terça-feira, 26 de junho de 2007

Poesia não vende

Poesia, afinal, serve pra quê?
por Tacilda Aquino

É fato. O espaço da poesia é limitadíssimo. A mídia tem seus ícones. Grande parte das livrarias acaba refém dessas escolhas e as prateleiras ostentam sempre os mesmos poetas, sem se abrir para outros autores. O desapontamento dos poetas é grande. Mas eles, em sua maioria, nunca desistem e procuram divulgar seus poemas na Internet, grande aliada de quem quer visibilidade e aplauso. Mas também não desistem de publicar seus poemas, considerando sempre que estão fazendo amigos no meio literário a partir do seu trabalho, e não o seu trabalho a partir de amigos.

O chamado descaso da mídia e das grandes editoras levou o jornalista e poeta catarinense a escrever Poesia não vende, livro que, segundo seu autor, nasceu para denunciar e questionar o descaso público que a poesia sofreu nas últimas décadas e protagonizar uma verdadeira revolução literária junto à sociedade. A idéia, segundo ele, é fazer com que a poesia volte a ser popularizada e valorizada como antigamente. Rodrigo sugere ainda a utilização do conceito de letramento como uma das soluções para que a poesia cumpra o seu papel social e ajude a gerar um Brasil mais poético e, conseqüentemente, mais culto, com pessoas mais conscientes do seu papel social.

Poesia não vende é o quarto livro de Rodrigo Capella e o primeiro de poesia do jornalista, que tem 26 anos e começou a escrever aos 12, incentivado pela avó. O primeiro livro foi publicado aos 16 anos, Enigmas e passaportes (Forever Editora, 1997). Depois vieram: Como mimar o seu cão e Transroca, o navio proibido, ambos pela Zouk Editora, em 2005”;;;. Este último vai ser levado às telas pelo diretor Ricardo Zimmer.

Mesmo com a agenda lotada por conta do lançamento de Poesia não vende em várias cidades brasileiras, Rodrigo conversou por e-mail comigo por e-mail. Confira abaixo a conversa.

Criou-se um ciclo para a afirmação “;;;poesia não vende”;;;. Vinicius de Moraes não vendeu? João Cabral de Mello Neto, Moacir Félix, Leminski, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade não venderam e não vendem? Por que agora poesia não vende?

Só vende poesia quem tenha pelo menos quatro dessas cinco características: fama, engajamento literário, aporte de uma grande editora, relação com outra esfera artística e persistência literária (que pode ser traduzida em descoberta de novas técnicas e estilos lingüísticos). Esses autores que você citou venderam porque, de certa forma, se enquadraram nesse perfil. A poesia, por si só, não vende e nunca vendeu. Quem vende poesia é o artista-poeta e não o poeta-artista.

Você acredita realmente que haja má vontade das editoras, e muita, quanto a publicar o gênero poesia? O problema está na qualidade dos poemas? A linha que divide a poesia boa da ruim é muito tênue?

Existe, na verdade, um complô contra a poesia. As editoras simplesmente ignoram esse gênero literário como se pegassem um calhamaço de folha podre e sem conteúdo. Criou-se um ciclo vicioso: as editoras não publicam poesia, os poucos livros que chegam às livrarias ficam escondidos em estantes empoeiradas, o leitor não encontra a obra e acaba não comprando, por isso as editoras não publicam poesia.

Poesia não vende porque as pessoas, em sua maioria, estão acostumadas com histórias com começo, meio e fim, que não exigem muita reflexão, sendo que com a poesia acontece o contrário?

Há esse lado também. As editoras não são as únicas culpadas, embora contribuam bastante para a poesia não vender. A população precisa valorizar mais a poesia, precisa ler um verso e questioná-lo. Só dessa forma a poesia pode ser compreendida.

Qual a saída para quem está iniciando? Bancar a publicação do bolso? E, depois, como fica a distribuição?

Grandes poetas tiveram que arcar com a publicação de suas obras. Augusto dos Anjos teve a ajuda de seu irmão para pagar Eu e outras poesia, e Manuel Bandeira arcou com Carnaval. Os exemplos são muitos. Acho que eles fizeram a escolha certa. Atualmente, é muito mais fácil publicar livro, embora o mercado editorial esteja um pouco estranho e arredio. Eu, por exemplo, nunca tive que pagar para publicar os meus livros. E nunca farei isso, embora não condene quem faça.

A gente percebe que muitos poetas procuram refúgio na Internet para publicarem seus poemas e se tornarem conhecidos. Mas a Internet ajuda a vender poesia? De que forma?

Existem, atualmente, muitos poetas bons que utilizam os blogs para se comunicar e expressar sentimentos. A qualidade existe e só não é melhor porque faltam incentivos. Precisamos valorizar os poetas da Internet. Sem dúvida! Publicar na Internet é uma grande saída. Há muita gente boa atrás dos blogs, expressando sentimentos e mostrando seus versos. Muitos poetas conseguem sensibilizar editoras através de seus blogs. Isso tem ocorrido muito e é uma saída. Agora, os poetas precisam se mobilizar mais, precisam sair para as ruas, protestar, organizar mais saraus, fazer uma verdadeira revolução poética. Nós estamos precisando disso! O meu livro Poesia não vende, por exemplo, surgiu no meu blog Poemas e Delírios de Rodrigo Capella. Confira em http://poemasdorodrigocapella.blogspot.com/.

Outra questão que, se não é crucial, pelo menos é irônica. Se poesia não vende, por que você fez um livro de poesia?

Essa é a própria contradição do poeta. O claro e o escuro, o seco e o molhado. Mas, acima de tudo, é um desabafo social. Essa questão precisava ser levantada, nós precisamos discutir: afinal, poesia não vende? Por quê? O que ocorre? Nós não podemos ficar calados. Temos que agir, nos movimentar e brigar para que esse contexto se inverta. Espero, algum dia, nem que seja daqui a 50 anos, escrever um outro livro chamado Poesia vende sim!

Há livrarias que nem contam com prateleiras específicas para o gênero poesia. O que fazer para mudar essa situação?

Isso é complicado demais! Mas, está, aos poucos, mudando. A livraria começou a perceber que precisa vender um pouco de tudo. E está colocando mais livros de poesia, embora misturados aos demais gêneros. Vai chegar uma hora em que, para organizar melhor as coisas, eles vão precisar abrir prateleiras específicas. Isso vai acontecer em breve, pode apostar!

Qual é o poeta contemporâneo que mais vende atualmente no Brasil?

Alguém vende bem? Eu, sinceramente, não conheço. A maioria dos poetas com quem tenho convívio sempre reclama de grana. É, a situação está complicada. Precisamos nos unir, antes que a poesia brasileira vá para o fundo do poço. E ele está logo ali, mais uns passos e caímos dentro. Porém acredito na reviravolta. Estamos começando. E, como todo processo, esse também é lento e gradual.

Torná-la leitura obrigatória nas escolas seria uma forma de fazer as pessoas lerem poesia? Dificilmente se vê um livro de poemas ser recomendado por professores.

Não gosto de tornar nada obrigatório. A poesia deve ser uma leitura livre, como seus versos. Se obrigarmos alguém a ler poesia, estamos desvirtuando a coisa. Poesia é sinônimo de alegria e entusiasmo, e não de obrigação. Ela deve ser incentivada e não obrigatória!

Seu livro tem depoimentos de poetas, escritores, cineastas. Todos falam da relação da poesia com a sua (deles) arte. Como foi conseguir esses depoimentos?

Foi simples, todos foram muito atenciosos e gostaram da idéia do livro Poesia não vende. Alguns se empolgaram tanto e me perguntavam quando o livro ia ficar pronto. Achei formidável! Foi uma experiência incrível, você pode acreditar.

O que você chama de letramento

É a solução. Incentivar jovens e adolescentes a desenvolver uma atividade a partir de um verso poético é, simplesmente, plantar a semente para termos um país mais poético. Além do letramento, eu sugiro visitas freqüentes às editoras, nas quais os alunos conheceriam os procedimentos de confecção de um livro.

Como é possível introduzir esse conceito nas escolas?

Apenas introduzindo. Não há segredo. É preciso boa vontade do governo e das escolas. Sabe, algumas pessoas estão muito acomodadas. O governo está acomodado, as editoras também. Não querem fazer nada. Então, temos que plantar a semente nas escolas. E... bingo! Teremos, sem dúvida, um Brasil mais poético.

Quais os elementos que você oferece ao leitor para que ele reflita e questione a existência da poesia no contexto literário?

Todos os que existem: momento infinito, alegria, correlação artística, necessidade de mudança e, principalmente, a função da poesia dentro da própria sociedade. Mudar pequenas coisas e despertar grandes sorrisos. Essa é a grande função da poesia. Você já sorriu hoje? Leia um verso e experimente!


Fonte: OverMundo

3 comentários:

Vinicius Padilla disse...

Companheiro.
Achei seu site muito interessante.
Temos alguns gostos parecidos.
Eu baixei da sua pagina um video do Glauber Rocha.. E gostaria de posta-lo em um site de cinema (makinoff.org). Você permite eu posta-lo se eu fazer a propaganta do teu blog?
Espero que sim
Abraços
Vinicius
vinilennon@hotmail.com

Música e Poesia BR disse...

Cara, que bom que tu curtiu! Dá um trabalhão garimpar coisas bacanas, mas a satisfação é garantida, ainda mais quando a galera tá curtindo.

Tá mais que liberado, nem precisa perguntar, posta lá no teu saite sem problemas! Aliás, todo o conteúdo aqui do blogue tá a disposição!

Quando tiver no ar, me dá o toque!

Abração,
Yerko Herrera.

Bruna disse...

O grande diferencial da poesia, é que ela tem que ser lida e questionada, eis aí o motivo para muitos hoje em dia não quererem comprar poesia, não tem tempo, só pressa, pressa e mais pressa... Que pena, não sabem o prazer de que é ler uma linda poesia...