sexta-feira, 15 de junho de 2007

Los Hermanos e o Último Show

Adeus Você, Eu hoje vou pro lado de lá

Os dias sete, oito e nove de junho marcaram a minitemporada de despedida da melhor banda nacional surgida nos últimos dez anos, Los Hermanos. Os três shows foram celebrados na Fundição Progresso, na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro. Apesar do grupo não ter oficializado o fim – eles afirmam que entraram em "recesso por tempo indeterminado" – seus integrantes já vinham alçando vôo próprio. O camarada Bruno Maia, do competente blogue SOBREMÚSICA, esteve presente nessa despedida e foi testemunha do espetáculo de encerramento de um ciclo da música nacional. Acompanhe abaixo o relato postado no SOBREMÚSICA.
Y.H.

Um filme no close pro fim

por Bruno Maia

A última temporada do Los Hermanos antes de entrar no tal “recesso por tempo indeterminado” foi marcada pela alegria e complacência dos fãs, mais do que pela tristeza, revolta ou sentimento de perda. Parece que passada a ressaca que o comunicado oficial causou, os admiradores do grupo passaram a “confiar” nas reiteradas afirmações de que esse momento é apenas um “até logo” e não um “adeus” definitivo. Foram três apresentações que arrastaram cerca de 10 mil pessoas para a Fundição, se considerarmos que a capacidade do local é de 5 mil e que muita gente não se contentou em ver um dia apenas.

A mini-temporada foi uma grande celebração dos oito anos em que a banda passeou por grandes palcos. Afora o numeral desenhado na tampa do bumbo de Rodrigo Barba, não havia nenhuma citação à turnê do disco “4”. Foram shows especiais, com repertórios diferentes a cada dia, e que tiveram como cenário apenas a cortina atrás dos músicos. Camelo e Amarante comandaram a retrospectiva que recuperou momentos tão longínquos quanto a presença dos terninhos no figurino, as canções executadas sem a presença dos músicos de apoio e ainda preciosidades como “Onze dias”, “Azedume”, “Descoberta”, “Tenha dó” e “Lágrimas Sofridas”. Esta última estava tão distante no inconsciente do público que Camelo ficou algum tempo sozinho, na penumbra, conduzindo os acordes em contratempo até que a platéia se ligasse e entendesse do que se tratava. Ao mesmo tempo em que a visita ao repertório do primeiro disco incendiou os fãs, também serviu pra deixar mais claro porque a banda tinha tanta relutância em apresentá-lo recentemente. De fato, as composições e os arranjos do álbum lançado em 1999 estão muito distantes do resto. Das 55 músicas gravadas, 35 foram incluídas no set-list alternadamente. O grupo se esforçou pra manter o clima de festa e o que se viu foi uma preponderância das músicas com andamentos mais rápidos às baladas.

Foto: Bruno Maia
Isso gerou efeito direto na platéia. Nada de sentimentalismos. O máximo que se ouviu foi um grito, como os de estádios de futebol, no fim da terceira noite: “Ahhh, Los Hermanos vai voltar... Los Hermanos vai voltar...”. Estádio de futebol. Tá aí uma boa comparação para o que se tornou a Fundição (e todos os outros palcos por onde o grupo passou em mais de 500 apresentações). A torcida era uma só, empurrando o time. Amigos marcavam de se encontrar pra torcer juntos. Outros, mais solitários, iam sozinhos, mas rapidamente se abraçavam com quem estava do lado para cantar junto. O nome da banda parece sempre ter servido para definir seus fãs. A irmandade e a cumplicidade com que todos celebraram o ritual hermânico é comumente comparada à da Legião Urbana.

Tal qual muita gente – inclusive este que digita estas linhas – se ressente por não ter visto Renato Russo no palco, a saudade do que não se viu também há de se abater sobre uma nova geração que descobre, aos poucos, a obra dos Hermanos. Apesar dos fãs de sempre, era possível observar na Fundição muita gente que nunca ouviu uma fita-demo, nem tampouco tinha idade para ir a um show em 1999. A renovação do público já é visível. A consistência da obra dá a certeza de que o passar do tempo pode ser apenas um detalhe para a arte.

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Quando o assunto é Los Hermanos, falar em “intenção” é sempre meio caminho pra ser desmentido daqui a dois segundos. Mas o que se observou nesses shows foram que, além de se confraternizar e encerrar um ciclo junto de seu público, o grupo quis (?) mostrar que não havia brigas, nem desentendimentos graves, por trás da decisão tomada. Durante todo o tempo, Barba, Camelo e Amarante trocavam sorrisos cúmplices. Lógico que quando o assunto é sorriso, você pode excluir a sobriedade de Bruno Medina, sempre. Mas ainda assim, os quatro aparentavam estar com as pendengas internas bem solucionadas e tranqüilos sobre a decisão tomada.

E é isso. O último disco da banda já tinha avisado, a quem quisesse ouvir, qual seria o próximo momento deles. “E agora o amanhã, cadê?”, perguntava Camelo em “Dois barcos”, música cujo título era a melhor metáfora para definir o que o grupo vivia artisticamente. Amarante respondia que “se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar. E talvez, se tem que durar, ver renascido o amor, bento de lágrimas”. É esperar pra ver. Só resta a certeza de que foi bonito pacas enquanto durou.

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O som da Fundição é aquela coisa trágica de sempre. Vá lá, a galera cantava tudo como se os decibéis alcançados fossem nos salvar, mas em teoria – pelo menos em teoria – um sistema de PA deve servir pra fazer os músicos serem ouvidos. É evidente que falar de aspectos técnicos diante da comoção e da efusão de sentimentos que podia se observar em qualquer ponto da casa, em qualquer um dos três dias, beira a implicância. Por isso, não vamos nos alongar.

3 comentários:

Bruno Maia disse...

Valeu pelo carinho, Yerko!
A família SOBREMUSICA agradece.
Vida longa ao MúsicaPoesiaBrasileira!

grande abraço!
BM

Música e Poesia BR disse...

Um salve Bruno! Vida longo pro Música&PoesiaBRasileira e para o SOBREMÚSICA!!!

Abração,
Yerko.

Bruna disse...

É uma pena que Los Hermanos tenham feito este recesso indeterminado, torço muito para que eles voltem o quanto antes, mas... Se não for o caso, com certeza terá sido uma das melhores bandas que o Brasil já teve, incomparável com qualquer outra.