domingo, 10 de fevereiro de 2008

Gilberto Gil analisa o Patrimônio Intangível

Entrevista com o ministro Gilberto Gil para a revista Itaú Cultural, edição janeiro/fevereiro de 2008.

Uma Política de Ponta
por Marco Aurélio Fiochi
Ministro Gilberto Gil (imagem: Cia de Foto)
Em 1977, Gilberto Gil questionou, na canção De Onde Vem o Baião, a origem dos ritmos musicais nordestinos. A resposta, presente em versos como "Debaixo do barro do chão da pista onde se dança/Suspira uma sustança sustentada por um sopro divino/[...]/Que sobe pelo chão/E se transforma em ondas de baião, xaxado e xote", credita a uma dimensão imaterial o impulso criativo que dá vida a uma parte da riqueza musical brasileira. Coincidência ou não, o músico tratou poeticamente um aspecto cultural que, três décadas depois, ganharia espaço cada vez maior em sua gestão como ministro da Cultura. Nesta entrevista, concedida em seu gabinete, em Brasília, Gil demonstra entusiasmo com a cultura intangível: "Essa dimensão é a mais importante da cultura para uma parte enorme da humanidade hoje". Justiça seja feita, desde que assumiu o ministério, em 2003, a cultura intangível entrou de vez em pauta no Brasil, com as certificações de patrimônio imaterial concedidas pelo Iphan a celebrações, lugares, ritmos musicais e ofícios. Mas, segundo o ministro, este não é um mérito individual, já que o governo brasileiro é signatário de uma política mundial para esse setor, posta em prática pela Unesco. Lançando o olhar para um futuro que já se apresenta, Gil comenta ainda a interação crescente entre o patrimônio imaterial e a cultura digital.

Qual é sua visão a respeito da cultura intangível?
A cultura intangível é a parte mais importante, mais substancial da cultura. É a cultura que se processa pelos modos de comunicação. Com o crescimento das populações, especialmente em lugares onde prevalecem os cânones clássicos da cultura eurocêntrica, mas também na periferia do mundo, a cultura intangível se torna mais eloqüente, forte e flagrante. Trata-se da cultura oral, dos saberes, dos processos e das trocas simbólicas cotidianas, nas várias formas de linguagem utilizadas pelas pessoas. Essa dimensão é a mais importante da cultura para uma parte enorme da humanidade hoje. Eu diria que bem mais da metade da população mundial tem nessa dimensão cultural sua dimensão principal. Acho que o Brasil se encaixa com perfeição nesse modelo de povos novos, povos que se construíram com base em uma vivência cultural não formalizada.

Embora as manifestações da cultura oral e intangível sejam tradicionais e praticadas desde tempos imemoriais, essa questão só se tornou mais intensa no setor cultural com a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, realizada pela Unesco em 2003. Como o senhor vê esse despertar relativamente tardio para um aspecto tão relevante de nossa cultura?
A Convenção nasce de uma importância crescente e indiscutível da dimensão do patrimônio imaterial. Ela consolida a atenção especial da humanidade para com o patrimônio imaterial. Por meio dela são criados instrumentos de consideração apropriada, definitiva e mais acentuada dessa dimensão cultural no mundo. A Convenção traz essa discussão a um campo institucional, para o plano da atuação do Estado nesse processo todo. Decorre disso o fato de que um dos aspectos fundamentais da Convenção é a autorização das nações para a prática de políticas culturais públicas, adequadas segundo seu entendimento, sua conveniência, suas expectativas e expectativas de seus povos. A Convenção coroa um processo natural de um conjunto de iniciativas mundiais tomadas pela própria sociedade internacional. A politização dessa discussão nasce nos países asiáticos, como a Índia e a China, em que a dimensão demográfica é de extraordinária importância e a diversidade cultural é imensa. Nesse continente, os processos orais, simbólicos, imateriais se dão de forma muito mais nítida, dramática do que na Europa ou em países onde prevaleceu, por força da acumulação de riquezas, do colonialismo, uma visão clássica de cultura e de patrimônio. Essa visão foi herdada pelos povos que, ao se assumir como novos, com suas necessidades especiais e peculiaridades, passam a reivindicar uma consideração à dimensão imaterial, intangível do patrimônio.

Um dos objetivos do poder público ao conferir títulos de patrimônio imaterial a determinados bens culturais intangíveis é assegurar sua preservação diante das transformações constantes por que passam a vida e a cultura. Como o senhor vê o aprofundamento do debate sobre a cultura intangível, que via de regra é também o debate sobre a cultura popular, no cenário contemporâneo?
A constituição de um corpo de leis e instrumentos regulatórios que possibilitem a preservação dessa cultura por parte do poder público nasce de um cuidado diante de ameaças de um processo natural, de construção da vida moderna e pós-moderna, que é avassalador, que vai obrigando as pessoas a se enquadrar. Mas outro aspecto importante é a necessidade identitária dos indivíduos e dos grupos sociais, seu auto-reconhecimento, sua autocontemplação. Não basta preservar das ameaças da atualidade, pois não se trata somente do risco de perder algo que é seu, mas, sim, da possibilidade de perder a si próprio. São duas questões, dois cuidados contemplados pelas iniciativas ligadas ao patrimônio imaterial.

Em sua gestão houve um empenho pessoal em promover o levantamento e a certificação dos bens culturais intangíveis como patrimônios. O senhor acredita que essa política poderá se tornar uma política de Estado?
Não vejo isso no futuro, é agora! Estamos fazendo uma política de Estado ao criar os estatutos da certificação. É uma política que se constrói agora e tem vida longa. Ela reflete um desejo e uma ação da Unesco - não por acaso a Organização é dirigida por um dos maiores entusiastas do patrimônio imaterial, o secretário Koïchiro Matsuura. A formação do secretário na esfera institucional da cultura vem do patrimônio imaterial no Japão. Ele veio para a Unesco para representar a grande demanda asiática pelo fortalecimento dessa dimensão. O governo brasileiro, por meio do Iphan, a autoridade cultural patrimonial do país, é signatário dessa política. Vários estados brasileiros, por meio de suas políticas culturais, também assumiram a questão do patrimônio imaterial como política, caso do Ceará, da Paraíba, da Bahia, de Minas Gerais. Alguns programas estaduais, como o do Ceará, são anteriores ao programa do Ministério da Cultura. Trata-se, de fato, de uma política do Estado brasileiro.

Os Pontos de Cultura do programa Cultura Viva, do ministério, poderão abrigar no futuro manifestações da cultura intangível?
Muitos deles já abrigam essas manifestações. São Pontos de Cultura ligados a populações indígenas e a remanescentes históricos da interação cultural afro-brasileira. Não só os Pontos de Cultura, mas também outros programas do ministério, outras vertentes do programa Cultura Viva já contemplam as manifestações certificadas como patrimônio. Se não os certificados, aqueles que estão em processo para se certificar. É uma forma de fazer com que essas manifestações cumpram seu percurso. Há um primeiro estágio, que é a afirmação da identidade, e num segundo momento sua exposição, difusão para públicos que não teriam acesso direto a elas.

Para as comunidades, qual é o impacto das ações planejadas pelo ministério para garantir a sustentabilidade dos modos de fazer e das celebrações da cultura intangível?
O associativismo é um passo natural para a visibilidade dessas comunidades, para que elas fortaleçam seus vínculos com as manifestações culturais intangíveis. Portanto, esses grupos passaram a se estabelecer como força política, como força empreendedorística, como força de protagonismo social. O associativismo é baseado na consolidação da cidadania. A primeira noção do associativismo é a politização, as pessoas se associam para se tornar corpos políticos. Claro que o ministério não vai fazer cidadania, não vai fazer de ninguém um cidadão, mas ele ajuda na medida do possível, dando ferramentas técnicas, materiais e conceituais. A parte conceitual é importante, pois dá às pessoas a visão, a noção sobre identidades e diversidades, sobre preservação e conservação, sobre o papel da sociedade e também do governo.

Enfocando aspectos mais contemporâneos da questão, gostaria que o senhor falasse a respeito de outra forma de patrimônio imaterial, constituído a partir do advento da cultura digital. Como o senhor vê o papel das obras de referência virtuais, a exemplo de enciclopédias, para assegurar a preservação da memória cultural?
Esse é um tema novo e importantíssimo. Acabo de chegar dos Estados Unidos, onde tive contato com a Internet Archive, instituição não-governamental criada por um egresso do mundo dos negócios no Vale do Silício, Califórnia, Estados Unidos. A instituição [criada em 1996 por Brewster Kahle] nasceu exatamente para preservar acervos com a digitalização. São arquivos, memórias variadas encontradas fragmentadas no campo digital, produtos que são conseqüência, são frutos da internet, bem como tudo aquilo que ela veio a abrigar do mundo analógico, das linguagens anteriores. Trata-se dos grandes filmes do mundo inteiro, do patrimônio musical, do teatro, da literatura. A instituição possui 200 bilhões de páginas da internet arquivadas, fora os 200 mil filmes digitalizados. Essa relação entre o patrimônio imaterial e o mundo digital está cada vez mais próxima, eles estão convergindo, não há como recusar isso.
Ouça trechos da entrevista.

Blogues do MinC

Blogs do Ministério da Cultura

O MinC reformulou seu site há pouco tempo e, além de ter tornado mais fácil o acesso aos diversos conteúdos, como os editais em andamento, criou alguns blogs de assuntos específicos. Entre eles, ganham espaço próprio e de destaque os Pontos de Cultura, no blog Ponto Brasil, que veicula trechos dos programas que vão ao ar na recém-lançada Tv Brasil; e o Cultura Digital aborda os temas relacionados às tecnologias digitais e aos softwares livres, que têm possibilitado uma crescente democratização do acesso à informação e ao conhecimento de bens e serviços culturais. Há ainda blogs sobre Diversidade Cultural, Direito Autoral, Internet Governance Forum , Rede Olhar Brasil, sobre os núcleos de produção digital no país, e o Mercosul Cultural.

Fonte: RevistaIdiossincrasia

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Animação dá Tapa na Cara da Classe Média

Vídeo de animação da música Classe Média, do cantor Max Gonzaga, feito a pedido da revista CartaCapital.

Classe Média - Max Gonzaga

Em 2005 Max Gonzaga lançou seu primeiro CD solo com o título Marginal e teve sua música Classe Média classificada para o Festival Cultura - A Nova Música do Brasil.

Fontes: CartaCapital, Saite Oficial Max Gonzaga

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Condomínio, belo texto de Luis Fernando Veríssimo

Condomínio
por Luis Fernando Veríssimo


João, 39 anos, entrou no apartamento com um olhar tão estranho que sua mulher exclamou, quase o acusou:

- Você foi assaltado!

- Não, não...

Ele começou a desfazer o nó da gravata, maldita gravata. Continuou com o olhar perdido. O apartamento era novo. Ainda tinha o cheiro de tinta nova.

- Então viu um fantasma...

João mexeu os lábios. A intenção era um sorriso, mas não conseguiu.

- Isso mesmo. Vi um fantasma. No elevador.

- Olha os sapatos.

O prédio ainda não estava pronto. O chão da garagem, no subsolo, estava coberto de pó de cimento que pegava nos sapatos. A mulher não queria cimento no seu tapete novo. Tapete, não. Carpete.

- Sabe quem foi que subiu comigo no elevador?

- Quem?

- Um dos caras que me torturaram em 68.

- Você está maluco.

- Estou te dizendo. Reconheci na hora. Era o chefe deles.

- Como é que ele é?

- Forte. Está mais gordo agora. Meio careca. Mas a mesma cara.

- Olha o meu carpete, João!

- Deve morar no prédio. No oitavo. Apertou o botão do oitavo.

- No oitavo mora o Serginho. O melhor amigo do Vado.

- Do Vladimir?

João não gostava que chamassem o filho de nove anos pelo apelido.

- É. Os dois passam o dia inteiro na piscina do prédio. Se dão muito bem. O guri se chama Serginho.

- É isso. Ele se chamava Sérgio. Agora me lembro. Sérgio. Mas tinha um apelido. Como era o apelido?

João estava parado no meio da sala. A sala com poucos móveis ainda. Os poucos que tinham trazido do apartamento velho. A mulher estava escolhendo móveis novos. Finalmente tinham condições para montar um apartamento decente. João continuava com o olhar perdido. De pé no meio da sala. A gravata despencando de uma mão, a pasta de executivo na outra. As grandes janelas abertas do apartamento davam para uma encosta coberta de casebres. Mas além dos casebres se via o rio. Um pôr-do-sol de verão. As janelas ainda não tinham cortinas.

- João, por favor, tira os sapatos. Está deixando marcas no carpete.

- Puta que os pariu.

- Eu não entendo por que você ficou assim.

- Ó Sandra, você não vê o que que isso significa?

- Não. O que é que significa.

João olhou para a mulher. Sandra banhada em sol sobre o seu carpete. O território conquistado. Sandrinha do Alaska que um dia enfrentara toda a Brigada Militar a bolsadas e agora sonhava com cortinas para a sala. O que era mesmo que significava?

Por mais de um ano depois de ser solto João não conseguia dormir. De noite chorava no colo de Sandra. Ela afagava a sua cabeça. Pronto, pronto, isso passa. Ele se recusava a tomar qualquer coisa contra a dor ou para dar sono. O pai, médico, conseguiria o que ele quisesse, mas ele não queria nada. Arranjara trabalho - influência do pai - e o DOPS o deixara em paz. O emprego era bom, ele era bom no seu trabalho. Mas de noite chorava nos seios de Sandra. Eu não denunciei ninguém, Sandrinha. Não denunciei ninguém. Me quebraram mas eu não traí ninguém.

Pronto, pronto, isso passa.


- Você lavou as mãos, Vado?

Para construírem a área de lazer do edifício tinham tirado uma fatia do morro. Uma parte do terreno ainda não estava calçada. As crianças ficavam sujas de barro vermelho. O síndico reclamava, as crianças estavam enchendo a piscina de barro.

- Lavei, mãe.

Os três na mesa de jantar. A mesa ainda era a antiga. A nova ia chegar no outro dia.

- Vladimir, como é que se chama o pai do seu amigo?

- Do Serginho? Sei lá. Ele tem uma tartaruga que se chama Lopes.

- A tartaruga não interessa. O pai dele também se chama Sérgio?

- Sei lá.

Sandra:

- A mãe eu conheço. Se chama Leonor. Muito simpática. O marido eu nunca vi. Vai ver você subiu no elevador com uma visita.

- Não. Tinha o ar de quem estava chegando em casa. E deixou o carro na garagem também. Um Passat. Igual ao nosso.

- Ele reconheceu você?

- Não. Acho que não. Filho da Puta.

- Quem?

- Come, Vado.

- O nome desse menino é Vladimir.

- Eu acho o meu nome uma merda.

- Olha o palavrão.

- Ué, tu não disse um também?

- Cala a boca e come.

- Você provavelmente vai conhecê-lo hoje na reunião do condomínio.

- Essa não! Tinha me esquecido da reunião do condomínio. Porra.

- Olha aí! - acusou o filho, apontando com o garfo.

O interrogatório era feito por três, às vezes quatro. O que comandava se chamava Sérgio. Mas tinha um apelido. Como era mesmo que aquele outro preso dissera? Você caiu nas mãos do... Um apelido. Um nome de bicho. Como era? Você caiu nas mãos do... Esse é fogo. Mas ele não denunciara ninguém. Agüentara firme. Depois de um mês o tinham soltado. Ele nunca mais ouvira falar no tal de Sérgio. Forte. A voz rouca.

A reunião do condomínio era no apartamento do Miranda, no décimo. Comerciante, quarenta e poucos anos. Duas filhas adolescentes. Uma mulher que já fizera plástica e andava dentro do apartamento com um kaftan de seda multicolorido que zunia quando roçava no chão. A mulher recebia a todos com um grande sorriso artificial. Talvez a cirurgia não tivesse dado certo e o sorriso fosse permanente.

- Vamos sentando, pessoal. A gente mais ou menos já se conhece, não é mesmo?

- As mulheres já se conheciam. Os homens, só de encontros casuais no elevador ou na garagem. Eram os primeiros proprietários do Sunset Palace (“Um prêmio dourado para quem subiu na vida”, a frase nos anúncios) e estavam todos no prédio há pouco tempo. João ouviu Sandra elogiando as cortinas da senhora Miranda.

- Ainda não consegui botar as minhas...

Mulheres para um lado, homens para o outro. Oito casais. Faltavam só os pais do Serginho, do oitavo. Miranda esfregou as mãos. Acho que com este calor vai todo mundo na cerveja, é ou não é?

- Vamos lá.

- Pra mim está ótimo.

- Está falando a minha língua.

Um certo constrangimento entre os homens naquele primeiro contato social. Miranda, temendo ser mal compreendido, declarou que para quem não quisesse cerveja havia uísque, do legítimo. Fez questão de mostrar sua coleção de uísques estrangeiros. Mas todos concordaram que, em certas ocasiões, nada como uma boa cerveja. O Pires do sétimo - magro, mas com uma barriguinha já esticando a camisa comprada em butique - anunciou que ia dizer uma coisa. Todos se viraram para ele. Na falta geral de assunto, quem propusesse qualquer um tinha a atenção dedicada dos demais. O Pires então disse que preferia a cerveja em qualquer ocasião. Os outros sacudiram a cabeça, gravemente. Então o Lima do quinto começou:

- Isso me faz lembrar aquela anedota, eu sou péssimo em anedota, mas...

- João não ouviu a anedota. Ouviu a campainha de dois tons tocar e a senhora Miranda zunir na direção da porta com seu sorriso prêt-a-porter. Eram os pais do Serginho do oitavo. Os olhos de Sérgio e de João se encontraram. Sérgio deu um abano amistoso. Afinal, já se conheciam. Pelo menos de uma viagem de elevador.


Quando ele contou ao pai o que tinha passado no interrogatório, ouviu do pai uma frase surpreendente. Então vê se agora você toma jeito. O pai tinha os olhos cheios de lágrimas. Puta que os pariu. Lágrimas pelo que o filho tinha passado ou pelo que tinha feito com o nome deles. Traição. Um subversivo na família.

- Acho que o nosso maior problema - disse Miranda, dando início, informalmente, à parte formal da reunião - são os assaltos.

- Ai meu Deus, nem fale! - disse a senhora Pires.

- Infelizmente - continuou Miranda - estamos numa zona perigosa. Aqui tem malocas de todos os lados. Eu sei que a prefeitura vai remover mas por enquanto elas estão aí. E todos nós temos aqui temos um patrimônio valioso que precisamos defender.

- Inclusive as nossas vidas - disse Sérgio. A voz rouca era a mesma.

- Exato - disse Miranda. - O doutor Sérgio, aqui, para os que não sabem, é dono de uma firma de vigilância. Uma das maiores que existem.

- Vigilância e segurança - corrigiu Sérgio.

- Ele quer nos propor uma coisa. Doutor Sérgio com a palavra.

Sérgio falou olhando diretamente para João.

- A minha proposta é a seguinte. Posso dispor de oito ou dez homens para fazerem a segurança do prédio, em rodízio. É gente minha que faria hora extra. Por conta da firma, é claro, já que o principal interessado sou eu mesmo. O resto dos condôminos só pagaria uma quantia pequena para eu poder contabilizar. Senão meus sócios podem me acusar de estar usando a firma em proveito próprio. É isso. Nós teríamos, dia e noite, sempre dois ou três homens vigiando o prédio.
- Eu acho ótimo - disse o Pires.

- Olha que esta zona é braba - reforçou o Miranda.

- E não são só os assaltos. Qualquer dia vai ter criança desse morro aí atrás querendo pular o muro para entrar na piscina - disse a sra. Miranda, sem parar de sorrir.

- Eu acho isso até pior do que assalto - disse João, mas ninguém notou a ironia. Nem Sandra.

- O que é que vocês dizem? - quis saber Miranda.

Todos votaram a favor. Menos João. Quando chegou a sua vez de falar, ele disse que não sabia.

- Como, não sabe? - disse o Lima do quinto. - Você já viu a cara dessa negrada que mora aí perto? É tudo bandido. Está tudo esperando a hora de nos passar na faca.

- Tem uma coisa - disse o Pires. - A decisão tem que ser unânime. Afinal, a vigilância vai proteger a todos, os que pagam e os que não pagam. Então, ou todos pagam ou ninguém paga. Respeitando a opinião do senhor.

Um certo ressentimento. João sentindo o olhar de Sandra no seu rosto. Riu e disse:

- Por favor, só não me chame de senhor.

Todos riram. O João parecia difícil, mas era boa praça. E não ficava bem, divergências logo na primeira reunião. Estavam todos juntos naquela cidadela. Tinham que se entender. João aproveitou a descontração. Continuou:

- O prédio já não tem dois porteiros?

Seu Leiva, o síndico, falou pela primeira vez.

- Não adiantam muita coisa. O seu Valdir já está velho e o outro, não sei não.

- Também tem cara de bandido - observou a mulher do Lima.

- E nenhum dos dois tem arma - disse Miranda.

- Mas também ninguém está esperando um ataque com massa, não é? - disse João. Desta vez ninguém riu com ele.

- Pois nem disso eu duvido - disse Miranda. - Essa gente está ficando atrevida. Volta e meia fazem um quebra-quebra. Não viram ontem, no Jornal Nacional?

- Pobre gente... - suspirou a mulher do Pires, magra e triste. Seus cabelos encaracolados pareciam ter sido acrescentados à última hora para disfarçar a melancolia. Sem sucesso.

- É uma pobre gente - concordou Miranda - mas também tem muito vagabundo no meio. Marginal mesmo. Emprego é o que não falta neste país, mas trabalhar que é bom ninguém quer. Preferem tirar o nosso dinheiro. Está fácil. O negócio é dificultar. Eu, por exemplo, tenho uma arma em casa e outra no carro. Vagabundo nenhum vai tirar o que é meu sem uma briga.

João tentou encontrar o olhar de Sandra. Ela estava olhando para o Pires, que anunciava uma declaração com a mesma solenidade com que proclamara seu gosto pela cerveja.

- Vou dizer uma coisa - disse o Pires. - Eu acho que a coisa está chegando num ponto em que a gente tem que reagir no pau. Tem que matar meia dúzia em praça pública que aí o resto sossega. Esse negócio de direitos humanos é muito bonitinho mas em país desenvolvido. Aqui não. Aqui é nós ou eles.

- Credo, Pires - disse a mulher do orador, olhando em volta. Podiam pensar que o Pires era um reacionário.

- Está certo - continuou o Pires. - É um problema social e coisa e tal. Mas o governo que acabe com a miséria. Eu defendo o meu patrimônio. Trabalhei por ele, não tirei de ninguém, tenho direito, é meu e vagabundo nenhum vai botar a mão.

- Concordo cem por cento - disse o Miranda, que tinha o hábito de sacudir as pernas, como se estivesse fazendo cavalinho para as duas filhas, quando falava. Devia ser um ótimo pai. - Em vez de processarem a polícia, tinham que dar mais força. Eu, por exemplo, sempre fui a favor do esquadrão da morte.

Sandra fitava as próprias mãos. Sérgio também tinha os olhos baixos. Modestamente. Ao seu lado dona Leonor, gorda e bonachona, parecia estar pensando em outra coisa. Bolos e costuras, a sua segurança. Nós finalmente encontramos o inimigo, pensou João, e ele tem a cara de uma tia boa. O Lima disse que realmente os marginais estavam se passando. Seu Leiva arrematou:

- E agora estão aí os comunistas de volta para pôr lenha na fogueira. Baderna é com eles.

Seu esquerdinha veado! Filhinho de papai. Está pensando o quê? Sérgio falava com o rosto bem perto do de João. Não fizera nenhuma questão de esconder sua identidade. Forçava João a lhe olhar na cara. Comunista tem que morrer! Ele tinha um apelido. Como era? Um nome de bicho. Ele mesmo se chamara pelo apelido. Para enfrentar o... tem que ter culhão. Tu tem culhão, veado? A mão entre as pernas de João para apertar os testículos. Cara a cara. Mas ele enfrentara o bicho. Perdera os sentidos antes de trair os companheiros.

- Proponho uma votação.

A sugestão foi de Müller, do terceiro. Sérgio concordou sorrindo.

- Afinal, a abertura democrática está aí mesmo.

- Mas se o nosso amigo aqui votar contra...

Sandra interveio:

- Se ele votar contra, eu voto a favor.

Risadas e palmas.

- Aí, hem? Uma rebelião dentro de casa.

Sandra se justificou.

- Cada vez que a gente põe o carro na garagem, de noite, eu sempre tenho a certeza que vai aparecer alguém para nos assaltar.

- Nem me fale - disse a senhora Pires.

Miranda levantou-se um salto. Foi buscar mais cerveja. A senhora Miranda anunciou que na mesa da sala de jantar tinha salgadinhos para quem quisesse. Alguém gritou:

- Já estou começando a gostar da vizinhança!

Não havia mais constrangimento entre eles. Todos eram mais ou menos da mesma idade e da mesma classe. Se entendiam bem. Seria um prédio feliz. Seu Leiva, o síndico, disse que havia outros assuntos para tratar. As crianças estavam enchendo a piscina de barro. Até uma tartaruga aparecera na piscina. Mas Pires, a caminho dos salgadinhos, declarou:

- Fica para depois da comida, seu Leiva!

Nunca mais tinha ouvido falar em Sérgio. Não sabia se era do DOPS ou militar. O pai não queria saber nada a respeito. O senhor acha que eles tinham razão de me torturar, papai? Eu só acho que você perdeu muito tempo com esse negócio de política. Vai cuidar da tua vida, formar uma família. Você não vai reformar o mundo. Podia ter morrido, podia ter matado a sua mãe e a sua mulher de desgosto e não teria mudado nada.

Um dos companheiros tinha desaparecido. Dois tinham se exilado. Mas ele não traíra ninguém.

Acabaram ficando sozinhos na sala dos Miranda. Os outros rodeavam a mesa na sala de jantar. O Lima contava outra anedota. João ficara numa poltrona. Sérgio no sofá. Cara a cara.

- Vocês são do sétimo, certo?

- É, e vocês...

- Oitavo. Conheço o seu guri. O Vado.

- Vladimir.

- É um pouco mais moço do que o meu, o Serginho.

- Ele tem nove.

- O Serginho vai fazer nove. Se dão muito bem.

- O Vladimir nasceu dois anos depois que eu fui solto. Até havia dúvida se eu podia ter filhos. Depois do que me fizeram...

Por que eu não disse “depois do que vocês me fizeram”? pensou João. Sérgio não mudou de expressão. Ficou em silêncio, olhando para João. Talvez estivesse tentando se lembrar. Mas continuou em silêncio. João falou mais. Estava calmo. Era estranho. Não sentia nada.

- Passei mais de um ano com dores. Quase não conseguia dormir.

O que era aquilo? Um apelo ao remorso? Você não tem jeito, João. Dona Leonor veio saber se o marido queria alguma coisa da mesa. Ele disse que não. Dona Leonor se virou para João.

- E o senhor, não quer nada?

- Só quero que a senhora não me chame de senhor. Obrigado.

Os dois de novo sozinhos. Sérgio tomou um gole de cerveja. Ainda em silêncio. João perguntou:

- Como era o seu apelido? Você tinha um apelido.

- Eu?

- É. Não consigo me lembrar.

- Faz tanto tempo.

O filho da puta se lembrava de tudo. Se lembrara de tudo no momento em que vira João. Por alguma razão, João considerou isto uma vitória.

- Eu não me esqueci de nada. Só do seu apelido.

Os outros começaram a voltar para a sala. O Lima do quinto combinava a inauguração da churrasqueira do prédio para o próximo domingo. Todos se cotizariam para comprar a carne. A não ser que o João não quisesse pagar, é claro. Todos riram. João disse que ia pensar no assunto.

- O que é que o amigo faz? - perguntou Miranda a João. - Desculpe a indiscrição.

João era economista. Deu o nome da firma em que era assessor da diretoria. Isso impressionou os outros. João dissera o nome da empresa exatamente para impressionar os outros. Era sua credencial do condomínio, também tinha o que defender da horda.

- Você também tinha um codinome.

João olhou rapidamente para Sérgio. Os outros não estavam ouvindo.

- Eu?

- Tinha. Me esqueci como era. Essas coisas não têm mais importância.

Dona Leonor se sentou ao lado do marido no sofá. Pôs a mão na sua coxa como se fosse um dever. Falou para João.

- O filho de vocês é um mimo!

- Eu ainda não conheci o Serginho...

- Eles vivem no apartamento um do outro. São unha e carne.

João se lembrava. Era verdade. Também tinha um codinome na época. Um bicho. Qual? Diabo de memória. Era importante. A senhora Miranda chamou as mulheres para verem o resto do apartamento. O único do prédio que já estava completamente decorado. Sandra era a mais animada. Dona Leonor foi junto. O Pires lançou a idéia de usarem a parte sem pavimentação da área de lazer para jogarem futebol. João estava ferido. O filho da puta ainda o forçava a lhe olhar na cara. Nenhum remorso. O Pires perguntou se João gostava de futebol.

- Gosto, gosto. Estou um pouco fora de forma, mas...

Seu Leiva insistia para que discutissem a questão da piscina. João inclinou-se na poltrona. Sérgio estava falando baixo.

- Soubemos quem você era. Filho de quem. Seu pai mexeu os pauzinhos e você foi solto.

- Meu pai não mexeu pauzinho nenhum. Vocês me soltaram porque não conseguiram me dobrar. Me quebraram, mas eu não traí ninguém.

Sérgio fez um gesto com as mãos. Uma das mãos segurava o copo vazio de cerveja. Queria dizer que não tinha importância. Que não pretendia discutir mais o assunto.

- Já podemos formar os times - disse o Pires. - Dá cinco para cada lado. Fora a gurizada, é claro.

- Vocês não me dobraram!

- Pode ser grenal. Quem é que é colorado aqui?

- Eu - disse João.

- Eu - disse Sérgio.

- A gente podia fazer um futebolzinho antes do churrasco, domingo.

- Eu topo - disse Sérgio.

- Contem comigo - disse João.

No interrogatório um deles, um preto grande, tinha dito, esses burguesinhos se entregam logo. Burguesinho de merda. Mas ele não traíra ninguém. Ele não se entregara. Como era mesmo o seu codinome? Fazia tanto tempo.


- Pai, o pai do Serginho mandou dizer que é pra tu não esquecer o dinheiro da carne.

- Está bem, Vado.

- Ué, me chamando de Vado?

- Vladimir. O seu nome é Vladimir. Nunca esqueça isso.

Talvez tivesse denunciado alguém. Depois de inconsciente. Talvez tivesse falado. Um dos companheiros tinha desaparecido.Dois tinham se exilado. Mas ele não traíra ninguém. Conscientemente, ninguém.

Fazia tanto tempo. No futebol, domingo, antes do churrasco, arranjou para não ficar no mesmo time com Sérgio. Isto, pelo menos, não. No morro, do outro lado do muro, uma multidão se reuniu para ver o jogo deles. Depois o churrasco e o banho de piscina. João tentou discernir os seus rostos mas não enxergava a expressão de ninguém. Procurou uma maneira de mostrar que estava daquele lado do muro mas na verdade não estava, estava do lado deles. Codinome... Mas não havia maneira. Quando começou a escurecer, deixaram a piscina e entraram no palácio. Vado foi ver os “Trapalhões” no apartamento de Serginho.


Este texto está no livro Outras do Analista de Bagé.


Fonte: PortalLiteral

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A lei e a lei do cão, matéria da Caros Amigos

A lei e a lei do cão
por João de Barros

Valdinei de Souza Silva, o Nei da Silva, é preto e pobre. Aos 31 anos, é um dos ativistas sociais mais conhecidos na cidade do Embu, na Grande São Paulo. Escultor, poeta, professor de música, ator de teatro, coordenador da Primeira Semana Lítero-Cultural da cidade, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), sempre lutou por igualdade étnica e social. Entre seus trabalhos voluntários, ele leva em conta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) das comunidades mais carentes, mais propensas ao tráfico de drogas. No dia 12 de setembro passado, Nei estava de bicicleta – procurava gente para o seu grupo de teatro –, numa entrada da favela São Marcos e deu com dois rapazes, negros como ele, e começou a conversar. Entusiasmado, convidava os jovens para participar de uma peça que seria encenada dali a seis meses.

“Cadeia é um bagulho muito louco e, pior, se o Choque entrar vai sobrar pra todo mundo”

Então, surgem os policiais militares William Ricardo Pereira e Cláudio Antônio de Moraes, a pé, apontando armas e gritando: “Mão na parede! É polícia!” Nei sabia como são as batidas policiais. Reclamou da abordagem, mas afinal aceitou levar mais uma revista geral. Os policiais encontraram, dentro de uma sacola de supermercado que estava com o adolescente EAS, cem pedras de crack, vinte papelotes de cocaína, 51 porções de maconha e 312 reais em notas de pequeno valor. O menor confirmou ser dele a droga e que Nei e o menor MVO nada tinham a ver com a história. “Os três vão pro distrito”, sentenciou um policial. Nei tentou argumentar. Não tinha passagens pela polícia. Não conhecia os rapazes; arregimentava-os para levar ao teatro. Nunca mexera com drogas, portanto não era traficante, como diziam os policiais. Era um artista, que se dedicara à criação de uma casa de cultura, da biblioteca na favela do Inferninho. “Artista? Você é um negro fuleiro, corruptor de menores, um bandido filho da puta”, respondia o soldado William, também ele um negro. No Brasil, há muito tempo as PMs aboliram o princípio do direito da presunção de inocência. Todos acham que o tráfico de drogas usa os menores, para livrar a cara do adulto. Esse caso, para eles, era típico.

Preso número 494773-5
Na delegacia, os policiais contaram a seguinte versão: eles receberam “a informação do tráfico de drogas no local e depararam com Valdinei e os menores vendendo os entorpecentes, evidenciando-se considerável grau de organização e eficiente divisão de tarefas – com Valdinei fazendo a vigilância na extremidade da viela e o EAS menor revendendo as drogas”. Tratava-se, pois, de um crime hediondo, sem os benefícios da progressão de pena e reclusão de cinco a doze anos em regime fechado. O delegado Higino Grizio mandou então lavrar o boletim de ocorrência com o que lhe foi relatado. Ao ouvir as alegações de Nei, não quis saber de conversa. “Se você disser mais uma vez que o barato não é seu, eu lhe quebro na pancada”, ameaçou. E Nei foi levado para o Centro de Detenção Provisório (CDP) de Itapecerica da Serra, na tarde de 13 de setembro. Era o preso 494773-5.

Quando soube da prisão do marido, Ivanete Ferreira Barbosa, 40 anos, grávida do terceiro filho de Nei, que nascerá neste mês, ficou “em estado de choque, anestesiada, sem saber o que fazer”. Depois foi à luta. Inscreveu-se para as visitas dominicais no CDP e tratou de espalhar a notícia na cidade. Todos os que ouviam a história se solidarizavam com Nei. Jornais da região denunciavam o preconceito. Um abaixo-assinado, revelando a violência, teve mais de duzentas assinaturas. Os artistas do Embu – entre os quais Raquel Trindade, Wanderley Ciuffi, Tônia do Embu e Luiza Caetano – organizavam rifas para vender as obras por eles doadas para bancar um advogado.

“Às vezes eu pensava se eu não tinha evoluído e virado um gigantesco inseto, como o personagem do livro Metamorfose, de Franz Kafka. E desatava num choro incontrolado ao pensar na mulher, nos filhos. Porque é duro ficar na prisão sem culpa e ter de esperar ser julgado por um barato que você não fez"

Depois de uma semana trancafiado num lugar abafado, úmido, sujo e cheio de percevejos, onde se perde a noção do tempo porque mal se vê a claridade do dia, Nei foi para a cela 4, do raio 1 do presídio. Lá, viveu com até quarenta presos numa cela com capacidade para doze. “O Estado trata o preso como um aglomerado de bichos”, diz. Há presos que dormem no chão. A comida é ruim para todos. “Cadeia é um bagulho muito louco e, pior, se o Choque entrar vai sobrar pra todo mundo”, ensinaram-lhe. Por isso, não havia violência nem agressão verbal. Vigoravam o respeito, a disciplina de um com o outro, a paz forçada.

Na primeira visita que fez ao CDP, Ivanete viu que o que ela ouvia falar é, na verdade, muito pior. “Os funcionários são treinados para tratar a todos como joão-ninguém. A revista é o pior momento: você fica nua e faz três flexões de frente e de costas para as moças verem que não há nada escondido na vagina e no ânus. Depois há a passagem por várias portas de aço, quando vasculham suas coisas, furam a comida que você leva. Enfim, você entra numa cela apertada e fedorenta. Assim é o sistema carcerário.” Quando voltava ao barraco onde mora, no Jardim Idemori, em Itapecerica da Serra, ela levava um temor: o medo de uma rebelião. “Lá é um estopim. Meu medo era esse, de ele estar inocente naquele lugar e acontecer alguma coisa lá dentro.”

Cárcere de um inocente
Durante os 96 dias que ficou no CDP, Nei foi se familiarizando com o novo ambiente. Quando as trancas se abriam, ele encontrava cerca de 240 presos no pátio. Olhava para cima e via uma imensa grade. Sob os pés, cerca de 2 metros de concreto, que recobriam as mantas de aço. Ao redor do pátio, muros altíssimos, de uns 50 centímetros de espessura, igualmente permeados de telas de aço. Podia ver, ao longe, o portão de saída, numa muralha de ferros e cadeados. Pela lei, teria de ser julgado em 81 dias, portanto no dia 8 de dezembro. “Às vezes eu pensava se eu não tinha evoluído e virado um gigantesco inseto, como o personagem do livro Metamorfose, de Franz Kafka. E desatava num choro incontrolado ao pensar na mulher, nos filhos. Porque é duro ficar na prisão sem culpa e ter de esperar ser julgado por um barato que você não fez", conta Nei.

Para vencer o tédio e a revolta que sentia, passou a “ler feito um doido”. Lia os Pensamentos, de Che, Arte da Guerra, de Sun Tzu, Guerra de Guerrilhas, de Fernando Portela, obras de Graciliano Ramos, Machado de Assis, Castro Alves, Augusto dos Anjos, além de viajar na República, de Platão, com dois amigos recentes. “A gente fazia a relação entre o mito da caverna e a cadeia. Víamos uma réstia de luz que vinha de fora. Aí, imaginávamos todos nós de costas para a entrada da prisão, de onde eram projetadas sombras de outras pessoas que, adiante do muro, mantinham uma fogueira acesa. Os presos então julgavam ser uma realidade essas sombras. Contudo, um deles foge, e descobre que elas são feitas por homens como eles, assim como todo o mundo e a natureza.”

O julgamento foi marcado para 18 de dezembro. Ele foi ouvido e mandado de volta ao CDP. Já anoitecia quando perguntaram pelo preso 494773-5. “Ih, caramba, o que vão inventar agora? Será que vão forjar mais crimes contra mim”, pensou. A notícia era outra: o juiz Ítalo Fernandes concedera-lhe liberdade provisória, depois de ouvir o advogado de defesa, Tadeu Galeti, desmontar a farsa dos policiais. Agora, até o Ministério Público pede a absolvição de Nei por “falta de provas”.

No entanto, a liberdade que lhe deram transformou-o num meio cidadão. Não pode sair de casa depois das 10 horas da noite nem antes de 8 da manhã. Se precisar viajar, tem de pedir uma autorização ao juiz. Mal pode andar pelos becos onde caminhava, por temer nova prisão. Nem retomar o seu cotidiano. Para ele, filho de um índio mineiro da tribo maxacali, nômade por natureza, “ser quase livre é ser quase morto”. E resume assim a sua chaga: “A polícia vê no negro, no favelado e na periferia o perigo. Isso caracteriza uma sociedade deformada, uma anomalia social. Nós, os pobres, trabalhamos para construir a riqueza da nação e somos, ao mesmo tempo, vistos como uma ameaça”.

Enfim a sentença...

No último 25 de janeiro, aniversário de 454 anos de São Paulo, Nei foi absovido pela Juíza de Direito do Embu, Denise Cavalcante Fortes Martins. Leia o trecho da decisão:

"Os elementos indiciários não se prestam à formação da convicção acerca da materialidade e autoria do crime imputado ao réu. Ante o exposto, e tudo mais que dos autos consta, com fundamento no artigo 386, inciso IV, do Código de Processo Penal, JULGO IMPROCEDENTE a ação e ABSOLVO o réu VALDINEI SOUZA SILVA, em relação à pratica do ato delitivo previsto no artigo 33 "caput" e artigo 35, combinados com o artigo 40, todos da Lei 11.343/06 por não existir nos autos indícios suficientes da autoria delitiva.

Transitada em julgado, procedam as anotações e comunicações necesárias. Publique-se, registre-se e intime-se.

Embu, 25 de janeiro de 2008."

João de Barros é jornalista.


Fonte: CarosAmigos

Comunidade Negra quer Leci Brandão como Ministra

Comunidade negra quer Leci Brandão como ministra, diz fundador da ONG Educafro

por Luana Lourenço
Repórter da Agência Brasil


Brasília - A cantora Leci Brandão é apontada por Frei David, fundador e conselheiro da organização não-governamental (ONG) Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes (Educafro), como a indicação da comunidade negra para substituir a ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Matilde Ribeiro, que pediu desligamento do cargo hoje (1º).


“Frente ao erro da Matilde, nós entendemos que o governo Lula deve pensar com sabedoria e escolher um nome de consenso nacional. E nós achamos que o nome da Leci Brandão é o grande nome do momento”, afirmou.

Frei David contou que, em reunião após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, propôs o nome de Leci Brandão para o cargo. E que a cantora “achou a proposta interessante” na ocasião.

“Eu estou procurando a Leci, não encontrei ainda; mas estou transmitindo oficialmente que nós, comunidade negra, estamos indicando a Leci Brandão como candidata a ministra das relações raciais”, anunciou. A cantora integra o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR).

Na avaliação de Frei David, Matilde Ribeiro “foi vítima de um problema maior”, porque existe, na sociedade brasileira, “um vício de escravidão, de uma nação onde só negros eram punidos”. Para ele, o governo deve dar mais atenção à Seppir, com aumento da dotação orçamentária da pasta, por exemplo.


Fonte: AgênciaBrasil

O conteúdo da Agência Brasil é publicado sob uma Licença Creative Commons Atribuição 2.5. Brasil.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Nova e Apaixonante Musa da Música Brasileira

Ah, como é bela a nova geração de cantoras da Música Brasileira! A cada dia que descubro uma nova interprete, cuja minha ignorância me fez desconhecer, fico apaixonado. A voz, a maneira de interpretar, a delicadeza, a doçura, a inteligência, a multiplicidade de influências - contemporâneas ou não - tudo isso me encanta nesta nova geração de musas que surge em nossa música. Ontem descobri Ana Cañas no excelente blogue Expressão MPB, do camarada Daniel Barbosa. Só posso dizer uma coisa, a moça é apaixonante!

Leia abaixo reprodução do texto do Expressão MPB

A Ana Canta
por Daniel Barbosa

Ela tem nome de cantora cubana, admira nomes como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Machado de Assis, e, é claro, a deusa das jovens cantoras, Marisa Monte.

Ana Cañas é formada em artes cênicas, mas foi no Baretto, piano-bar freqüentado por várias deidades da MPB, que essa jovem de 27 anos mostrou que veio para encorpar, ainda mais, a nossa música.

‘A Ana’, sua música de trabalho, traz afirmações quase confessionais, que, com certeza, algumas não passam de uma brincadeirinha musical (... a Ana nada sabe/a Ana sempre canta/a Ana me enrola/a Ana me engana). Mas foi a faixa ‘Devolve Moço' que ficou na 15ª posição no ranking das 50 melhores músicas de 2007, na revista Rolling Stone Brasil, edição de janeiro. "Se não fosse clichê, talvez dizer que essa canção é um 'caldeirão de influências' fosse a melhor explicação. Tem um pouco de soft jazz, um toque de MPB nada tradicional e muita personalidade”.

‘A Ana’ e ‘Devolve Moço’ integram ‘Amor e Caos’, disco autoral, calcado no jazz, bossa e MPB, que rendeu à Ana elogios de nomes como Chico Buarque, Toquinho, Seu Jorge e outros, Pois, é, numa expressão à Ana Cañas, podemos exclamar: a Ana canta!


Fonte: ExpressãoMPB



Ana Cañas em foto divulgação

Pra saber mais sobre a Ana Cañas é só dar uma conferida no saite pessoal da garota: http://www.anacanas.com. Mas, quem quiser ouvir quatro das dez canções de Amor e Caos, disco de estréia de Ana, deve conferir seu MySpace. Infelizmente a releitura de Coração Vagabundo, de Caetano Veloso, melhor música do álbum, segundo minha modesta opinião, não está na página do MySpace de Ana. Então, quem tiver curiosidade em ouvir, é só clicar no linque a seguir:

Coração Vagabundo - Ana Cañas


Ana Fala

Trecho da entrevista de Ana Cañas para a rádio Cultura, onde ela participou do debate "Para onde caminha a música brasileira?". Para ela, a música brasileira está menos politicamente correta, mais divertida, ousada e com influências mais diversas. Ouça o comentário na íntegra.

áudio por Cirley Ribeiro para a RádioCultura

Crônica de Frei Betto

A raposa e os ovos
Frei Betto

Era uma vez uma raposa que jurou dar proteção às galinhas. Postou-se à porta do galinheiro e, prometendo preparar para o futuro uma omelete que alimentaria a todos, tomou para si os ovos que, por medida de segurança, estavam distribuídos por diferentes cestas. Muitas galinhas não se importaram, acreditando que também os ovos dos gaviões haviam sido seqüestrados. Deixaram-se inclusive convencer de que a raposa havia cortado as asas dos gaviões. Estes, precavidos, guardaram seus ovos em outras montanhas e, se tinham cedido algumas penas, era para que todos pensassem que haviam perdido as asas.

Galinhas que não botavam muitos ovos - e, portanto, perderam pouco nas mãos da raposa - com o tempo começaram a ter que deixar o poleiro e a receber meia ração. Mas, convencidas de que não se faz uma imensa omelete sem quebrar muitos ovos, suportavam estoicamente as longas filas para recuperar uma migalha qualquer do que haviam produzido. Aos poucos, foram descobrindo quão difícil era botar mais ovos se não havia ração suficiente e nem poleiro onde se encostar.

A raposa, entretanto, continuou assegurando que tudo corria às mil maravilhas. Claro, para ela, que se havia transformado na poderosa galinha dos ovos de ouro, estava tudo bem, sobretudo depois que ela abriu as portas do galinheiro aos abutres de outras plagas. Estes conseguiram convencê-la de que podiam modernizar o galinheiro, torná-lo mais produtivo, inclusive introduzindo galinhas mecânicas, desde que as verdadeiras galinhas fossem privadas da omelete e virassem canja para o banquete entre a raposa, os gaviões e os abutres.

Naquelas mesmas paragens, há tempos um leitão exigira o sacrifício de todos os carneiros, sob o pretexto de que se estava assando um enorme bolo que, mais tarde, seria dividido e cada um receberia sua fatia. O bolo cresceu, o leitão comeu com seus amigos e a fome grassou entre os carneiros tosquiados, que passaram a viver de esperanças.

Toda a artimanha do leitão e da raposa consistia em não permitir que carneiros e galinhas descobrissem que, unidos, podiam governar a si mesmos, livrando-se de leitões e de raposas. Pois ensina a sabedoria que sente frio aquele que entrega a lã a quem já está agasalhado e passa fome quem dá os ovos a quem sempre se fartou de omeletes.

21 de junho de 2002

Fonte: ADITAL

Clique aqui para baixar o arquivo “doc” que contém o texto acima

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Texto no Limite entre o Conto e a Crônica

Felicidade à brasileira
por Urariano Mota

Há duas semanas, precisei de um atestado de sanidade física e mental. Quem me conhece sabe que esse atestado, aplicado ao indivíduo que sou, ou é desonesto ou é impossível. Mas que fazer, a gente precisa, e necessidade não tem lógica, tem é a carência enorme, à procura de satisfação. Eu buscava, portanto, um Atestado de Sanidade Física e Mental. Assim em maiúsculas fica até mais digno, e mais crível. Por isso abro o catálogo telefônico e destaco os números de telefone dos centros médicos, Centro Médico, devo dizer, para maior idoneidade dos Centros. Ligo, e começa o nonsense.

- Roseli...
- É do Centro Médico Ulisses Eulâmpio?
- Sim, Roseli, às suas ordens.
- É do Centro Médico?
- Sim .. um momento.

E depois de 3 minutos de intervalo, por vingança, suponho, porque eu não soube logo que o Centro Médico Ulisses Eulâmpio e Roseli eram uma só e só uma pessoa.

- Sim...Fale.
- Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?
- Atestado de....
- Sanidade Física e Mental.
- Só o Físico.
- E o Mental?
- O senhor tem que ir a um médico de doença mental.

Antes que eu agradeça, a recepcionista que é uma instituição desliga. Ligo para outros, outros Centros Médicos, outras Centrais de Atendimento de Saúde, até para Hospitais. Sempre a mesma conversa. Só o físico atestamos, o senhor, se quiser, que vá a um psiquiatra pegar o outro. E o outro, bem sei, por mais características certas e inabaláveis de esquizofrenia, o outro sou eu. Que não vai correr esse risco. Por isto este, aqui, volta a um décimo Centro Médico de Saúde.

- Escute, vocês não têm médico clínico geral?
- Só temos especialistas.
- E não têm dois especialistas, um físico e um mental, no Centro?
- O senhor deveria ir a um Hospital Psiquiátrico.

Desligam. Mas o louco, que bem sabe estar no Brasil, terra de todas as possibilidades possíveis e imaginárias, não desiste. E lhe dizem, na vigésima primeira tentativa.

- Centro de Medicina do Trabalhador.
- Vocês fornecem atestado de sanidade física e mental?
- Sim, fornecemos.
- Atestado de Sanidade Física... e Mental?!
- Sim, fornecemos.
- Certo.... (E repito, para maior certeza)... Atestado de sanidade física e mental.
- Um momento....

E por vingança, suponho, deixa-me a esperar bons 4 minutos, porque não ouvi bem, e se ouvi deveria ter acreditado que ali se fornecia Atestado de Sanidade Física e Mental, sem dúvida, idiota.

- Centro de Medicina do Trabalhador....

Imagino, porque estou em casa ainda, imagino que o Centro de Medicina do Trabalhador é um complexo industrial-médico cheio de canos, retortas, e de portas, e laboratórios, e corredores compridíssimos, cheios de especialistas de todas as especialidades, se assim podemos dizer. Um lugar onde entramos em uma porta e saímos em outra, de exames de raios X a laboratórios de análises, de laboratórios a máquinas de eletrochoques, até atingir as perguntas cruciais de psiquiatras, que nos estudam e nos olham como se fossem a Miss Marple de Agatha Christie. Imaginação vulgar, estúpida e insípida, já vêem.

- Me diga uma coisa: demora muito pra pegar esse atestado?
- Não, é ordem de chegada.
- Tem muita gente aí?
- Centro de Saúde do Trabalhador ...um momento. Agora, só uns quinze.
- Vocês atendem por algum plano de saúde?
- Centro de Saúde do Trabalhador..... O pagamento é na hora.
- E quanto é?
- Quinze reais.

Desta vez sou eu que desligo. Quinze reais! Isto ou é uma absoluta anarquia, uma grande zona, ou deve ter algum subsídio para, depois do check-up, diagnósticos, especialistas e consultas, atingir um preço tão barato. E me mando, necessitado e incrédulo que sou, para o centro do Recife.

Ó homem de pouca fé, ainda que vivas em um país cafeeiro, creias, o Centro de Medicina do Trabalhador existe, e não é uma absoluta zona. É um lugar com aparência decente (“como deve ter todo prostíbulo que preste”, um satanás me diz). Mas não. Ali entro em uma sala, com duas atendentes. Que me parecem moças da maior seriedade. E por isso pergunto, com um pé atrás, em um intervalo de suas respostas ao telefone, “Centro de Medicina do Trabalhador”:

- Atestado de Sanidade Física e Mental ... é aqui?
- Aguarde a sua vez - ela me responde, enquanto me entrega um papelzinho numerado, que leio, “ficha 27”.

Olho ao redor. À minha frente, jovens recém-saídos da adolescência, e um deles sem dúvida é um rapaz típico de Pernambuco. Veste uma camisa negra, com as palavras, digo, com o anúncio, “Quick Silver”. Palavras em inglês, nas camisas, para muitos jovens do Recife têm um valor estético, porque as vêem com o mesmo significado de um ideograma chinês. Ao lado, um cidadão gordo, um quase velho, diria, se eu não estivesse em idade próxima à dele. Um inválido, eu acrescentaria, se nos últimos tempos eu não estivesse bem solidário para com os inválidos. Um homem, enfim, completo, que não passará com a sua imensa barriga em qualquer check-up. Ele sequer passa na abertura da cadeira, e por isto se põe um pouco de lado, a subtrair uma parte do largo traseiro no assento. Veste uma camisa bege, e percebo que outros também se vestem como ele, é uma farda, e todos eles possuem uma fita azul ao pescoço, que desce para um crachá, que deixam no bolso, onde está escrito “Tribunal de Justiça de Pernambuco”. Ah, bom, então isto aqui é sério, jamais será um prostíbulo, creio. Seis funcionários da justiça, chego a contar. Da Justiça, corrijo. Seis honrados servidores da Justiça de Pernambuco à espera do seu Atestado de Sanidade Física e Mental. Ó homem de pouca fé. O negócio, digo, o atendimento médico é garantido pelo órgão máximo das leis do Estado. Por isso, em paz e silêncio espero, para não descansar em paz.

Abre-se uma porta. Sai uma senhora, jovem, com uma bata branca. É médica, me digo. Porque os médicos usam bata branca. Mas não só: a jovem moça que sai tem um certo ar de confiança, da mais certa e certeira impunidade. Esse ar dos maus médicos, devo acrescentar, para viver sem a sua ameaça. E me calo, sob a proteção dos funcionários do estado. A jovem passa, volta e se fecha em uma sala, misteriosa. A senhorita da recepção me chama. Enquanto preenche uma ficha, que deve ser a minha, pergunta:

- Altura?
- Um metro e setenta. (Quis dizer um e oitenta, mas por modéstia reduzi dez centímetros)
- Peso?
- Setenta quilos.
- Aguarde.

Depois que me sento, descubro que por simetria informei meu peso em concordância com a minha altura. Um excesso de estética me fez descer o peso em quinze quilos. Mas é como se eu os tivesse, me digo. Mentalmente, sou um homem esbelto. No ideal em que me vejo, tenho um e oitenta de altura e peso setenta quilos. Guapo melhor não há.

Eis então que chega a minha vez, e uma porta se abre para meu primeiro exame do Atestado de Sanidade Física e Mental. O médico que me atende, devo dizer, o médico na frente do qual eu me assento, tem os olhos fitos na minha ficha estética. Ele não me olha, coitado, compreendo. A seu lado, possui uma pasta grande, aberta, cheia de fichas, e um papel com quadrinhos, que imagino ser um mapa estatístico, dos seus atendimentos na manhã. Quantos? Sessenta, noventa, cento e vinte? Sem me olhar, sem me ver, pergunta o pobre homem:

- Alguma doença?
- Não.
- Já fez alguma cirurgia?
- Sim....

O seu rosto ganha um ar de enfado, de aborrecida contrariedade. E sem me perguntar qual cirurgia e por quê:

- Mas tudo bem, não é?
- Sim, tudo bem.
- Fuma, bebe, drogas, tóxicos, algum vício? O braço.

Estendo-lhe o direito, a pensar que ele vai procurar, com percuciência, algum sinal de picada, marca ou tatuagem. Engano. Ata-me um tecido, ágil, pelo que sinto, na altura do antebraço, e com dois apertos em uma bola escura olha rápido o ponteiro em um medidor.

- Pode ir.

Confesso que lhe estendi a mão, para um cumprimento, que o pobre homem não pôde corresponder.

– O próximo.

Na recepção, a gentil e decente moça entrega-me um papel já assinado por um médico, que deve ser o mesmo na frente do qual eu transitei. Saio à rua, rápido, antes que ela se arrependa e me chame de volta. Leio e releio o documento. “Declaro, para os devidos fins, que o portador se encontra em perfeito gozo de saúde física e mental”. Que belo, que bela é a nossa organização física, mental e declaratória. Que belo. Jamais poderia imaginar que por quinze reais eu seria um homem esbelto, saudável e feliz. No mais estrito cumprimento da lei.


Urariano Mota é autor do blogue Sapoti da Japaranduba


Fonte: RevistaFórum

A Revista Fórum esta licenciada sob uma licença CreativeCommons

sábado, 19 de janeiro de 2008

Tudo Liberado: Obra Completa de Noel Rosa caiu em Domínio Público

Apesar da notícia ser do dia dois de janeiro ela não é nada velha. Ao contrário! É atualíssima e é de extrema utilidade pública. Afinal, não é todo dia que a obra de um dos grandes compositores da música brasileira se torna domínio público. Leia abaixo, na matéria do saite CulturaLivre, quais músicas de Noel Rosa que, desde o início do mês, são de domínio público.

Noel Rosa

Hoje, dia 2 de janeiro de 2008 é um grande dia para celebrar. E o motivo não é somente o início de um novo ano, mas principalmente porque as músicas de autoria de Noel Rosa caíram em domínio público. Em 1937, o Brasil perdia o compositor que se revelaria um dos mais influentes e representativos da música popular brasileira: Noel Rosa. Apesar de ter falecido jovem – aos 26 anos de idade – Noel Rosa deixou um acervo de mais de 200 obras, incluindo clássicos como: Com que Roupa?, de 1929; Gago Apaixonado, de 1930; Fita Amarela, de 1932; Três Apitos, de 1933; Dama do Cabaré, de 1934; e O X do Problema, de 1936; dentre várias outras canções.

Passados setenta anos da morte do compositor, a cultura brasileira recebe um enorme presente: as obras de Noel Rosa cairão em domínio público. Essa é a regra do direito autoral: proteger as criações por um período determinado de tempo (no Brasil, por toda a vida do criador e mais 70 anos após a sua morte). Transcorrido esse prazo, a obra passa a fazer parte do chamado “domínio público”. A partir de então ela se torna parte do patrimônio coletivo e qualquer pessoa pode utilizá-la. Assim, a partir de 2008, a obra de Noel Rosa será de todos os brasileiros, que poderão resgatá-la, regravá-la, executá-la, bem como fazer outros usos sintonizados com os tempos atuais, como a remixagem e o sampling.

As criações intelectuais, como a música, são elementos centrais da cultura de um povo. E esta é a finalidade do domínio público: permitir o estímulo à criatividade, aos novos artistas, para que a formação da cultura seja não um discurso, mas uma conversa que transcenda o tempo e o espaço e não acabe nunca. Assim, qualquer país precisa proteger e zelar por seu domínio público. Basta conversar com qualquer artista para constatar que a criação de uma obra é um processo que depende do acesso a outras obras. Ninguém criada a partir do nada. Quanto maior o contato com nossa cultura, maior nossa fonte de inspiração e maior nossa capacidade de produzir mais cultura. Com as obras de um artista como Noel Rosa tornando-se patrimônio coletivo, sua música tem a oportunidade singular de semear inspiração por toda uma nova geração de brasileiros.



Lucas Santtana e Seleção Natural interpretando "Palpite Infeliz" de Noel Rosa.

Para que o diálogo entre a obra de Noel Rosa e as novas gerações se faça o mais rico possível, é preciso estimular o uso criativo das obras em sintonia com os tempos da Internet e da tecnologia digital. Fenômenos como a “cultura remix” estão na ordem do dia. As barreiras entre "consumo" e a "produção" de cultura estão sendo abaladas a cada dia. O acesso a recursos criativos, que permitem a qualquer pessoa participar ativamente da esfera de formação da cultura, faz-se cada vez mais presente. O resultado disso são fenômenos que se expressam em práticas como os remixes, mash-ups, syncs, samples, colagens, que nada mais são do que a aceleração de uma prática que é tão corriqueira e antiga quanto a própria cultura: a mistura de pontos de vista e influências, que está na base de toda nova criação.

Essa verdadeira “cultura da mistura” tem mostrado como a disponibilidade de obras no domínio público aliadas à facilidade de criação e recriação trazida pelas novas tecnologias se traduz não só em maior produção, mas também reinvenção. As relações entre o maracatu tradicional e o rock no Recife estão aí para mostrar como ambos se beneficiaram da mistura. Com as obras de Noel Rosa em domínio público, abre-se o caminho não só para a permanente revitalização de sua música, mas também para uma explosão de usos criativos das suas canções.

Quem chegou, quem chegou

Mas uma questão importante faz-se então. Quais seriam as obras que estariam em domínio público, já que o gênio inquieto de Noel Rosa compôs vários de seus clássicos em parcerias?.

Este mapeamento é necessário porque nem todo o acervo do autor caiu em domínio público: a lei de direitos autorais estabelece que, para as obras produzidas em co-autoria, o prazo de proteção é contado a partir do falecimento do último dos co-autores. Assim, somente as obras de autoria exclusiva de Noel Rosa, ou aquelas produzidas com compositores que faleceram antes ou no mesmo ano em que ele, caíram em domínio público no ano de 2008. Para isso, o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV realizou um mapeamento das canções que caem em 2008 em domínio público. Você encontra a lista logo abaixo.

Este é somente o primeiro passo de um projeto maior que será desenvolvido pelo CTS/FGV visando estimular o uso e reuso criativo das obras de Noel Rosa. Fique atento aos sites www.culturalivre.org.br e www.overmixter.com.br para mais novidades.

Musicografia/Discografia de Noel Rosa
(composições exclusivas que entraram em domínio público em 2 de janeiro de 2008)

1) Agora
2) Alô Beleza
3) Amor de Parceria
4) Arranjei um fraseado
5) Ate amanha
6) Baianinha
7) Brincadeira de roda
8) Canção do galo capão
9) Cansei de implorar
10) Cansei de pedir
11) Capricho de rapaz solteiro
12) Choro
13) Chuva de vento
14) Cidade mulher
15) Coisas do sertão
16) Condeno o teu nervoso
17) Com que roupa?
18) Contraste
19) Cor de cinza
20) Coração
21) Cordiais saudações
22) Cumprindo a promessa
23) Dama do cabaré
24) Disse-me-disse
25) Dona Aracy
26) Dono do meu nariz
27) É difícil saber fingir
28) É preciso discutir
29) Envio essas mal traçadas
30) Espera mais um ano*
31) Estamos esperando
32) Eu não preciso mais do seu amor
33) Eu sei sofrer
34) Eu vou pra vila
35) Faz três semanas
36) Festa no céu
37) Fita amarela
38) Fita de cinema
39) Foi ele
40) Gago apaixonado
41) A Genoveva não sabe o que diz
42) João-ninguém
43) Juju
44) Lira abandonada
45) Madame honesta
46) O maior castigo que eu te dou
47) Malandro medroso
48) Marcha da primavera
49) Mardade de cabocla
50) Maria-fumaça
51) Mentir
52) Mentiras de mulher
53) Meu barracão
54) Meu bem
55) Minha viola
56) Muito riso, pouco siso
57) Mulata fuzarqueira
58) Mulato bamba
59) Mulher indigesta
60) Não brinca não
61) Não me deixam comer
62) Não morre tão cedo
63) Não tem tradução
64) Negocio de turco
65) No baile da flor-de-lis
66) Nos três dias de folia
67) Numa noite à beira-mar
68) Nunca... jamais
69) Nuvem que passou
70) Onde está a honestidade
71) Paga-me esta noite
72) Palpite infeliz
73) Para atender a pedido
74) Pela décima vez
75) Pesado 13
76) Picilone
77) Por causa da hora
78) Por esta vez passa
79) Por você sou capaz
80) Pra esquecer
81) Pra lá da cidade
82) Precaução inutil
83) Proezas de seu fulano
84) O pulo da hora
85) Quando o samba acabou
86) Quando pelas aulas ando
87) Que a terra se abra
88) Quem dá mais?
89) Quem não dança
90) Quem parte não parte sorrindo
91) Quem ri melhor
92) Rapaz folgado
93) Remorso
94) Riso de criança
95) Roubou, mas não leva
96) Saí da tua alcova
97) Saí do presídio
98) São coisas nossas
99) Século do progresso
100) Seja breve
101) Seu jacinto
102) Seu José
103) Silêncio de um minuto
104) Só você
105) Tipo zero
106) Três apitos
107) Tudo que você diz
108) Ultimo desejo
109) Vagolino de cassino
110) Vaidosa
111) Verdade duvidosa
112) Vingança de malandro
113) Você é um colosso
114) Você vai se quiser
115) Voltaste (pro subúrbio)
116) Vou te ripar I
117) Vou te ripar II
118) O x do problema
119) Yolanda
120) Samba anatômico


E viva Noel sempre vivo!

Fonte: CulturaLivre

sábado, 12 de janeiro de 2008

O Rock Brasil Anos 80 e sua importância

Anos 80: o paradoxo estendido na areia

por Paulo Bap



Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana

Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias.

Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de “Você não soube me amar” que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. Do grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. Da banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Num cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova.

Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando pelo pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes.

O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e RPM alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, “Pro dia nascer feliz”. Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república.

Nas escolas, na década anterior, os filhos da “revolução” cresciam tendo aulas de “moral e cívica”, que reverenciavam “nossos” presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, “toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Não havia outra saída: “vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Na década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já já). “Eu vejo a vida melhor no futuro”. Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso.

Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: “meu prazer agora é risco de vida”. Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos “sem-risco”: “se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?”. Hoje, paga-se o preço por esse descaso.

Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, “cansados de correr na direção contrária”, a seu jeito, os jovens protestavam: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”, “as ilusões estão todas perdidas”, “os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”, “meu partido é um coração partido”, “minha metralhadora cheia de mágoas”, “meu cartão de crédito é uma navalha”, “ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é esse?

Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (“como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?”), querendo negar os preceitos de Belchior de que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: “a gente somos inútil”.

Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração. Herbert Vianna escapou por pouco e outros talentos também sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros.

O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu “Roque santeiro – o rock”. O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido.

Fonte: Overmundo

O Overmundo é um site colaborativo. Um coletivo virtual. Seu objetivo é servir de canal de expressão para a produção cultural do Brasil e de comunidades de brasileiros espalhadas pelo mundo afora tornar-se visível em toda sua diversidade. O Overmundo adota como política geral de publicação uma licença Creative Commons.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Há dez anos os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno

2007: a profecia se fez como previsto

Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

por Eleilson Leite

Uma década se passou e a profecia anunciada pelos Racionais MC’s vem se confirmando a cada ano. Em 1997, Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e KL Jay trouxeram ao mundo uma obra que marcou o rap nacional em definitivo e lançou as bases do que, hoje, chamamos de Cultura de Periferia. Estou falando do CD Sobrevivendo no Inferno. Esse disco alçou o grupo à condição de maior representante, no Brasil, de um gênero musical que renovou a música no planeta. Pode observar. Quando algum artista quer dar uma roupagem moderna às suas canções, o produtor bota lá uns scratches, faz uma colagem com letras de rap ou tenta copiar os manos que dominam a composição rimada e ritmada do rythman and poetry.

Mas a qualidade artística de Sobrevivendo no Inferno é apenas um lado desse marco. O CD é um manifesto. Do começo ao fim, canção por canção, os Racionais vão compondo a carta de intenções do gueto. Uma declaração de revolta — revide de quatro sobreviventes. Suas armas? O rap que vale mais do que uma rajada de metralhadora. Com seu “verso violentamente pacífico” os quatro pretos periféricos demarcaram um território, até então, definido apenas pela concentração da pobreza, violência e descaso das autoridades.


Nesse disco, os Racionais mostraram uma periferia poderosa, capaz de reverter o jogo. Uma periferia altiva, consciente de sua condição social e do quanto lhe foi negado. Um povo que, durante décadas, foi amontoado nos arrabaldes, volta-se agora contra os que a empurraram pro gueto. “A fúria negra ressuscita outra vez…”, anuncia Mano Brown. E vestidos com “as roupas e armas de Jorge”, esses quatro jovens, na faixa dos 27 anos, convocavam, na época, todo povo pobre do Brasil. “Periferia é periferia em qualquer lugar”, dizia Edy Rock em inspirada canção. Estava decretado o orgulho e a exaltação do ser periférico.

Com mais de 1 milhão de discos vendidos oficialmente (e, pelo menos, a mesma quantidade reproduzida, digamos, extra-oficialmente...), esse poderoso manifesto, até hoje, cala profundamente e ainda vai influenciar multidões. Os Racionais mostraram que a poesia pode corroer o sistema, constranger as elites. Um ano depois de lançar o Sobrevivendo no Inferno, o grupo ganhou o Vídeo Music Award da MTV com o clipe da canção mais famosa do disco — Diário de um Detento. Surpreendendo a todos, ao aparecer para receber o troféu Mano Brown disparou: “dedico este prêmio a minha mãe que me criou lavando muita roupa suja de playboys como vocês…”.
Não, Mano, o sistema não está sob teus pés. Mas a periferia tornou-se altiva, admirada, consicente de sua condição e do quanto lhe foi negado

Em uma das faixas do CD, a que mais gosto, Estou ouvindo alguém me chamar, a letra fala de um jovem que se inicia no mundo do crime. Seu batismo foi num assalto a uma butique do Itaim. “Todo mundo pro chão, pro chão, o cofre já estava aberto, o vigia tentou ser mais esperto…”, e por aí vai. Em tom reflexivo, vem conclusão dessa parte da história: “Pela primeira vez eu vi o sistema aos meus pés, apavorei, desempenho nota 10”. Imagino que o Mano Brown e seus amigos, diante daquela platéia de brancos bem-nascidos no evento da MTV, tenham pensado o mesmo. De repente, diante dele, centenas rapazes e moças de bochecha rosada aplaudindo-o por ter feito um clipe falando do massacre de 111 presos, quase todos pretos, todos pobres, gente encarada pelo Estado como entulho. Não, Mano Brown, o sistema ainda não está sob seus pés. Como você próprio diz, és um “efeito colateral que seu sistema fez…”. Mas os Racionais abriram um caminho. Como é dito no CD/Manifesto: “eu sou apenas um rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil mano…”.

Penso que a “base social” dos Racionais tenha multiplicado- se pelo menos dez vezes. Depois de Sobrevivendo no Inferno, veio o Ferrés, mostrando que na Favela tem escritor de qualidade. Surgiram o Samba da Vela, o Sarau da Cooperifa e outros tantos movimentos que engrandecem a periferia. A última canção do disco chama-se Salve. Nela, os músicos dos Racionais citam mais de 60 quebradas: Jardim Ângela, Jardim Ebrom, Vaz de Lima, Vila Calu, Grajaú, Cidade Tiradentes, São Mateus, Brasilândia etc. São regiões da metrópole paulistana que só apareciam nas páginas policiais e nos registros dos detentos nas delegacias e no extinto Carandiru. Mas hoje, caros racionais, graças ao talento e à firmeza ideológica, para usar uma expressão cara ao MST, de artistas como vocês, esses bairros periféricos aparecem, cada vez mais, como redutos de uma arte original, bela e comovente.


Não por acaso surgiu a Agenda Cultural da Periferia. O movimento cultural já justifica um Guia próprio. Uma novidade surgida em 2007 que nos enche de orgulho. De São Mateus, vem o melhor disco de samba do ano com o registro fonográfico do Berço do Samba de São Mateus. Um dos projetos literários mais interessantes do ano é a Coleção Literatura Periférica, da Global Editora, que trouxe, nos três primeiros volumes lançados neste ano, Sergio Vaz, Sacolinha e Alessandro Buzo. O Sacolinha já foi escolhido para a Jornada Literária de Passo Fundo do ano que vem. O Vaz recebeu proposta para traduzir sua obra na França. O Buzo logo será assediado por cineastas em busca de uma história original, veloz e instigante. E para 2008 teremos mais.

Dez anos depois, a profecia se cumpre outra vez. Neste grande ano, o exemplo maior, entre tantos outros, da força da cultura suburbana, foi a realização da Semana de Arte Moderna da Periferia, realizada em novembro, liderada pelo Sarau da Cooperifa. Nesse evento, o povo do gueto mostrou bem o que diz o belo samba interpretado por Beth Carvalho: “da fruta que eles gostam, eu como até o caroço…”. Salve Racionais MC’s. Salve Periferia. Que 2008 tenha muito mais arte. Não tenho dúvida. Por meio da cultura, pode-se virar o jogo.

Fonte: LeMondeDiplomatique

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Mensagem de Leonardo Boff para o início de Ano

Ainda em clima de festas de final de ano, o Música&Poesia reproduz um belo texto otimista de Leonardo Boff, publicado no saite da agência de notícias Adital. E não é que dois mil e oito já tá aí!


Aforismos

Leonardo Boff *

Não parece descabido, no início do ano, oferecer alguns aforismos, fruto de reflexão e da sabedoria cotidiana presente no ambiente cultural. Elencaremos uns quantos, compreensíveis por si mesmos.

Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de aprender.

Se tudo no universo está em gênese, então o paraíso ansiado não está no começo mas no fim.

Somos inteiros, mas não prontos. Começamos a nascer e vamos nascendo lentamente até acabar de nascer. É quando então morremos.

Só pode morrer o que é. O possível que ainda não é, permanece para se realizar no além morte.

Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar.

Se você se sente gente comum, console-se. Deus deve ter amado muito a gente comum para criar um número tão grande, entre eles, eu e você.

Não vá por caminhos já andados. Caso contrário nunca deixará marcas suas no chão.

Se quiser ir longe, vá devagar. Nunca pare nem ande para trás.

Agradeça a Deus por ter tropeçado. Assim evitou uma queda.

Onde não há nenhum medo, não haverá também nenhuma coragem, necessária para viver.

Se quiser esquecer as muitas pedras que impedem o seu caminho, pense nos fundamentos da casa que pode construir com elas.

Na luta entre a pedra e a gota, ganhará sempre a gota não por sua força, mas por sua persistência.

Se mantiver firme a perspectiva do fim, não haverá obstáculo que lhe seja insuperável.

O novo somente surge à condição de que algo tenha sido deixado para trás.

Para quem busca, haverá sempre uma Estrela como a de Belém para iluminar o seu caminho.

Um navio está seguro no porto, mas não é para isso que foi construído.

De uma única vela podem se acender milhares de outras sem que sua luz diminua.

Se quiser subir uma longa escada não olhe para ela, apenas para cada degrau.

Para aqueles que querem cantar, haverá sempre uma melodia à disposição no ar.

Só entenderá bem o outro quem se colocar no lugar dele.

Até o relógio parado, duas vezes ao dia está certo.

Seja como a cigarra que para se renovar tem que perder toda sua aparência exterior.

Só se alegrarão com o nascer do sol aqueles que souberam esperar dentro da noite escura.

Ninguém entrará no céu se primeiro não começou a construí-lo aqui na terra.

Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino.

Porque os cristãos anunciaram um Deus sem o mundo, surgiu em conseqüência um mundo sem Deus.

Humano assim como Jesus, só Deus mesmo.

No começo de tudo não está a solidão do Uno, mas a comunhão dos Três: da Origem sem origem, da suprema Palavra e da sagrada União de tudo com tudo. Eles estão tão entrelaçados no amor que se uni-ficam, quer dizer, fica Um.


* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ


Fonte: Adital