segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Crônica de Frei Betto

A raposa e os ovos
Frei Betto

Era uma vez uma raposa que jurou dar proteção às galinhas. Postou-se à porta do galinheiro e, prometendo preparar para o futuro uma omelete que alimentaria a todos, tomou para si os ovos que, por medida de segurança, estavam distribuídos por diferentes cestas. Muitas galinhas não se importaram, acreditando que também os ovos dos gaviões haviam sido seqüestrados. Deixaram-se inclusive convencer de que a raposa havia cortado as asas dos gaviões. Estes, precavidos, guardaram seus ovos em outras montanhas e, se tinham cedido algumas penas, era para que todos pensassem que haviam perdido as asas.

Galinhas que não botavam muitos ovos - e, portanto, perderam pouco nas mãos da raposa - com o tempo começaram a ter que deixar o poleiro e a receber meia ração. Mas, convencidas de que não se faz uma imensa omelete sem quebrar muitos ovos, suportavam estoicamente as longas filas para recuperar uma migalha qualquer do que haviam produzido. Aos poucos, foram descobrindo quão difícil era botar mais ovos se não havia ração suficiente e nem poleiro onde se encostar.

A raposa, entretanto, continuou assegurando que tudo corria às mil maravilhas. Claro, para ela, que se havia transformado na poderosa galinha dos ovos de ouro, estava tudo bem, sobretudo depois que ela abriu as portas do galinheiro aos abutres de outras plagas. Estes conseguiram convencê-la de que podiam modernizar o galinheiro, torná-lo mais produtivo, inclusive introduzindo galinhas mecânicas, desde que as verdadeiras galinhas fossem privadas da omelete e virassem canja para o banquete entre a raposa, os gaviões e os abutres.

Naquelas mesmas paragens, há tempos um leitão exigira o sacrifício de todos os carneiros, sob o pretexto de que se estava assando um enorme bolo que, mais tarde, seria dividido e cada um receberia sua fatia. O bolo cresceu, o leitão comeu com seus amigos e a fome grassou entre os carneiros tosquiados, que passaram a viver de esperanças.

Toda a artimanha do leitão e da raposa consistia em não permitir que carneiros e galinhas descobrissem que, unidos, podiam governar a si mesmos, livrando-se de leitões e de raposas. Pois ensina a sabedoria que sente frio aquele que entrega a lã a quem já está agasalhado e passa fome quem dá os ovos a quem sempre se fartou de omeletes.

21 de junho de 2002

Fonte: ADITAL

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3 comentários:

http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt disse...

aqui está uma linda historia com uma grade lição de vida . passo para te ddesejar uma optima semana e tmb para me vires visitar pois é raro o fazeres .
bjo
carla granja

Yerko Herrera disse...

Carla, obrigado pela visita. O Frei Betto é um dos melhores pensadores que temos aqui no Brasil, que bom que tu gostou da crônica dele.

Tô te devendo mais visitas, minha amiga portuguesa.

Beijos!

Cultura e Ciência do Brasil disse...

Muito boa! Como muitas das coisas que temos acesso nesse blog...
Segunda-feira peguei emprestado com uma amiga o livro "Batismo de Sangue", também do Frei Betto. Estou louca pra começar a lê-lo, pois ela me fez ótima propaganda dele...

Saudades das atualizações dos blogs...

Beijos