Bendito vagabundo
Zuenir Ventura
Eu ainda estava sob o impacto do que acabara de assistir em Campo Grande, Mato Grosso do Sul - a apresentação de um extraordinário violonista chamado Marcelo Loureiro - quando dois jovens me abordaram na saída perguntando se eu por acaso havia conhecido Vinicius de Moraes. Respondi que sim, e eles então pediram que eu contasse algumas histórias do poeta. Era um pouco de curiosidade, mas também um pouco de dúvida: “será que ele conheceu mesmo?”.
Enquanto íamos caminhando, tentei me lembrar de algum caso interessante, mas quase todos os que me vinham à cabeça eram impróprios para menores. Até que me lembrei de um episódio ocorrido no Festival de Cannes, que eu não digo o ano para não permitir a identificação das personagens envolvidas. Depois de uma sessão de cinema, fomos parar no cassino, um grupo de brasileiros comandados por Vinicius e sua mulher de então, uma das nove que ele teve.
Distantes do grupo, nós dois estávamos sentados em bancos altos tomando uísque no balcão do bar, quando se deu o incidente. De costas para a cena, ouvi primeiro um estalo seco, quase metálico; depois, os gritos femininos: “sua p..., p... é você”. Antes de me virar, vi a cara de susto do poeta e seu apelo: “me ajuda, Zuenirzinho”. A sua capacidade de reduzir tudo a um diminutivo era tanta que até em meu nome, que não se presta a esse acréscimo carinhoso, ele conseguia botar um zinho.
Virei-me rápido, saí correndo atrás dele, mas ao chegarmos à roda que então se formara, as duas damas já tinham sido devidamente apartadas e estavam contidas pela turma do deixa-disso. Soubemos então o que acontecera: num ímpeto de ciúme, a mulher do poeta agredira com um estridente tapa uma outra jovem brasileira que fora conosco ao cassino. Quando voltamos para os nossos banquinhos, devo ter olhado com suspeita para Vinicius, porque sua reação foi imediata: “não olha assim pra mim não, Zuenirzinho, dessa vez eu estou inocente!”.
Não faz muito tempo encontrei a agressora. Não foi a primeira vez, mas só então tomei coragem de perguntar sobre aquela distante saia-justa: quis saber se ela não tinha exagerado no surto, se havia mesmo razão para tanto ciúme, se não sentira vergonha do vexame naquela festiva madrugada de Cannes. Confessou que, claro, ficava constrangida até hoje quando se lembrava do incidente, mas ainda acha que teve razão. Quando lhe contei a declaração de inocência que eu ouvira, ela riu: “em matéria de mulher, você não sabe do que era capaz o Vinicius”.
Por uma dessas coincidências que muitos dizem não existir, cheguei de Campo Grande no dia em que Miúcha ia lançar o seu excelente CD “Vinicius & Vinicius”, cantando as músicas que Vinicius fez sem parceiros, sozinho, como autor de melodia e letra. Havia na Modern Soud de Copacabana algo que lembrava o poetinha não apenas pelas filhas e amigos presentes, mas também pelo clima do lugar, uma mistura de loja de disco e de bar-restaurante que hoje ele poderia freqüentar (aliás, uma das presenças mais animadas e animadoras da festa era Maria Amélia. Aos 94 anos, ela foi lá prestigiar a filha e homenagear aquele que foi um dos melhores amigos dela e do marido, Sérgio Buarque de Hollanda. No final, em pé no meio-fio com sua bengalinha, fazia sinal para um táxi).
Não sei se Vinicius teria igual disposição com 90 anos, que é com quanto ele estaria agora. Com restrições, acho que ele não sobreviveria. Preferi ficar me lembrando do boêmio incurável que nunca teve vergonha ou culpa de beber; ao contrário, exibia em público o seu vício, levando o copo de uísque para onde fosse, inclusive para o palco, como um violão. Ele foi o artista que tirou a bebida da clandestinidade.
Na biografia amorosa que escreveu sobre o amigo, o poeta Geraldinho Carneiro lembra os versos que o cronista José Carlos Oliveira fez para serem cantados com a cândida melodia de “Nessa rua, nessa rua tem um bosque”:
“Se eu tivesse, se eu tivesse muitos vícios
O meu nome deveria ser Vinicius
Se esses vícios fossem muito imorais
Eu seria o Vinicius de Moraes.”
Na verdade, mais do que imoral, Vinicius foi amoral, no sentido de que ele mesmo elaborava seus códigos de conduta, se é que tinha algum. Poucas pessoas viveram a vida com tanta liberdade, despudor e prazer. E poucos poetas foram tão sensuais, tão capazes de cantar o amor carnal com tanto lirismo. Seus sonetos sobre o tema podem figurar numa antologia ao lado dos de Camões.
Acho que foi o próprio Geraldinho que disse uma vez que Vinicius tinha a coragem de rimar amor e flor e ainda assim fazer boa poesia. Me lembrei disso ouvindo Miúcha, cuja voz está cada vez mais delicada e parece feita para cantar os amores e desamores do amigo. Que outro poeta teria coragem de incluir em sua “Serenata do adeus” esses versos de um romantismo tão descabelado: “Ah, mulher, estrela a refulgir,/Parte, mas antes de partir/ Rasga o meu coração,/ Crava as garras no meu peito em dor/ E esvai em sangue todo o amor,/ Toda a desilusão”.
Geraldinho lembra que detratores como o marechal Costa e Silva e apologistas como Toquinho e Chico Buarque chamaram Vinicius de vagabundo. “Tudo bem. Na falta de melhor morada, Vinicius fez do entre-lugar da boemia a sua pátria de eleição.” Bendito vagabundo.
Fonte: Saite oficial de Vinicius de Moraes
Publicado originalmente no saite no mínimo, no dia dois de dezembro de 2003. No mínimo, por infelicidade (falta de patrocínio mesmo), teve sua redação definitivamente fechada neste primeiro de agosto do presente ano.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Vinicius de Moraes, o boêmio incurável
Postado por
Yerko Herrera
às
22:15
0
comentários
Marcadores: Crônica
Música e Poesia do compositor Makely Ka
Conheça abaixo clipe da música Plutão, do poeta e compositor Makely Ka. Plutão é faixa do disco Autófago, lançado no dia 5 de junho de 2007, em Belo Horizonte.
Plutão - Makely Ka
Autófago é o primeiro disco solo do artista piauiense, radicado em Minas Gerais. Makely lançou dois álbuns anteriores em conjunto com outros compositores, além de ter dois livros de poesia publicados.
Postado por
Yerko Herrera
às
10:02
0
comentários
Marcadores: Videoclipe
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Música Fora do Eixo
Novos sons dos Brasis
por Pedro Alexandre Sanches
Pouco a pouco, se fazem notar efeitos de certa descentralização do ambiente musical brasileiro
Pouco a pouco, se fazem notar efeitos de certa descentralização do ambiente musical brasileiro, a bordo da derrocada das grandes gravadoras, por um lado, e do avanço da produção caseira, por outro. É o que permite o advento simultâneo de três CDs (independentes) como os dos grupos Ticuqueiros, de Pernambuco, e Cravo Carbono, do Pará, e do músico baiano Quito Ribeiro.
Todos apresentam música de apelo jovem, com influências nítidas de rock e/ou eletrônica. Ainda assim, ancoram-se nas peculiaridades musicais das regiões de origem dos artistas. Exemplar é o caso dos Ticuqueiros, em Dos Canaviais da Zona da Mata. O termo “ticuqueiro” designa o trabalhador do plantio de cana-de-açúcar que faz a limpa do terreno e, nas horas de descanso, sai nos folguedos de maracatu, cavalo-marinho, coco, ciranda. A banda não é formada por ticuqueiros, mas por músicos de Nazaré da Mata que se “vestem” do personagem em letras que retratam aquele imaginário com simplicidade e em melodias e arranjos de raro vigor.
O hábitat do Cravo Carbono é a música de Belém, que passa por carimbó, guitarrada, maculelê, samba e tecnobrega, sob leitura vanguardista e cerebral. Os sons de Córtex são ainda desconhecidos de grande parte do Brasil, seja pelo lado da tradição, seja da invenção, e atingem ápices na ironia de Brasileiros Invadem o Mundo da Moda e na “breguice” de Aplausos de Auditório.
Quito Ribeiro, por fim, é músico e compositor envolvido com boa parte dos intérpretes da geração “axé” da Bahia e, embora radicado no Rio há dez anos, faz de Uma Coisa Só, CD-solo de estréia, um estudo de ritmos natais como samba-reggae e a música afro ligada ao candomblé. Despido das convenções comerciais da música baiana dos anos 90, produz pop com pesquisa musical e cria momentos engajados como o de NeuroEuropeu, cujo personagem-título, do tipo “minoria branca”, é um ex-latino que esqueceu de conjugar e mora escondido e só querendo se blindar.
Cada uma ao seu modo, as três experiências mostram como a nova música brasileira luta por se desvincular dos ditames unificadores (e não raro autoritários) da indústria do eixão Rio-São Paulo. E aí estão razões para serem recebidos com comemoração.
Fonte: CartaCapital
Ouça abaixo músicas de Café Carbono, Quito Ribeiro e Ticuqueiros
Postado por
Música e Poesia BR
às
08:33
0
comentários
Marcadores: Música
domingo, 5 de agosto de 2007
Chico Declama Drummond, Drummond fala de Chico
Chico Buarque de Holanda recita Carlos Drummond
O lutador (clique e ouça)
Da coleção de quatro cds Poesia falada - Vol 15 - Reunião - 2002 O Brasil dizendo Drummond, organizada por Paulinho Lima.
Carlos Drummond de Andrade sobre Chico Buarque
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.
A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.
Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.
Carlos Drummond de Andrade
Publicado originalmente no, já extinto, diário Correio da Manhã, no dia 14 de outubro de 1966.
Fonte: Áudio e Artigo do saite oficial de Chico Buarque
O Lutador
Carlos Drummond de Andrade
Lutar com palavras é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas
para meu sustento num dia de vida.
Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem
e não há ameaça e nem há sevícia
que as traga de novo ao centro da praça.
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo de rara humildade.
Guardarei sigilo de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam, perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras parece sem fruto.
Não têm carne e sangue
Entretanto, luto.
Palavra, palavra (digo exasperado),
se me desafias, aceito o combate.
Quisera possuir-te neste descampado,
sem roteiro de unha ou marca de dente nessa pele clara.
Preferes o amor de uma posse impura
e que venha o gozo da maior tortura.
Luto corpo a corpo, luto todo o tempo,
sem maior proveito que o da caça ao vento.
Não encontro vestes, não seguro formas,
é fluido inimigo que me dobra os músculos
e ri-se das normas da boa peleja.
Iludo-me às vezes, pressinto que a entrega se consumará.
Já vejo palavras em coro submisso,
esta me ofertando seu velho calor,
outra sua glória feita de mistério,
outra seu desdém, outra seu ciúme,
e um sapiente amor me ensina a fruir de cada palavra
essência captada, o sutil queixume.
Mas ai! é o instante de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca, tudo se evapora.
O ciclo do dia ora se consuma e o inútil duelo jamais se resolve.
O teu rosto belo, ó palavra,
esplende na curva da noite que toda me envolve.
Tamanha paixão e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas, a luta prossegue nas ruas do sono.
A banda
Chico Buarque/1966
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
O que merece ser lembrado em 5 de Agosto
5 de Agosto: Morte da Pequena Notável
Um mito com a cara do Brasil
"Olhem para mim e vejam se não tenho o Brasil em cada curva do corpo."
Assim Carmen Miranda respondia àqueles que colocavam sua brasilidade em dúvida.
Mito no Brasil e nos EUA, a Pequena Notável estava no auge da carreira, em 1946, e rodava seu último filme na Fox, If I'm Lucky (Se eu fosse feliz). Depois de um intervalo, volta para o estúdio apressada e, numa cena de rodopio, o fotógrafo capta o descuido: estava sem calcinha. A foto irrita o senador McCarthy, que inclui Carmen na lista de "caça às bruxas". Outras versões dizem que ela jamais usava calcinha.
Na última viagem ao Rio em 1954, com esgotamento nervoso, fica apenas quatro meses: "Minha saudade do Brasil é maior que o Pão de Açúcar", diz à Rádio Nacional. De volta aos EUA, um colapso cardíaco a fulmina em 5 de agosto de 1955. Ao enterro, no cemitério de São João Batista, comparecem mais de um milhão de pessoas (metade da população do Rio de Janeiro).
Fonte: AlmanaqueBrasil
O Almanaque Brasil está sob licença Creative Commons. A cópia e reprodução de seu conteúdo são autorizadas para uso não-comercial, desde que dado o devido crédito à publicação e aos autores.
Postado por
Música e Poesia BR
às
03:41
2
comentários
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Poemas Visuais de Arnaldo Antunes
Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960) é um músico, poeta e artista visual brasileiro, mais conhecido por sua participação como integrante do grupo de rock Titãs. Em suas principais áreas de atuação artística, a música, a poesia e a arte visual, demonstra a influência de sub-gêneros modernistas ou pós-modernistas. Em 1978 ingressou na Faculdade de Letras da USP, onde seguiria o curso de Lingüística, não fosse o sucesso dos Titãs lhe tomar todo o tempo entre shows, gravações, ensaios, turnês e entrevistas. Desligou-se da banda em 1992, depois de dez anos de grupo, por conta de suas direções artísticas. Apesar de sua saída, Arnaldo continuou compondo com os demais integrantes do grupo, e várias dessas parcerias foram incluídas em discos dos Titãs, assim como em seus discos solo. Também atuou como ensaísta na Folha de São Paulo, onde deixou evidente o substrato teórico que transparece no seu trabalho estético.
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Postado por
Yerko Herrera
às
12:24
6
comentários
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Veríssimo é sempre bom
Homem que é homem
Luis Fernando Veríssimo
Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.
HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.
HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.
E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.
Situação 1
Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!
Situação 2
Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.
Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.
Situação 3
Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:
— Se quiser usar o meu...
— O seu...?
— Joelho.
— Ah...
— Ele está desocupado.
— Mas eu não o conheço.
— Eu apresento. Este é o meu joelho.
— Não. Eu digo, você...
— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.
Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.
Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.
HQEH nunca vai a vernissage.
HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.
HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.
Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.
Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".
Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".
Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.
HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.
Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.
Texto extraído do livro "As mentiras que os homens contam, Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 89.
Postado por
Yerko Herrera
às
01:24
0
comentários
Marcadores: Crônica
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Crônica do Veríssimo
Grande Edgar
por Luis Fernando Veríssimo
Já deve ter acontecido com você.
— Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?
Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um, curto, grosso e sincero.
— Não.
Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.
— Não me diga. Você é o... o...
"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
— Desculpe, deve ser a velhice, mas...
Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.
E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.
— Claro que estou me lembrando de você!
Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata:
— Há quanto tempo!
Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.
— Então me diga quem sou.
Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:
— Pois é.
Ou:
— Bota tempo nisso.
Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.
— Como cê tem passado?
— Bem, bem.
— Parece mentira.
— Puxa.
(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)
Ele esta falando:
—Pensei que você não fosse me reconhecer...
—O que é isso?!
—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
—E eu ia esquecer de você? Logo você?
—As pessoas mudam. Sei lá.
— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)
— É incrível como a gente perde contato.
— É mesmo.
Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.
— Cê tem visto alguém da velha turma?
— Só o Pontes.
— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)
— Lembra do Croarê?
— Claro!
— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)
— Rezende...
— Quem?
Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.
— Não tinha um Rezende na turma?
— Não me lembro.
— Devo esta confundindo.
Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.
Ele fala:
— Sabe que a Ritinha casou?
— Não!
— Casou.
— Com quem?
— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?)
— Claro que conheci! Velho Bituca...
— Pois casaram.
É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.
— E não avisou nada?
— Bem...
— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?
— É que a gente perdeu contato e...
— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
— É...
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se esqueceram de mim.
— Desculpe, Edgar. É que...
— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)
— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
— Certo, Edgar. E desculpe, hein?
— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
— Isso.
— Reunir a velha turma.
— Certo.
— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...
— Bituca.
— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
— Tchau, Edgar!
Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.
Texto extraído do livro "As Mentiras que os Homens Contam", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 13.
Fonte: Releituras
Ilustração: Artur de Carvalho
Artur de Carvalho, escritor, publicitário e cartunista, escreve para o "Diário de Votuporanga", interior de São Paulo, desde 1997. Lançou recentemente o livro "O Incrível Homem de Quatro Olhos", edição do autor - Votuporanga, 2000. Leia suas crônicas publicadas no Releituras e, para se deliciar com todo seu talento, visite seu sítio.
Postado por
Yerko Herrera
às
23:52
0
comentários
Marcadores: Crônica
terça-feira, 31 de julho de 2007
O Regresso do Analista de Bagé
As melhores do Analista de Bagé
Depois das tirinhas 'As cobras' e 'A família Brasil', desenhadas por Luis Fernando Verissimo, e de 'Ed Mort' com traço de Miguel Paiva, 'O analista de Bagé' ganha reedição em cores pela Objetiva, desenhado por Edgar Vasques.
> Clique aqui para ler três histórias do Analista de Bagé no traço de Edgar Vasques.
Onde anda o Analista de Bagé? Não sei. As notícias são desencontradas. Há quem diga que ele se aposentou, hoje vive nas suas terras perto de Bagé e se dedica a cuidar de bicho em vez de gente, só abrindo exceções para eventuais casos de angústia existencial ou regressão traumática de fundo psicossomático entre a peonada da estância.
Lindaura, a recepcionista que além de receber também dava, estaria com ele e teria concordado em dividir o afeto do Analista com uma égua chamada Posuda, desde que eles concordassem em nunca serem vistos juntos em público.
Outros dizem que o Analista morreu, depois de tentar, inutilmente, convencer o marido de uma paciente que banhos regulares de jacuzzi a dois num motel faziam parte do tratamento.
E há os que sustentam que o Analista continua clinicando, na Europa, onde a sua terapia do joelhaço, conhecida como "Thérapie du genou aux boules, ou le methode gaúchô", tem grande aceitação, e ele só tem alguma dificuldade com a correta tradução de "Pos se apeie nos pelego e respire fundo no mas, índio velho" no começo de cada sessão.
Fonte: RevistaIdiossincrasia
Postado por
Yerko Herrera
às
09:29
1 comentários
sábado, 28 de julho de 2007
Rap de Cabo Verde
Após a apresentação da musa cabo-verdiana Mayra Andrade, o Música&Poesia tem o prazer de divulgar outros talentos de Cabo Verde. Agora é a vez do grupo de rap La-MC Malcriado. De origem cabo-verdiana, os rappers, radicados na França, estão juntos desde 1998. Em 2006 lançaram o disco Nos Pobréza Ké Nos Rikéza, projeto que "pretende alertar as gerações, para o conhecimento real da importância patriótica da luta de Amílcar Cabral" (líder africano que lutou pela independência da Guiné-Bissau e do Cabo Verde, que poucas décadas atrás ainda eram exploradas e colonizadas por Portugal).
O grupo La-MC Malcriado tenta sensibilizar as pessoas para o "grave e evidente problema dos meninos de rua, das carências evidentes e da forma simples que todos podemos usar para o minimizar".
Abaixo dois videoclipes do La-MC Malcriado. O primeiro, Mas Amor, tem a participação da linda Mayra Andrade. O segundo, Nos Pobréza Ké Nos Rikéza, leva o nome do álbum da banda.
Mas Amor - Mayra Andrade e La-MC Malcriado
Nos Pobréza Ké Nos Rikéza - La-MC Malcriado
Ouça outras músicas do La-MC Malcriado em sua página do MySpace
Capa e músicas que compõem o disco da banda cabo-verdiana2-Ninguem, ninguem, ninguem
3-Mas amor feat. Mayra Andrade
4-Zeca pistola
5-Batucada feat. Philippe Monteiro
6-Sucrinha feat. Suzanna
7-C'est la mc
8-Iles magnifiques
9-Ka bu inganam feat. Zeca di Nha Reinalda
10-Ka tem problema
11-Menina Bia Lulucha feat. Cesaria Evora
12-Nos é pesado
13-Si bo scrivem feat. Tieley
14-Refugié
15-Malcriado
16-Viva Amilcar Cabral
Postado por
Yerko Herrera
às
20:29
4
comentários
Marcadores: Música, Videoclipe
Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 -2004)
As pessoas sensíveis
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."
Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Luar
O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.
Noite
Ó minha noite que julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
Jardim Perdido
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão,
A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.
Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.
Às Vezes
Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.
Pudesse eu
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.
Jardim
Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras" -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras
Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
em Obra Poética I, Caminho, 2ª edição, 1996
Teve uma intervenção política empenhada, opondo-se ao regime salazarista (foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos) e também, após o 25 de Abril, como deputada. Presidiu ao Centro Nacional de Cultura e à Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.(…)
A sua actividade literária (e política) pautou-se sempre pelas ideias de justiça, liberdade e integridade moral. A depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética, a presença constante da Natureza, a atenção permanente aos problemas e à tragicidade da vida humana são reflexo de uma formação clássica, com leituras, por exemplo, de Homero, durante a juventude. Colaborou nas revistas Cadernos de Poesia (1940), Távola Redonda (1950) e Árvore (1951) e conviveu com nomes da literatura como Miguel Torga, Ruy Cinatti e Jorge de Sena.
Na lírica, estreou-se com Poesia (1944), a que se seguiram Dia do Mar (1947), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954), Mar Novo (1958), O Cristo Cigano (1961), Livro Sexto (1962, Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores), Geografia (1967), Dual (1972), O Nome das Coisas (1977, Prémio Teixeira de Pascoaes), Navegações (1977-82) e Ilhas (1989). Este último voltou a ser publicado em 1996, numa edição de poemas escolhidos acompanhada de fotografias de Daniel Blaufuks. Em 1968, foi publicada uma Antologia e, entre 1990 e 1992, surgiram três volumes da sua Obra Poética. Seguiram-se os títulos Musa (1994) e O Búzio de Cós (1997). Colaborou ainda com Júlio Resende na organização de um livro para a infância e juventude, intitulado Primeiro Livro de Poesia (1993).
Em prosa, escreveu O Rapaz de Bronze (1956), Contos Exemplares (1962), Histórias da Terra e do Mar (1984) e os contos infantis A Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958), Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964) e A Floresta (1968). É ainda autora dos ensaios Cecília Meireles (1958), Poesia e Realidade (1960) e O Nu na Antiguidade Clássica (1975), para além de trabalhos de tradução de Dante, Shakespeare e Eurípedes. A sua obra literária encontra-se parcialmente traduzida em França, Itália e nos Estados Unidos da América. Em 1994 recebeu o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores e, no ano seguinte, o Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos. O seu valor, como poetisa e figura da cultura portuguesa, foi também reconhecido através da atribuição do Prémio Camões, em 1999. Em 2001, foi distinguida com o Prémio Max Jacob de Poesia, num ano em que o prémio foi excepcionalmente alargado a poetas de língua estrangeira. Em Agosto do mesmo ano, foi lançada a antologia poética Mar. Em Outubro publicou o livro O Colar. Em Dezembro, saiu a obra poética Orpheu e Eurydice (…)"
Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podem ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis.
JL 468, de 25/6/91
A poesia é das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza.
JL 709, de 17/12/97
Postado por
Yerko Herrera
às
16:51
0
comentários
Marcadores: Poesia
quinta-feira, 26 de julho de 2007
A Cultura deve ser Livre para a Evolução da Sociedade
CULTURA LIVRE
Gil defende na Itália que a música deve se tornar livre e compartilhável
Durante turnê internacional, o ministro em férias e músico em exercício aproveita as platéias e a imprensa internacional para difundir a idéia de cultura livre.
Da redação / ANSA
MILÃO - O ministro da Cultura, Gilberto Gil, que está na Itália para apresentações de sua nova turnê mundial Banda Larga, dedicada às novas tecnologias e ao problema de acessibilidade à propriedade intelectual, declarou ontem que "a cultura como um todo e principalmente a música devem se tornar livres e compartilháveis, assim como o software Linux".
Não por acaso, cada concerto da nova turnê é aberto por uma voz que diz: "Pede-se aos senhores espectadores para que filmem e fotografem o show e para que o baixem no site de Gilberto Gil".
"Estamos em uma fase de continua evolução. Não se pode pensar em defender o existente. É necessário procurar novos modelos, novas definições de direitos autorais e novos modos de remunerar os artistas", explicou Gil, que se apresentara depois de amanhã no festival latino-americano de Assago, cidade da província da Lombardia, região norte da Itália. "Não sou eu que digo isso, mas um vasto número de opiniões que aprendi a conhecer, sobretudo quando me tornei ministro e comecei a intermediar os pedidos da sociedade civil e as posições oficiais do Governo, sancionador das leis".
Para compensar as gravadoras e os artistas pela perda dos direitos autorais, procurando também evitar que quem baixa bens de propriedade intelectual pela rede venha a ser acusado de crime, Gil já tem em mente um modelo: "O Linux é um software livre e aberto, para cujo desenvolvimento contribuem milhões de pessoas em cada parte do mundo. Ninguém paga para tê-lo, mas pode-se contribuir para melhorá-lo, tanto que atualmente, nos estúdios de Hollywood, 70% dos computadores utiliza a plataforma Linux para a realização de efeitos especiais, pois se mostra mais confiável".
Perguntado se o mercado musical, uma vez desligado da industria fonográfica e das exigências de lucro, poderá se desenvolver neste caminho, Gil respondeu: "É cedo para dizer, pois vejo os movimentos atuais, e não o futuro. Este depende do quanto será intenso o movimento social que surgirá voltado a essas novas possibilidades".
Para as novas tecnologias, "necessárias para o desenvolvimento e a mudança", Gil dedicou também sua música Banda Larga, cujo videoclipe foi filmado dentro de sua própria casa, com um telefone celular, pelo cineasta Andrucha Waddington, e difundido posteriormente pela internet.
Na cozinha, entre geladeiras cobertas de imãs e amigos reunidos ao redor de uma mesa, o "Ministro da Contracultura" - como foi recentemente definido pelo jornal britânico The Guardian - canta sobre novas tecnologias, internet e YouTube.
Uma música que é um verdadeiro manifesto da cultura digital e da informação democrática, já que, segundo Gil, "como antes necessitávamos de ferrovias e estradas, hoje todos precisamos de banda larga".
Fotos: imagem "pirateada" do vídeo do cineasta Andrucha Waddington, citado no texto
Fonte: CartaMaior
Assista abaixo videoclipe inédito, gravado por Andrucha Waddington com uma câmera de celular, da música Banda Larga, de Gilberto Gil
Banda Larga - Gilberto Gil
Apresentação entre amigos da recém composta canção Banda Larga, de Gilberto Gil. O cineasta Andrucha Waddington registrou o momento de intimidade com a câmera de seu celular.
Postado por
Yerko Herrera
às
19:43
0
comentários
Marcadores: Videoclipe
Canários fugidos da gaiola podem voltar
Os passarinhos fujões.
Airton Monte
Escrevo e já é domingo. Hoje, não bati o ponto na tradicional macarronada com galinha à cabidela do vetusto Solar dos Monte. Hoje, anseio apenas e indispensavelmente um cantinho sossegado pra ler um livro, ouvir um disco, fazer um poema, escrever uma carta besta de amor, um bilhete de suicida.
Ou, simplesmente, postar-me diante da janela escancarada e desfrutar da paisagem quando me bate esse cansaço de nada, esse tédio absoluto de tudo, essa benevolente preguiça, esse estar no mundo despido de compromissos urgentes.
A verdade verdadeira é que sou um domingueiro típico, suburbano, um domingueiro de anedota. O máximo esforço a que me permito é andar até a cozinha pegar uma cerveja no congelador. Isso, se não tiver quem vá.
Domingo, nem o velho e grande gato gordo, que habita o telhado em frente, persegue inutilmente os pombos ilusórios pousados nos beirais. Sim, sou igual ao velho e grande gato gordo, folgado, macunaímico, lagarteando sob o sol.
Aliás, um felino muito mais sábio do que muitos bípedes pensantes.
Domingo é o dia mais apropriado pra se ler poesia. Afinal, poesia é o pão do espírito, se bem que certos poetastros nos fazem comer o pão que o diabo amassou.
Não é o caso desses versos que me emocionam profundamente sempre que os leio, do poeta Soares Feitosa: "Abram-se as janelas, que aqueles canários fugidos da gaiola podem voltar". Por isso, não crio canários e odeio todas as gaiolas, a não ser a do meu peito onde bate asas meu coração eivado de um romantismo incurável e renitente.
Canários são palavras, gestos perdidos na distância, adeuses esquecidos na janela de um avião, o odor inesquecível de uma mulher depois que a gente faz amor.
Aos domingos, escancaro todas as janelas da casa e da alma. Pássaros fujões podem voltar em busca de ninho. Quem sabe uma palavra, frase, ponto final de um poema, um conto, uma canção, uma crônica.
Sim, manter perenemente as janelas abertas, porque os poetas sabem que os passarinhos fujões quase sempre voltam ao local do crime, pombos-correio do inesperado.
Moça com Flor na Boca - Crônicas escolhidas 29
Fonte: JornaldePoesia
Postado por
Música e Poesia BR
às
11:15
0
comentários
Marcadores: Crônica
Marina de la Riva em entrevista
Aqui vai um trecho de um vídeo com Marina de la Riva cantando e sendo entrevistada pela jornalista Patrícia Palumbo, para o programa Vozes do Brasil. Vale conferir toda a desenvoltura e simpatia de Marina.
Postado por
Yerko Herrera
às
01:38
2
comentários
Marcadores: Entrevista, Música, Vídeo Raro
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Marina de la Riva: A musa capaz de quebrar as barreiras culturais que nos separam de nossos hermanos hispano-americanos
La Caminadora - Marina de la Riva
Filha de pai cubano e mãe brasileira, Marina de la Riva incorpora toda a influência de suas origens em seu excelente disco de estréia. A musa gravou todas as músicas em espanhol na ilha de Fidel.
Te amaré y despues - Marina de la Riva
O álbum Marina de la Riva (Mousike/Universal, 2007), une com perfeição música brasileira e cubana. Sua beleza, sua voz, a interpretação e a doçura de Marina são os ingredientes suficientes para fazê-la conquistar toda a América Latina e, quem sabe, unir um pouco mais o Brasil a nossos irmãos latino-americanos.
Postado por
Música e Poesia BR
às
17:00
0
comentários
Marcadores: Videoclipe
terça-feira, 24 de julho de 2007
Cantora une Brasil e Cuba
Marina de la Riva, voz que une Brasil e Cuba
Após se mudar para São Paulo, Marina começou a atuar na noite, geralmente com um repertório jazzístico, e ter aulas de canto lírico. Tudo ia muito bem, mas ainda não era isso. Algo faltava. “Fui à premiação do Grammy em 2004 e vi o show do [pianista cubano] Bebo Valdés com o [cantor espanhol] Diego Cigala. Nem consegui ver direito o show porque chorei o tempo todo. Ali, naquela hora, entendi o que estava doendo tanto em mim e o que tanto procurava fora sendo que a história era dentro. No vôo de volta ao Brasil peguei um caderno e escrevi todo o projeto deste disco: onde ia gravar, como ia gravar, a qualidade dos músicos, a sonoridade, o tipo de microfone, o repertório, gravações em Cuba”. A princípio, Marina não iria gravar nada brasileiro, mas quando pisou em solo cubano sentiu vontade de colocar seu lado materno para cantar. Viu que precisava unir musicalmente as duas pontas de sua vida e seguir em frente.
Nesta busca por sua própria música, Marina conseguiu reunir figuras como os brasileiros Davi Moraes (grande parceiro na empreitada), Pepe Cisneros, Webster Santos, Toninho Ferragutti, Tadeu Santiago, Ricardo Mosca, Daniel Alcântara, Léo Reis e Guello, e os cubanos Papi Olviedo, Ricardo Castellanos e Antonio Portuondo, além do convidado especial Chico Buarque (em “Ojos malignos” de Juan Pichardo Cambier). Belos e discretos arranjos, uma doce voz sem maneirismos e um repertório que mistura Ernesto Lecuona (“Mariposa”), Dona Ivone Lara (“Sonho meu”), Chano Pozo (“Tin tin deo”), Sivuca (“Adeus Maria Fulô”), Miguel Matamoros (“Juramento”), Silvio Rodríguez (“Te amaré y después”), Ernesto Grenet (“Drume negrita”) e Joubert de Carvalho (“Ta-hí! (Pra você gostar de mim)”). Marina de la Riva conseguiu costurar dentro de si e registrou harmoniosamente em disco duas das culturas musicais mais fortes do mundo.
Marina de la Riva - Em Estúdio
Postado por
Yerko Herrera
às
09:26
5
comentários
Marcadores: Música
domingo, 22 de julho de 2007
Autor de O Cheiro do Ralo em entrevista
Entrevista com Lourenço Mutarelli
por Beatriz Leal
Lourenço Mutarelli diz que usava o nanquim de seus desenhos para se defender, como fazem os polvos. Mas em 2002, após nove livros de quadrinhos, o desenhista resolveu trocar o nanquim pelas palavras e lançou seu primeiro romance: O Cheiro do Ralo, que deu vida ao filme de mesmo nome. Depois deste nasceram ainda mais dois: O Natimorto e Jesus Kid. Lourenço Mutarelli dos quadrinhos, da literatura e do cinema – ainda atuou em O Cheiro do Ralo -, também escreve peças de teatro. A voz metálica que sai do viva-voz fala sobre caos da cidade grande, sobre cultura brasileira e sobre as parcerias com Marçal Aquino e Heitor Dhalia, respectivamente roteirista e diretor de O Cheiro do Ralo.
O que influencia mais as suas obras? O contexto político, econômico e social ou a sua individualidade?
Eu acho que a minha individualidade; o aspecto mais psicológico das pessoas em geral. Muito de mim, mas não só de mim. Do que eu observo, do que eu vivencio, de muita observação. Eu estudo muita psiquiatria e algumas outras coisas assim que eu gosto e em geral isso me ajuda muito... para diagnosticar primeiro, para depois criar um personagem.
Que autores tiveram influências nas suas obras, tanto literárias como de quadrinhos?
Literárias pra mim as primeiras grandes influências foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Literárias acho que foram essas minhas experiências fortes. Nos quadrinhos foram Will Eisner e muito do quadrinho argentino Muñoz e Bretcha... algumas pessoas do quadrinho argentino me influenciaram muito.
E das suas outras influências literárias, como Kafka e Dostoiévski, você as detecta nas obras de outros autores contemporâneos, como Marçal Aquino, Patrícia Melo ou Daniel Galera?
Olha, eu tenho um problema grave assim, que há mais de dois anos eu não leio ficção. Eu tenho estudado um assunto e tenho dedicado todo o meu tempo de leitura a esse assunto. Então, desse pessoal mais novo eu só li Marçal. Eu conheço essas pessoas, mas eu nunca li nada deles, por uma questão de administrar meu tempo. Então eu não posso opinar muito sobre várias pessoas. Eu acho que o que o Marçal tem forte, que é quem eu conheço mais pessoalmente, conheço mais o trabalho, é o impacto que a gente recebe vivendo em uma cidade como essa (São Paulo), não tem como isso não refletir no nosso trabalho. Por menos que a gente pense ou racionalize essa cidade, inconscientemente isso reflete no nosso trabalho.
Talvez por isso este realismo, predominantemente o urbano, seja uma das formas literárias mais comuns nas obras de Marçal Aquino e na sua também...
Eu acho que, no Marçal ainda tem o jornalismo policial e tudo, né, que você acaba vendo uma outra faceta que não é assim como eu vejo uma família de policiais, então eu ouvia sempre umas histórias... É mais um mundo cão, é mais por trás dessa maquiagem que tenta vender a cidade, a grande metrópole, que tem um olhar que só atrai o turista mesmo, quem está aqui acaba tendo uma ótica muito diferente.
Mas Brasília é incrível, né, Brasília é incrível. Incrível não de maravilhosa, mas assim, a primeira vez que eu fui aí fiquei muito impressionado. Achei que eu estava em uma cidade universitária, que estava numa USP grande, né? É muito distante. Quando a gente é aqui do caos essa coisa muito ordenada, não sei, soa muito... ela não parece uma coisa natural para mim, então tenho um estranhamento. Mas eu tenho amigos aí, é um lugar em que gosto muito das pessoas, as pessoas acolhem muito bem a gente.
A linguagem noir, de autores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler ou até Quentin Tarantino exerce alguma influência na literatura, quadrinhos e cinema contemporâneos no país?
Eu acredito que sim, mesmo que a pessoa não tenha lido nada disso. Isso influenciou tanto a cultura, né? Isso está tanto nos filmes que a gente assistiu que a gente acaba se impregnando. Acho que, depois de um modismo que teve muito forte dos filmes de western, o Marçal tem uma seqüela aí que eu acho bem interessante. Acho que veio isso do romance noir mesmo. Acho que esses autores influenciaram demais a cultura num momento em que ela se massificava pelo rádio e televisão. Isso está muito enraizado na gente.
Há elementos em sua narrativa e em seus desenhos que você considera como fatores de ruptura lingüística e temática?
Eu costumo falar que eu desenho e escrevo não como eu quero, mas como eu consigo. Se eu inovo em alguma é porque eu não consigo fazer direito. Eu não tenho essa pretensão e nem esse pensamento quando estou fazendo alguma coisa. Ela sai mais ou menos do jeito que me agrada e do jeito que ela vai fluindo... Tudo que eu faço é experimental, eu faço como uma experiência. Então eu não estou preocupado se eu vou agradar, se eu vou ser aceito ou não. Eu faço pela experiência. Acho que isso talvez, somado ao fato de eu não conseguir fazer uma coisa mais formal, acho que acaba criando o que pode determinar um estilo, talvez. Mas não existe essa intenção, entende? Ela acaba acontecendo talvez por isso, porque eu me permito experimentar. Tentar fazer do meu jeito, com o que eu tenho nas mãos.
Qual é a importância da interação entre formas de arte diferentes (literatura, cinema, teatro, quadrinhos...) para a cultura de modo geral?
Eu acho que é fundamental pra qualquer... acho que o grande problema dos quadrinhos no Brasil, é que a maioria das pessoas que fazem quadrinhos só bebem os quadrinhos, diretamente, pelo menos. E eu acho fundamental a gente estar aberto ao teatro, ao cinema, literatura, quadrinhos... eu acho importante perceber as diferenças e as semelhanças que existem entre essas formas de comunicação e de expressão.
A mistura tem dado resultados interessantes, né...
Eu acho bastante interessante e acho que é quase... é cada vez mais difícil que não haja essa interação, né? Eu acho que cada vez mais a gente abre os olhos e experimenta e mistura possibilidades, porque cada vez a gente tem mais recursos pra isso.
Quais são as diferenças no diálogo entre autor e espectador dos livros para o cinema para os quadrinhos?
A minha primeira experiência marcante de diferença entre quadrinho e literatura, a única grande diferença é o respeito com o que você é tratado fazendo uma e outra coisa. Existe um abismo de diferença de tratamento que você recebe, mas não pelo leitor imediato. Você não tem um retorno imediato. O meu primeiro retorno imediato que tive foi com a minha primeira peça de teatro, que como minha cara não é conhecida, eu fui algumas vezes assistir a peça e eu podia ver tudo o que funcionava ou não funcionava, eu tinha uma resposta imediata. Isso variava com a platéia, mas eu sempre tinha uma resposta imediata. Eu nunca tinha experimentado esse retorno tão direto. Isso foi muito importante pra mim, foi muito prazeroso vivenciar essa experiência. No cinema você tem isso de uma forma semelhante, embora o filme demore tanto pra ficar pronto que, quando fica pronto, você não agüenta mais ver nem ouvir falar e aí você não acaba vivenciando muito. Eu vivi muito pouco isso, só nos festivais eu senti o público reagindo ao filme, mas aí é um público diferente porque é um público de festival.
Como você enxerga a relação entre produção artística e a indústria de distribuição cultural?
Eu acho que isso depende. No geral, é tudo muito mal distribuído. Acho que acaba, se você persiste fazendo seu trabalho de alguma forma, você vai arrebanhando pessoas que descobrem seu trabalho, e acabam indo atrás, que acabam sendo independentes dessa distribuição. Esse agrupamento acaba ajudando você, por outro lado, a ter uma distribuição um pouco melhor. Mas acho muito mal distribuído, embora existam entidades e experiências que são bastante positivas. Se não fosse o Sesc, e outras iniciativas privadas... por mais que isso seja limitado, acho que isso possibilita a viabilização de muita coisa, indiretamente.
Nina é um filme mais complexo e elaborado. Qual a importância de produções com este tipo de linguagem, na contramão dos temas mais recorrentes, para a cultura brasileira?
Eu entrei no Nina, porque eu achava... isso é culpa do Heitor (Dhalia, diretor), né... é muito a visão do Heitor mesmo. E gostei justamente por isso. Embora eu também ache que outras formas... também é legal você experimentar coisas que estão se repetindo e você tentar dar um pouco da sua cara ou da sua visão, até pra quebrar um pouco essas coisas que se repetem. E o Nina tem toda uma concepção, que eu acho que no fim das contas ele não alcançou, como geralmente não alcança, o objetivo. Mas ele foi uma experiência muito estimulante e muito interessante. Eu só acho que o resultado ficou aquém do que a gente vislumbrava durante o processo. Para mim, pelo menos. Minha opinião pessoal, assim... Quando o filme começou a ser montado, ele começou a ser montado de tantas formas diferentes e por estar muito envolvido eu tinha já uma concepção do que seria. Eu estranho, pra mim causa um estranhamento, o corte final do filme. Eu achei que ele tinha uma outra direção que me agradava mais.
Quem tem acesso somente ao produto final dificilmente percebe isso...
Essa é uma grande vantagem também, porque você recebe aquilo que é pronto e você não tem esse sofrimento todo da expectativa ou dos desvios de curso, né? Eu acho que o Nina para mim tem isso. Foi um filme difícil de realizar, teve muito problema no meio, então, de qualquer forma, eu acho um grande mérito e uma grande coragem ter sido feito, justamente por ser totalmente na contramão do que se fazia.
Como foi fazer parte d’O cheiro do ralo, com as peculiaridades que o filme apresenta em financiamento e produção?
A princípio, eu sempre quis ficar distante, eu não queria me envolver no processo, porque desde o começo eu achava que o mais interessante para mim era ter esse outro olhar, a adaptação mesmo. Mas eu acabei fazendo, tendo que ajudar. Quando o Selton não podia fazer teste com elenco, eu acabei fazendo alguns testes no lugar dele e ele acabou me convidando pra fazer um personagem e foi muito bom pra mim, foi muito divertido, mas eu tentei não interferir em nada. Quem opinava era o Heitor e o Selton. Quando alguém me perguntava eu falava que não sabia de nada, porque eu fiz o livro e isso era o filme e são coisas totalmente diferentes. Mas foi um set totalmente... muito bacana, muito passional, a gente tinha uma relação muito boa, foi uma união muito grande, foi muito divertido, muito prazeroso participar do processo.
Mas, e no que diz respeito ao orçamento, muito mais baixo do que o usual? Você já deve até estar meio cansado desse tipo de pergunta...
(risos) Não. Eu acho que isso talvez tenha propiciado esse clima tão agradável, porque todo mundo que estava lá, estava lá porque gostava do projeto. Ninguém estava lá por dinheiro. Todo mundo estava cedendo seu trabalho, abrindo mão de receber ou trocando isso por uma participação no futuro. Então as pessoas estavam lá por paixão mesmo. E isso refletia muito no ambiente. Ninguém estava lá porque ia ganhar dinheiro, não era essa a idéia. Então, todas as pessoas que entraram ou gostavam do livro ou gostavam do projeto ou gostavam do Selton ou do Heitor. Tinha sempre uma relação afetiva com o que estava sendo feito. Então o fato de ter sido feito da forma que foi feito, acho que é um exemplo de que isso pode acontecer. O Heitor fala isso, que não é o ideal, porque senão chega uma hora em que as pessoas que colocam dinheiro e que se juntam e tal não vão ter mais dinheiro pra fazer nada, mas era a única forma do filme acontecer, então eles optaram por fazer. Mas eu não participei de nada dessa relação de produção ou financeira, eu ouço as histórias mais ou menos como vocês ouvem, meio indiretamente.
Legal mesmo é a idéia de parceria entre as pessoas para realizar um projeto...
Isso eu acho muito legal e acho que isso acabou criando um clima muito favorável. E que, de alguma forma, as pessoas do cinema falam isso e parece que tem uma verdade, esse clima parece que fica impresso no negativo, sabe? É uma coisa que, sei lá, talvez o filme vá bem até por isso também, porque é isso: tava todo mundo junto, se divertindo e afim de fazer. O filme ia sair com duas cópias... no fim saiu com 17, e foi muito bem de público.
Como passou a trabalhar com Heitor Dhalia e qual é a importância de parcerias como estas para a produção cultural do país?
Acho que a importância disso a gente não vai conseguir perceber agora. Se esse filme ficar, perdurar, ou se for uma tendência a possibilitar outros, daqui a um tempo a gente vai saber a importância disso. Eu não sei até que ponto isso é importante ou isso é importante só para as pessoas que estão envolvidas, eu não sei qual a relevância disso. Na minha parceria com o Heitor a ponte foi justamente o livro O Cheiro do Ralo. Ele me procurou pra comprar os direitos, aí ele acabou conhecendo meus quadrinhos, e ele estava na pré-produção do Nina, e me convidou pra fazer os desenhos. Foi uma parceria muito boa, foi muito bom trabalhar com ele, foi uma experiência legal. A gente tem muita identidade, mas ao mesmo tempo a gente tem muita diferença. Acho que a nossa parceria foi isso, não sei se a gente faria uma parceria no futuro, eu acho muito difícil isso acontecer.
E com o Marçal Aquino, como foi?
O Marçal participou do primeiro almoço, quando eu conheci o Heitor, ele indicou o livro para o Heitor ler. Ele é uma pessoa... eu adoro o Marçal, ele é uma pessoa extremamente gentil e divertida que eu gosto muito de encontrar e eu tenho uma afinidade muito grande com ele, uma gratidão imensa por essa generosidade de ele estar... a literatura em geral me recebeu muito bem, muito de braços de abertos, e o Marçal é um grande exemplo disso pra mim, é uma pessoa que gosto muito, muito mesmo, é uma pessoa que eu tenho um afeto muito grande. E ele participou, a gente se encontrou, ele participou do primeiro almoço. Ele fez de certa forma essa ponte e a gente ainda se encontrou algumas vezes os três, e aí depois ele seguiu os dois trabalhando a adaptação. Eu não participei da adaptação.
O que as obras destes artistas, como Marçal Aquino, Beto Brant e Heitor Dhalia, trazem de inédito para a cultura brasileira?
Então, com essa relação temática – essa história de quebrar um pouco o sertão e trazer mais o urbano – e a relação lingüística que os filmes têm com os livros, o conjunto lingüístico-temático pode trazer uma quebra no que já existe de cinema brasileiro, uma ruptura, no cinema e na literatura?
Eu acho que vem acontecendo e acho que isso acontece mesmo no Cinema, Aspirinas e Urubus, ele mostra a realidade que a gente conhece, mas por uma perspectiva e com uma delicadeza que eu acho muito nova. Acho que mesmo que você fale de coisas que estão sendo ditas, se é um olhar um pouco mais sensível, eu acho que isso traz uma contribuição. A afinidade que existe entre o nosso trabalho e que acaba refletindo nas nossas pessoas, eu, pelo menos, penso que cada uma dessas pessoas fazendo seu trabalho, não pensando "ah, eu vou mostrar isso", mas pensando na sua realidade, no que ela vive, no que ela vê e tenta mostrar, dividir isso... não sei se existe um, pelo menos da minha parte não existe, um dogma ou "ah, eu vou mostrar isso porque isso não está sendo mostrado", não. Eu vou falar isso porque essa é minha língua dentro desse país, então eu acho que é mais ou menos isso. Uma questão de você impor, de certa forma, através do seu trabalho, sua identidade.
Pra quem olha de fora, o que parece é que não há a intenção de se fazer algo necessariamente novo, mas que está sendo feito...
Isso acaba trazendo o novo, gerando o novo. Eu acho que o novo não nasce com a intenção de ser novo. Ele nasce com sinceridade e com experimentação e com pessoas que de repente tentam realizar o seu trabalho contra a corrente e não encontram uma forma de produzir isso, de uma forma fácil ou com parceiros grandes. Então elas se juntam e fazem o seu trabalho, que foge porque as grandes produções visam o que dá certo. Elas vão martelar nessa tecla porque dá certo e nunca vão arriscar. E elas devem começar a arriscar agora, por exemplo, quando surge uma coisa diferente, que dá um resultado, e esse resultado é financeiro, é um resultado de bilheteria ou de uma massa, de atrair uma massa de público, aí eles começam a se pautar nesse tipo de coisa pequena que aponta o caminho e aí eles começam a investir um pouco. Então isso acaba refletindo através de experiências corajosas... Porque, para mim, fazer um livro não custa nada. Mas para se fazer um filme custou... Essa parceria é um trabalho muito maior, que por outro lado atinge um número de pessoas multiplicado à potência, né?
Dos filmes roteirizados pelo Marçal Aquino O Cheiro do Ralo parece ter dado mais resultado, né?
O Invasor parece que tinha dado uma bilheteria legal... não tenho certeza se foi 100 mil, ou alguma coisa assim, mas parece que O Invasor teve um, eu nem sei se a venda foi o cinema ou se foi DVD ou VHS. Eu sei que foi um filme que foi muito bem aceito, sei lá, acho que tinha uma novidade, um frescor ali que acabou atraindo, talvez isso indiretamente encoraje outras pessoas a fazerem... então, talvez o primeiro que fez um e não foi tão visto ou tão aceito, encorajou o outro a fazer um outro que vai seguir uma trilha que já começou a ser aberta de alguma forma, mesmo que outros tenham menos visibilidade.
Se é que esses artistas apresentam uma linguagem cultural inédita, como você denominaria essa nova vertente?
(risos) Puxa vida... Eu não tenho a menor idéia. Eu sou muito ruim com conceitos e rótulos assim, eu não sei dizer... Não sei mesmo que nome eu daria.
*Esta entrevista também foi publicada em o balde e em formato editado no jornal Esquina do UniCEUB.
Postado por
Yerko Herrera
às
19:50
0
comentários
Marcadores: Entrevista