quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Mostra de Cinema Toni Venturi começa na próxima terça (27) em São Paulo

 

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Cena de "Latitude Zero", filme de abertura da Mostra Toni Venturi - crédito: Olhar Imaginário

Com entrada franca, evento segue até 7 de novembro, com a exibição de 15 filmes do diretor e debates em dois espaços culturais

A trajetória de um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro recente será celebrada na Mostra de Cinema Toni Venturi, dedicada à obra do diretor, roteirista e produtor paulistano, que morreu em maio de 2024, aos 68 anos. Realizada pelo CPC-UMES, com recursos do Ministério da Cultura, e idealizada pela produtora Olhar Imaginário, fundada pelo cineasta, a mostra reúne em São Paulo uma filmografia marcada pelo diálogo com as questões políticas, sociais e culturais do país.

As sessões acontecem no Museu da Imagem e do Som (MIS-SP), de 27 de outubro a 1º de novembro, e no Cine-Teatro Denoy de Oliveira, no CPC-UMES, de 2 a 7 de novembro. Serão exibidos 15 títulos: os nove longas-metragens dirigidos por Toni — quatro ficções e cinco documentários —, além de médias-metragens, telefilmes, um curta e três episódios da série documental "Jogo em Cena" (2026). Todas as projeções são seguidas de debates com realizadores, artistas, pesquisadores e personagens dos filmes, e parte da programação é dedicada a sessões para escolas. Amir Labaki, Drauzio Varella, Jonas Bloch, Rita Cadillac, Sidney Santiago e Tata Amaral estarão entre os participantes dos encontros.

A entrada é gratuita e a programação completa está no site da produtora e nas redes da mostra.

A abertura, no dia 27 de outubro, às 18h45, no auditório do MIS, traz a exibição de "Latitude Zero" (2001), seguida do debate "Toni Venturi: um cineasta do seu tempo" e de coquetel com pocket show de Fernanda Porto, parceira de longa data do diretor e autora da trilha de "Cabra-Cega". O encerramento, no dia 7 de novembro, no CPC-UMES, reúne o curta "1999" (1992), um dos primeiros trabalhos de Toni, e os telefilmes "Sotaque Nordestino" e "Pernambuco – Raiz Antenada pro Mundo", ambos de 2004, com nova apresentação de Fernanda Porto.

Nascido em São Paulo em 1955, Toni Venturi fundou, ainda adolescente, o cineclube do Colégio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha e formou-se em cinema no Canadá e na USP. Seu primeiro longa-metragem, "O Velho – A História de Luís Carlos Prestes" (1997), foi eleito melhor documentário na segunda edição do festival É Tudo Verdade. Já "Latitude Zero" (2001), sua estreia na ficção em longa-metragem, foi selecionado para a mostra Panorama do Festival de Berlim e para o Festival de Toronto. Ao longo da carreira, seus filmes receberam 68 prêmios em festivais no Brasil e no exterior.

"A Mostra Toni Venturi nasce do desejo de celebrar o cinema, discutindo o seu tempo. O talento de Toni constrói imagens, tanto na ficção quanto no documentário, profundamente captadas com a luz do seu quintal: o Brasil, com seus contrastes, suas humanidades e suas contradições", aponta Débora Duboc, diretora geral da mostra.

Atriz e viúva do cineasta, Débora completa: "Toni queria se aproximar da educação, compartilhar seu conhecimento e emancipar jovens por meio dessa linguagem capaz de fotografar a nossa complexidade. Amigos, família, filhotes, parceiros de caminhada se juntaram para realizar esse desejo".

Além dos títulos já citados, Venturi dirigiu "Estamos Juntos" (2011), "A Comédia Divina" (2017) e "Dentro da Minha Pele" (2020), além de documentários dedicados a personagens e temas fundamentais da história brasileira, como Paulo Freire, a experiência dos Ginásios Vocacionais, a luta armada contra a ditadura e o movimento por moradia no centro de São Paulo. Sua atuação extrapolou a direção: como presidente da Associação Paulista de Cineastas (APACI), participou de articulações importantes para o setor audiovisual e esteve entre os profissionais que contribuíram para a criação da Spcine, empresa pública voltada ao audiovisual na capital paulista.

Mais do que uma retrospectiva, a Mostra de Cinema Toni Venturi propõe um reencontro com uma obra que permanece atual e com um cineasta que fez do cinema uma ferramenta de reflexão sobre o Brasil. Ao levar seus filmes a diferentes públicos, o projeto contribui para preservar sua memória e reafirmar a importância de sua produção para a história do audiovisual brasileiro.

A Mostra de Cinema Toni Venturi conta com recursos do Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, a partir do Termo de Fomento nº 975676/2025.


Serviço

Mostra de Cinema Toni Venturi

Quando: 27 de outubro a 7 de novembro de 2026, em São Paulo (SP)

Onde: MIS – Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158 – Jardim Europa): 27 de outubro a 1º de novembro
Onde: Cine-Teatro Denoy de Oliveira (CPC-UMES) (R. Rui Barbosa, 323 – Bela Vista): 2 a 7 de novembro

Quanto: entrada franca, sujeita à lotação das salas

Programação: olharimaginario.com.br/mtv

Instagram: @mostratoniventuri | @olharimaginario


Filmes exibidos

  • "1999" (1992), Curta-metragem de ficção - 18 min

  • "O Velho – A História de Luís Carlos Prestes" (1997), Documentário - 105 min

  • "Latitude Zero" (2001), Ficção - 85 min

  • "No Olho do Furacão" (codireção: Renato Tapajós) (2003), Documentário - 52 min

  • "Cabra-Cega" (2004), Ficção - 107 min

  • "Sotaque Nordestino" (2004), Telefilme - 30 min

  • "Pernambuco – Raiz Antenada pro Mundo" (2004), Telefilme - 30 min

  • "Dia de Festa" (codireção: Pablo Georgieff) (2006), Documentário - 77 min

  • "Paulo Freire – Contemporâneo" (2007), Documentário - 54 min

  • "Rita Cadillac – A Lady do Povo" (2007), Documentário - 75 min

  • "Vocacional – Uma Aventura Humana" (2011), Documentário - 77 min

  • "Estamos Juntos" (2011), Ficção - 95 min

  • "A Comédia Divina" (2017), Ficção - 95 min

  • "Dentro da Minha Pele" (codireção: Val Gomes) (2020), Documentário - 86 min

  • "Jogo em Cena" – 3 episódios (codireção: Val Gomes) (2026), Série documental - 3 × 26 min


Programação

MIS – Museu da Imagem e do Som: 27 de outubro a 1º de novembro

27 OUT – TERÇA-FEIRA – ABERTURA

  • 18h45 – Abertura – Apresentação e agradecimentos – Auditório MIS – convidados: André Sturm, Valério Bemfica, Mauro D'Addio, Débora Duboc, Theo Venturi e Otto Venturi

  • 19h – Pocket show de Fernanda Porto

  • 19h15 – "Latitude Zero" (2001), Ficção – 85 min

  • 21h – Debate – Toni Venturi: um cineasta do seu tempo – convidados: Débora Duboc e Paulo Teixeira

  • 21h15 – Coquetel

28 OUT – QUARTA-FEIRA

  • 16h – "Cabra-Cega" (2004), Ficção – 107 min

  • 17h50 – Debate – O processo de criação na construção da ficção – convidados: Marcelo Lira, Débora Duboc e Leonardo Medeiros

  • 19h – "O Velho – A História de Luís Carlos Prestes" (1997), Documentário – 105 min

  • 20h50 – Debate – Onde estamos? Para onde vamos? – convidado: Nunzio Briguglio

29 OUT – QUINTA-FEIRA

  • 16h – "Paulo Freire – Contemporâneo" (2007), Documentário – 54 min

  • 17h – Debate – A atualidade da pedagogia do oprimido

  • 19h15 – "Vocacional – Uma Aventura Humana" (2011), Documentário – 77 min

  • 20h30 – Debate – A educação como ferramenta libertadora – convidados: Daniel Chiozzini e Macaé Evaristo

30 OUT – SEXTA-FEIRA

  • 16h – "No Olho do Furacão" (codireção: Renato Tapajós) (2003), Documentário – 52 min

  • 17h – Debate – Memória e testemunho de uma geração – convidados: Hidalgo Romero, Maria Cristina Ocariz e Vera Paiva

  • 19h30 – "Rita Cadillac – A Lady do Povo" (2007), Documentário – 75 min

  • 21h – Debate – Para além da imagem – convidados: Débora Duboc, Rita Cadillac e Drauzio Varella

31 OUT – SÁBADO

  • 15h – "Dia de Festa" (codireção: Pablo Georgieff) (2006), Documentário – 77 min

  • 16h30 – Debate – Quem não luta, tá morto? – convidados: Nabil Bonduki e Carmen Silva

  • 18h – "Estamos Juntos" (2011), Ficção – 95 min

  • 19h35 – Debate – O real na construção da ficção – convidados: Tata Amaral e Lina Chamie

01 NOV – DOMINGO

  • 15h – "A Comédia Divina" (2017), Ficção – 95 min

  • 16h35 – Debate – A mercantilização da fé – convidado: Cesar Sartorelli

  • 17h30 – "Dentro da Minha Pele" (codireção: Val Gomes) (2020), Documentário – 86 min

  • 19h10 – Debate – O mito da democracia racial no Brasil – convidada: Val Gomes


Cine-Teatro Denoy de Oliveira (CPC-UMES): 2 a 7 de novembro

02 NOV – SEGUNDA-FEIRA

  • 18h – "A Comédia Divina" (2017), Ficção – 95 min

  • 19h30 – Debate – A mercantilização da fé – convidado: Cesar Sartorelli

03 NOV – TERÇA-FEIRA

  • 14h – "Dentro da Minha Pele" (codireção: Val Gomes) (2020), Documentário – 86 min (sessão para escolas)

  • 15h35 – Debate – O mito da democracia racial no Brasil – convidados: Val Gomes e Salloma Salomão

  • 18h – "O Velho – A História de Luís Carlos Prestes" (1997), Documentário – 105 min

  • 19h50 – Debate – O documentário como diálogo do seu tempo – convidado: Amir Labaki

04 NOV – QUARTA-FEIRA

  • 14h – "Cabra-Cega" (2004), Ficção – 107 min (sessão para escolas)

  • 15h50 – Debate – O Brasil nos anos de chumbo – convidados: Débora Duboc, Jonas Bloch e Leonardo Medeiros

  • 18h – "Jogo em Cena" – Episódio 2: Lucélia Sergio (codireção: Val Gomes) (2026), Série documental – 26 min

  • 18h30 – "Jogo em Cena" – Episódio 7: Sidney Santiago (codireção: Val Gomes) (2026), Série documental – 26 min

  • 19h – "Jogo em Cena" – Episódio 7: Jé Oliveira (codireção: Val Gomes) (2026), Série documental – 26 min

  • 19h30 – Debate – Teatro negro – convidados: Sidney Santiago, Jé Oliveira e Lucélia Sergio

05 NOV – QUINTA-FEIRA

  • 14h – "Vocacional – Uma Aventura Humana" (2011), Documentário – 77 min (sessão para escolas)

  • 15h30 – Debate – A educação que liberta – convidados: Paulo Ricardo Simon, Luigy Marks, Zago e Cecília Guaraná

  • 19h – "Paulo Freire – Contemporâneo" (2007), Documentário – 54 min

  • 19h55 – Debate – A atualidade da pedagogia do oprimido – convidado: Cláudia Mogadouro

06 NOV – SEXTA-FEIRA

  • 14h – "Dia de Festa" (codireção: Pablo Georgieff) (2006), Documentário – 77 min (sessão para escolas)

  • 15h20 – Debate – Quem não luta, tá morto? – convidados: Noemi Araujo e Nete

  • 18h – "Latitude Zero" (2001), Ficção – 85 min

  • 19h30 – Debate – A mulher na obra de Toni Venturi – convidados: Miriam Chneiderman, Ana Paula Souza e Débora Duboc

07 NOV – SÁBADO – ENCERRAMENTO

  • 16h – "Sotaque Nordestino" (2004), Telefilme – 30 min

  • 16h30 – "Pernambuco – Raiz Antenada pro Mundo" (2004), Telefilme – 30 min

  • 17h – "1999" (1992), Curta-metragem de ficção – 18 min

  • 17h20 – Debate – Falas de encerramento da Mostra em São Paulo – convidados: Débora Duboc, Fernanda Porto e Otto Duboc

  • 18h – Coquetel com pocket show de Fernanda Porto

sábado, 17 de outubro de 2026

Anatomia do Caos: o documentário que resgata a memória da CPI da Covid

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Cartaz do documentário de Dandara Ferreira - Divulgação 
Existe um período na história recente do Brasil que ainda não foi devidamente elaborado. O documentário "Anatomia do Caos" mergulha nos bastidores da CPI da Covid-19, instalada pelo Senado Federal em abril de 2021 para investigar as omissões e irregularidades do governo Jair Bolsonaro durante a pandemia. Dirigido por Dandara Ferreira (de Meu Nome é Gal), o filme acompanha por dentro os trabalhos da comissão, reúne imagens inéditas e depoimentos de familiares de vítimas, além de personagens centrais da investigação.

Com uma câmera na mão e sem equipe, Dandara registrou o teatro político brutal que se desenrolou em Brasília: senadores confrontando depoentes, documentos revelando esquemas de corrupção, familiares de vítimas clamando por justiça e a construção de uma narrativa de desinformação que transformava a morte em estatística. O resultado é um documento histórico que expõe como decisões políticas deliberadas agravaram a crise sanitária que matou mais de 700 mil brasileiros.


Disponível gratuitamente no Plataforma Livre TV

O documentário está disponível até o dia 25 de outubro no Plataforma Livre TV para ser assistido na íntegra e gratuitamente. É uma oportunidade de conferir um dos filmes mais comentados do ano, que após 13 semanas em cartaz nos cinemas chega ao público em uma rede colaborativa de canais.


Assista Anatonia do Caos Aqui


Muito mais que um documentário: um espaço para o cinema mundial

Aproveite para explorar o Plataforma Livre TV, um novo espaço que reúne produções de diversos países para serem assistidas gratuitamente. Lá você encontra filmes do Brasil, Coreia do Sul, Itália, França, Reino Unido, Malásia, Macedônia do Norte, Libéria, entre muitos outros. São dramas, thrillers, documentários, comédias e ficções científicas que dificilmente chegam às grandes plataformas — tudo com acesso livre e na íntegra.

Se você gosta de cinema e quer descobrir novas perspectivas, o Plataforma Livre TV é o lugar certo. E comece por Anatomia do Caos: um filme necessário, que não deixa a história ser apagada.


https://plataformalivretv.blogspot.com

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Curadoria de Filmes: Conheça a Plataforma Livre TV

 Para quem gosta de sair do óbvio, conhecer filmes de diversos países e ainda assistir gratuitamente cinema de qualidade: Chegou a Plataforma Livre TV.

Livre das indicações dos algoritmos, a Plataforma Livre TV tem a minha curadoria. Lá eu faço recomendações de longas-metragens bacanas. São filmes, disponíveis de graça na internet, que assisti e gostei. Já tem alguns selecionados que podem ser assistidos por lá mesmo. Confira!

Por enquanto é isso. Em breve postarei maiores informações e novidades.


Acesse https://plataformalivretv.blogspot.com



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Gonzaguinha se manteria combativo e sem medo de cancelamentos, avalia autora de cinebiografia

“Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”, que conta a trajetória de Luiz Gonzaga Jr., foi premiado com o Kikito de Melhor Longa-metragem Documentário no Festival de Gramado de 2026.


Por Ana Rosa Carrara e Lucas Salum, via Brasil de Fato

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Filme sobre Gonzaguibnha recebe Kikito de melhor documentário em 2026 | Crédito: Divulgação


Dirigido por Susanna Lira, o filme chega às salas de cinema na próxima quinta-feira (3) e usa um recurso pouco habitual para o gênero: a encenação. O ator André Dali interpretou Gonzaguinha na entrevista concedida ao jornal O Pasquim em maio de 1981. Para a diretora da biografia, a intenção foi poder apresentar o cantor ao público a partir dele próprio.

“Gonzaguinha é um cara muito complexo, tinha uma opinião muito forte a respeito de tudo em que ele acreditava, e isso estava gritando dentro dos arquivos. Eu queria muito que as pessoas se relacionassem com o jeito dele. Então, essa foi a decisão de trazê-lo na primeira pessoa, falando dele mesmo no filme. E a outra questão era esse recorte mais político: ele teve mais de 52 obras censuradas e insistia em continuar falando aquilo em que acreditava no meio da ditadura militar no Brasil.”

Apesar da encenação, o maior volume de material da obra é de imagens de arquivos do próprio artista.

O filme aborda a complicada relação de Gonzaguinha com seu pai biológico, o cantor e compositor Luiz Gonzaga. Após a morte da mãe, Odaléia, vítima de tuberculose, Gonzaguinha foi criado pelos padrinhos e não por seu pai, o que gerou um grande distanciamento entre os dois. Mas, no fim dos anos 1970, os dois iniciaram uma aproximação que culminou em uma turnê nacional conjunta chamada “A Vida do Viajante”.

“Era uma relação bastante conturbada que a gente tenta mostrar da melhor maneira possível, no sentido da romantização da acidez que tinha ali. Eu acho que a gente não precisa romantizar as nossas relações familiares. Se tiver que ter divergência por alguma ideologia, eu acho super saudável, porque eu acho que as pessoas que a gente mais ama são as pessoas com quem a gente insiste que vejam o mundo dos nossos olhos, né? Pelo menos dessa parte que eu falo sempre dos direitos humanos, dos direitos básicos do ser humano”, reflete a diretora.

Gonzaguinha faleceu aos 45 anos, em 1991, em um acidente de carro, no Paraná, após sair de um show na cidade de Pato Branco. Lira destaca que era uma figura muito particular, e que hoje não há um artista que se compare ao que ele foi como artista. 

“Gonzaguinha é ainda muito atual, porque ele leu o Brasil. Acho que ele estaria ainda hoje muito combativo. Não vejo um artista que eu possa comparar com ele hoje. As pessoas realmente têm muito medo de cancelamento, medo de não ser aceitas, medo de não vender o show por conta dessas ideologias. O Brasil continua repetindo coisas que o Gonzaguinha viveu e escreveu. Então isso o torna único”, analisa a autora do documentário.

Fonte: Brasil de Fato


Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.


terça-feira, 7 de julho de 2026

Mas era Silêncio o que se Ouvia

Justo Agora, canção de Adriana Calcanhoto, do disco Cantada (2001).


Justo Agora - Adriana Calcanhoto




Justo agora 2001
Adriana Calcanhotto
in: Cantada 03:43

Eu ouvi dizer
que você assim
como quem não quer nada
perguntou por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi você
me dizer que sim
mas era silêncio o que se ouvia
quando dei por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi você
me dizer que sim
mas era silêncio o que havia
quando dei por mim

Agora
Logo agora
Justo agora

Eu ouvi dizer
que você assim
como quem não quer nada
perguntou por mim

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Leia Complexo de vira-latas, crônica original de Nelson Rodrigues

Por "complexo de vira-lata" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. (Nelson Rodrigues)


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Nelson Rodrigues, 1967 (Wikimedia Commons)

Em 1958, há quase 70 anos, Nelson Rodrigues publicou a crônica Complexo de Vira
-Latas. Isso deu origem à expressão e ao conceito que melhor simboliza o sentimento que muitos brasileiros têm em relação ao Brasil.


Essa foi a última crônica de Rodrigues antes da estreia da Seleção Brasileira na Copa de 1958; originalmente, o texto do dramaturgo foi escrito considerando o trauma da derrota na Copa do Mundo de 1950, quando a Seleção Brasileira foi superada pela Seleção Uruguaia na final do torneio, realizada no Maracanã.


Ao final da postagem, deixo o link de um comentário do escritor gaúcho Luis Augusto Fischer sobre a crônica de Nelson Rodrigues. O texto de Fischer está em um arquivo PDF, disponível no site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


Complexo de vira-latas

Nelson Rodrigues


Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:


— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.
Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119, e ao  livro “À sombra das chuteiras imortais: crônicas de chutava”, seleção de notas de Ruy Castro – Companhia das Letras – 1993.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

BibliON lança websérie Literatura pelo Mundo em clima de Copa

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Em ano de Copa do Mundo, a SP Leituras lança a websérie Literatura pelo Mundo, uma jornada inédita por 11 países a partir de suas obras, autores e tradições literárias. A iniciativa celebra a diversidade cultural do planeta e convida o público a “carimbar o passaporte” sem sair de casa, por meio da leitura.

O primeiro episódio já está no ar no canal da BibliON no YouTube e tem o Brasil como destino de estreia. Para conduzir essa primeira viagem, a websérie recebe o escritor, crítico literário e professor Cristhiano Aguiar, vencedor do Prêmio Clarice Lispector da Biblioteca Nacional por Gótico Nordestino e autor do ensaio Tanto oceano, tanta solidão.

No episódio, Cristhiano apresenta características marcantes da literatura brasileira, compartilha curiosidades sobre a produção nacional e indica obras essenciais para ampliar o repertório dos leitores. Entre os títulos recomendados estão A hora e a vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa; Angústia, de Graciliano Ramos; O corpo desvelado: contos eróticos brasileiros, organizado por Eliane Robert Moraes; Ressuscitar mamutes, de Silvana Tavano; e Um Exu em Nova York, de Cidinha da Silva.

A websérie reunirá 11 especialistas em uma viagem literária por diferentes países, com episódios dedicados a nações como Itália, Japão, Nigéria, Haiti, Estados Unidos e outras paradas. A cada encontro, o público poderá conhecer aspectos históricos, culturais e literários de cada destino, além de receber indicações de leitura disponíveis no acervo digital da BibliON.

A BibliON é a biblioteca digital gratuita do Estado de São Paulo. Pelo aplicativo ou pelo navegador, os leitores podem acessar milhares de livros digitais e audiolivros gratuitamente.

O primeiro episódio de Literatura pelo Mundo já pode ser assistido no canal da BibliON no YouTube.

Fonte: Biblioteca de São Paulo


Literatura pelo Mundo: Brasil! 🇧🇷 Curiosidades e Indicações com Cristhiano Aguiar (Ep. 1)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Vídeo Raro de Jorge Ben Jor

Nesta sexta-feira, dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo 2026, nada melhor do que ouvir Jorge Ben Jor. Confira uma antiga apresentação, ao vivo, do brilhante Jorge Ben. Abaixo, vídeo raro de 1972.


Jorge Ben Jor - Apresentação ao vivo 1972


Contexto: O show captura um momento crucial da carreira de Jorge Ben, no auge da criatividade e na transição do samba para o som mais "suingado" e elétrico que o consagraria nos anos 1970.


Formato: Performance ao vivo para a TV, com Jorge Ben no violão e vocais, acompanhado por uma banda compacta (baixo, bateria e percussão). 


Repertório: Versões estendidas de seus maiores clássicos até então. O setlist inclui "Fio Maravilha", "Que Maravilha", "País Tropical", "Domingas", "O Circo Chegou", "Zazueira" e um longo pot-pourri com "Mas Que Nada". 


Lançamento: Apesar de gravado em 1972, esse registro só foi lançado oficialmente em LP muitos anos depois, em 2025, tornando-se um item muito procurado por fãs e colecionadores.


Curiosidade 

A apresentação de 1972 faz parte do programa MPB Especial . Este programa era, na verdade, a versão da TV Cultura para o "Ensaio", um formato criado pelo diretor Fernando Faro. 


A Origem do "Ensaio": O programa "Ensaio" foi criado por Fernando Faro e exibido originalmente pela TV Tupi entre 1969 e 1971.


A Mudança para a TV Cultura: Quando Faro se transferiu para a TV Cultura em 1972, ele levou o formato consigo, rebatizando-o como "MPB Especial". Foi exatamente nessa nova fase que Jorge Ben se apresentou.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Sem mais, a Vida vai Passando no Vazio


Altar Particular - Maria Gadú

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
Do teu penoso altar particular

Sei lá, a tua ausência me causou um caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós

Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faça melhor do que lhe parecer

Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor

Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor

Biblioteca Nacional abre inscrições para Prêmio Literário 2026

Escritores brasileiros podem concorrer com obras inéditas


Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Escritores brasileiros, com obras inéditas em primeira edição, redigidas em língua portuguesa e publicadas por editoras do país - entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026 - já podem se inscrever ao Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026.

As inscrições começaram nesta segunda-feira (8) e permanecem abertas até 8 de julho neste endereço online.

De acordo com a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), e promotora da premiação, o concurso é voltado também a autores independentes, desde que a obra esteja em deepósito legal e traga impresso o número do International Standard Book Number (ISBN).

Cada vencedor das 13 categorias receberá R$ 30 mil. A novidade desta edição é o Prêmio João do Rio, categoria dedicada aos livros de crônicas.

Categorias

Concedido anualmente desde 1994, o Prêmio Literário Biblioteca Nacional visa reconhecer a qualidade intelectual das obras publicadas no Brasil.

O concurso é considerado um dos mais conceituados do país e o mais democrático no cenário nacional, uma vez que não tem taxa de inscrição e concede o mesmo valor de premiação para cada uma das 13 categorias.

São elas: Conto (Prêmio Clarice Lispector); Crônica (Prêmio João do Rio); Ensaio Literário (Prêmio Mario de Andrade); Ensaio Social (Prêmio Sérgio Buarque de Holanda); Histórias de tradição oral (Prêmio Akuli); Histórias em quadrinhos (Prêmio Adolfo Aizen); Ilustração (Prêmio Carybé); Literatura Infantil (Prêmio Sylvia Orthof); Literatura Juvenil (Prêmio Glória Pondé); Poesia (Prêmio Alphonsus de Guimaraens); Projeto Gráfico (Prêmio Aloísio Magalhães); Romance (Prêmio Machado de Assis); Tradução (Prêmio Paulo Rónai).

Treze comissões julgadoras, sendo uma por categoria e compostas por três especialistas da área farão a avaliação das obras inscritas. Originalidade, contribuição à cultura nacional, criatividade no uso dos recursos gráficos e excelência da tradução são os critérios que serão considerados.

O resultado final será divulgado até 30 de outubro no Diário Oficial da União e no portal da Fundação Biblioteca Nacional, após a análise de recursos e homologação do resultado pela presidência da FBN.

Fonte: Agência Brasil 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Trinta e Três Anos sem Elis Regina

ELIS REGINA

Pimentinha genial

por Janaina Abreu
Ela era como Midas, rei que transformava em ouro tudo o que tocava: qualquer música que gravasse, virava clássico. Geniosa, se dizia “mais ardida que pimenta”. Mais que geniosa, genial.Não tinha 20 anos quando arrebatou o Brasil ao interpretar Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Aconteceu no I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. Considerada entre as maiores cantoras de todos os tempos, imortalizou inúmeras canções: Como Nossos Pais, de Belchior; Romaria, de Renato Teixeira; Travessia, de Milton Nascimento; Águas de Março, de Tom Jobim. As interpretações apaixonadas, o temperamento explosivo e a morte prematura, aos 36 anos, fizeram dela um mito. Gilberto Gil definiu:
“Sua voz será de todas as canções, sua alma de todos os corações.”

SEIS PEDIDOS DE BIS
A carreira de Elis Regina de Carvalho Costa começou aos 11 anos, no Clube do Guri, da Rádio Farroupilha de Porto Alegre, cidade onde nasceu em 1945.
A gauchinha tímida deu lugar a mulher de personalidade forte, quando chegou ao Rio em 1964. Participou de festivais e movimentos político-musicais, como a Passeata Contra as Guitarras, pela preservação das raízes da MPB contra a invasão estrangeira. Em 1968, no Olympia, em Paris, voltou ao palco seis vezes atendendo aos pedidos de bis. Mas a carreira internacional não vingou porque não suportava ficar longe do Brasil.

CARA FEIA É BODE
Declarações bombásticas e contraditórias eram comuns. Elis desprezou a bossa nova, mais tarde gravou com Tom Jobim e Roberto Menescal. Falou mal da Tropicália, mas gravou Caetano e Gil. Chamou os militares da ditadura de “gorilas”, mas cantou na Olimpíada do Exército de 1972. Tinha língua afiada:
“Cara feia pra mim é bode. Sou mais ardida que pimenta!”
Relacionamentos amorosos conturbados. Do primeiro casamento, com o compositor Ronaldo Bôscoli, dizia que só levou de bom o filho João Marcelo e certo amadurecimento pessoal. Com o pianista e arranjador César Camargo Mariano teve dois filhos, Pedro e Maria Rita. O relacionamento com o advogado americano Samuel MacDowell de Figueiredo durou seis meses, até a morte da cantora.

GRAÇAS À VIDA 
Elis gravou os melhores compositores ou transformou em obras-primas canções banais de compositores medianos. Para festejar dez anos de carreira, gravou com Tom nos Estados Unidos o histórico Elis & Tom. Em 1976, o show Falso Brilhante levou ao Teatro Bandeirantes, em São Paulo, mais de 280 mil pessoas em 257 apresentações. O show Transversal do Tempo, de 1977, excursionou por capitais brasileiras, pela Itália e Espanha. Sobre Buenos Aires, foi categórica:
“Enquanto meu disco [Falso Brilhante] continuar proibido pela censura argentina, não me apresento lá.”
A justiça interditou o disco por causa da música Gracias a la Vida, de Violeta Parra, proscrita pelos militares golpistas chilenos.

TRISTE FIM
Em 1979, gravou de Aldir Blanc e João Bosco O Bêbado e a Equilibrista, que virou “hino da anistia”. Estreou Saudades do Brasil, misto de teatro com música, onde falava da cultura brasileira.
“Não se trata de saudade de alguma coisa que acabou ou pessoa que morreu… saudade do que está aí, vivo, solto, e nunca deixou de existir. Se não temos acesso a isso, é por falta de uma batalha maior.”
A dedicação à produção do show Trem Azul ocupou Elis durante 1981. Cheia de planos, na manhã de 19 de janeiro de 1982 morreu em seu apartamento em São Paulo, vítima de overdose de cocaína. Uma camiseta com a bandeira brasileira, onde se lia “Elis Regina” no lugar de “Ordem e Progresso”, vestiu o corpo da cantora, velado no Teatro Bandeirantes. No dia seguinte, muros do País amanheceram pichados:
Elis vive.


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sábado, 10 de janeiro de 2015

Criolo esfrega na cara a desigualdade social em entrevista

Ao lado do pai, Cleon, o rapper Criolo, nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado (Fonte: Ponte Jornalismo)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade revela: Ditadura mandou aposentar Vinicius de Moraes por embriaguez

Ditadura pediu aposentadoria de Vinicius de Moraes do Itamaraty por embriaguez

por Leandro Melito - Portal EBC

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Vinicius de Moraes trabalhando como diplomata (Reprodução/TV Brasil)
Brasília - A Comissão de Investigação Sumária, criada em 1969 pelo governo militar, pediu a aposentadoria do poeta, compositor e então diplomata Vinicius de Moraes por motivo de "embriaguez". Ele exercia a função de primeiro secretário no Itamaraty. O nome do célebre artista brasileiro aparece no relatório daquela comissão, após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), momento mais duro do regime. A comissão de investigação, que era presidida por Antônio Câmara Canto, recomendou a aposentadoria compulsória de diplomatas por conta de suas "condutas pessoais".

Em razão de seus méritos, a comissão recomendou que ele fosse transferido para o Ministério da Educação, mas a medida encontrou "obstáculos" e o poeta foi obrigado a encerrar a carreira como diplomata iniciada em 1943.

O caso de Vinicius de Moraes não foi isolado. "O relatório secreto da comissão  recomendou a aposentadoria compulsória de sete diplomatas e seis servidores administrativos, sob a alegação de "homossexualismo" , sugeriu a submissão de exames para comprovação de condutas homossexuais a dez diplomatas e dois servidores; propôs a aposentadoria de catorze funcionários por embriaguez e outros dois por risco à segurança nacional e convicções ideológicas consideradas subversivas", aponta o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Confira a íntegra do relatório final da CNV

O documento encontrado pela CNV esclareceu a saída de Vinicius do órgão diplomático e confirmou a versão sobre o episódio veiculada pelo jornalista Carlos Castello Branco  em sua coluna no Jornal do Brasil em novembro de 1990 intitulada "Como Vinicius Deixou o Itamaraty". No texto em que reproduz carta de um amigo pessoal de Vinicius ao qual preserva o anonimato, ele aponta que entre "alcoólatras, pederastas e subversivos" então afastados da carreira Vinicius teria sido "vagamente enquadrado nessa última categoria".

A coluna foi publicada justamente para contrapor outra versão sobre o episódio que consta no livro Chega de Saudade - a história e as histórias da bossa nova, em que Ruy Castro atribui o fim da carreira diplomática de Vinicius a uma ordem do então presidente Arthur da Costa e Silva transmitida em memorando dirigido ao ministro do Exterior da época, José de Magalhães Pinto, relatada da seguinte maneira no livro:

"’Assunto: Vinicius de Moraes. Demita-se esse vagabundo. Ass. Arthur da Costa e Silva. Com este grosseiro memorando ao chanceler Magalhães Pinto, o marechal-presidente decretou a saída do poeta do corpo diplomático em fins de 1968. Vinicius recebeu a notícia em alto-mar, a bordo da banheira de sua cabine no navio Eugênio C. Chorou convulsivamente, porque adorava o Itamaraty".

Confira o especial sobre o centenário do Vinicius de Moraes

Cerca de um mês depois uma nova coluna de Castello Branco no JB com o título Ainda sobre a cassação de Vinicius de Moraes trouxe outra carta, desta vez da irmã de Vinicius, Laetitia C. de Moraes Vasconcellos. No texto, a irmã do poeta reafirma a existência do comunicado entre o presidente militar e seu ministro, mas situa ela no período que antecedeu a instituição do AI-5, portanto antes de se consumar a cassação. "Segundo o que o próprio Vinicius, meu irmão, relatou à minha irmã Lygia, antes mesmo da edição do AI-5, ele soubera, através de amigos no Itamaraty, que o presidente enviara a famosa nota ao então ministro Magalhães Pinto, vazada nos seguintes termos: 'Demita-se esse vagabundo’".

Segundo aponta o relatório final da CNV, a Comissão de Investigação Sumária foi criada no ministério das Relações Exteriores em 1969, logo após a edição do AI-5 pelo então ministro das Relações Exteriores José Magalhães Pinto, por meio de um memorando secreto enviado para o chefe do Departamento de Administração, o embaixador Manoel Emílio Pereira Guilhon, em que determinava a “a constituição, sob sua presidência, de uma Comissão de Investigação”.

"Segundo atas de reuniões dos dias 3 e 7 de janeiro de 1969, as primeiras gestões foram o envio de circulares-telegráficas às missões diplomáticas e repartições consulares, bem como instruções aos chefes em serviço na Secretaria de Estado, reforçando a necessidade de serem observados os princípios e propósitos do AI-5 e do Ato Complementar nº 39", aponta o relatório da CNV. Um memorando de 15 de janeiro de 1969 enviado pelo ministro ao presidente da comissão recomendava o exame rigoroso de “casos comprovados de 'homossexualismo' de funcionários do Ministério suscetíveis de comprometer o decoro e bom nome da Casa, tendo em vista o possível enquadramento dos indiciados nos dispositivos do Ato Institucional no 5”.

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A carreira diplomática

Após ser aprovado para o Itamaraty em 1943, Vinicius assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles em 1946. Nos anos 1950,  atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde costumava realizar  encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Holanda. Vinícius foi anistiado (post-mortem) pela Justiça em 1998. A Câmara dos Deputados brasileira aprovou em Fevereiro de 2010 a promoção póstuma do poeta ao cargo de "ministro de primeira classe" do Ministério dos Negócios Estrangeiros - o equivalente a embaixador, que é o cargo mais alto da carreira diplomática. A lei foi publicada no Diário Oficial do dia 22 de junho de 2010.


Fonte: EBC - Todo o conteúdo da EBC está publicado sob a Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil exceto quando especificado em contrário e nos conteúdos replicados de outras fontes.


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