da camisa, sem se importar com os derrotados, se importando apenas em vencer, e vencer a qualquer preço.
Às vezes, muitos são substituídos com o jogo em andamento, alguns, antes mesmo de tocarem na bola.
Quando fecham-se as cortinas, perder sem jogar é uma derrota difícil de aceitar.
Por isso, quando a dor sai do vestiário e a saudade entra em campo, faço um minuto de silêncio, deixo uma lágrima rolar e jogo por eles a prorrogação.


*Do livro "LITERATURA, PÃO E POESIA" Global Editora


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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crônica de Sérgio Vaz

LITERATURA, PÃO E POESIA

Sérgio Vaz

A literatura na periferia não tem descanso, a cada dia chega mais livros. A cada dia chega mais escritores, e, por conseqüência disso, mais leitores. Só os cegos não querem enxergar este movimento que cresce a olho nu, neste início de século. Só os surdos não querem ouvir o coração deste povo lindo e inteligente zabumbando de amor pela poesia. Só os mudos, sempre eles, não dizem nada. Esses, custam a acreditar.

Não quero nem falar dos saraus que estão acontecendo aos montes, pelas quebradas de São Paulo. Isto me tomaria muito tempo. Haja visto as dezenas de encontros literários, pipocando nas noites paulistanas. Cada qual do seu jeito, cada qual com seu tema, cada qual a sua maneira de cortejar as palavras.

Mas eu quero falar mesmo e da poesia que se espalhou feito um vírus no cérebro dos homens e mulheres da periferia. Pois é, essa mesma poesia que há tempos era tratada como uma dama pelos intelectuais, hoje vive se esfregando pelos cantos dos
subúrbios à procura de novas emoções.

O Tal poema, que desfilava pela academia, de terno e gravata, proferindo palavras de alto calão para platéias desanimadas, hoje, anda sem camisa, feito moleque pelos terreiros, comendo miudinho na mão da mulherada. Vocês, por acaso, já ouviram falar
do tal poema concreto? Pois é, os trabalhadores e desempregados estão construindo bibliotecas com eles, nas favelas. E o lobo mau pode assoprar que não derruba. Apesar da pouca roupa que lhe deram está se sentindo todo importante com sua nova utilidade.

A periferia nunca esteve tão violenta, pelas manhãs é comum ver, nos ônibus, homens e mulheres segurando armas de até 400 páginas. Jovens traficando contos, adultos, romances. Os mais desesperados, cheirando crônicas sem parar. Outro dia um cara
enrolou um soneto bem na frente da minha filha. Dei-lhe um acróstico bem forte na cara. Ficou com a rima quebrada por uma semana.

A criançada está muito louca de história infantil. Umas já estão tão viciadas, que, apesar de tudo e de todos, querem ir para as universidades. Viu, quem mandou
esconder a literatura da gente, Agora nós queremos tudo de uma vez!

Dizem por aí que alguns sábios não estão gostando nada de ver a palavra bonita beijando gente feia. Mas neste país de pele e osso, quem é o sábio? Quem é o feio? E olha que a gente nem queria o café da manhã, só um pedaço de pão. Que comam brioches!

Não, não é Alice no país da maravilha, mas também não é o inferno de Dante. É só o
milagre da poesia. Quem odeia ler agora?


Crônica publicada pelo poeta Sérgio Vaz em sua página oficial no Facebook

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