domingo, 27 de julho de 2008

Quase Matei - Conto

Quase matei

Aperto a bolsa contra o peito, cerro as pálpebras e encosto-me à pia, esperando que a vertigem se dissipe. Ouço, então, com alguma clareza, meu nome. Chamado, como num lamento, repetidas vezes


Isa Fonseca


No café, tentando ler o jornal do dia. Maus pensamentos, sofrimento, tentativa de goles na bebida quente. E a sensação de que a separação, jamais experimentada com tanta dor, não acontecera há duas semanas, mas sim no dia anterior.

Estou entre ir-me ou ficar, mas ficar por quê e ir, para onde?

A coincidência. O casal que entra. A coincidência maldosa. Ele, e ela que desconheço — muito linda, ela, que desconheço —, sentam-se próximos a mim, apenas o espaço de uma mesa do lugar em que estou. Justo ele. Oito horas da manhã; justo ele que detesta levantar cedo no inverno. E no meu bairro, e aqui — por quê? Maldosa coincidência.

Tomás abre o menu, de frente para mim, sem notar-me. Ela, de costas, é então só um vulto que mal distingo, mas que leva a mão direita ali, na costeleta ruiva daquele que é meu amado — tão ruivas as costeletas sob os cabelos claros, a diferença de tons surpreendente. E me vejo em seu lugar, porém num outro espaço, numa outra cadeira; um restaurante, e levo o dedo exatamente ali e sorrio, veja, são ruivas suas costeletas, tão diferentes do claro dos cabelos, tão loiros. E ele sorri para o vulto como havia um dia sorrido para mim, em resposta e o jeito de levar a cabeça de lado, meio coquette, vaidosa e timidamente, o mesmo jeito de dizer displicentemente: "Meu pai era ruivo; único traço seu que herdei".

Ela faz ali uma carícia, debruçada a meio corpo sobre a mesa, e sinto os membros gelados. Ela é doloridamente linda (e faço menção de morder levemente o lábio inferior, com inveja), mas posso perceber que ele não a ama, sei quando está amando, isto sei, penso, esfregando os braços de frio. A menos que... Por que o olhar de ternura, agora? Que deveria ser só para mim? Ah, desse jeito e assim, só para mim!

Contenho-me e baixo a vista, as letras embaralhadas do jornal. O café esfria e encontro um motivo para ir-me. Hesito. É preciso, antes, matar isto dentro de mim, digo-me. E, entre-dentes vêm, numa seqüência que é também desgostosa e melancólica surpresa: matar, matar... Eis outra boa razão para ir-me, penso, dobrando o jornal, quase satisfeita pela firmeza da atitude.

Chamo o garçom, mas nenhum som sai da minha boca numa primeira vez. Quando elevo a voz e esta vem nítida, o garçom (e, percebo, num relance, que Tomás, da sua cadeira, também me vê) aparece e peço a conta e, antes que o rapazinho em seu longo avental branco volte lá do caixa, calculo o café e a gorjeta, deixo as moedas sobre a mesa e ergo-me.

Não, que mau gosto, virá o amado em minha direção, enquanto planejo o que deve morrer? Levantou-se com determinação. Vem. E para dizermos o quê, um para o outro, se tudo já foi dito? Ergo-me num salto, colocando o jornal sob o braço e ajeitando a bolsa sobre o ombro; mas, ao invés de caminhar para a porta, rumo ao banheiro, próximo à mesa, deixando-o sem ação, a poucos passos. Que mau gosto, repito-me. Falarmos o quê, um ao outro e assim, num lugar público?

Aperto a bolsa contra o peito, cerro as pálpebras e encosto-me à pia, esperando que a vertigem se dissipe. Ouço, então, com alguma clareza, meu nome. Chamado, como num lamento, repetidas vezes. Assim que abro os olhos, tudo seria só silêncio não fossem as gotas insistentes de uma torneira mal fechada. Agarro-a e fecho-a, torcendo-a — pescocinho que resiste.

Dentro da bolsa, o batom. Escrevo em vermelho furioso seu nome no espelho, em seguida apago-o vigorosamente com o papel-toalha e saio, pisando os ladrilhos com raiva. Aguço a vista e Tomás ainda está ali, como se jamais houvesse se levantado e caminhado em minha direção, chamado chorosamente por mim. Ele está ali com ela, ela linda — que desconheço, ela que ele não ama — e sorve lentamente o café, os ombros eretos, o rosto sereno, enquanto passo ao largo e caminho tropegamente em direção à porta, uma estranha sensação de falta.

Na calçada, o coração ainda bate em descompasso e, percebo, então, caminhando a passos largos, entre lágrimas e o peito seco que, o que deve morrer, não... Não ainda, daquela vez.

Não ainda, repito em voz alta e estanco o passo; examino as mãos vazias e dou-me conta — tentando colocar a raiva no lugar da dor — que esqueci, em algum lugar, o meu jornal.



Isa Fonseca é jornalista, escritora e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.

Fonte: LeMondeDiplomatique

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4 comentários:

Jú disse...

Muito boa a crônica!

Yerko Herrera disse...

Também acho! A Isa Fonseca é muito talentosa.

Beijo.

Anônimo disse...

Agradeço os elogios, mas o que escrevi foi um conto e não uma crônica...
Isa Fonseca, ex-colaboradora do Le Monde Diplomatique

Yerko Herrera disse...

Quem sou eu pra contestar a própria autora! Já troquei pra conto, Isa. Peço desculpas pelo equivoco e aproveito pra elogiar teu conto, muito bom, parabéns! Onde posso ler outros contos teu? Ficaria muito feliz se tu divulgasse outros, conta com este espaço.

Um grande abraço.
Yerko Herrera.