Clarice Lispector, a menina ucraniana, descobriu no Recife a felicidade clandestina que fez dela uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos. (PortaCurtas)
Clandestina Felicidade
Sinopse
Fragmentos de infância, descoberta do mundo pelo olhar curioso, perplexo e profundo da criança-escritora Clarice Lispector.
Gênero Ficção
Diretor Beto Normal, Marcelo Gomes
Elenco Luisa Phebo, Nathalia Corinthia, Luci Alcântara
Ano 1998
Duração 15 min
Cor P&B
Bitola 35mm
País Brasil
Ficha Técnica
Produção Alcir Lacerda Fotografia Jane Malaquias Roteiro Beto Normal e Marcelo Gomes Edição Vânia Debs Som Direto Márcio Câmara Direção de Arte Liz Donovan Trilha original Fred 04 e DJ Dolores
Fonte: PortaCurtas
Mais Clarice Lispector
Conto de Clarice Lispector
Clarice Lispector, Escritora “Indigesta”
Conto de Clarice Lispector II
Conto de Clarice Lispector III
Poesias de Clarice Lispector
Curtas do mundo inteiro no OutroCine
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terça-feira, 11 de maio de 2010
Curta sobre Clarice Lispector
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sábado, 8 de maio de 2010
Clássica Infantil de Vinícius e Toquinho em Animação
A Casa, composição de Vinícius de Moraes e Toquinho, virou animação nas mãos do diretor Andrés Lieban.
A Casa
Sinopse
Ao som da famosa canção de Vinícius e Toquinho, um mímico se diverte construindo uma casa que só é visível para quem acredita na história.
Gênero Animação
Diretor Andrés Lieban
Ano 2004
Duração 3 min
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil
Ficha Técnica
Produção Fernando Faro Roteiro Andrés Lieban Animação Andrés Lieban Empresa produtora Laboratório de Desenhos, Editora Delta Produção Executiva André Koogan Breitman Finalização Proview Produções Música Sincronizada Vinicius de Moraes Interpretação musical Boca Livre
Prêmios
Melhor Trilha Sonora no Anima Mundi 2004
Premier Internacional no Film Festival of the World 2004
Festivais
Festival Internacional de Cinema Infantil 2004
Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis 2005
Fonte: PortaCurtas
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
Cultura Livre à disposição de todos
Conheça o projeto da Brasiliana Digital que visa democratizar o acesso cultural disponibilizando para baixar, de forma livre e irrestrita, vasto acervo de livros, documentos, periódicos e manuscritos. Salve a cultura livre!
Recentemente toda obra do poeta Vinícius de Moraes, num total de 15 livros, foi disponibilizada gratuitamente no saite da Biblioteca Brasiliana Digital.
A Brasiliana Digital é uma extensão do gesto de generosidade de Guita e José Mindlin de tornar público um acervo único de documentos sobre o Brasil.
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terça-feira, 27 de abril de 2010
Perder Liberta
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).
Tira a asa - 2002
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva).
Seja o que for - 2002
|
Publicado inicialmente no livro PALAVRA DESORDEM, ed. Iluminuras (2002).
Publicado no livro “2 ou + corpos no mesmo espaço” (ed. Perspectiva)
Fonte: Arnaldo Antunes
Outras
Poemas Visuais de Arnaldo Antunes
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quinta-feira, 22 de abril de 2010
Como Fazer uma Rádio Comunitária
UFRGS publica cartilha que ensina como fazer rádio comunitária
Fonte: RITS Rede de Informação do Terceiro Setor
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], através da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação [Fabico] e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação [PPGCOM], está publicando a cartilha Para fazer Rádio Comunitária com "C" maiúsculo.
A obra é organizada por Ilza Girardi, professora do PPGCOM, e Rodrigo Jacobus, mestrando do programa, e dá sequência a um trabalho de seis anos que já havia publicado a “Cartilha (sem frescura) da Rádio Comunitária”.
A cartilha, que traz um histórico das rádios comunitárias, questões da legislação e fornece informações de como montar uma rádio, está sobre licença Creative Commons e pode ser distribuída gratuitamente sobre a mesma licença, que pode ser conferida na página quatro da obra.
Baixe seu exemplar e redistribua a cartilha, reforçando a importância de obras compartilhadas sem custo, priorizando o acesso livre à informação. A cartilha está disponível aqui para download [em PDF].
Notícia publicada originalmente no sítio da Abong.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010
O Tiradentes em Animação
Tiradentes - O Descartável
A animação Tiradentes - O Descartável conta de maneira bem-humorada a trajetória que levou à forca José da Silva Xavier, o Tiradentes. Este curta foi desenvolvido por Rodrigo Araújo, historiador e cartunista.
Tiradentes - O Descartável
Sinopse
Curta de animação do Barão do Pirapora de Piedade-SP, tratando um pouco da vida de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes e a Inconfidência Mineira.
Gênero Animação
Diretor Rodrigo Araújo
Ano 2008
Duração 5'30''
Cor Colorido
País Brasil
Fonte Imagem: PiraporaPictures
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terça-feira, 20 de abril de 2010
Poemas Manuel Bandeira
Quatro poesias de Manuel Bandeira.
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
O menino doente
O menino dorme.
Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho,
"Dorme . . . dorme . . . meu . . ."
Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho . . . "
E o menino dorme.
Noite morta
Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora.
A voz da noite . . .
(Não desta noite, mas de outra maior.)
Petrópolis, 1921
O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Fonte: Jornal de Poesia
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Poesias de Manuel Bandeira
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quinta-feira, 15 de abril de 2010
Pequena Epifania
pequena epifania
Eu homem, desaparecendo com objetos. Garrafas quebradas, avisto uma cortina balançada de vento, toco tua boca e as manchas no colchão velho improvisado em que fingimos dormir. Tu mulher, tanta mulher em ti, teu cheiro incomum que inunda o pequeno espaço onde te acaricio na rua de mão única. Cansada, negra, lívida e negra, desaparecida nos objetos, sorriso largo - rareando - estufada daquela beleza que atinge mulheres alheias ao tempo, mulheres de qualquer rua, mulheres do pequeno espaço da rua em que posso te acariciar.
Raquel Leão Luz
Fonte: http://tenhomedodevirginiawoolf.blogspot.com
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segunda-feira, 29 de março de 2010
Renato Russo, Nosso Irmão mais Velho
No dia 27 de março Renato Russo, poeta e líder da banda Legião Urbana, completaria 50 anos. Vítima da aids, teve a vida interrompida precocemente, mas, sua obra se perpetua. A seguir, texto do jornalista Wagner Machado escrito exclusivamente para o Música&Poesia.
Nosso irmão mais velho
por Wagner Machado

Creio não ser exagero afirmar que este momento, a primeira vez que ouvi Legião, marca o rito de transição da minha infância para a adolescência. Era 1988, o Brasil saíra recentemente do longo e triste período que se iniciara em 31 de março de 1964 para terminar duas décadas depois. O rock nacional efervescia com as tantas bandas surgidas na primeira metade daquela década. Entre as quais despontava a Legião Urbana do Renato Russo, que traduzia, com suas letras fortes e diretas e seu som sujo e sentido, a ânsia de uma geração que chegava a um momento histórico em que havia muitos motivos por que lutar, mas não havia mais um inimigo claro e declarado, uma luta perplexa e vaga, como perplexo e vago era o negro João de Santo Cristo, protagonista de Faroeste Caboclo, que vê sua vida transformada num inferno em Brasília porque queria fazer um patético pedido ao presidente, ajudar toda essa gente que só faz sofrer.
No ano seguinte ao meu primeiro contato com a banda brasiliense do Renato Russo, a Legião lança o disco “As Quatro Estações”, que consolidou meu gosto pela música e minha desconfiança e aversão a tudo o que é rotulável. Porque “As Quatro Estações” era um grande disco de rock, mas era reducionismo demais chamar aquilo de rock. Porque ali havia ecos do punk brasileiro irritado e rebelde ao mesmo tempo em que havia um lirismo tão triste e tão franco. Tinha guitarra distorcida, mas tinha piano. Falava em drogas, em violência, mas citava Camões e textos bíblicos. E as letras de Renato feriam e tocavam, a mim e à minha geração, tão perdida e tão sôfrega.
Renato fazia letras um tanto pobres sob o aspecto da construção poética, mas – ou talvez por isso mesmo – tão bonitas e altissonantes, como se soubesse – e creio que sabia – o que cada um de nós sentia, melhor que nós até. Não tem nada de elaborado no rude verso “parece cocaína mas é só tristeza”, não tem rima rica, métrica precisa e nem acuidade vocabular, mas era a perfeita e dolorida tradução do que sentíamos naquele justo momento. E quem disse isso de forma tão direta e bonita quanto Renato Russo?
Renato Russo era um cara triste, mas sua tristeza era em nada comparável a essas bandas babacas de hoje que ganham grana vendendo melancolia barata e plástica. Era uma tristeza não-egoísta, solidária, abrangente, uma tristeza pelo destino de todos nós, pela opressão, pela ignorância, pela mediocridade, por este país tão rico e tão injusto, e tão hipócrita. Também não era uma tristeza autoindulgente, mas antes uma tristeza autocrítica, convidando à reflexão mas também à ação.
Renato Russo foi o irmão mais velho da minha geração. Liderava a maior banda de rock do meu país. Naquela época, as bandas do primeiro time do rock nacional (Titãs, Paralamas, Barão, Ira! e tantas outras) lotavam ginásios, vendiam milhões de cópias de discos e realmente faziam a cabeça da minha geração. Mas Renato jamais se deixou seduzir pelo lado podre da fama. Não permitiu transformar-se em star superexposto nos meios de comunicação, não aceitou tornar-se um escravo de si mesmo nem da sua imagem. Jamais deixou que jogassem seu trabalho e sua personalidade na vala comum do circo midiático. Não precisava da mídia, pois sabia falar diretamente conosco.
Em um dia qualquer de 1996, chego em casa de volta da aula, e pela MTV recebo a notícia da morte de Renato Russo, vítima da aids. Estávamos desamparados. É tão estranho, cantou ele, os bons morrem jovens. E há tempos são os jovens que adoecem. Penso que há pessoas que precisam mesmo morrer ainda jovens. É o caso de Che Guevara, de Camus, de Glauber Rocha. E de Renato Russo. Pessoas que não suportam viver neste mundo tão mesquinho e tão medíocre. Não suportam amar uma humanidade que a cada dia esquece mais um pouco o que é amor. Precisam partir pra longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita.
Wagner Machado é jornalista, atualmente trabalha na redação do portal Terra. Siga o Wagner pelo Twitter
Foto de Ricardo Castro sob uma licença Creative Commons - Alguns Direitos Reservados
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quinta-feira, 11 de março de 2010
Jards Macalé - Movimento dos Barcos
Recentemente foi lançado o documentário Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, homenagem justa para este gênio da nossa música. Macalé sempre esteve tachado equivocadamente como "maldito", adjetivo que, parece, nunca lhe agradou. Neste regresso do Música&Poesia uma linda música de Jards Macalé: Movimento dos Barcos. Composição em parceria com Capinan, presente no disco Jards Macalé, de 1972.
Movimento dos Barcos - Jards Macalé
Movimento dos barcos
Jards Macalé e Capinan
Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo
Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento
Fonte letra: MPBnet
Trailer Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal
Conheça mais sobre Jards Macalé
Leia também
Waly Salomão no cinema
Estou Cansado
Filme registra desejo de Waly Salomão realizado
Jards Macalé em entrevista
Ando tão à Flor da Pele
Clipe de Vapor Barato
Baixe Disco Completo da banda Numismata
Ouça Música de Torquato Neto e Jards Macalé
Confira a Entrevista que Jards Macalé deu ao Gafieiras
Esses Anjos Malucos
Vapor Barato/Flor da Pele
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domingo, 8 de fevereiro de 2009
Poesias de Vinicius
Poemas de Vinicius de Moraes em homenagem as postagens do blogue Cultura e Ciência do Brasil.
A ausente
Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
A brusca poesia da mulher amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
Rio de Janeiro, 1938
A brusca poesia da mulher amada (II)
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos
astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher
amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!
Rio de Janeiro, 1950
A brusca poesia da mulher amada (III)
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco
quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!
Rio de Janeiro, 1963
A carta que não foi mandada
Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor
Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
Fonte: Saite Oficial Vinicius de Moraes
Confira também:
Poema de Natal, Vinicius de Moraes
Prosa de Vinicius de Moraes
Vídeos Raros com Vinicius de Moraes
Poesias de Vinicius de Moraes
Sem Rosa sem Nada
Vinicius de Moraes, o boêmio incurável
Curta Sabino II com Erico Verissimo, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes
Leia Correspondência entre Chico e Vinícius sobre Valsinha
Na Quarta-feira de Cinzas o Carnaval tem seu Fim
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Papai Noel Velho Batuta
Eu não seria tão cruel de presentear os visitantes do Música&Poesia com músicas natalinas entoadas pela Simone. Junto com a Simone poderíamos, quem sabe, esquecer a figura do velho Noel. Que este Natal seja mais do Cara que marcou a celebração desta data, que seja de seu Espírito revolucionário e suas lições de paz, fraternidade e igualdade. Pra comemorar, um pouco de subversão e protesto contidos na canção Papai Noel Velho Batuta, da banda punk Garotos Podres. A música foi gravada pela primeira vez em 1985, no seu disco de estréia, chamado Mais Podres do que Nunca. Na época, pra driblar a Censura Federal, imposta pela ditadura militar, o grupo trocou o título da música, que, originalmente, teria um nome bem mais direto: Papai-Noel Filho da Puta.
Um Feliz Natal, cheio de luta e esperança por um mundo mais justo e igual!
Papai Noel Velho Batuta
Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Papai Noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Pobres, pobres...
Mas nos vamos seqüestrá-lo
E vamos matá-lo!
Por que?
Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!
Aqui não existe natal!
Por que?
Papai noel velho batuta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo!
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
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Nosso Senhor é um velhinho muito pobre
Música O milagre do Ladrão, do álbum Vou Ser Feliz e Já Volto, segundo disco solo de Paulo Miklos. Após, ouça a mesma canção numa interpretação bem diferente da versão blues de Paulo Miklos, cantada por Lourenço e Lourival no melhor estilo caipira.
O milagre do Ladrão - Paulo Miklos
O milagre do Ladrão - Lourenço e Lourival
O milagre do Ladrão
Léo Canhoto / Zilo
Um inocente com seis anos de idade
Vivia triste por não poder caminhar
Sempre sentado numa cadeira de rodas
Olhava triste seus amiguinhos brincar
Sua mãezinha muito pobre lhe dizia
Todas as noites na hora de se deitar:
Filho querido você vai ficar curado
Nosso senhor um dia vem pra lhe curar
O inocente todo cheio de esperanças
Pra sua mãe dizia cheio de fé
Se é verdade que Jesus vem me curar
Quero saber então que jeito que ele é
Sua mãezinha entre soluços respondia
Com o seu rosto todo banhado em prantos:
Nosso Senhor é um velhinho muito pobre
Barba comprida e de cabelos muito brancos
Em uma noite muito fria e chuvosa
De tempestade e de grande escuridão
Pela janela do quarto do menino
Naquele instante foi entrando um ladrão
O inocente vendo aquele homem barbudo
Já levantou-se, foi tão grande a sua fé
Pensou que Deus tinha ido lhe curar
Saiu andando e ajoelhou-se ao seus pés
Então o menino disse:
Senhor do céu, eu lhe agradeço imensamente
Mamãe falou que você vinha me curar
Muito obrigado, fiquei bom, já estou andando
Com meus amigos amanhã posso brincar
Não vá embora, fique um pouco mais comigo
Todas as noites mamãe me ensina a rezar
E teu rosto lindo eu agora vou beijar
Ao receber aquele beijo inocente
Aquele homem de remorso estremeceu
Saiu andando com os olhos rasos d' água
Aquela sina toda ele compreendeu
A consciência lhe doeu naquele instante
Foi se afastando parecendo uma visão
O inocente no momento foi curado
Sem perceber que era um milagre de um ladrão
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Este Natal, Carlos Drummond de Andrade
Este Natal
Carlos Drummond de Andrade
— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?
Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomavaos das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.
— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.
De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.
O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vendedor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.
O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.
Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.
E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.
Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.
Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
Texto extraído do livro "Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.
Conheça o autor e sua obra visitando "Biografias".
Fonte: Releituras
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Poema de Natal, Vinicius de Moraes
Poema de Natal
Vinicius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes, poeta e diplomata na linha direta de Xangô. Saravá! No poema acima temos retratado aquele que, para muitos, é um evento triste.
O acima foi foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.
Fonte: Releituras
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Milagre do Natal, Lima Barreto
Baixe completo Milagre do Natal, texto de Lima Barreto.
Milagre do Natal - baixar aqui (arquivo pdf)
Trecho
(...) Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria seção.
Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela. (...)
Fonte: DomínioPúblico
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Poemas de Orides Fontela
Poesias da poeta Orides Fontela.
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade)
Fonte: JornaldePoesia
Viagem
Viajar
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.
Fonte: Releituras
Média
Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.
Não basta?
De Transposição (1969)
Fonte: AlgumaPoesia


Imagens Manuscritos: RevistaE
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu na cidade de São João da Boa Vista (SP), no dia 21/04/1940. Em 1946, educada por sua mãe, começa a escrever poemas. No ano de 1951, cursa o Ginásio e, em 1955, a Escola Normal de São João da Boa Vista. Seus primeiros versos são publicados em 1956 no jornal “O Município” daquela cidade. Muda-se para São Paulo (SP), em 1967, onde ingressa no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo – USP. Estréia, em 1969, com o livro de poemas “Transposição”, publicado com a ajuda do professor e crítico Davi Arrigucci. Em 1973, lança “Helianto”. Em 1983 é publicado seu terceiro livro de poemas, “Alba”, que recebe o Prêmio Jabuti. Trabalha como professora primária e bibliotecária em várias escolas da rede estadual de ensino. Em 1986, é lançado “Rosácea”. O escritor, poeta e crítico Augusto Massi reúne, em 1988, toda a obra anterior da poeta no livro “Trevo”. Em 1996, o livro “Teia”, reunião de toda a sua obra, recebe o Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Tentando superar suas dificuldades financeiras — havia sido despejada do apartamento onde vivia — vai viver na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João daquela capital. De personalidade difícil, isola-se cada vez mais dos amigos, morrendo em 02/11/1998, num sanatório em Campos do Jordão (SP). Seu livro, “Poesia Reunida”, é lançado em 2006. (fonte: Releituras)
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008
O Livro de Luis Nassif
Vídeo onde o jornalista Luis Nassif fala sobre o lançamento de seu livro A Casa da Minha Infância.
Introdução do livro A Casa de minha infância de Luis Nassif
Luis Nassif foi introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria.
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Waly Salomão no cinema
Reprodução da coluna Cinema e Invenção publicada no saite Via Política, texto de Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar.
Waly Salomão ressucitado
por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar
O poeta Waly Salomão
Rio de Janeiro – Precisamos descobrir o cinema/ Escondido atrás das telas/ Farto de idéias comedidas/ As imagens estão dormindo/ Precisamos descobrir o cinema... Ora, o mundo virou uma lata de lixo vivamente espetacularizada por interesses duvidosos. Entre a violência e as muitas crises econômicas, a religião prometendo o “paraíso” depois da morte. Os políticos cafetinando os pobres e miseráveis. E os meios de comunicação reafirmando o fascismo como necessidade. O império quer o civilizado bárbaro e burro. Razão para quê? O choque-espetáculo passa pelos horrores das guerras vencidas ou perdidas. Dá-se espaço a seres sem expressão alguma. Reproduz-se o mundo burguês “vitorioso”. Mas vitorioso em relação a quê?
Como dar um novo caminho a linguagem, além da produção de medos e neuroses? Nesse nosso contexto de zona como aprofundar o processo criativo? Como valorizar o cinema-pensamento, anti-espetáculo-televisivo-roliudiano? Frente ao traumático esvaziamento do coletivo, como desenvolver idéias novas? Aí chegamos a Waly Salomão, que tinha aversão pelo que não fosse a vida como poesia. Sua lucidez permanente era o seu “vapor barato”. Na sua imperfeição bem humorada era incapaz de resignar-se ao silêncio. Como se improvisasse tudo e com todos, conservava o bom humor eterno. Em sua beleza erudita inovava sempre. Audacioso, ele não fazia música e, sim, era a própria música. Libertado de tudo, era a elegância em movimento. Seu amplo sorriso transbordava satisfação e prazeres proibidos entre a velha Síria e o sertão baiano. Pai e mãe do anti-conservadorismo.
Tempo privilegiado este nosso por ter pessoas como Waly. Uma desrazão da razão acadêmica, que fez da vida perguntas e não respostas definitivas. Como diria Renée Char: “A lucidez é a ferida mais próxima do sol.” É o poeta na aceitação da sua recusa a melancolia ou a morte. E morreu por aceitar-se mortal sem lágrimas ou frustrações. Hoje morre-se por nada. Querem nos fazer acreditar que a vida perdeu o seu valor simbólico de desobedecermos a ordem podre do poder político. Waly queria viver a vida por tudo e todos. E foi muito mais que o seu próprio entusiasmo entre cansaços e angústias. Através dessa continuidade-descontínua, o imprevisível sempre novo. Uma lealdade uterina à esperança de ser vida! Ser sempre mais poeta. Ser mais experiência como necessidade em sua voracidade de introjetar barulhos no silêncio minúsculo da nação. Sua referência verbal caminhava à deriva com a poesia-vida.
Ousou ser mais. Ousou sonhar e caminhar com os próprios pés. Seus amigos só podem falar do que já ficou para trás, quando ele se arremessava entre a vida e a paixão realizando sonhos. Sonhos preenchidos com contradições. Era bem mais que um poeta cuidando da própria imagem. Sua continuidade-descontínua era sempre entre o humano demasiadamente humano, e o delírio salutar. Como rejeitar tal grandeza? Ora, se o mundo real é um disfarce contínuo localizado no poder, o poeta é a sua negação externa, afirmando a sua poesia-vida. E seu grande dilema foi ser sempre mais num país onde se é sempre menos. Waly era um poeta dentro da própria poesia celebrando sempre a sua capacidade de ser ainda mais tudo e todos.
Ousaríamos dizer que Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader (Brasil,2008), expressa com vigor a suprema beleza do poeta baiano. E sem a menor exploração do outro, a legitimação de múltiplas essências da beleza anti-alucinatória de Waly, expert na desorganização das muitas certezas convencionais da vida burguesa. Não poderia ter sido outra a escolha da cineasta Ana Carolina, para que representasse belissimamente o poeta Gregório de Mattos no cinema. Pois ambos se serviam de metamorfoses aquém das muitas certezas do mundo. Ora, e se é verdade que a paixão anula qualquer ordem, Gregório e Waly se realizam numa espécie de escultura da própria existência, anti lugar-comum da imobilidade aliada à imoralidade. Pois sentir fundo a vida em si e no outro é uma exacerbação de singularidades transcendentais para poucos, onde o repouso passa a ser uma espécie de estética do constante deslocamento. E a poesia, longe de ser mais um refúgio dos vencidos, é o afloramento do confronto do novo contra o velho. Waly renascia único todos os dias num tempo falsamente iluminado por Hollywood e pela Coca-Cola. É o que ainda hoje nos mata à todos.
Um filme significativo de linguagem. Uma aproximação de contrários onde só importa o cinema-poesia em Waly Salomão. Os demais que falam só são vozes e suas afinidades com o personagem, a posteriori. Pois o tempo do poeta torna-o mais vivo e iluminado. Como afirmou Paul Valéry em seus Cadernos: “Tempo que fazemos, tempo que sofremos – tempo que nem fazemos nem sofremos...” São as linhas diretrizes da redenção do baiano inquieto diante da vida que jorra o frescor dos seus muitos sonhos: profano, inspirado, qualificado, ousado. A substância do seu trabalho era ele próprio projetando-se para tudo e todos. Improvisador glorioso do desejo. Não estamos diante de um filme comum, mas de um trabalho-ensaio bem sucedido como ambição e realização. Carlos Nader é a mais jovem transparência do que de melhor se faz hoje, aqui, no documentário. Num filme quase sem luz, opaco mesmo, uma tapeçaria viva da memória marcada por descontinuidades, humor e amor. Um filme de significação poética arbitrária. O mais importante filme de um ano de ficções televisivas idiotas.
Estamos falando de Pan-Cinema Permanente o belo filme sobre Waly Salomão e sua poesia-ruptura, simbolismo estrutura. Wally foi uma irrupção no tempo, na invenção de seu próprio tempo, esta conciliação possível entre o objetivo e o subjetivo, pelos sonhos. Waly viveu e sonhou acordado, como poucos, pela força pouco comum, também, da sua. O seu universo poético fez dele fragmentos e, em pedaços, sai para o mundo compondo sua totalidade. E nem ensaia. Improvisa. Sabe que o mundo é um espetáculo. Arrisca. Improvisa. Ousa. E sem máscara, atua. Estudou, fez Direito, e viu que por aí, a vida não endireitava: a Justiça tarda e falha. E só a poesia desmascara. Ruptura, invenção do eu, morada do sonho! Sonho que não foi em vão, pois Waly, aparece e desaparece compondo e decompondo imagens de tudo o que o fez viver. Com sua vida se tornando um filme com telas escuras, sombreadas ou coloridas, de imagens/fronteira que Waly vai desbravando e iluminando com sua luz, sua força e a expressividade rara de suas concepções de desejos sonhados e realizados; rupturas tornadas linguagem. Coisa muito rara no cinema, hoje! Imagens tratadas como significação e linguagem! A do homem menos objeto. Gente!
Este é um filme que revigora o cinema brasileiro. Liberto do lugar-comum das inutilidades pré e pós concebidas. O discurso de um tempo de imagens de reprodução sem linguagem, sem oralidade, sem grafia, sem analogia. Só digitagem! Filme que a arte libertou para a expressão de Waly e de sua assunção ao paraíso da poesia ruptura, para onde viajou com passagem só de ida acompanhado de Oswald de Andrade, Glauber Rocha, Pixinguinha, Tarsila – duplicando imagens em outras dimensões. Multiplicando aspectos nesta fase anacrônica e mascarada de tanta oligofrenia eletrônica. Para nada, uma desinvenção do tempo, na invasão do mundo interior das pessoas, desestabilizando idéias para o atendimento ao imediatismo da máquina e no atendimento do desejo veloz da inutilidade. Um tsunami entre a liberdade do simbólico e as contradições do estrutural que aprisionam, e cuja força não passa da repressão e da satisfação que elimina.
Nos movimentos de Waly em Pan-Cinema Permanente, não há retrocessos, um parar para conferir, a vida segue em frente e sem ensaios. Com a poesia fazendo o caminho. Se há resistência, impõe-se a ruptura, linguagem da poesia, das imagens como princípio, insubmissas ao verbo, ao discurso sem grafia. Parte para tirar os pecados do mundo, além do lado de baixo do Equador. Esta invenção de viver é o grande salto de Waly, que o filme acompanha como um salto à frente em nosso cinema. Esta força invencível do artista, respeitada pela montagem e por uma trilha sonora cujos ritmo, melodia e harmonia conferem ao solista Waly, poeta invenção de si, no filme, um membro imprescindível, na sua orquestra de sonhos e da sua invenção de existir!
Pan-Cinema Permanente é uma viagem de Waly, rompendo fronteiras para além de si mesmo! Cumpre o determinismo nietzschiano de um eterno retorno, este questionamento, o de uma relação do ser consigo mesmo! Para indagar o que é a vida? Fronteiras? Para ver, mesmo para quem não tem olhar.
13/12/2008
Fonte: ViaPolítica / Os autores
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Pan-Cinema Permanente - Trailer
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Professor Pasquale analisa e comenta disco de Marcelo Camelo
O Professor Pasquale em seu programa Letra e Música, que foi ao ar no dia 18 de novembro, pela Rádio Cultura Brasil, ouve e analisa o disco completo Sou (Nós), de Marcelo Camelo. Vale conferir na íntegra o programa com os comentários do professor sobre as letras de Camelo (ex-Los Hermanos), tá bem bacana.
Ouça o programa completo aqui (arquivo wma)
Marcelo Camelo
Transmitido em 18/11/2008 às 13:00
O professor Pasquale Cipro Neto comenta nesta edição do Letra e Música o repertório do CD Nós, de Marcelo Camelo. O artista fez parte do grupo Los Hermanos. Suas composições já foram gravadas por outros intérpretes, tais como Maria Rita. O professor Pasquale fez uma seleção, que inclui músicas que contam com a participação de Mallu Magalhães. (fonte: RádioCultura)
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Pra nós todo Amor do Mundo
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Yerko Herrera
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