quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Gisele Bündchen não acha marido por aqui - Crônica de Xico Sá

Crônica do jornalista e escritor Xico Sá, retirada de seu blogue oficial, O Carapuceiro. Neste texto, amparado em depoimentos de pessoas simples do sertão, ele tece uma critica escrachada ao padrão anoréxico imposto pelo mundo da moda, e difundido despudoradamente pela mídia, como sendo exemplo de beleza. Xico é colunista do jornal Folha de São de Paulo e das revistas Trip e TPM, ao lado da banda Mundo Livre S/A teve papel relevante no movimento Manguebeat, é autor do livro Divina Comédia da Fama? Purgatório, Paraíso e Inferno de Quem Sonha Ser uma Celebridade (Editora Objetiva, 2004).

SEM CHANCE, GI!
Xico Sá

Gisele Bündchen não acha marido por aqui. Sim, amigo, em alguns lugares do Brasil, a dita über mega super modelo não arrumaria nem para o sal, como bodejam as gentes antigas do interiorzão.

Mostro a foto da modelo na capa da revista, o caboclo entorta os beiços, silêncio no deserto, fecha um pouco os zolhos gastos pelo solzão das esperas, e economiza palavra e saliva: “Presta no amolegamento não, dotô, pegar adonde eu vô?”.

Amaro, 44, balbucia, agora mirando com um só olho, como se fosse dá um tiro de espingarda soca-soca de matar nambus, preás, codornizes e outras misturas e marrecos: “Tão graciosa calunga e passando necessidade!”

Pense na viagem!

No terreiro de casa, passa o rio São Francisco, meio acabrunhado depois da construção da vizinha hidrelétrica de Xingó. No quintal, tem a grota de Angicos, onde Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram chacinados no ano-calibre de 38, 1938, sete cabalísticas décadas atrás.

No cardápio, dona Gilda Nunes, 58, mãe de 12 criaturas, transforma a memória de necessidades e secas brabas em gastronomia de primeira, coisa fina mesmo. Da cabeça-de-frade, aquele cacto redondinho com o cocuruto vermelho, faz um doce de lamber os beiços; do talo da urtiga faz uma salada para acompanhar o surubim, peixe que já escasseia no velho Chico cansado de tretas. Do facheiro, também nascida na teimosa flora semi-árida, sai uma geléia de matar de inveja o D.O.M. e o Fasano, para citar dois dos mais premiados e metidos restaurantes paulistas.

“A gente tem que aprender a tirar desse deserto tudo que é sustança”, dá o mote-exemplo. “E isso vem de longe, eu já aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a dela, que aprendeu mais atrás ainda e as minhas filhas já fazem tudo melhor do que eu.”

Luíza, novinha cheirando a leite, é uma dessas meninas. Faca amolada, tira os espinhos dos cactos com a habilidade de um japonês cortando peixe para fazer sushis. Um mar de água, o cacto desmancha-se na bacia. “Muita gente já matou a sede, em tempo ruim de verdade, com essas plantas”, repete a narrativa que ouviu dos mais velhos. “Os bodes tiram os espinhos espezinhando a cabeça-de-frade, depois enchem o bucho, felizes, Deus sabe o que faz.”

O doce do cacto é de botar abaixo qualquer regime ou cuidado de mulher com a silhueta. Lembra doce de mamão verde, mas é muito melhor mesmo. Embora algumas mais jovens já sigam os padrões estéticos importados na parabólica, sertanejo que é sertanejo aprecia mesmo é uma moça roliça, cheinha. A Gisele, repete Amaro, teria sérias dificuldades para arrumar marido na nação semi-árida.

Macho considerado também é o que apresenta sinais de fartura para encobrir o esqueleto. Homem fornido, redondo na cintura e nas bochechas, barriga que dá o ritmo em qualquer forró. “Quando tu balança dá um nó na minha pança”, como na lição gonzagueana.

“Hoje em dia, na capital, tem essa moda de graveto, coisa sequinha, só o osso, as moças parecem aquelas vaquinhas da seca, andam tudo desconjuntadas, pernas destrambelhadas, que diabo de tempo é esse?”, pergunta dona Gilda. “Tem moça que é só o fiapinho de gente. E moça rica, com condição de comer direitinho, com bufunfa, dinheiro.”

De certa forma, o pendor pelos mais cheinhos e cheinhas, sinais de bonança, não deixa de ser uma vingança estética contra a memória da fome, sertão dos flagelos. A busca da fartura até nas carnes de casamentos e pecados, cercas tantas do amor.

Mas no restaurante familiar de dona Gilda, de nome Angicos, batismo que nem carece de placa, as moças sequinhas das metrópoles escapariam com peixes e saladas da caatinga.

“Mas aviso logo: comer pouco aqui é uma desfeita”, diz. “Gosto de quem come como se o mundo fosse acabar logo um tempinho depois.” Para a sobremesa, além dos doces, redes estendidas debaixo de mangueiras garantem uma sesta de rei de España.

Crônica de uma viagem inesquecível pela nação semi-árida, que me rendeu “Nova Geografia da Fome” (ed.Tempo d´Imagem), homenagem a Josué de Castro, gênio da raça, cujo centenário de nascimento acontece também neste ano de 2008, salve, salve!

Fonte:
OCarapuceiro

3 comentários:

Jú disse...

Muito boa a crônica...
É bem naquelas... Metade do mundo quer emagrecer, enquanto a outra metade passa fome...

bjs

Yerko Herrera disse...

Gente morrendo de fome pq não tem o que comer, outros que tem o que comer morrendo de fome. Assim como criaram campanhas contra o fumo e o álcool, deveriam criar contra a ditadura das esqueléticas da moda. Como no cigarro vem estampadas aquelas figurinhas funestas, deveriam estampar, aonde houver mais espaço naqueles corpos ralos, imagens de como se fica comendo pouco (ou não comendo) e/ou quando se enfia o dedo na goela pra devolver o já ingerido. Será que haveria tantas menininhas querendo ser magra como a modelinho da vez!?

Beijos.

Anônimo disse...

parabens pelo blog...
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é o sonho eterno de BETO CARRERO e a mão de DEUS.